terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Fios de esperança

 

Fios de esperança

 

Com as Festas tão próximas, funcionários estão na praça: a pintam de azul; caiam as faixas de pedestres que dão acesso ao céu tornado chão; não podam os galhos florescidos, tão amarelos; lavam o coreto, avivando o cinza.

De onde estou sentado, o coreto corta a visão. Isso não me impede de ter em mente que os mendigos vão bebendo cachaça no gargalo e, pelo Ano Bom, nem tentarão se despedir dos andrajos.

As roupas mereciam ser lavadas, pois os cordões de luzes vindo do cruzeiro da torre da Matriz até o topo das luminárias dizem que já é hora de correr atrás do Natal ꟷ indo às lojas, não só aos bares.

O coreto ficou, mas a reforma mais recente engoliu o chafariz.

Tomo sorvete. Faz calor. Queria tomar sossegado o sorvete. Lambo a casquinha para não me melecar, pois o calorão derrete-o rápido.

Vem um homem sentar-se comigo no banco.

Para meu alívio, já que não associa o calor e a velocidade da minha língua, ele diz que o seu cunhado pediu-lhe dinheiro.

O marido da irmã tem dívidas, muitas dívidas, todas no cartão. Mas, as crianças gostam de jogar, e não apostam no celular.

Aquele cara tem coragem. Enfrenta a fortuna. Ainda que ela insista em contrariá-lo, há de frustrá-la. Quando ganhar, vencerá o algoritmo. Vencendo, contará para todo mundo da igreja. Dará em testemunho a fé inegociável que o motiva a querer o melhor, sempre o melhor.

Sendo minha prioridade não me lambuzar, a matraca vai ativa.

Ele diz que o cunhado é o Ubiratan. Nome inventado, ressalto. Já a Cecília, a irmã cujo nome verdadeiro não quero conspurcado, não larga da esperança, uma vez que, ela reza por isso, o Ubiratan dará à família, a ela e aos dois filhos, a felicidade de dobrar as chances quando todos puderem jogar.

A primeira prestação de cada novo celular terá o crédito cobrado na conta de janeiro, e só no ano que vem. Graças! O Ubiratan já foi à loja, já fez o que se espera de quem trabalha pelo futuro, já escolheu pelos dependentes o que acredita ser a razão de outro amanhã.

Esta alegria o marido soube dar a todos, porque família tem mesmo que se alegrar por igual, sem ter a discriminação de um deles ficar com aparelho ultrapassado, cujos recursos tecnológicos são do ano que já vai terminando.

Nisso, chega o Ubiratan.

Não se abraçam, mas sorriem. Não se vê animosidade entre eles.

ꟷ Bira, mais tarde vou levar o panetone que a Ciça fez.

ꟷ Beleza, Nato, leva lá mais tarde, depois do culto.

Sem malabarismos, entendi que o Nato que ganhará o panetone é Fortunato. Mesmo assim, ele diz que o seu nome é Fortunato.

Fortunato volta ao serviço, para acabar de podar os ipês da praça.

Assim que me acho sozinho, compro outro sorvete.

Lambo-o sem pressa. Não ligo que escorra e meleque a minha mão. Lambo a minha casquinha sem projetar o desejo de que as Festas não conspurquem e não melequem as pessoas que têm nojo de tudo que seja melequento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de dezembro de 2025.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Catálogo de erros

 

Catálogo de erros

 

Atento às necessidades do que escrevo, sem que as formiguinhas dos meus nervos me deixem mais cansado do que estou, prefiro que o mundo fique onde está: dentro de mim pelo que percebo.

Sem me congratular pela boa-vontade de abençoar o que dispensa de ser abençoado, sigo na labuta.

Por cansaço físico, de formiguinhas no extremo do meu ser, no vão entre os átomos, vibrantes, excitadas, onde o céu noturno faz conhecer relâmpagos, espasmódicos relâmpagos, a lida cansa.

Na cachola, algo mais lúcido me desarma.

Desabrido, não largo o osso. Certo, narcotizam-me as palavras, que a semântica pegue-me pela mão, a dizer-me por onde ir.

Entendo o cansaço. Acolho o entendimento: a cabeça me faz ir de palavra em palavra até que o paredão angustie.

Não concluída, a tarefa é um monólito.

