terça-feira, 21 de outubro de 2025

Um astro atrás dos óculos

 

Um astro atrás dos óculos

 

A maledicência dá importância ao quanto há de esforço no que se faz, pois, ao malicioso, é bom esforçar-se para que se averigue o quão ponderado é quem, entregando o bocado a mais que seja preciso para equilibrar-se novamente o que a pitada de caos tenha impactado, não somente não se equivoca ao autoavaliar-se como emprega a energia que for para a normalidade regressar ao estado anterior ao abalo.

Nenhuma ruga a mais? A testa sem franzir?

Essa pessoa, que lê sem errar pela página, vou dizê-la absorta. Ela bem pode se apresentar impassível, pois absorvida. Essa pessoa que nem se nota distraída do entorno será chamada à consciência quando for levada a perceber a que grau chega a sua inocência.

Abalado, dou comigo sentado nos óculos.

Diga-me, pessoa, o seu corpo sente o mal-estar que o prazer pode provocar quando a realidade chama que volte a situar-se?

Uma ruga a mais. Um franzimento de testa a mais.

Ficasse nisso, nada de novo. No entanto, sou essa pessoa que não se intimida com a cachola a querer-me acomodado. Ponho-me atento, reajo. Enveredo, entretanto, pelas ações desairosas, e acuso-me. Sem chacota, é para não desacorçoar que caçoo de mim.

Sim, é coisa de bobo, mas zombo de mim pelo prejuízo. Terei de ir ao oculista, e pagarei pela consulta. Terei de trocar os óculos, e pagarei por outra armação. Pelo imprevisto do gasto, regozijo-me.

Pelo gosto de agir sem ressentimentos, fiquem desautorizadas as lamúrias. Sem lamentar que tenha quebrado os óculos, vou trocá-los. Vou atrás dos novos, que eles me agradem e não saiam mais caros do que posso pagar, ou melhor, do que eu tenciono pagar.

Ainda bem que faço os meus óculos naquela loja cuja promoção é tentadora: faça os óculos de grau e ganhe os de sol. Assim, tenho em casa o par de lentes escuras. Ou seja, o míope desastrado não vagará cegueta pelo mundo.

Que bom, Mister Magoo! Você irá ao médico de óculos escuros, irá à ótica sem tropeçar em vira-lata deitado na calçada, voltará para casa sem outras mágoas que não aquelas previamente calculadas.

ꟷ De óculos escuros dentro de casa?

ꟷ Estou disfarçado.

ꟷ Sei, sei. O brocoió deve estar se achando espião.

ꟷ Que privilégio é espreitar a vizinhança com um olhar diferente.

ꟷ Quer dizer que os óculos escuros alteram a sua percepção e você enxergar a realidade de uma maneira diferente faz você achar que esta é uma condição especialíssima, pois isso o faz acreditar que é mesmo um sortudo, cujo destino seria vigiar os vizinhos. É isso?

ꟷ Isso! Agora eu me sinto o próprio 007, mas sem licença para ficar exibido, posando de estrela, agindo como um cara iluminado que nem Sean Connery.

ꟷ Sendo uma pessoa particularmente especial, por ser carequinha, baixinha, barriguda e bem miopezinha, em vez do Sean Connery, você se vangloria de ser o Daniel Craig. É chocante!

ꟷ E não é que não é mesmo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de outubro de 2025.

domingo, 19 de outubro de 2025

À boca pequena

 

À boca pequena

 

O inferno é o mundo quando o flautista toca. Endiabrados, seguem-no os ratos. O flautista e seus ratos marcham sobre a cidade, e janelas são cerradas, cortinas, fechadas, e abrem-se bocas.

Quem não é rato nem flautista dispara vociferar. Quem não mija nos tamancos debaixo da cama, não aninha a prole em maçaroca de jornal, não se abisma pelo frenesi impulsionar que roa sacos de ração, enfim, não sendo rato para enfrentar gato, é gente que se orgulha de ser bom pai, boa mãe e flautista mais fleumático, como o é o Ian Anderson, que povoa a Terra com salmões, não com fantasmas de kilt.

