terça-feira, 4 de novembro de 2025

Girassol descalço

 

Girassol descalço

 

Num átimo, percebo. Estou alterado. Sem que tenha controle sobre o que sinto, passo, de repente, a me sentir diferente. Me acho, que sim, porque busco respostas que não sejam as sabidas. Quero precisão na procura. É para encontrar-me nas repostas que sejam outras que, num átimo, quero achar o que nunca tenha procurado.

Em vão, o universo não faz noite o dia, não faz do vinagre um vinho fino, nem me faz perceber que faço o que nunca tenha feito.

Como acho o que faço, vejo-me na rua.

Estou a caminho, devo pagar contas. Contudo, devo ter saído muito cedo de casa, porque as lojas estão fechadas. Sei aonde vou, preciso ir, pois, embora a agência nem esteja aberta, vou pagar boletos.

Nem preciso calcular, nem sei das horas, sei que voltarei mais cedo que o costumeiro. Mesmo indo sob chuva, temendo escorregar, sei que ficarei na varanda. Dar-me-ei este tempo, a escutar a chuva.

Na caminhada, vou que nem preciso por onde me levo. Pensando, sentindo, achando que me levo a agir como outra pessoa a me orientar. Eu vá porque tenho deveres, que eles não são de mais ninguém.

Sim, eu sei, eu sinto, eu percebo: estou outro porque me sinto outro; embora seja ilusão, há esse poder, que eu posso ser outro.

Por algum mistério que não calculo o quão poderoso ele possa ser, a chuva me ilumina, me faz ver um vira-lata.

Não faço nada e, mesmo assim, o cachorrinho abana o rabo. Ainda assim, o bichinho quer vir comigo.

Cãozinho, esqueça, vá por aí, siga seu caminho. Entenda-me, não aprovo isso de irmos juntos por aí.

Mesmo que o universo oriente-me a suspirar pelas coisinhas à toa do mundo, bato o pé, toco o cão, não quero nenhuma sombra que nem pedi. Dispenso suas pulgas, já me coço do que nem sei o que seja.

Ainda que nem me entenda, vai-se o cão.

De súbito, faço que não aperreio. Enjoei de tomar chuva.

Tenho tais súbitos, que me quero mais centrado no que faço. Busco a concentração. Na agência fechada, em segurança, tiro o celular do bolso e pago os boletos. Não reclamo de ter entrado cedo, muito cedo, num horário em que nem os caixas eletrônicos funcionam.

Opero mal quando chove?

Parto-me pelo meio: à direita, sou o urso a usar do monociclo para arranjar trutas que o alimentem, sim, as palmas são o que preciso para me exibir; à esquerda, sem ferroar quem exare fel, acho-me adocicado, mel a querer mel, cordato, sou abelha a visitar lavandas.

Partido ao meio, cachorrinho, lembro-me.

À direita e à esquerda, opto. Quero ser adotado por aquele cão. O urso e a abelha, carrego-os pela rua. Por isso, vamos achá-lo, cão que abana o rabo. Como pulga a atormentá-lo, porque chove, cão que late sem parar, vou ladrar até que me apareça.

Venha, cachorrinho, pois, embora meio zureta pelo tanto de chuva, minha cachola é girassol descalço de petulâncias. Vira-lata, venha latir onde tênis não envelhecem, venha latir no meu peito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de novembro de 2025.

domingo, 2 de novembro de 2025

Gentilezas de amigo

 

Gentilezas de amigo

 

Mostrando as sacolinhas que trouxe pro churrasco, a pessoa, certa de estar certa, dá uma latinha que nem tenho o trabalho de abrir. Pego-a aberta por estar aberto à gentileza. Embora o gentil me seja estranho, pego e beberico. Beberico-a, pois a cerveja não está morna.

Estranho a afetação, tão simpático. Por não conseguir engolir mais um gole, o maxilar relaxa e eu babo. Tem também a afobação, que ele não me deixa engolir a cerveja porque, já sufocando no bodum, o peito do cara comprime meu nariz e o meu queixo trava.

Sendo abraçado com tanta generosidade, ele diz que o Amintas vai chegar depois do almoço porque a mãe dele não gosta nada que o filho falte à macarronada.