Na tela, é vertical o abismo que desafia: faça-me as perguntas que pensa possíveis de deixá-lo satisfeito; tente manter-se lúcido, cansado, mas não exaurido; ainda que se perceba seduzido a concluir-me, não esmoreça; não se iluda: sou fenda intransponível, estreita demais pro tédio a infestar-lhe os neurônios; e incontornável, pois suas ansiedades o configuram ꟷ perceba o quão paralítico está.

Afine-se na percepção, condicione-se ao óbvio: não é o afazer que atrapalha o trabalho, é o seu corpo a pedir por copo d’água.

Ainda não verterei o copo, não abandonarei o texto sem que, corpo, eu o defenda das insolências. Porque inventarei um problema técnico, que o computador destrave no momento que mais o almeje operante, funcionando bem, sem rir de mim ao encará-lo a rodar um troço.

Não respondo conforme o manual do universo?

Eu me aborreço, mas o meu aborrecimento me faz agir.

Tenho mãos, dedos, unhas: minhas mãos tocam o teclado, os meus dedos querem digitar, as unhas da minha aflição bem que desejam que eu crave as letras que continuarão o texto.

Mas o troço rodando no centro da tela não para de rodar. Dura mais do que suporto. Não vou ficar mais contrariado, mais nervoso, a ponto de dar um murro no teclado. Querendo socada a geringonça, jogar meu notebook pela janela é bater o martelo: és um abismado.

Diante desta falha mais funda, é instante ir beber água.

Não tenho jeito, bebo água.

Vejo Taborda. Aceno. Não entendo o que fala. Boto a cabeça fora, e peço que repita.

Somos quem somos, gente normal: ele grita, eu grito.

Taborda acena, mas o que ele tem a me dizer que não possa gritar de onde está?

Caramba, Taborda.

Ele me mostra uma vassoura, e indica com precisão o que está me irritando. Ele quer que eu desça. Não fique achando que o mundo tem pena das minhas misérias. Que eu vá recolher os cacos, antes que me corte quando sair para fumar.

Quando fumo, viro zanzar ao redor da casa. Quando estou perdido, daí eu zanzo até bater a vontade de comer pudim.

Legal, agora estou pronto para recomeçar tudo de novo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de dezembro de 2025.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O eco do futuro

 

O eco do futuro

 

Pelo apoio ao acordo entre Mercosul e Comunidade Europeia...

Pela língua de trapo quanto às dosimetrias...

Pela espantosa disputa de pênaltis entre Flamengo e PSG...

Por isso, pegando o touro à unha: fixo, estou tocado pelas angústias do nosso tempo.

Digo mais. Quiçá eu possa esclarecer: como já já será janeiro, deixo evidente o rastro do nosso interesse.

Pois, o que diz o vulgo?

ꟷ Tudo a seu tempo.

Pois, o que diz a Vulgata?

ꟷ Quod fuit, ipsum est, quod futurum est; quod factum est, ipsum est, quod faciendum est: nihil sub sole novum.

Em legítimo português castiço, entretanto, diz o Pregador:

ꟷ O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Para não passar a vergonha de ser ridicularizado por haver-me bem em minha infantilidade, dirijo-me a você, pessoa que ainda lê, sabendo que a barafunda aturde, indago-lhe:

ꟷ O que o tempo silencia?

Então, 18 de dezembro, você diz o que o resguarda.

Diz a Wikipédia que, em 218 a.C., na Segunda Guerra Púnica, em Trébia, Aníbal deu a vitória a Cartago.

Excluindo-se os inapetentes pra parar de andar com os caninos de fora, minha cachola nem tem ficha que houvera uma Primeira...

Diz mais a mesmíssima fonte: pela vitória dos revolucionários sobre o exército britânico, em Saratoga, em 1777, na América do Norte deu-se a primeira celebração do Dia de Ação de Graças.

Diz ainda a Wikipédia, a ela que não nos pouparemos de chamá-la velha de guerra, diz-nos que no dia 18 de dezembro de 2005, no Japão, em Yokohama, diante de 66.821 pessoas, com o tento de Mineiro aos vinte e sete minutos da primeira etapa, o amado clube brasileiro, o São Paulo Futebol Clube venceu o Liverpool, sagrando-nos tricampeões do mundo.

