Num
átimo, percebo. Estou alterado. Sem que tenha controle sobre o que sinto, passo,
de repente, a me sentir diferente. Me acho, que sim, porque busco respostas que
não sejam as sabidas. Quero precisão na procura. É para encontrar-me nas
repostas que sejam outras que, num átimo, quero achar o que nunca tenha procurado.
Em
vão, o universo não faz noite o dia, não faz do vinagre um vinho fino, nem me faz
perceber que faço o que nunca tenha feito.
Como
acho o que faço, vejo-me na rua.
Estou
a caminho, devo pagar contas. Contudo, devo ter saído muito cedo de casa, porque
as lojas estão fechadas. Sei aonde vou, preciso ir, pois, embora a agência nem
esteja aberta, vou pagar boletos.
Nem
preciso calcular, nem sei das horas, sei que voltarei mais cedo que o
costumeiro. Mesmo indo sob chuva, temendo escorregar, sei que ficarei na
varanda. Dar-me-ei este tempo, a escutar a chuva.
Na
caminhada, vou que nem preciso por onde me levo. Pensando, sentindo, achando
que me levo a agir como outra pessoa a me orientar. Eu vá porque tenho deveres,
que eles não são de mais ninguém.
Sim,
eu sei, eu sinto, eu percebo: estou outro porque me sinto outro; embora seja
ilusão, há esse poder, que eu posso ser outro.
Por
algum mistério que não calculo o quão poderoso ele possa ser, a chuva me
ilumina, me faz ver um vira-lata.
Não
faço nada e, mesmo assim, o cachorrinho abana o rabo. Ainda assim, o bichinho
quer vir comigo.
Cãozinho,
esqueça, vá por aí, siga seu caminho. Entenda-me, não aprovo isso de irmos
juntos por aí.
Mesmo
que o universo oriente-me a suspirar pelas coisinhas à toa do mundo, bato o pé,
toco o cão, não quero nenhuma sombra que nem pedi. Dispenso suas pulgas, já me
coço do que nem sei o que seja.
Ainda
que nem me entenda, vai-se o cão.
De
súbito, faço que não aperreio. Enjoei de tomar chuva.
Tenho
tais súbitos, que me quero mais centrado no que faço. Busco a concentração. Na
agência fechada, em segurança, tiro o celular do bolso e pago os boletos. Não
reclamo de ter entrado cedo, muito cedo, num horário em que nem os caixas
eletrônicos funcionam.
Opero
mal quando chove?
Parto-me
pelo meio: à direita, sou o urso a usar do monociclo para arranjar trutas que o
alimentem, sim, as palmas são o que preciso para me exibir; à esquerda, sem ferroar
quem exare fel, acho-me adocicado, mel a querer mel, cordato, sou abelha a
visitar lavandas.
Partido
ao meio, cachorrinho, lembro-me.
À
direita e à esquerda, opto. Quero ser adotado por aquele cão. O urso e a abelha,
carrego-os pela rua. Por isso, vamos achá-lo, cão que abana o rabo. Como pulga a
atormentá-lo, porque chove, cão que late sem parar, vou ladrar até que me apareça.
Venha,
cachorrinho, pois, embora meio zureta pelo tanto de chuva, minha cachola é
girassol descalço de petulâncias. Vira-lata, venha latir onde tênis não
envelhecem, venha latir no meu peito.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 04 de novembro de 2025.