É sim, o cara das latinhas fede, tem necessidade de demonstrar-se afetuoso, exibe-se másculo e gosta de uma fofoquinha.

Acha que me informa?

O que já sei não é novidade. E não havendo nada de novo, também me exibo, que eu também adoro fofocar, desde que me deixem respirar e apreciar o gole que tenho na boca.

Ao cara das latinhas, por pirraça, não digo que, ontem, o meu amigo Amintas telefonou-me para avisar que chegaria depois de almoçar na casa da mãe dele, porque ela não gosta nada que um filho seu decida-se por faltar à macarronada da família.

O amigo do Amintas não se acanha, vai entrando. Porque não gosta que bebam cerveja quente, vai pela casa adentro, já perguntando onde fica a geladeira. Por eu ser bom anfitrião, e sensato, na certa iria querer tomar e iria querer oferecer uma gelada aos meus convidados.

Se assim o permita, é claro. Assim o permito, é claro. E que ele faça o que parece disposto a fazer, já o fazendo, já enchendo o freezer, já pegando duas latinhas, sendo uma para mim, é claro.

O que a mim me parece claríssimo, muitíssimo óbvio, é que não sei quem ele é. Assim, amigo do Amintas, nem acho de hesitar, pois devo acompanhá-lo. Vou com você, pois eu o conheço pelo modo como age, que você é gente que não dispensa nenhuma latinha.

Melhor vigiá-lo sem discrição, pois ser amigo de um amigo meu não implica que haja o que contestar. Até porque o freezer reabastecido diz que lhe devo gratidão, sem me achar certo da sua linhagem. Pois você mostrar-se amigo do amigo, ainda que o traia a fala mais gentil do que a mais gentil dos amigos, é uma baita bajulação.

O amigo do Amintas bajular-me dentro da minha casa é o jeito mais simpático de alguém, que não é familiar nem íntimo, convencer de que é de bom-tom sondar o Amintas.

O amigo do Amintas, sem pressão, portanto gentil e simpático, pede que o deixe procurar onde o sinal esteja mais forte.

Como deixo que use o celular na calçada, já que destravo o portão, o danado do meu telefone vai junto com o amigo do Amintas.

ꟷ Ainda bem que tenho mais aparelhos, Amintas.

O amigo também lhe é estranho, pois ele não conhece ninguém que tenha lágrimas tatuadas caindo de nenhum olho esquerdo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de novembro de 2025.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Uma dupla muito engraçada

 

Uma dupla muito engraçada

 

Como ninguém nos apresentou, simpatizamo-nos de imediato. Sem lirismo boboca, sentimos que as nossas almas sorriram. Embevecidos pela revelação de que, sem outra fortuna que não a mera casualidade, o mundo havia-nos levado a este encontro, sorrimos, então.

Nem sei precisar o motivo dessa sintonia ter começado, lembro que houve essa troca de sorrisos. Esqueci o assunto que nos fez comentá-lo, mas, por pura gratuidade, achamos de sorrir.

O que apraz rememorar é que uma palavra, uma qualquer, uma das tantas que dizíamos, uma que nem revelasse a nossa perspicácia, por corriqueira que fosse, foi palavrinha bastante para que sorríssemos.

Por recordar-nos a sorrir, não houve engano, saboreávamos a tolice que diríamos sem que nos escandalizássemos de tê-la dito.

Por dizer tal idiotice inocente, com a legítima carinha de idiotas, se nos percebêssemos pacóvios, nós garbalharíamos.

Garbosos, mas sem nos moldarmos pela temperança de gente que se emperiquita arguta, um ao outro afetávamos espontâneos, sorrindo, a havermo-nos dessa amizade bonançosa, menos volátil.

Éramos sólidos. Éramos os dentes que exibíamos ao sorrir. Éramos a graça de usarmos o sorriso como ponte.

Ainda que o mundo fosse hostil e terrificante, nós, já seduzidos pela simpatia, íamos e voltávamos, brincávamos, sentíamos que houvesse um rio a correr pelos nossos dentes.

O que agora eu sinto não me devolve ao presente, porque debaixo daquela espontaneidade sorridente corria um abismo.