Como minh’alma tem pena de quem come caviar quando é hora de praguejar por mais torradinha a quem serve torradinha, no embalo das doze badaladas, fazendo coro ao sino, as garras da gula coçam-me: é meio-dia, é hora de abrir-me ao prato feito, é o momento de ser prático: embora seja boa coisa para o juízo seguir no leme, é para não adernar na décima terceira bimbalhada que eu almoçar é bom mister.

Porque a igreja badala ser meio-dia, porque as badaladas acordam-me, vou à mesa. Minha barriga respeita o que convém ser respeitado, é chegada a hora de saciar-me à vontade. Chegado o instante, a pança roncará, escandalizará. Vexatório, o barulhão é arma do corpo a favor da disciplina, da reverência ao imprescindível, pois, inexoravelmente, estou cativo da melodia das doze horas.

Tilinta em mim o desejo de serenar-me, já que me quero senhor na vida a que estou atrelado. Continuarei na rotina, almoçarei embora seja meio-dia, darei a mim a escolha de abraçar o rotineiro, já que o mundo mal me toleraria rebelde.

Rebeldia... Veja só, rebeldia...

Almoço todo dia. Venho almoçar neste restaurante faz anos. Sento-me à mesma mesa desde que a tomei pra mim, há trinta anos.

É certo, eu pouparia se cozinhasse. Cozinharia melhor se o fizesse todos os dias. É vero, não haveria desperdício de comida se eu mesmo preparasse minhas refeições. Quiçá comesse salmão com cenoura, ou batatas, isso se domasse a chama do fogão. Não chamuscando meus pelos, assim menos fátuo, eu toparia ter amigos à mesa. Sabendo-me menos bruto, me tornaria um sujeito agradável, de convivência menos problemática, quem sabe eu virasse um confrade engraçado, bom nas piadas, e sendo irônico, ótimo.

Entretanto, sentado de costas pro salão, eu almoço sozinho.

Às quartas, encaro uma feijoada. Não, não, aos sábados, não quero de novo o que me sacia na quarta, porque as minhas tripas têm espírito do cão, infernizando-me com aquela queimação do caramba.

Hoje, ainda que seja outra quarta-feira das mais ordinárias, não vou de feijoada nem de pargo na telha, topo encarar uma lasanha das mais tradicionais, com molho bolonhesa, muito queijo e muito presunto, pois estou bastante afeito a aquiescer que Jethro Tull não tocava flauta nem arava acres em Skye.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de outubro de 2025.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Achados perdidos

 

Achados perdidos

 

Só pode ser brincadeira. Possivelmente, tal brincadeira precisa ser realizada com displicência, considerando-a um desafio cuja superação acarrete um prêmio, resulte num mimo.

Boa! Que o troféu seja uma casquinha. De chocolate ou baunilha? Que seja mesclada, oba!

Embora conviva com muitas pessoas que se recusam a andar nas nuvens, e que lambem, mordem e chupam porque lhes é insuportável perder o sorvete, ele derretendo, não conheço pesquisas que apontem, nervosinho, que a recompensa pela dedicação venha a ser outra coisa que não a casquinha, ou seria muitíssimo estapafúrdio lamber, morder e chupar um troço de plástico pintado de bronze.

Acho de pensar nas lambidas, e não as imagino, sinto-as, pois isso estimula, faz acreditar que, ao fim e ao cabo, vencerei. E isso de querer vencer é o que fortalece. E não hei de entregar-me, portanto me delicia achar que, pela alma confortada, a casquinha é o meu sofá.

Tenho achado tanta coisa que até me perco, menos o sofá, porque, não mais que de repente, paro e escarafuncho ꟷ é besteira muito das miseráveis tomar o sorvete feito parangolé, em que posso me abrigar na sua luz sem muito agito, pois, instalado confortavelmente, embora eu sue enquanto sonho, faço a tevê ouvir que devo me movimentar ou derreterei, igualzinho a, tão similar àquela casquinha.

O meu esqueleto que fique na sua, sem que precise compreender as razões para estar deitado, relaxado, permitindo à cachola estancar-se, fixada nas lambidas, já o troféu derretendo.