Pelos fatos assinalados, ser de memoráveis simpatias, faça o favor, Noel, tome siso do que pode embasbacar, justamente pelo solipsismo, ao nos engambolar.

Quando se der ao trabalho de desembrulhar-se numa resposta bem ponderada, pergunte o que traz à tona o que nos move. Isso que a nós torna a noite mais longa que as doze horas que aparentemente deviam perdurar. Então, a nós o senhor nos atenda:

ꟷ Qual será o presente que estamos a cobrar-lhe?

Para evitar que nos atirem ao abismo, como se fôssemos incapazes de amar quem nos esculhamba e encurrala, assumimos a empreitada de desentranhar o que ecoe sem que o glorifique à toa, Pai:

ꟷ Uma vez que alvíssaras sempre anunciam o que muito se espera, o Morumbis trema pela vinda do tetra, em 2027.

Por assim, maliciosamente tão lesto?

Pela razão de haver desconcerto entre Mercosul e Conselho da UE, pelo riso diante dos pênaltis batidos lá no Catar, pelo baixar do sarrafo quanto à anistia, tratada feito reduçãozinha de pena; ao exercitar meu direito de escancarar o meu na reta, digo o que espero dizer quando já vem o que me aguarda mais à frente:

ꟷ O moral do palhaço cresce a cara na torta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de dezembro de 2025.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Eterno aprendiz

 

Eterno aprendiz

 

Todo ano é assim, chega o momento de pesar na balança o quanto de coisa boa a gente fez. Descontando as decepções e a irritabilidade que as pinta como frustrações angustiantes, todo ano é sempre assim, com a maturidade apontando o que seja tapete e o que seja a mão que o puxa.

Madura, madura mesmo, é a gente que aprecia a água pelo que ela é: por ser refrescante nos dias de calor, necessária quando a boca está seca, fraterna com o afeto solidário diante da dor.

O melhor da água, portanto, é ela ser servida agora, que é chegada a alegria de escolher os presentes, é chegado o instante para se eleger quem receberá mais do que uma lembrancinha.

Como a gente tem em conta que grana contadinha é critério vulgar, separar o trigo facilita pelo número de pessoas que comerão e beberão à mesa do Ano Bom.

Para evitar complicações, peço que a memória contribua e faça-me elencar o que foi comprado nas Festas do ano passado.

Aristeu ganhou uma bermuda que o satisfez, porque ela caiu como uma luva. Não precisou de ajuste na cintura e, sendo de brim vermelho, motivou-o a virar pimentão no Carnaval da Ilha Comprida.

Este ano, já que me sinto autorizado a ser chique, Aristeu ganhará uma camisa com estampas geométricas, uma lindeza que garimpei na internet, uma que custou para achá-la, mas que trabalha direitinho com a beleza d’O Balão Vermelho do Paul Klee.

Ao Luisinho, dei livro é claro. Como ele é contador de histórias, seja no seu aniversário, seja no mundialmente shakespeariano 23 de abril, seja na virada, haja livro para contentá-lo.

Já embrulhei outra cópia de Água para as Visitas, pois as crônicas de Marina Moraes são poéticas, melancólicas, engraçadas, escritas com a mão que embala as palavras para a leveza, para que a vida seja sentida com sorriso no rosto, porque, já que tenho o juízo para parodiá-la, siso arrancado e botão de camisa têm muito a ver.

Como raio em céu azul, o presente para Dona Cremilda veio-me de pronto. E o sol da certeza iluminou o caminho: fui num pé, não errei o passo na valsa e o indicador apontou o que sempre será o verdadeiro sapatinho da Cinderela.

Comprei o mesmo modelo que comprei no ano passado, no mesmo número, na mesma cor, na mesma loja do ano passado, porque tenho vivíssima a imagem da Dona Cremilda quando o experimentou.

Todo ano antecipo o almoço do Ano Novo, dou de comer e de beber à trupe que ganha presentes.

Como criança que compra o Keds certo para a Penélope Charmosa que não vê o que há de cor-de-rosa debaixo dos escândalos do mundo, fiquei ruborizado pela oportunidade que eu criei.

Aristeu e Luisinho caíram na gargalhada, pois não há lição que não a esqueça em seguida. Mesmo rindo, a amiga sabe que irei trocar o 35 pelo 37.

Contudo, o que não contarei?