Fujamos do exagero! Corrijamos! Busquemos a sensatez!

Digamos que, ao dar pela circunstância que camufla o gatilho, já o sorriso não sendo colete nem boia, é plausível sentir o gelo a seduzir-nos que andássemos sobre a película.

Ponderássemos! Refletíssemos! Exagerássemos!

Sendo do jeito que a memória se desvela, espantoso é pensar que a nossa gargalhada não pudesse soar agravante, ou energúmena, sem que déssemos com o gelo a trincar, abrir fissura, dar aos outros, já nos havendo dessa bucólica camaradagem, que éramos nós o abismo.

Como éramos autênticos, cochicharíamos a quem se dispusesse a escutar-nos: abismos sorriem.

Acreditávamos que a realidade sempre há de ser como é, portanto, éramos como poderíamos ser: sorrisos, dentes, não o fato de estarmos embriagados, bastante alterados para não vomitar depois de levar tapa ou tomar um safanão.

Bebíamos, porque tínhamos motivos para beber. Achávamos pelo que brindar. Abraçávamo-nos, porque sabíamos como viver pode ser muito divertido. Não iríamos minimizar que a minha esposa tinha sido a dele e que a esposa dele tinha sido a minha.

E daí que deixaram de falar uma com a outra?

Nós bebíamos.

E daí que se engalfinhavam quando se esbarravam?

Nós nos abraçávamos.

E daí que elas estavam grávidas do consorte anterior?

Nós gargalhávamos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de outubro de 2025.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O escracho das coisas

 

O escracho das coisas

 

Embora não creia que existam, as coincidências existem.

E sobre isso, sobre essa força do invisível a recauchutar-se por obra da sutileza das pessoas, não sei muito o que dizer.

O pouco que posso dizer é que me fio nos relatos de terceiros, pois estes não se vexam do que dizem ou, uma vez vexados, anseiam ficar sem puxão de orelha quando adicionam algum detalhe, porquanto isso, tal contribuiçãozinha que, vividamente, tomam por graciosa, é o que os agita, e alegra.

Agirei feito terceiro ao excluir-me do que conto? Porque me afianço imparcial, saber-me-ei imbuído da alegria terçã?

Alegramo-nos a toda vez que condimentamos, a nosso gosto, o que poderia ser narrado com isenção. Ainda que saibamos que poderíamos atuar com parcimoniosa exoneração, o ego da gente esbalda-se ao ver a cara de quem a nós nos assiste.

É pela conquista de atenção que a nossa pessoa se envaidece. Ela, então, põe-nos a contar do jeito que nos paparique. Assim, ela é quem domina, cativa e concede à audiência que usufrua dessa graça, que é a de voluntariar-se ao papel de plateia.

Aplaudido, atuo como esta pessoa envaidecida que, sabidamente, faz jus a ser aclamada pelo público, devera entusiasmado.

Espio da coxia; e vem-me à mente o Mario Quintana, porque estas gentes, que não esperam que eu abandone o palco, são macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios.

O que vem a ser tal palco? É jaula a abrigar-me? Cultivo as bananas que atiro quando as compreendo no ponto? Rendo-me aos aplausos que me mantêm trancafiado, embora a chave esteja na porta?

Desapego-me do silêncio, Quintana, pois a coxia tem o espelho que ajuda a maquiar-me, já velha prostituta, já fazendo trottoir.

Maquiado, feito cronista que ganha a vida soltando a língua por aí, gosto que as palavras lambam-me, arrepia-me o frêmito de quem sente o meu sopro, assobio um improviso, bailo em improviso, pois o mundo é um ipê, é guaru, é brisa que lambe o barro a lapidá-lo diamante.

E quero o pó de arroz, o batom e a sombra que me ganham à vida, ao balé da vida, ao esplendor que é da vida.

Observo-me pelos reflexos. Quero-me fora da caverna, zanzando a esmo. O espelho volta-me ao que escrevinho. Percebo-me observado pelas palavras. Topo o jogo, que os reflexos brinquem comigo. Desde o fim até o começo, jogo-me, retorno ao escrevinhado.

Como se antes da letra inicial o mundo, a vida e a flor da esbórnia no rosto não fossem mais que um tique, a máscara toma assento, faz-me rir de ser rei.

