terça-feira, 30 de setembro de 2025

Rebimboca

 

Rebimboca

 

Ligaram, pediram que fosse buscar o carro. Depois de quinze dias, que seriam cinco, ele tinha de buscá-lo, pois precisavam da vaga.

Deixaram-no a pé por uma semana a mais, isso porque o problema seria fácil de ser resolvido. Não avisaram que o atraso iria implicar nos quarenta por cento de acréscimo ao valor acertado.

Com o conserto feito, a conta fechada, o boleto tinha de ser quitado sem falta ou haveria juros.

Antes de devolvê-lo, o motor tinha de ser testado. Sem o transtorno de haver contenda, o serviço precisava passar pela prática. Aceleração e desaceleração, enfrentar ladeira íngreme, freada brusca para que um cão continuasse cruzando o caminho deste automóvel recém-saído da melhor oficina da cidade.

Ao dar a ignição, o mecânico virou a chave. Ligou novamente, pisou no acelerador, perguntou-lhe se também sentia. O ruído era magnífico, de coisa diferente. O perfeito funcionamento era esperado, mas aquela energia era distinta, incomparável, de uma profundidade intensamente positiva.

O senhor viverá alegrias que nem imagina, disse-lhe o homem, mas não tema e não desista, porque o trabalho realizado não o deixará pelo caminho, afiançou-lhe o homem.

Lentamente, saíram da oficina. Lentamente, contornaram a quadra. Deixando o motor ligado, o mecânico saiu do carro e, misteriosamente, olhou nos olhos da pessoa que haveria de pagar a conta pelo conserto e agradeceu-lhe, dizendo que nunca esqueceria aquele serviço, nunca mais seria o mesmo, pois sempre iria agradecê-lo pela felicidade de ter vislumbrado as conquistas a quem o escolheu tão somente para fazer algum reparo naquela máquina, mas o motor desta máquina...

ꟷ Na saúde e na doença, senhor, ele estará convosco.

Já que nunca lhe ocorrera, temeroso de que bebuns podiam impedir de chegar à lotérica, ele dirigiu como sendo a primeira vez, ainda que fosse mesmo a primeira vez em que pilotava esta máquina insondável, este bólido com poderes transcendentais.

Contudo, para que, pelo tanto de tempo que nem consiga mensurar, o motor transfigurado em fonte de maravilhas siga a impulsioná-lo pelo mundo sem que o flagrem encantado, ele se transforme, desentranhe-se na pessoa motorizada que não se preocupa somente dos bebuns e das senhorinhas, que o mova a alegria de pagar o boleto incrivelmente estimado.

A moça da lotérica disse que o carro tinha um não sei quê, algo que a fazia ter vontade de dirigi-lo. Que lhe seja permitido ir à praia. Ele não querendo acompanhá-la, que ele se ocupe do guichê. Ela sente haver um ímã a seduzi-la que vá por aí, que ela chegue a lugares que sequer conhece dos mapas, que nunca tenha ouvido falar, que sempre sonhou que existam porque a cachola dos poetas faz existirem.

De carona no espanto, o gênio brinca, bate biela, faz a persona, em ponto morto, girar a chave, entregar-se, amar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de setembro de 2025.

 

domingo, 28 de setembro de 2025

O melhor amigo do Anacleto

 

O melhor amigo do Anacleto

 

Está decidido, telefonarei assim que a raiva diminuir. É melhor ligar, pois não vou discutir com vendedor. Quero me acalmar, pois não gostei de ser ludibriado. Eu não compraria uma torneira que não dá rosca. Se me empurraram a melhor, Mariana, então, a torneira precisa valer cada centavinho que foi gasto.

Para não dar motivos que o ataquem como idiota, Adalberto segue o conselho. Entra no site da loja, procura a marca e o modelo. Certifica-se de que vendem na voltagem certa. Vê quanto vai lhe custar. Menos mal, por haver descoberto que terá direito à devolução.

Adalberto pensa no bom uso da diferença, pois tem aquela flâmula no caminho. Merece o mimo. Pagará com gosto. Com o time invicto há meses, anda tão feliz. Jogar em casa ou fora, são três pontos na certa. É justo que se premie, pois ele sabe que o caneco está no papo.

ꟷ Adalberto, amigão. Quer que instale a torneira? Coloco no lugar rapidinho. Daí a gente vai tomar cerveja. Pode ser?

Poderia; ele pôde.