ꟷ No ano passado, o senhor comprou comigo e fez a mesma coisa, pediu desconto e veio trocá-lo, sorrindo amarelo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de dezembro de 2025.

domingo, 14 de dezembro de 2025

O horrível na foto

 

O horrível na foto

 

Tem coisa fedendo. Um cheiro horrível está empesteando o quarto. Abro os olhos, giro o pescoço e vejo Marx com a mandíbula repousada no meu tornozelo.

ꟷ Amigão, sei que foi você que aprontou.

Abanando o rabo, meu pug vem lamber-me a boca porque ele sabe que acharei a verdade quando raciocinar melhor, quem sabe já menos sonado, com a raiva mais bem direcionada, para o alvo certo.

Preciso de estar esperto, assim, ainda que siga ladeira abaixo, indo na banguela, não tiro meus patins por nada.

Espreguiçando, já me esforço, dou a orientação necessária pra que a cachola lute pelo equilíbrio que preciso para patinar no calçadão.

Penso, logo a circunstância é para rir.

Nunca durmo de bruços com a cabeça virada para fora da cama, já que, à altura da nuca, tenho desvio na coluna.

No chão ao lado da cama, à altura da minha boca, o vômito provoca aquela coisa fedorenta, porque eu devo ter farreado à beça.

ꟷ É óbvio, Marx, que fui eu que aprontei.

Pelo que me lembro, você e eu ficamos na sala, vendo tevê. A noite passada não caímos na esbórnia.

Com mil diabos! Por que emporcalhei o quarto?

Marx, você sabe que não bebo nada que tenha álcool. Nem cerveja sem álcool eu encaro, como você bem sabe.

Então, meu chapa, como é que eu preciso encher o balde de água, preciso pegar panos, devo ajoelhar-me sobre o cadáver nojento que o chão do quarto insiste em sua remoção imediata?

Meu camarada, amigo para todas as horas, me ajoelho, limpo, torço o pano, torno a limpar, torno a torcer o pano na água. Amigo das horas em que Mefisto vem oferecer os seus préstimos, vou jogar a água, que já o balde está nauseabundo, pois tenho alma sensível, principalmente se as entranhas intestinam um alien irritantemente terráqueo.

Isso, amigão. Você é sagaz. E sua sagacidade chama para brincar os elétrons da minha moringa.

Víamos tevê quando um carro veio anunciar um troço qualquer. Era um troço qualquer porque o som do alto-falante não nos dava condição de entender o que era anunciado.

O troço qualquer, Marx, continuava a ser uma esfinge a me chamar que fosse escutá-la, compreendê-la na sua necessidade de cativar que eu pudesse, por mim, defini-la como necessidade minha, uma vez que pude ouvi-la direito.

Ela atiçou só as lombriguinhas da minha curiosidade?

Embora fosse madrugada, tive que ir. E o que vi, todavia, devia ter-me alertado que aquela palhaçada tinha as digitais do Cão.

Não havia carro. Parado na esquina, tinha um peruzinho usado em construção e a caixinha de som era dessas que se usa para aborrecer banhistas.

Reconheço que não sou nenhum banhista, mas, justamente por ser safo, soltei a rédea.

Tendo a cautela de desconfiar, recusando-se a dar uma mordidinha que fosse no produto, bastou-lhe lamber o quitute tentador.

Fui abocanhado rapidinho, Marx, porque eu nunca tinha ouvido falar em pamonha de Piracaia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2025.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A hora da virada

 

A hora da virada

 

Pega-me uma empolgação. Para que não me veja exacerbado, digo que é manhã, quase meio-dia, voltará o dia vinte. Daqui a uma semana o dia vinte conseguirá chegar como fato a ser consumado, já os sinos bimbalham que lasanha no almoço de uma quarta é luxo a quem reza para o dia vinte chegar quando seja preciso que chegue, que haverá o instante apropriado para desfrutá-lo.

Sem trocadilho, o lado soturno do mundo devora paulatinamente, instante a instante, cabendo a mim aceitar que dezembro contingencia-se a prospectar o amanhã como Ano Bom, propício a auspícios.

No que penso, coço a palma direita sabendo o significado disso.

O Mandraque de Araque, eu próprio, sei muito bem que a folhinha está colocada na parede. Não questiono que tomei a decisão certa, já que a pus ao lado da janela. Podem questionar-me a razão para tê-la fixado ali, mas a coceira na mão nem é urticária.

