Com a luminosidade do meio-dia atrapalhando
que eu visse TV, era pra puxar a cortina, mas o que mais prejudicava encarar-me
era pensar na festa que eu dei ontem, fechei o vidro.
Normalmente, considero imperativo e
inegociável tirar o domingo só para passear com os cachorros, escutar música,
sentar na varanda se vem gente falar de alegrias alcançadas e alegrias por
alcançar.
Considerado, domingo é dia pra humanidade
ficar cindida entre as pessoas que, sem deixar descarregado o celular, se alegram
do estado da arte e gente que, ainda que nem se perceba alegre, reclama de ter
os braços exauridos pelo tanto a que se entrega.
Gente da minha laia, considerado, não
esquenta que o céu desabe na cabeça, pois havendo um galo, gelo nele.
Só alegrinho confesso gostar de assistir
quem se lamenta; às vezes me esforço para não rir, às vezes vem o riso
descontrair.
Considerado, me julgue como bem você me
compreenda, pois isso a mim não me convencerá a mudar de opinião, que é
divertido assistir à humanidade que luta para salvar-se, curar-se, remediar-se.
São fascinantes os garranchos que
balconistas não têm dificuldade alguma em materializar em ansiolítico, sonífero
ou antidepressivo?
Uma festa tem momentos que a minha mente
precisa e não precisa experimentar, mas uma festança me faz extrapolar.
Antes da festa, horas antes do início da
festa, veio uma amiga que nem previa que viesse, pois mal me lembrava que a
conhecia.
E ela chegou preparada: trouxe vinho e
uma boca disposta a beber comigo o quanto eu quisesse.
Já que chegou cedo, ela viu que eu ainda
nem tinha arrumado nada. Ela entendeu que sua visita deu-se em momento
oportuno, porque me ajudaria a manter tudo desarrumado.
Não deixamos o tapete da sala nas
condições anteriores à segunda taça de vinho. Não fechamos a cortina da sala
como seria apropriado que o fizéssemos. Não paramos de não fazer nada que uma
visita não tinha que fazer, porque eu não previra, afinal, aquela visita.
Rapidinho eu entendi o propósito do
conhecimento que passaria a ter quando o domingo deixasse de ser domingo.
Era domingo. Era o melhor dia da semana
pra se deixar ser ajudado por uma pessoa disposta a beber vinho, pôr fogo na
churrasqueira, pôr a carne na grelha, virar a carne para não ser queimada,
cantar, dançar, rir de piada engraçada e rir de quem não sabe ser engraçado.
Domingo foi mesmo ontem, e isso não
tenho como negar; é melhor que eu reconheça que a festa acabou, até porque o
copo transbordar com a torneirinha do filtro ainda aberta é evidência de que água
é boa para fazer a gente concordar que ontem foi bom, foi divertido, foi aquilo
que eu nem contava.
Rapidinho, portanto, digo que hoje é
segunda, digo que o sol brilha porque hoje o papo pode ser outro, até porque a
visita segue disposta a prosseguir visitante, na sua mais que bem-vinda
visitação.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de maio de 2025.