Como todos os caminhos levam ao bar, estavam a caminho.

ꟷ Olha lá aquele cara. Faz com a mão que o viu. É o chato que faz o que a gente sabe que ele vai fazer. Você acena, ele buzina... Eu não falei? É batata, Adalberto.

A uma quadra do bar:

ꟷ Amigão, que sorte! Olha ali o chato que gosta que a gente acene. Por curiosidade, vamos ver o que ele vai fazer. Ficamos atrás dele até confirmar o que nós sabemos, que ele vai fingir que não nos vê. Então, a gente cumprimenta. Para ter certeza de que ele nem vai vir falar com a gente, vamos acenar de longe. Não duvide, Adalberto. O xarope vai acenar de volta só para não ficar feio. Mas nós não somos xaropes que nem ele. Assim, satisfeitos, nós dois vamos embora.

Sem lugar lá dentro, há mesas disponíveis na calçada.

Falam da festa em que se viram. Acham que a caçula do Valdo faz bem em ir para a França. Mesmo que a bolsa não dê pros vinhozinhos, ela só vai dançar tango no Arco do Triunfo se quiser salpicão de frango com alcaparras.

ꟷ O Anacleto fez pós em Paris. Ele falou pro Valdo que, faz poucos anos, sua filha também estudou lá. O Anacleto disse que o dinheiro da bolsa era o bastante pra pagar aluguel, almoçar em bistrô e ouvir missa na Notre-Dame.

Passa uma garota com um shin tzu. Vem outra garota com um lhasa apso. Tanto um como o segundo, os cãezinhos passam embonecados, ambos têm lacinho cor-de-rosa.

ꟷ O Anacleto sempre fala que a gente não deve fazer gracinha só porque uma garota passa com seu bichinho de estimação.

Estirado no sofá, com a cabeça no colo de Mariana, Adalberto pede sinceridade, que fale sem medo.

Será que, por acaso, ele não é do tipo de gente que só dá bom-dia a quem, primeiro, lhe dá bom-dia? Não seria bom se ouvisse quem tem bons conselhos?

ꟷ Quem?

ꟷ Quem sabe alguém como o Anacleto...

ꟷ Hein!! Você acha que terapia custa pouco?

Caríssimo Adalberto, o tal, sendo psiquiatra, não é barato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de setembro de 2025.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A explicação menos absurda

 

A explicação menos absurda

 

Era um ateu que comia miojo.

Que eu saiba muita gente come miojo, mas não conheço outro ateu que gostasse tanto de comer miojo, mesmo de bacon.

Para deixar de bobagem, o bom senso reza que eu admita que não conheço cristãos, e outros crentes, que agradeçam por miojo.

Sou grato a ele que tenha me ensinado a ter pressa. Não minto que me entusiasmo quando fico apressado. Mentira maior é o miojo não ter acompanhamento, vindo até mesmo sem salsicha. Miojo só miojo, para não passar um minuto, ou a gratidão se perderá, será blasfêmia.

Digo que não me furto a agir, afirmando-me ridículo, insolente. Mais iconoclasta, encanta-me salsicha sem nada, uma vez que salsicha com molho implica que a camiseta seja usada feito guardanapo.

Tenho quarenta e dois anos, sei o quanto me orgulha estufar o peito para dizer o quanto valorizo ter respingos na minha camiseta.

Não calculo quantos miojos já comi na vida e nunca contei quantas camisetas foram marcadas por molho. Mas, o que tenho na memória é o dia em que fui ao enterro daquele ateu comedor de miojo, porque foi então que descobri, pelo escrito na sua lápide, que ele era ateu graças a deus.

Além do mais, ele era ateu. Você e eu sabemos do que é capaz um ateu. Ateu é gente que espirra como se não comesse carne de porco. Como criança que escova os dentes, ateu urina antes de dormir. Ateu não atrasa o pagamento do cartão, parcela o restante das parcelas. E o mais impressionante: quando ajoelha, ateu arranca manjericão para melhorar o molho da salsicha.

Sei que o mundo está menos idiota depois desta minha percepção, que o mundo parece-me menos idiota porque a sepultura daquele ateu omite a revelação: aqui jaz um fanático de miojo, até de bacon.

Aquele ateu, tenho que falar dele. Não esconderei o assombro. Li o seu nome completo e assombrei-me. A sepultura deste ateu revela-me que o meu sobrenome vem do seu. Morto e enterrado, descubro que a sua e a minha vida têm entrelaçamentos.