Uma vez que não duvido da crônica, entrego-me ao bailado que as palavras dão a ver que as bailo.

Rejubile-se, máquina do mundo, pois você governa e desgoverna, torna o cético um bobo, a tagarelar, já o espetáculo montado, já o palco iluminado.

A crônica, máquina do mundo, suporta-se à espera da especulação, ainda que eu seja rei, Quintana, nunca fui um, Quintana.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de outubro de 2025.

domingo, 26 de outubro de 2025

Queimando devagar

 

Queimando devagar

 

Vem vindo uma moça. Bem vejo que ela fala ao telefone, nem assim atravesso para o lado de lá. Fico na minha, que ela passe por mim sem que eu me atreva a desviar os olhos.

Apesar de temer que a moça possa passar para o lado de lá, nada me demove de ignorá-la, pois ela segue vindo, vem falando ao celular, vem porque precisa vir, pois está indo trabalhar.

Não paro de pensar que eu possa conhecê-la. Por conhecê-la, terei de cumprimentá-la. Penso, sem titubear, que cabe a mim ser educado, portanto eu serei e dir-lhe-ei: bom-dia!

Ao notar-se observada, embora meu olhar talvez a surpreenda, ela vem sem apertar o passo. Aproxima-se. Traz engruvinhada a sua boca. Mesmo contrariada, já que eu continuo a encará-la, ela não interrompe a conversa, e passa.

Ela vai em frente; eu engulo a minha boa educação.

Outra moça vem vindo. Ela também fala ao celular. Ela fica na dela, vem calma, falando baixo, sorrindo de quando em quando.

Sigo em frente. Outra vez não baixo os olhos. Talvez eu saiba quem ela é. Já que a conheço, ter-lhe-ei de dizer: bom-dia!

Ao notar que eu a observo, embora seu olhar seja de gente irritada, ela não se apressa. Embora faça bico, certamente porque não abaixo os olhos, ela continua papeando, e toca adiante.

Desta vez eu não resisto, viro-me.

Assim que me vê parado a olhá-la, ela para. Com metros entre nós, pouco temerosa de que será assaltada, ela fica onde está.

Sorrio. É só isso? Não menos do que isso, sorrio. Não vai trabalhar? Então, vá! Para o desconforto não crescer, volto a andar.

Sorrio, e por que me calha isso de ser conveniente sorrir?

Sorrio, pois vou em frente. E vou indo sem olhar para trás.

É claro! Um homem educado deve sorrir. O sorriso desarma? Pode ser que sim. Depende da mensagem que o corpo todo comunica, e não apenas a boca. Sem esperar que o desculpem, é preciso sorrir.

É óbvio! A pessoa precisa se pôr no lugar da outra para sentir o que um sorriso desencadeia. É melhor achar que o sorriso é uma coisa boa, que ele diz o quanto se é da paz.

Evidentemente, faço o que parece apropriado: quando percebo que esperam de mim que sorria, não decepciono, e sorrio.

Outra vez, vem vindo uma moça. Desta vez, entretanto, ela não fala ao telefone. Desta vez, a moça vem apressada.

Novamente, procuro-a. Quero saber o que dizem os seus olhos. De novo, renovo-me na esperança de vislumbrar o pouco que seja do que ela, provavelmente, nem perceba do quanto revela de si.

Novamente, há desconforto. Agora, todavia, o mal-estar é meu, pois a moça vem sorrindo. Percebo que vem disposta a cumprimentar.

Que estranho. Há confiança, alegria de viver o dia, uma vontade de doar a boa graça que é estar feliz.

Como é, moça? Ser encarada não a incomoda? Que fortaleza será essa para torná-la tão leve? Será que leveza encabula tanto? Sorrindo, deseja que se tenha um dia bom?

Agora, sei bem que não o terei.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de outubro de 2025.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Tudo a seu tempo

 

Tudo a seu tempo

 

Entre amigos e camaradas, a conversa indo, a conversa seguindo, nada a mais, nada a menos, o papo que agrada, agrega, faz sorrir, faz rir, vêm chistes, vão anedotas, é muito harmonioso, com petroquímicas a regerem mui bem-venturosas almas, propensas ao inteligenticialismo dialógico, posto que, sempre tão infinitos até onde o olho vá alcançar, nunca haveremos de tolerar ser rebaixados a oceânicos, por sermos, evidentemente, oceano.