Não cisco ao redor de um cisco, examino a casquinha, pois o troféu, multifacetado, possibilita que seja vivenciado que nem sorvete.

Justamente porque a boca lambuzada provoca o riso, quero brincar de ensimesmamento. Com prazer, ensimesmo-me.

Isso bem que podia contribuir para meu autoconhecimento, mas, no gozo das lambidas, sinto o que achava anestesiado.

Tenho de volta muito do que dei por perdido, seja a lágrima pelo gol que demora a sair, seja o muxoxo quando nos abraçávamos, seja que tomei sozinho o sorvete que compartilharíamos no domingo.

Mesmo o domingo adorando confissões, sei que não minto.

Embora, meu amor, você me perdoe quando a mentira não me tira da fila, permaneço calado, não jogo maldições, sou o sofá que não tem boca. A três metros da máquina, posso invejar a alegria de quem passa a língua no sorvete. Por muito querê-la, dê-me o prazer de lambê-la, ó minha doce casquinha.

Tenho me indignado por outras circunstâncias, não pela fila que não anda conforme anseio, mas minha indignação é com as formigas, pois a roseira nem floriu e, pela tara das saúvas, sobreveio o inverno.

Isso não pode estar ocorrendo, pois, na inércia do sono, sonho, suo, sonho que as saúvas têm horror a chocolate misturado à baunilha.

Será loucura?

Loucura, cético, será quando fabricarem sofá comestível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de outubro de 2025.


terça-feira, 14 de outubro de 2025

Excêntrico

 

Excêntrico

 

Ele vinha na minha direção. E tão logo me viu, atravessou a rua. Eu não estranhei, porque pessoas têm opiniões e, para evitar que o oposto do que se pensa seja incensado, amizades são rompidas.

Algo que postei deve tê-lo ofendido, e não o criticarei por não querer papo comigo, pois posso mesmo tê-lo contrariado, de tal forma que lhe pareço, realmente, um adversário a ser repelido.

Ao preservar-se insubmisso ao bom-mocismo em voga, invejo-o, já que, sem se importar que velhos amigos o repudiem, faz décadas que ele posta comentários que polemizam.

Sendo a história um campo onde forças antagônicas se confrontam, muita gente acredita que é saudável tal embate acarretar que o mundo virtual seja cristalino, ainda que brutalmente sentido.

É provável que ele tenha mudado de calçada por considerar-me um indivíduo inflexível, mais um integrante do contingente dos bobos, cuja patetice impede-nos de sentir a verdade que precisa ser percebida, ou a barbárie seguirá sendo o norte a guiar-nos, cegos à maldade que nos segrega dos bons.

Ele muda de calçada porque não defenderei o que é repugnante. Como não vou ajoelhar-me, ele siga orgulhoso da sua fé. Não porei a carapuça dos condenados, só porque me queiram enforcado. Ele sabe que não abandonarei a praça, pois faz sol, pombas arrulham e o cheiro do pastel faz a minha barriga roncar.

Comendo o meu pastel, nem o vi ao meu lado.

Cumprimenta. Pergunta se sumiram as dores depois que operei da vesícula. Se estou comendo pastel, é óbvio que não tenho mais medo de fritura, pois já não sofro com as pedras.

Depois de ter comido um quibe e tomado um guaraná, abraçando-me, desejando que a paz esteja comigo, vai embora.

Ele ter vindo falar comigo faz dele um excêntrico, pois não é normal suportar alguém feito eu, uma pessoa que não se incomoda de afrontá-lo pelo que tanto valoriza.

Eu não sou ele; ser ele daria em maluquice, pois minha vivência diz que dá pé ouvir quem vive a criticar que o canto afinado rebaixa, avilta, revela o cordeiro que o bom cantor oculta com a pele de lobo.

Fora da alcateia, entre cordatos, a camuflar-se de errático, lunático, não será astúcia (pueril) aclamar-se que desafina?

Já o rapaz, ele varre ao redor do carrinho, não ignora nem os farelos e, antes que o lixo comece a atrair moscas, ele dá um nó no saco e vai jogá-lo ali na frente, na caçamba que fica no beco sem saída.