Também como miojo, mas eu não como bacon. Também escovo os dentes antes de mijar, antes de deitar-me, antes de verificar que esteja ligado o despertador do celular.

Por que não urino no rio? Por que mijo no prato?

Ainda que eu pague o pato, lutarei pra distinguir a pessoa que come miojo de bacon, a pessoa que põe salsicha no molho de manjericão e a pessoa que estranha o convite para testemunhar o sepultamento de um desconhecido, alguém, outro beltrano chamado Amílcar.

Por coincidência, é Amílcar.

Até que o sobrenome acompanhe o nome, até que a frase na pedra estimule, até o estímulo trazer notícias desse mundo, até que acorde, urine e volte a deitar-se, pois amanhã será sexta-feira, não será outro sábado tão miserável.

Pelo relato, é pertinente dizer: sem ninguém sóbrio pra saber o quão alucinógeno o bicho é, este Amílcar só terá larica doze horas após ter lambido o sapo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de setembro de 2025.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Tome tento, Teobaldo

 

Tome tento, Teobaldo

 

Na parte dianteira do terreno em que está construída a minha casa, há um jardim. Neste jardim, faltam ipês. Eu queria um branco, um rosa e outro vermelho, mas o que cresce aí é um pinheirinho.

Este pinheiro não foi plantado por nenhum dos meus antepassados, quem o semeou, aguou e contou-lhe segredinhos foi um japonês.

Ele era realmente japonês, não por cultivar bonsais, comer sashimis e falar mansinho com as plantas, ele era nipônico pela intimidade com que tratava o sol nascente, considerando-o pai.

A razão para mencionar este amante da natureza é que ele plantou a maioria dos ipês da cidade, os quais, anualmente, desabrocham suas flores, encantando-nos a tantos de nós, pessoinhas que sabemos usar hashi de modo a dar na vista que somos panacas, não boçais.

Gosto de sentar na praça José Mendes, porque ela é pequena, sem sombra de árvore e, justamente, pouca gente vem ocupá-la. Sento-me e fico em silêncio, observando os passarinhos. Tranquiliza-me a mente observar os ipês bailando ao sabor da brisa. Gosto de ser tocado pela brisa da manhã, tanto ponho gosto que percebo a gentileza do solzinho no rosto, a sombrear na minha ideia: vem vindo a primavera.

Os ipês que não tenho em casa nem estão nesta praça dão colorido à Capitão Manoel de Oliveira Carvalho; plantados ao longo da avenida, os de plantio mais recente têm copas de densidade menor, os de maior porte têm galhos mais cheios; todos, ainda bem, são vida, dão alegria, tão contrastantes à geometria planejada das edificações.

É agradável vê-los ao vento, assim florescentes, me apraz a beleza, tanto é fascinante o movimento das flores que não me ocorre constatar que, por sobre os ombros, às costas, à minha direita, a parte morta da família segue sepultada, quiçá tal quinhão confraternize-se em paz.

Por haver poucos vivos que me chamam pelo nome, fico mouco.

Bebericando uma latinha, o amigo conta que esteve na festa de sete anos do neto. Ficou o quanto pôde. A patifaria começou quando pegou um espetinho. Só mesmo ele para ter esquecido que os coraçõezinhos eram pro sogro da filha. Viu a sogra da filha, quis saber se continuava a pintar. Só um canalha para ser tão insensível, já que a mãe do marido da filha tem Parkinson. Uma parente distante do marido da filha pediu que batesse uma foto, o celular tremeu. A filha tomou-lhe o celular, que fosse fazer o que melhor fazia, ele fosse beber cerveja. Ele foi, abriu a geladeira e abriu a latinha. O marido da filha fez o mesmo, e recostou-se na porta. Pra não virar bate-boca, tratou de ir pegar a carne que lhe dessem. Deram um pratinho com farofa e rodelas de linguiça. Queriam-no fora da festa, daí que não lhe serviram a linguiça inteira no pãozinho. Ficou óbvio. Panacas, não iria sorrir pra não arruinar a foto. Que gente bocó. É óbvio. Se os espertinhos não facilitam, tchau e bença.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de setembro de 2025.

domingo, 21 de setembro de 2025

O jeito certo

 

O jeito certo

 

Não aperto a pasta no meio. Custei a aprender, mas aprendi. Aperto o tubo de baixo para cima. Sempre que abro um tubo novo, aperto do lado oposto à saída do creme. Isso me desobriga de abaixar pra pegar o troço caído. Explico-me: como não enxugo as mãos depois que lavo o rosto, a pasta me escapa.