O problema é fazer água quando tanto se espera sermos racionais, secos por escassez de sentimentalismos e culturalmente históricos por atermo-nos ao dia, atentarmo-nos ao pão de hoje, e nos ansiarmos que os biscoitos saiam do forno agora.

Entretanto, também temos braços, as nossas mãos abrem garrafas, todavia minha boca recusa biritas, assim, por mais simpático que seja, quero-me afastado até mesmo de um copinho de cerveja.

Quanto custam 600 ml de uma pilsen?

Quando o real virou realidade, tais 600 ml valiam R$ 1,00.

Eram outros tempos. Sem dúvida, foram. Irrefutavelmente, ficamos velhos que nem bebemos. Atualmente, envelhecemos vagarosamente. Muitíssimo lentos. Embora tenhamos cinquenta reais para pão e água, andamos desacelerados, tanto somos frouxos das pernas que nossos pulmões tossem musgo, expelem hera, cobriríamos muros com o que ejetamos. Por hoje, apressaríamos regurgitar os pensamentos. Eu juro, pela água barrenta da torneira e por um real que lacre a minha boca, o meu bafo enjoativo quer ansiosamente ser somente nauseabundo.

Outrora, aos doze anos, beijei até dar câimbra na língua; aos seis, molhar os lábios com uísque, porém, embebedou-me de pronto. Assim, a saliva quente aos vinte e dois pedia chope, outro chope, ainda outro, assim a saliva soube-se a cinquenta reais, já evaporados.

Por hora, bem pior, tenho amigos a quem digo o quanto estou pior, carente de abraços, apertos de mão e beijos que façam a língua doer, ter câimbras, façam-me salivar com abundância, posto que me desejo abundantemente valoroso, já a querer-me tão valioso.

Todavia, é preciso ter valor para ser valorizado?

Ontem, depois que almocei, tão logo me estiquei no sofá, tive prazer ao ouvir o telefone, mas o que me fez melhor foi tê-lo deixado tocar.

Achei de permanecer deitado, ocioso dizer que cabia a ignorância, que me dava por satisfeito em não saber quem me ligava.

Assim, amigo, sequer pensei na realidade de uma pelada.

Camarada, aprendi a amarrar sapato quando nem sapato eu tinha, já que eu batia bola de kichute. Por me permitir sinceridade, eu achava que correr atrás da bola era jogar que nem craque.

Então, meu irmão, embora admissível passar perrengue ao amarrar kichute usando apenas uma das mãos, pergunte-se:

ꟷ Quanto custa para cunhar um real?

Antão, pergunta o anão:

ꟷ Quanto é aprimorada a memória por um real de samário?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de outubro de 2025.


terça-feira, 21 de outubro de 2025

Um astro atrás dos óculos

 

Um astro atrás dos óculos

 

A maledicência dá importância ao quanto há de esforço no que se faz, pois, ao malicioso, é bom esforçar-se para que se averigue o quão ponderado é quem, entregando o bocado a mais que seja preciso para equilibrar-se novamente o que a pitada de caos tenha impactado, não somente não se equivoca ao autoavaliar-se como emprega a energia que for para a normalidade regressar ao estado anterior ao abalo.

Nenhuma ruga a mais? A testa sem franzir?

Essa pessoa, que lê sem errar pela página, vou dizê-la absorta. Ela bem pode se apresentar impassível, pois absorvida. Essa pessoa que nem se nota distraída do entorno será chamada à consciência quando for levada a perceber a que grau chega a sua inocência.

Abalado, dou comigo sentado nos óculos.

Diga-me, pessoa, o seu corpo sente o mal-estar que o prazer pode provocar quando a realidade chama que volte a situar-se?

Uma ruga a mais. Um franzimento de testa a mais.

Ficasse nisso, nada de novo. No entanto, sou essa pessoa que não se intimida com a cachola a querer-me acomodado. Ponho-me atento, reajo. Enveredo, entretanto, pelas ações desairosas, e acuso-me. Sem chacota, é para não desacorçoar que caçoo de mim.