Quando quero espiar a rua, o que primeiro me situa no meu dia é a folhinha, é troço na altura dos meus olhos, difícil de ser ignorado.

Ignoro-o porque o dia está lindo, o sol brilha gostoso, a claridade da manhã é saudável, convida à janela, sem que os olhos notem a mulher, cuja janela do quarto dá pra janela do meu escritório, sem que a mente enxugue seus cabelos, suas coxas e aqueles pezinhos.

À escrivaninha, trabalho pelo dia, para que o dia seja bom, trabalho com o dia para que eu seja bom trabalhador, o sujeito que labuta, quer que o dia vinte tenha muito do que estabeleço hoje, para que hoje seja o futuro próximo que seja tão próximo que o sinta escorreito, formoso, adjetivamente sedutor.

O viés soalheiro do dia também está na sombra projetada no chão, embora o vão mostre a cara recatada, nada gemebunda nem frenética, a sombra, atiçada pelo desejo do descontrole, tem rabinho a mil.

Eita! Admita, é uma graça viver dos fogachos da paixão, do agudo de uma paixonite. Vamos! Confesse, é uma maravilha enganar-se com os lampejos da mente que pensa forte, rápido, pulsando sinapses que são um refresco, parecem ser um refresco. Ano Bom, seja refrescante. Os ventos da virada derrubem a folhinha. Ainda que o prego continue na parede, apaixone-se outra vez. Vá! Cumpra seus afazeres. Batalhe para que o dia vinte não seja nenhuma anistia pelos crimes que sempre há de cometer, uma vez que a vida é muito sem graça.

Vivo: sei onde guardo a caixa; o pessimismo estressa; sem perder o juízo com o peso, subo e desço porque o coração bate tranquilo.

Sem pensar na mulher saída do banho, ajeito a manjedoura. Sorrio, que a vaquinha espirre por causa da mirra ou do incenso. O calor pede para pegar piscina, não lareira com chaminé que é uma agulha.

E o dia tal?

Feito exército com dragão que expele gelo, o 13º virá e vai virar pó, deixando um rastro de alegrias adiadas, pois TV 65” e ar-condicionado multiplicam-se onde sobrenadam anões do orçamento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de dezembro de 2025.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Certeza absoluta

 

Certeza absoluta

 

Mesmo eles acreditando que a gente nem questione o que falam, o fingimento faz parte da nossa defesa, porque a gente finge de maneira tão sincera que a confiança deles também fica mais convincente.

Tanto eles quanto nós ficamos convencidos que não é só a verdade que nos credibiliza como pessoas honestas. Sendo bons atores, nem precisamos duvidar do que não damos importância. A lógica é simples, o que para nós não tem importância é o que não precisa ter importância para eles.

Perde tempo quem se preocupa com o que é irrelevante.

Sou partidário do grupo que não duvida que o mundo seria um lugar menos tóxico quando o demônio parar de pintar carinha sorridente em ovo, mas o jogo fica excelente quando a disputa é vista como decisiva, aflitiva, uma batalha pela vida.

Não jogo conversa fora nem dou um dedo pra santo que não beba. De todo modo, quero vencer. Por saber o que eu quero, fico pê da vida se pressinto que a minha derrota desagradará quem antecipadamente se recusa a negociar comigo.

Saibam todos, não blefo nem blefarei à toa.

Como partícula nas engrenagens do convívio, desde que seja visto como derrotado, escolherei ser derrotado porque sei conviver segundo o que seja visto como necessário à boa convivência.

Sei, não dito as regras, quero apenas que seja respeitado a vontade de que a pessoa derrotada dê as cartas, controle os resultados, grite truco fora de hora.

O troféu erguido será lavado pelo orvalho, que a noite virá, e haverá sereno. E a pessoa serena, aquela que parece ser mesmo uma pessoa que solta os gatos só quando é urgente que o telhado seja ocupado, a pessoa é o troféu que a faz ver-se imbatível.

Para que não haja equívoco nem seja invocado algum engano, sim, sereno não é garoa, garoa não é chuvisqueiro nem chuvisqueiro não é chuva.

Quando chove, melhor ficar na cama, contando os dias para o Ano Novo, contando que o pagamento do salário sairá ainda que o trabalho nem tenha sido feito.