Quando estou indo pegar o Beckett que encomendei, outra vez ele irrompe no meu caminho. Por compadecer-me de quem tem pedras na vesícula, considero o que fará ꟷ bem me saúda, passa batido ou troca de lado.

Todavia, nem lhufas nem bulhufas.

Uma vez que não tenho sequer habilitação para conduzir o veículo que seja, nem trator nem ônibus nem moto elétrica, tomo uma rasteira, já que ele entra no seu carro e vai embora, vai no fluxo, vai na mão que os automóveis têm que seguir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de outubro de 2025.

domingo, 12 de outubro de 2025

Piano piano

 

Piano piano

 

Vendo-me correr, e, para não atropelar quem estimo por não correr, não discordo de quem acredita que sei o que quero, estou certo do que preciso, vou indo adiante ainda que pise em falso, porque a pirraça da cachola é projetar buracos onde a gente menos os anteveja.

De bunda no chão, doido querendo sumir, realço o ridículo ao topar ser acudido por quem se domina, e tudo bem, não foi grave, foi só um tombo, ria, pode rir às escâncaras, pois dei bobeira, eu sei.

Dificilmente saio de casa à noite, pois, sem nada de esquizofrênica, a mão que vem ajudar é a mesma que vai agredir, pois, já que não me aprumo pelas decorrências, reluto, não quero entregar a carteira.

Refeito do murro, afivelado à maca, levem-me ao pronto-socorro, e tudo bem, pois, é óbvio, nariz sangra após um soco desferido na fuça, e o meu abunda sangrar, me defende sangrando, é normalzinho.

Embora raramente me irrite, irritam-me facilmente, então, para não incendiar a casa, preciso da rua, desligo a TV que fala na paz, na paz laureada, essa paz que não mordo, não mastigo, não engulo, e não a cuspo na sala, pois, sem bater porta nem portão, saio manso, abobado, pois quero ir para nem eu sei onde.

Por acaso, fecho a porta quando um homem desce do carro.

Uma mulher também desce, mas, elevada do chão com a elegância de quem sabe andar na agulha do salto, ela é alta, tão alta, tanto é alta que ela atravessa a rua sem olhar para quem, neste instante, a adora e a idolatra, para, no instante seguinte, ignorá-la.

Ignoro-a, porque o homem de terno leva um estojo. Em vez da pasta na qual operadores do sucesso transportam dólares, euros e barrinhas de ouro, a figura da tampa explicita outro conteúdo, uma furadeira.

Não sendo borboleta, seguro-me da minha volúpia, aguardo o casal entrar num prédio, e quando ele entra, entro, estou no encalço.

O lugar é um salão de festas. Há mesas com enfeites. Instrumentos são afinados, microfones são testados. Embora haja pouca gente, mais cadeiras são trazidas.

Cruzando a boca do palco, a faixa, preta com Felicitações por seus 15 anos, DIDI em dourado, é fixada pelo homem da furadeira.

A loira alta, bem alta, altaneira, de longo amarelo, longo o bastante para que eu cobice modelar-lhe as panturrilhas, sem traços de esnobe, por realmente me ver, ela vem falar comigo.

Está surpresa que eu tenha vindo sem fraque, é justo, pois o cachê é uma taça de champanhe, e tudo bem, embora caiba ao pai dar-lhe a primazia do baile, a moça quer Für Elise para bailar.

Desde garotinha, Meredith tem a regalia de ver-me de fraque, rabo de cavalo, a língua, esse animalzinho neurótico, a umidificar os lábios, só que a pouparei do meu opróbrio, pois a cabeleira solta, a boca sem batom e o rosto sem pó de arroz personificam o perplexo: não sendo obra de buraco ou de casca de banana, terei caído por pisar bosta de gente ou cocô de vira-lata?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de outubro de 2025.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Canção de ninar

 

Canção de ninar

 

Digo que era mais fácil viver nos meus dias de garoto. Compreendo, e a risada vem fácil, gostosa. Rio de mim porque não engana ninguém, esse riso. Por não iludir, não trapaceio. Pela memória puxar o fio como bem a apraz, a divertir-me, o riso vem dócil, sem afrontamentos, afável a gabolices de sexagenário. Sabedor que tais palavras não são iguais, acato que ilusão e trapaça têm significados equivalentes.