Sim, é coisa de bobo, mas zombo de mim pelo prejuízo. Terei de ir ao oculista, e pagarei pela consulta. Terei de trocar os óculos, e pagarei por outra armação. Pelo imprevisto do gasto, regozijo-me.

Pelo gosto de agir sem ressentimentos, fiquem desautorizadas as lamúrias. Sem lamentar que tenha quebrado os óculos, vou trocá-los. Vou atrás dos novos, que eles me agradem e não saiam mais caros do que posso pagar, ou melhor, do que eu tenciono pagar.

Ainda bem que faço os meus óculos naquela loja cuja promoção é tentadora: faça os óculos de grau e ganhe os de sol. Assim, tenho em casa o par de lentes escuras. Ou seja, o míope desastrado não vagará cegueta pelo mundo.

Que bom, Mister Magoo! Você irá ao médico de óculos escuros, irá à ótica sem tropeçar em vira-lata deitado na calçada, voltará para casa sem outras mágoas que não aquelas previamente calculadas.

ꟷ De óculos escuros dentro de casa?

ꟷ Estou disfarçado.

ꟷ Sei, sei. O brocoió deve estar se achando espião.

ꟷ Que privilégio é espreitar a vizinhança com um olhar diferente.

ꟷ Quer dizer que os óculos escuros alteram a sua percepção e você enxergar a realidade de uma maneira diferente faz você achar que esta é uma condição especialíssima, pois isso o faz acreditar que é mesmo um sortudo, cujo destino seria vigiar os vizinhos. É isso?

ꟷ Isso! Agora eu me sinto o próprio 007, mas sem licença para ficar exibido, posando de estrela, agindo como um cara iluminado que nem Sean Connery.

ꟷ Sendo uma pessoa particularmente especial, por ser carequinha, baixinha, barriguda e bem miopezinha, em vez do Sean Connery, você se vangloria de ser o Daniel Craig. É chocante!

ꟷ E não é que não é mesmo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de outubro de 2025.

domingo, 19 de outubro de 2025

À boca pequena

 

À boca pequena

 

O inferno é o mundo quando o flautista toca. Endiabrados, seguem-no os ratos. O flautista e seus ratos marcham sobre a cidade, e janelas são cerradas, cortinas, fechadas, e abrem-se bocas.

Quem não é rato nem flautista dispara vociferar. Quem não mija nos tamancos debaixo da cama, não aninha a prole em maçaroca de jornal, não se abisma pelo frenesi impulsionar que roa sacos de ração, enfim, não sendo rato para enfrentar gato, é gente que se orgulha de ser bom pai, boa mãe e flautista mais fleumático, como o é o Ian Anderson, que povoa a Terra com salmões, não com fantasmas de kilt.

Como minh’alma tem pena de quem come caviar quando é hora de praguejar por mais torradinha a quem serve torradinha, no embalo das doze badaladas, fazendo coro ao sino, as garras da gula coçam-me: é meio-dia, é hora de abrir-me ao prato feito, é o momento de ser prático: embora seja boa coisa para o juízo seguir no leme, é para não adernar na décima terceira bimbalhada que eu almoçar é bom mister.

Porque a igreja badala ser meio-dia, porque as badaladas acordam-me, vou à mesa. Minha barriga respeita o que convém ser respeitado, é chegada a hora de saciar-me à vontade. Chegado o instante, a pança roncará, escandalizará. Vexatório, o barulhão é arma do corpo a favor da disciplina, da reverência ao imprescindível, pois, inexoravelmente, estou cativo da melodia das doze horas.

Tilinta em mim o desejo de serenar-me, já que me quero senhor na vida a que estou atrelado. Continuarei na rotina, almoçarei embora seja meio-dia, darei a mim a escolha de abraçar o rotineiro, já que o mundo mal me toleraria rebelde.

Rebeldia... Veja só, rebeldia...

Almoço todo dia. Venho almoçar neste restaurante faz anos. Sento-me à mesma mesa desde que a tomei pra mim, há trinta anos.