Eu poderia ter resolvido o problema há muito, mas não me angustia nem me traumatiza manter as mãos molhadas, é que simplificar minha vida me faz agir de um jeito que seja o mais rápido.

Já que eu tenho bolso sensível, nunca fui de usar, portanto não uso e logo não usarei, não uso duas toalhas de rosto por semana, uma vez que a máquina de lavar é limitada a onze quilos por lavagem.

Logo, é lógico que o problema não é comprar toalhas de rosto em dobro, assim como não é o valor da conta da luz, o drama é, no fundo por um acento tão mais dramático, estas costas torturarem-me.

De tanto abaixar para recuperar o que me escapole das mãos, vivo testando a flexibilidade dos nervos. Este teste permite a previsão mais emotiva do quanto, na próxima abaixada, a cachola me desnorteará.

Em perspectiva, o tubo precisa ser espremido para o dentifrício ser expelido sem desperdício, a máquina opere respeitando-se o limite da carga a ser limpa e a aprendizagem seja consequente, pois me idiotizo quando desvalorizo as distrações por serem proibitivas.

Se me tenho para o gasto, por que não vou me agastar?

Sinto a facada fulminante que vem do sorrisinho da repositora, pois as iscas de barata, por tanto precisá-las, me leva a encurvar a espinha, porque as cobiçadas ficam na parte inferior da gôndola.

Por me pavonear tal qual a Mona Lisa, retribuo o sorriso. Pela graça de tomar o sorriso feito espelho a resplandecer a pilhéria alheia, minha Mona Lisa sorri. Por essa Mona Lisa desembaraçada, sorrimos.

A que nível o Deus de Espinosa influenciará minha cachola a raspar em sentido horário a casca da mandioquinha?

Raspo a mandioquinha, pois escolhi ter escondidinho no almoço.

E aqui me encasqueto: colocarei o feijão debaixo do arroz ou ponho o arroz debaixo do feijão?

Quando compro marmitex, quero fritas, abobrinha refogada e filé à parmegiana, ou, às vezes, picadinho, mas o feijão vem embaixo.

Dificilmente peço peixe à milanesa ou ensopado, porque não como peixe nem quando eu o pesco.

Quando a pescaria rende, dou as tilápias, os lambaris e os carás a quem goste, precise, nem titubeie de assá-los, ensopá-los, fritá-los.

Sem atropelos à relatividade de Einstein, eureca!

Que coincidência chegar ao instante de comer. E que eu seja rápido ou o prato esfriará.

Esfriando a comida, a digestão será complicada, pois o meu gênio sabe ser lastimável. Eu azedo, dou patadas e não cochilarei assistindo a documentário sobre a fase rosa de Picasso.

Sem firula: o negócio é o feijão e o arroz ficarem lado a lado ou eu comer só o escondidinho?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de setembro de 2025.


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Bola fora

 

Bola fora

 

Se vejo nas tiras do Minas frescal as bandeirolas de Volpi, dou por coisa de mané fotografar o pão coberto pelos retângulos do queijo, mas a beleza quer prevalecer e eu, comovido à vaidade, dou o clique.

O sentimento de ter cometido um deslize pesa na consciência deste bobão, uma vez que convivo com poucos que enfrentam uma realidade difícil.

Comendo meu sanduíche, penso nessa gente que dá vida a um dia a dia sombrio. Bebendo o meu café, lamento que essa gente nem saiba o quão danoso é este cotidiano que lhes vampiriza o suor.

Assistindo à TV, vejo gente passando fome, sobrevivendo debaixo de viaduto, acreditando que a vida deve ser bem mais penosa a legiões que nem aparecem na TV.

Confiando que faço o que dá, certo de que nem sempre faço o que posso, sem desistir de melhorar-me pelo que me seja possível, termino o meu café.

Com a cafeína agindo na mente, vejo claramente que levanto cedo, trabalho, como grelhados, compro livros para o tempo compadecer-se da minha insignificância, durmo logo, sem sobressaltos, porque a pílula que tomo tem o poder de me fazer capotar bonitinho.

Babo no travesseiro, ronco, não calculo como os sonhos colaboram para a minha recuperação, desperto com o cocoricó do celular, acordo, novamente e outra vez, com vontade de cortar as fatias do frescal que me seduzam às bandeirolas do Volpi.