Viro de lado, fico de bruços, viro de costas, mas a cachola não pega no sono. Não acho graça em não lograr dormir. Se, ao menos, pegasse do lápis, haveria registro sobre o qual me debruçar.

Se não falei, falo agora, falo que a folha aceitaria o que o lápis diria e eu me quedaria escrito pelas palavras fáceis, gostosas, exibidas.

E de costas, penso; de bruços, penso; de lado, não paro de pensar. Penso que não há desgraça que me faça dormir, e já não rio. Se posso, não quero. Já, portanto, não rio.

Incomoda esta conversa que me entretém, pois, em vez de dormir, conversamos. Incomoda-me, já que amanhã não guardarei lembrança do papo do garoto com o velho. Por tirar de mim o sono, a dar-me mais tempo em vigília, o incômodo aumenta.

Muito me incomodo, sinto o minuto seguinte. Dou-me razão ao ficar incomodado, pois o minuto seguinte soma-se ao minuto seguinte. Sinto que deveria ser mais cordial. Seria legal ser um sujeito exibido, um cara legal que não mede o poder que tem quando as palavras dizem o que parece mesmo ser o que este cara boa gente está sentindo. Todavia, muito me aperto, uma vez que, pelo efeito produzido pelo que digo, me divirto. Já que é divertido me atazanar, eu perco o sono. Brinco comigo, e o coração pulsa feliz, alegre, dispara, pois é brincando que eu volto a sorrir. Sorrindo, percebo, me ouço, sinto um tamanho contentamento, que eu volto a rir, rindo consciente, tão racional, muito bobo.

O bobo acorda. O garoto gosta deste bobo acordado. O vovô adora o bobo que finge ser garoto. Sem truque, a gente se entenda. Havendo compreensão, cabeça e coração, fechemos este acordo.

Garoto, pelo gosto de querer o prazer de dormir, durma. Meu chapa, não banque o senil. Faça a gentileza, colabore. Já é hora, vamos! Seja gentil, tenha juízo, pare de teimar. Queira dormir, e durma.

Ouça, nem os cães estão latindo. Preste atenção, os gatos já foram dormir. Sossegue, nenhum gatuno pula o muro. Nem a vizinhança pula da cama por causa de algum bêbado desafinado.

Vá dormir, garoto. Não se levante e não vá urinar, maroto. Urinando, não mije no chão. Mijando fora do vaso, limpe na hora. Garoto, amanhã será tarde demais. Maroto, só o aroma de café passado na hora é que consegue disfarçar o fedor da urina.

Para logo adormecer...

Sossegue seu coração, durma.

Tenha dó, sinta pena, durma.

Cantarole esta canção, durma.

Sinta pena, tenha dó, durma.

Durma, durma, durma, sim.

Durma, durma, durma, sim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de outubro de 2025.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Foi coincidência

 

Foi coincidência

 

Uma vez, no bar, foi quando entrou aquela gente, isso me fez ver a minha condição, que estou sem a minha família.

Pelo tamanho daquela falta, virei a cachaça.

Quando aquelas pessoas sentaram-se do meu lado, foi aí que veio aquela sensação, não foi uma dor que subiu pela garganta. Foi quando a boca secou, senti que tinha de tomar outra postura.

Então, perdi a certeza de que levava a vida que eu precisava viver, uma vez que minha mulher e os meus filhos continuavam longe, viviam na casa que tinha sido dos meus pais, continuavam vivendo sem mim, seguiam naquela vida, vi que existiam, assim, tão distantes.

Precisei virar a cachaça, porque as quatro cadeiras da mesa ao lado foram ocupadas. Tive que virar a dose quando senti o que a respiração queria dizer. O ar rarefeito apertava no peito, dizia à cabeça que eu me achava só, pois, então, eu me achei só.

Assim, o ar que secou a garganta precisava de ser lavado, tinha de ser banhado de bem-estar, por ser realmente necessário. Eu percebi o que abalava, qual substância me dava fé, aquilo era piedade.

De quem me compadecia era de mim, daquele que eu fui.