É certo, eu pouparia se cozinhasse. Cozinharia melhor se o fizesse todos os dias. É vero, não haveria desperdício de comida se eu mesmo preparasse minhas refeições. Quiçá comesse salmão com cenoura, ou batatas, isso se domasse a chama do fogão. Não chamuscando meus pelos, assim menos fátuo, eu toparia ter amigos à mesa. Sabendo-me menos bruto, me tornaria um sujeito agradável, de convivência menos problemática, quem sabe eu virasse um confrade engraçado, bom nas piadas, e sendo irônico, ótimo.

Entretanto, sentado de costas pro salão, eu almoço sozinho.

Às quartas, encaro uma feijoada. Não, não, aos sábados, não quero de novo o que me sacia na quarta, porque as minhas tripas têm espírito do cão, infernizando-me com aquela queimação do caramba.

Hoje, ainda que seja outra quarta-feira das mais ordinárias, não vou de feijoada nem de pargo na telha, topo encarar uma lasanha das mais tradicionais, com molho bolonhesa, muito queijo e muito presunto, pois estou bastante afeito a aquiescer que Jethro Tull não tocava flauta nem arava acres em Skye.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de outubro de 2025.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Achados perdidos

 

Achados perdidos

 

Só pode ser brincadeira. Possivelmente, tal brincadeira precisa ser realizada com displicência, considerando-a um desafio cuja superação acarrete um prêmio, resulte num mimo.

Boa! Que o troféu seja uma casquinha. De chocolate ou baunilha? Que seja mesclada, oba!

Embora conviva com muitas pessoas que se recusam a andar nas nuvens, e que lambem, mordem e chupam porque lhes é insuportável perder o sorvete, ele derretendo, não conheço pesquisas que apontem, nervosinho, que a recompensa pela dedicação venha a ser outra coisa que não a casquinha, ou seria muitíssimo estapafúrdio lamber, morder e chupar um troço de plástico pintado de bronze.

Acho de pensar nas lambidas, e não as imagino, sinto-as, pois isso estimula, faz acreditar que, ao fim e ao cabo, vencerei. E isso de querer vencer é o que fortalece. E não hei de entregar-me, portanto me delicia achar que, pela alma confortada, a casquinha é o meu sofá.

Tenho achado tanta coisa que até me perco, menos o sofá, porque, não mais que de repente, paro e escarafuncho ꟷ é besteira muito das miseráveis tomar o sorvete feito parangolé, em que posso me abrigar na sua luz sem muito agito, pois, instalado confortavelmente, embora eu sue enquanto sonho, faço a tevê ouvir que devo me movimentar ou derreterei, igualzinho a, tão similar àquela casquinha.

O meu esqueleto que fique na sua, sem que precise compreender as razões para estar deitado, relaxado, permitindo à cachola estancar-se, fixada nas lambidas, já o troféu derretendo.

Não cisco ao redor de um cisco, examino a casquinha, pois o troféu, multifacetado, possibilita que seja vivenciado que nem sorvete.

Justamente porque a boca lambuzada provoca o riso, quero brincar de ensimesmamento. Com prazer, ensimesmo-me.

Isso bem que podia contribuir para meu autoconhecimento, mas, no gozo das lambidas, sinto o que achava anestesiado.

Tenho de volta muito do que dei por perdido, seja a lágrima pelo gol que demora a sair, seja o muxoxo quando nos abraçávamos, seja que tomei sozinho o sorvete que compartilharíamos no domingo.

Mesmo o domingo adorando confissões, sei que não minto.

Embora, meu amor, você me perdoe quando a mentira não me tira da fila, permaneço calado, não jogo maldições, sou o sofá que não tem boca. A três metros da máquina, posso invejar a alegria de quem passa a língua no sorvete. Por muito querê-la, dê-me o prazer de lambê-la, ó minha doce casquinha.

Tenho me indignado por outras circunstâncias, não pela fila que não anda conforme anseio, mas minha indignação é com as formigas, pois a roseira nem floriu e, pela tara das saúvas, sobreveio o inverno.

Isso não pode estar ocorrendo, pois, na inércia do sono, sonho, suo, sonho que as saúvas têm horror a chocolate misturado à baunilha.

Será loucura?

Loucura, cético, será quando fabricarem sofá comestível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de outubro de 2025.