Faria diferente se fosse outra pessoa?

Para ser quem não sou, leio, e convivo com personagens, incorporo tensões, vibro nas altercações, tomo água. Sigo na leitura mesmo que, páginas à frente, a boca torne a secar. Sim, Antígona, não a repudiarei, pois, outra vez contigo e de novo comigo, continuarei na caverna.

A caverna onde vivo tem ducha de água morna, tem faca inoxidável, tem travesseiro antialérgico. Para não fugir de quem sou, banho-me na ducha morna e cuspo a mordida estragada da maçã.

Ainda que ainda esteja um breu, danado feito o cão, abro os olhos, e conto com que a ansiedade me auxilie a controlar-me.

Não hesitarei! O pé direito primeiro? Não sou supersticioso! Todavia o pé esquerdo para mostrar-me resoluto?

Faz bem comprometer-me comigo, pois abrir os olhos não basta. É gostoso espreguiçar-me. Convém apoderar-me dos pés. Não me quero desequilibrado. Para que ambos toquem simultaneamente o tapetinho, coordeno as coxas, os joelhos e meus pés.

Sentado na cama, tomo siso da situação: vejo os dois pés pisando o chão, estou convicto de que poderei levantar aprumado, acautelado, seguro de que levantarei sem me precipitar, estou certo de que ligarei a TV só depois de ter adoçado o café e feito meu sanduíche.

Mesmo que não movimente um neurônio a favor da paz universal, deixo a cama, ponho todo meu peso nas plantas dos pés, dou comigo, todavia, a tombar de queixo, que dói e sangra.

Por mil diabos! Por mil diabos!

Por que, logo agora, eu me fiz ter uma tamanha câimbra?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de setembro de 2025.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Sem laranjada

 

Sem laranjada

 

Hoje, como ontem, é um dia frio, garoento, de pouca gente na rua, é dia em que os vira-latas também preferem ficar entocados, sumidos. Hoje é dia para recolhimento, para cobrir-se, para um café passado na hora, para a pipoca que faltou ontem.

Pensando bem, hoje é um dia para a cabeça dispensar avisos. Sem pôr a água no fogo e sem medir o pó, sem pegar o milho para pô-lo na panela, nada de ligar o gás, pois pensar-se enfarado é cansar-se.

Ainda mais que hoje é segunda-feira. É uma segunda-feira fria, com a língua do frio falando suas intermitências. Querer entendê-las? Até a vontade de refletir sobre os intervalos, sobre as intermitências, também ela é cansativa. Ainda que o vento estabeleça padrões, cansa querê-lo traduzido. Que o vento passe, o vento venha e que seja possível vê-lo vindo e passando, que as folhas tremeliquem. Quando lambida pelo frio que passa, qualquer árvore enregela-se toda.

Mesmo frio e garoento, é dia da padroeira, é dia de Nossa Senhora das Dores, é dia para recusar cansaços, todos, não apenas os esforços vãos, os tédios cabotinos, que hoje seja dia pra tomá-lo bem como ele se apresenta.

Sem desânimos que chateiem, seja bom, ótimo, seja um excelente dia para entender-se na rede, porque, sem misticismos que modorrem, é auspicioso entender-se vão e entediado, é razoável que se indique o quanto é conveniente tirar a sesta. Mas o ajuizado capture o alerta dos pelos eriçados: saudável é quedar-se no quentinho do sofá.

Hoje é dia de Nossa Senhora das Dores. Quando é feriado, o tédio é desculpa. Eu sequer vou à lavanderia. Muito me entristeceria dar com o cesto cheio. Me aborreceria a ideia de lavar roupa. Desincumbo-me das tarefas. Abdico-me de dar banho nos cachorros. Não vou varrer a varanda e não vou deitar-me na rede. Ainda, não vou acender vela.

Mal saio à rua, uma vez que Dona Cremilda ligou convidando para almoçar, uma varetona cenoura de bermuda, camiseta regata e óculos espelhados troca um picolé por dois reais.

Se o picolé não fosse de limão, eu teria dois reais trocados.

Indo para a casa de Dona Cremilda, sem lenço e sem carteira, levo no bolso mais de um quilo de moedas.

Peguei uns punhados da caixa de sapato que nem tampa tem, quiçá uns vinte reais em moedinhas de cinco e dez centavos, peguei-as para pagar as laranjas que darão a laranjada.