Fui feliz. Fui alguém que podia ser apresentado como um cara feliz. E fui quem tinha mulher e filhos, que sentavam onde precisavam estar, comigo. Fui quem sabia ser por achar que precisava ser.

As pessoas sentadas não viram o que não precisavam ver, mas eu vi claramente que a minha gente deve ter saudades, que ela devia ter as saudades que me levavam a beber cachaça.

Porque a cachaça avivava a brasa, pedi outra dose. E o fogo voltou a crepitar os galhos mortos da minha condição. Tive que lamentar, tive de sentir. Eu quis, precisei, tinha mesmo de ficar só, porque eu deveria, mesmo, ter trazido a minha mulher e os meus filhos.

Com a mente guiando o coração pela piedade, deu-se o rebuliço, e policiais chegaram com os engravatados, que eram confiantes, firmes, ríspidos, falando com a autoridade da qual estavam imbuídos.

E ficou esclarecido que o homem não era o pai, a mulher não era a mãe, porque as crianças não eram filhos daqueles bandidos, daqueles criminosos, porque o sequestro era o crime que enquadrava o homem e a mulher na mesma condição, que eles eram ladrões de criança.

A consciência, então, gostaria de mais outra cachacinha?

Por mim, eu virei, eu fiz bem, pois reagi como achei justo que devia ter reagido, tomando outra cachaça.

Para o fogo subir pelas tripas, para que a solidão não anestesiasse a minha pessoa, para não me achar um frouxo, um palerma, mais outro sem empolgação, perdoem, pois eu virei outra.

Aliás, eu não tinha de me preocupar com os olhares, eu bebi a tarde toda. E bebi o tanto que eu quis, o quanto pude, o quanto aguentei.

Dessa vez, o porre levou-me à porta do restaurante cujos garçons não tinham como não seguirem servindo enquanto, mesmo sem enfiar o dedo na goela, eu vomitava.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de outubro de 2025.

domingo, 5 de outubro de 2025

Aquela vontade louca de vibrar

 

Aquela vontade louca de vibrar

 

Recolhi-me ao quarto mais cedo que o costume. Manú ficou na sala, lendo, isso a ela era costumeiro. Não pedi que me acompanhasse, pois era evidente que a leitura a cativava. Pela sombra cobrindo metade do rosto, pela concentração, pela serenidade, sua figura era tão cativante, tão bela.

Como não se anunciava aliviado o semblante absorto da distraída, próprio a ela que nem se sentia abduzida da realidade pra esse mundo fabricado pela linguagem, já as palavras, por suposto, revirando o lodo, já a subjetividade minerando o que lhe extraía o comum a toda gente, tanto me era comovente a face revelada de Manú que, amorosamente estável, a ela nem falei que ia deitar-me.

Na escuridão, foi mansa a entrada, a vinda do sono.

Ela não precisava sacrificar-se. Achei melhor que continuasse onde estava, lendo. Ela não precisava vir deitar-se, eu sabia que iria dormir logo. O sono me faria bem. Tanto que os músculos vagarosamente me sossegariam, e me desencaminhariam dos esforços vãos.

Se estivesse na cama, você perceberia como foi fácil entregar-me. Você iria rir do meu sonho, já que eu enfeitiçaria os corvos. Querendo-os pousados na cruz dos meus braços, você riria.

Eu sentiria o baque. Acusaria o coração tocado. Eu sofreria, porque o sonho me faria rir. Eu saberia do sofrimento. Iria querer rir com você, mas não daria jeito de rir. De maneira alguma, eu não riria.

Quando a gente se despede, sinto certo desconforto, meio que não admito que sofro. Prefiro ir deitar a trazê-la comigo, porque a dor aperta ao vê-la largar o que faz, isso constrange.

Houve uma vez, embora visse que me oferecia a corvos e gralhas, por achar bom acolhê-los, todavia, no sonho, os urubus comiam, eram arados, tanto eram que eu regurgitava o milho pra eles comerem.

Você sempre soube ter cabeça fria, bem sabe quando quero chorar. Manú, você sabe antecipar-se. Por ser como sou, você ri, uma vez que, volta e meia, eu, dormindo, bato papo.

