Por mais que diga que não me importo,
estou tentado a admitir que as circunstâncias me afetam.
Há um pernilongo; tenho esta leitura que
não pretendo interromper; quero que o inseto voe para longe para que eu termine
de ler as últimas páginas do livro.
Não acho boa ideia ler em voz alta, pois
isso não mudaria nada.
O pernilongo dá rasantes sobre a tela do
tablete, isso me faz perder o foco, isso, estar perdido, me deixa intranquilo
porque saber-me preso numa daquelas páginas finais é desapontador.
Pra que a leitura não cause
desapontamento, ou lasco um tapa ou, pra ruminar o que está lido e por haver tomado
pé da fadiga, aguardo ser derrotado pelo sonífero.
Há ventania. A chuva vem vindo. Ouço
trovões, mas os relâmpagos ainda não são flashes. A noite pode ter alguma
chance, se não chover como os raios prenunciam.
Como sei onde estarei quando a luz acabar,
fecho a porta do quarto; com a cabeça coberta pelo lençol, sorrio no escuro.
Depois de recicladas como badulaques
decorativos, não temo que lâmpadas queimadas voltem a iluminar.
Mesmo assim, levanto, vou conferir que a
escuridão esteja em cada cômodo da casa; tudo às escuras, posso deitar.
Convém que eu cheque portas e janelas.
Destravo-as e chaveio-as; corro-as e cerro-as. Convém ficar longe de portas e
janelas, mas sento no sofá, perto do celular.
Os trovões estão perto; e gosto de
ouvi-los. A chuva cai. As rajadas de vento silvam nas frestas. O temporal impressiona,
mas não o avalio assustador, não o dimensiono além do que é.
Chuva não é monstro fantasmagórico a
bicar o meu fígado.
Em tempo: quero certificar-me de que o
guarda-roupa fechado está chaveado, ou os fantasmas tenderão a abrigar-se na
geladeira.
A explicação que me faça compreender por
que os meus fantasmas têm essa predileção por buscarem ficar protegidos na
geladeira, esse conhecimento, por tamanha imbecilidade, espanta-me.
Não pergunto se estou motivado a ir pela
trilha que deixam a cada vez que as tempestades tanto os assombram.
Na geladeira hermeticamente vedada, a
água comunica-se comigo. Entendo que me queira tremendo, tenha calafrios, que
minha estupidez de idiota faça-me ter consciência da minha condição.
Não perco tempo, ligo a lanterna do
celular, pego a caneta e anoto na lista de compra: vela para filtro.
Como a força vai mesmo cair, e prevenção
é bom negócio, risco o escrito e novamente escrevo: duas velas para filtro de
barro.
Abro a geladeira. Checo a temperatura do
jarro. A língua apura que a água sequer está morna, apesar das bolhas. Engulo um
gole d’água gelada. Sei, a borracha segue útil, não está frouxa, é ela que
impede o temporal de adulterá-la, torná-la amara.
De cima da pia, pego o copo nem lavado. E
sem nojo da borda suja, beberico a água.
O que o temporal não imagina que se
passa comigo?
Eventualmente, tenho sede quando estou só.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2025.