Enquanto ando, ainda que me pesem no bolso, alegra-me a música que elas fazem, uma vez que aquele tilintar tem ritmo, dita o meu ritmo, me faz andar satisfeito.

E nem sei de onde vem, mas sinto uma ânsia esquisita. Quero mais moedas. Preciso ter os dois bolsos carregados.

Entristeço-me, que tenho apenas um bolso carregado. Triste e sem apetite, não erro nem quero errar por aí.

Fora da vista de quem passa, entro num boteco.

Embora não esteja nem lambido nem mordido, chuparei o picolé de limão, chupá-lo-ei tranquilo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de setembro de 2025.

domingo, 14 de setembro de 2025

Presunções

 

Presunções

 

Oito horas, mal a funcionária senta-se na cadeira, toca o telefone:

ꟷ Alô, a minha mãe está?

ꟷ Meu querido, qual é o nome da sua mamãe?

ꟷ Dona, o nome dela é Samara.

ꟷ Não tem ninguém aqui que se chama Samara, meu anjo.

ꟷ Então tá, muito obrigado. Tchau, moça.

Oito e dez, a sensata engole o gole de café:

ꟷ Alô, pode me dizer se a Samara já chegou?

ꟷ Não, garoto, até agora nenhuma Samara chegou.

ꟷ É que a minha mãe esqueceu o celular dela. Obrigado. Tchau.

Oito e quinze, a educada é obrigada a engolir outro gole do café:

ꟷ Bom dia! Você pode me informar se a Samara já chegou?

ꟷ Bom dia é o cacete! Não tem nenhuma Samara que trabalha aqui, senhora. Se não sabe, a senhora fique sabendo: trote é crime!

Oito e quinze, ainda, o café nem chegou à boca da moça irritada:

ꟷ Bom dia, novamente. Não desligue o telefone na minha cara outra vez. Por gentileza, posso saber com quem eu estou falando?

ꟷ Meu nome é Patrícia, por quê? Vai querer me ver gritar contigo?

ꟷ Patrícia, eu procuro a Samara porque ela é a nova gerente.

ꟷ Então, por acaso, você trabalha com a gente aqui na nossa firma?

ꟷ Além de trabalhar aí, Patrícia, quem contratou a Samara fui eu, e eu lhe digo o porquê. É porque, Patrícia, você trabalha pra mim.

 

*********

 

ꟷ Vamos ao olho clínico do Repórter Aéreo. E quem fala ao vivo a bordo do nosso helicóptero é Flávio Alves. E aí, amigo, conta pra gente, como anda o trânsito aí pelas imediações do festival?

ꟷ Como os assinantes podem imaginar, Ana, o fluxo é pesado, pois a principal saída da área está entupida, com os moradores fugindo da banda de metal, cujo vocalista, Cristo Altíssimo!, acabou de começar a se esgoelar lá em cima do palco. Me libera disso daqui, Ana!

 

*********

 

ꟷ Caramba, amigo, o que você fez para o seu rosto estar vermelho?

ꟷ Eu não fiz nenhuma extravagância, amiga. Só fiz a barba.

ꟷ Ele está cheio de bolinhas... Por acaso, fez com uma faca?

ꟷ Não, não, nada disso. É que sou alérgico a níquel.

ꟷ Níquel? Caraca, amigo! Quem falou pra usar gilete de níquel?

ꟷ A lâmina é inoxidável, mas o níquel é usado para afiar o aço.

ꟷ Sei não, amigo. Pra mim, isso deve ser coisa de velho.

ꟷ Pois é, amiga, devo ser velho desde os meus dezoito anos.

ꟷ Que engraçadinho você é, hein?

ꟷ Olha, tenho uma coisa engraçada sobre minha alergia. Por conta do rosto ficar vermelho, queimando, empipocado toda vez que eu fazia a barba, precisei ir me consultar com uma dermatologista.

ꟷ Ela te revelou que existe aparelho pra pele sensível? Bingo!

ꟷ Não. Ela receitou creme e, pra tomar, um antialérgico.

ꟷ Amigo, que médica mais chatinha.

ꟷ Pachorrento fui eu, amiga, uma vez que meti na ficha do cadastro que a minha profissão era, veja só, que eu era... escritor.

ꟷ Lamento te decepcionar, amigo, mas você é escritor.

ꟷ Naquela época, eu não tinha nada escrito. Hoje, já que eu tenho crônicas publicadas, eu não erraria se preenchesse: escrevinhador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de setembro de 2025.