Manú, eu gritaria. Mesmo que não grite, dificilmente fico à vontade. A ideia de interromper sua leitura, Manú, me faz uma criança. Sou essa criança que tem uma bola, quer brincar, só que a mãe não deixa, o pai não deixa, os amigos jogam melhor, e o livro é muito mais interessante que uma pelada à toa.

Sim, acho bom ficar em paz, pois a agitação é como espernear que nem menininho que mete uma bicuda na gorduchinha.

Entendo que a rua ensina a engolir-me no chororô, por isso a bola, o jogo de bola, Manú, a vida fala que tenho esta percepção: sem birra, tem vez que a vida cobra que a gente dê uma cavadinha.

Eu cavarei mesmo que vire em pênalti pra fora?

Como boa pessoa que peleja, não me arrependa do gol perdido. Com o grito preso, torço que a bola dê na trave, suspiro que o rebote permita a bicicleta. Pelo tanto que babo, só mais uma vez, pedalo aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de outubro de 2025.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

E não se fale de outra coisa

 

E não se fale de outra coisa

 

Seria bom que estivesse chovendo; poderia não ser domingo; seria melhor que os olhos dessem com o marcador de página caído ao lado da cama; o livro, contudo, voltará à estante porque a leitura chegou ao fim e a manhã, todavia, é outra manhã ensolarada de domingo.

Há a opção de telefonar, porque todo mundo gosta de telefonemas. Todo mundo gosta que telefonem ao meio-dia. E ele tem amigos, bons amigos. Entre os amigos, tem os mais camaradas que o atendem ainda que ligue ao meio-dia, e todo mundo gosta de falar ao telefone quando é domingo. E nele, veja só, tem essa comichão, quer ligar. Assim a boa gente que tanto o estima e tanto o compreende, ainda que resmungue, escarneça, tripudie e revolte-se, eles o conhecem bem, porque sempre se há de falar com os amigos, mesmo sem necessidade. E todo mundo ama que os amigos telefonem, mesmo ao meio-dia.

O primeiro que o atende diz-se ocupado. Não sairá de casa, porque o domingo vai bem. Honrando o posto que ocupa no rol dos amigos, o de ser o mais chato, ele está contente porque acordou com o estômago em ordem. Ele conta que foi cedo comer pastel na feira, e, pelo horário, não encontrou conhecido algum. Então comeu pastéis, bebeu caldo de cana, escolheu limões, laranjas, mamão papaia, peras e maçãs, só não comprou uma penca porque a banana-prata não estava bonita, estava feia e cara, pois. Pela promoção de levar dois pagando um, deu como imperdível o negócio dos óculos, que o punham feito agente em missão secreta; para o marreteiro, as lentes espelhadas o faziam um cupincha do Corleone, fera que encara carcamanos, dá tiro de Beretta e, por se enamorar da Cicciolina, até tromba a sua Lambretta.

O que o fulano não fala é que não pretende largar dos óculos, pois o banho de sol fá-lo sentir-se sereno, sossegado, já que não é tapado para saltar o domingo. Uma vez que o bem-estar não há de desaminá-lo, pô-lo para baixo, fazê-lo triste, a persuadi-lo de recriminar-se, já que não tem que se culpar ou inocentar-se pelo dia ensolarado, ele não há de responsabilizar-se pelo aquecimento do planeta, até porque, amigo, estes óculos são o bicho, vêm no estojo do jacaré original.

O segundo pede que apareça, pois é bem-vindo. Com lugar à mesa, diz que ele ligou na hora certa porque a família todinha já está à mesa; com a sogra radiante, feliz, ela não vê a hora de comer sua lasanha de rosbife com molho quatro queijos. Ele aproveite que é domingo e venha voando, não despreze o domingo vendo TV.

Então, toca o telefone.

O terceiro é justamente o beltrano que telefona pra que todo mundo goste que ele telefone. Ele diz que comerá um cachorro-quente. E todo mundo fica satisfeito com o cachorro da esquina. Todo mundo merece ficar longe de gente que fica agoniando por anistia, dosimetria, vive pra amofinar pela defesa autêntica da autocracia, pra nunca sair disso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de outubro de 2025.