É bom que o juízo saiba o seu lugar.

No telhado, a pessoa sente que a cama é o melhor lugar para ficar sem que os outros a chamem bobalhona.

Quando chove, sendo noite, o sereno cai junto com o aguaceiro. A pessoa que não mija na cama vai ao telhado e mija lá de cima, porque precisa que haja boca que engula o mijo achando que é chuva.

A objetividade universaliza o prêmio?

Ganhemos todos. Vençamos. Que nossa alma ressentida seja uma só. Que não se cubra a careca com peruca cafona. Sejamos realistas: a mulher de César não é César vestido como a mulher de César.

Vestindo-me de César a vestir-se de César, não escondo que odeio os dias de chuva porque odeio chuva. Para que o ódio fortaleça, confio que chova o dia inteiro.

Chova, chova, chova.

Não questiono: meu ódio bombardeia as nuvens. Ainda que chova no molhado, de coturno bem amarrado, vou chapinhar as poças porque dá um prazer danado chapinhá-las.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de dezembro de 2025.


domingo, 7 de dezembro de 2025

Bolo à vista

 

Bolo à vista

 

Não tenho essa rotina de receber, nem que fosse uma vez por mês, quem me faça trabalhar de graça, porque nunca abro minha casa para gente que precise entrevistar-me.

Se abrisse a porta a estudantes, viriam a mãe, a tia ou a prima mais saidinha, todas precisando daquela selfie que as redes curtem, pois, já que também fui estudante, quem pede entrevista tem família.

Tenho família, por óbvio. Também é certo que tenho amigos. E tem sábado que cedo a tarde a quem não precisa vir.

Sentamo-nos e comemos o que engorda e bebemos o que faz mal e desejamos que isso se repita sempre que a vontade de fazer mal for mais intensa que a razão para evitarmos.

É o que faço. Não me evito. Não amordaço o desejo. Telefono aos amigos. Peço que venham. E quero que contem o que fizeram de bom na semana. Quero que venham futricar o que nossos inimigos fizeram por aí. Tragam a língua afiada que nos alegra, pois os nossos espíritos têm alma potente, na firmeza de pôr orelhas para queimar.

Por que faço isso? Pra que certas pessoas me felicitem quando me encontrarem depois de eu ter postado fotos com gente se esbaldando, gente comendo sem miséria, gente bebendo sem miséria alguma, com todo esse mundaréu de gente à mesa, miserável e justamente à mesa da minha cozinha?

É claro que sim!

Sem dúvida, tenho essa bondade entranhada nas vísceras, pois eu jamais censuraria quem me desaprova pela iniciativa de receber quem convido à mesa de casa.

Por que afasto quem se ofereça a sentar-se comigo?

Sou um sujeito miúdo, magricela, fraquinho fraquinho, e isso implica que o meu colo é vidro para uma bunda grandalhona.

Nesta visão estética, pulga que seduz um elefante tem mesmo que se estilhaçar em mil cacos.

Não suavizo, não me ofereço para ser a pulga nesta história, porque entendo que toda pessoa cujo ego é sustentado por tromba, presas de marfim e quatro toras maciças tem mais que ser evitada.

A minha orelha queime? Eu seja bloqueado? Não me chamem para churrasco em dia de jogo, pizza pela pizza e ganhar gravata no amigo oculto? Prefiro pagar o preço que houver de pagar?

Vou atrás de bolo. Alegremente, pagarei. Para poder pagá-los sem usar cartão de crédito, confiro o quanto tenho na carteira. Quero pagar pelos bolos, o de chocolate e o de laranja.

Esquecido de pulga e elefante, a caminho dos sabores que fazem salivar, vou indo, vou salivando por chocolate e laranja?

Pela rua, eu vou.

Vou sem parar, até que passo em frente de outra loja qualquer, pois, embora sentado em uma poltrona confortável, bem visível por estar no meio da entrada, o homem que veste a roupa vermelha do Papai Noel, tem a barrigona do Papai Noel e ostenta a barba alvíssima do Papai Noel perde feio pro Papai Noel que, escondidinho no canto por precisar da luz elétrica, a contagiar quem para pra vê-lo tocar sax, é formiguinha eleita pelo espírito verdadeiro da época.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de dezembro de 2025.