quinta-feira, 17 de abril de 2025

História mal contada

 

História mal contada

 

O menino mau que dizia inverdades como se soubesse muito bem que soltava boatos que poderiam conspurcar o lídimo nome da família, mas, por haver maldade, o menino acusava de marcar lataria de carro o eterno bobão, que, em momento e lugar errados, sempre há de tomar pra si o mérito de avacalhações legitimamente degradantes.

Como o cronista não é menino mau que repassa o ônus a quaisquer incautos que, em momento e lugar apropriados, nem percebem o quanto sentimentos podem ser manipulados, esfrego a lâmpada.

Alladin, lustro-a com cuspe até que fique antipático bandear-se para o bando dos quarenta golpistas a saquear a caserna de Sésamo.

Gênio, não se atirem os melhores desejos pelas entrelinhas, porque nunca faltará quem conte e reconte as trinta moedas, beije o ombro de Pedro e, por último mas não de somenos importância, mande um salve à galera que sabe, como ninguém, o quanto viver é cabuloso.

A chave do tolo, meu bom José, é a história sendo remontada: com is subtraídos aos pingos, merluza salgada como bacalhau e convites pra festa quando há a obrigação de sentenciá-la transitada.

Embora o escriba escolha o deboche com uma pitada de fel, Alladin, Gênio e bom José, vocês não fujam da trama em tapete mágico.

Em 1969, meses antes de completar seis anos, ao guri deste causo veio aquele momento em que o banheiro se revelou o lugar certo para suas necessidades; sentado no vaso, ele urinou e defecou.

No ano em que o homem pisou na Lua, como ao garoto deste causo faltou papel depois de excretados os seus excrementos, ele foi pedir à professora que o ajudasse a se limpar.

No ano em que João Saldanha era o técnico da seleção, o canário deste causo achou de cantar com as calças arriadas, assim, provando que uma bunda de fora é impactante, seus colegas riram.

Como agente hilariante, este escrevinhador escolhe enveredar pelo riso, pois chorar faz a pessoa ficar cabisbaixa, além de seduzi-la a ficar deprê, até porque, por desfaçatez, isso é vendido como coisa de gente com neurônios empoderados, um bônus da modernidade.

Uma vez que este escriba detém o direito de usar o poder como lhe apraz, já que ainda acha graça naquele riso de 1969, este provinciano opta pela conveniência de não tomar cré por lé.

Quero crer que o auge de uma festa de aniversário seja o instante de fazer um pedido. Convicto de que o pedido será atendido desde que nenhuma velinha reste acesa, sopra-se de uma vez. Sabendo que falar atrapalha que aconteça, o aniversariante precisa calar-se sobre o que tenha desejado.

Como este narrador não sopra velinhas, resolvo temer o inferno.

E temo que as labaredas do fogo eterno lambam o lombo de gente que nem percebe o calor que suplica que vá arder na carcaça da gente que odeia e quer ver morta.

Todavia, é por arvorar-se armada perante o inimigo que a palavra vomitada volta pela goela.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de abril de 2025.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A escola da vida

 

A escola da vida

 

Ontem não trabalhei e não ouvi críticas pelo dia sem pegar do lápis para escrevinhar uma linhazinha que fosse.

Apesar de ter ido a médico, feito exame ergométrico, aguardado os relatos sobre a consulta e a atuação na esteira, não gravei o meu nome no coração petrificado pelas agonias do autoconhecimento nem pelejei comigo para eu manter o fôlego da sobriedade.

Embriagou-me o riso, o riso natural em quem tira sarro de tudo.

Mesmo que me censurassem pela vagabundagem em pleno dia útil, passei o dia zombando, comparando, gargalhando.

Tanto zombei, comparei e gargalhei que o caminhão do lixo veio e foi embora sem que os sacos da minha casa tomassem a iniciativa de persuadirem a dar cabo daquele cheirinho.

Dona Cremilda, Luisinho e eu zanzamos pelo vasto mundo que há entre São Roque e Ibiúna, o que bem nos divertiu, contentou e fez rir, e rimos, rimos feito crianças, que fomos crianças sexagenárias, essas que sabem ser, ai ai humildade, encantadoras.

Luisinho lembrou-se do garotinho no colo da avó. Por certo foi num domingo que foi levado à casa da avó, uma casa tão calma.

Sem estardalhaço, em sintonia com olhos azuis tão calmos, a lenha queimava.

E tanto era sereno esse olhar que o arroz, a batata e o frango não tinham sal nem precisaram ser soprados pela quentura.

Luisinho conheceu aquela calma e nunca mais a encontrou. Ele se recorda bem da serenidade, daquele recanto afetuoso no colo da avó, ainda que tenha sido abrigado naquele sossego quando não devia ter mais que três ou quatro anos.

Dona Cremilda também devia ter menos que cinco anos quando se escondeu na escada dos fundos na casa dos pais.

Mesmo com o pai chamando, gritando que aparecesse, soube ficar quieta, soube ser capaz de domar-se, foi habilidosa ao dobrar-se sobre si ― entre um degrau e outro, com testa e joelhos se tocando, era um feto naquele vão, como os olhos do pai não eram ultrassônicos, estava invisível, ninguém podia alcançá-la.

Dona Cremilda riu, uma vez que a sua memória tinha dessas falhas, tinha fissuras por onde a imaginação extraía pepitas e diamantes, pois aquela escada sempre fora fechada.

Depois de décadas, muito embora pudesse reformá-la quando bem quisesse, coisíssima nenhuma que, entre um degrau e outro, houvesse vãos na escada dos fundos da casa dos seus pais.

Feito cão que se esforça e não desiste apesar do esforço, reconheci a mão que atira gravetos em vez de pedras, eu resolvi contar qual era a minha mais remota recordação.

Eu devia ter uns três anos, porque eu não tinha força suficiente para segurar a vara. Os meus avós maternos e a nossa família fomos pescar na represa. Embora fosse num domingo, ou meu pai não viria conosco, a babá que tomava conta de mim ajudou a tirar da água aquele bicho cheio de patas. Abri um berreiro, pois o primeiro peixe que pesquei na vida não era peixe, era caranguejo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2025.

domingo, 13 de abril de 2025

República 24 horas

 

República 24 horas

 

Dar uma volta, é domingo. Espraiar a cabeça, nem ir fazer compras. Esquecer o corpo escangalhado, mas não abusar da cabeça, sequer suspirar por uma passadinha no banco, pra torcer pelo azul do extrato. Sem que a coxa ache de doer, abusar dos passos lentos. Sem suspirar por um jogo bom na TV, ir por aí, levitando. Ir à feira, levitando, ir comer pastel, sem vergonha, ir tomar refri gelado. Ir. Ir sem culpa, sem que o dente doa por causa do refri gelado. Bom é intuir que o quadril tolerará o vagaroso da caminhada, pois o corpo doer não tem nada a ver. Vagar ao léu das besteiragens, sem temer pelo estado democrático de direito, pois domingo é dia de sujeitar-se à cabeça, sem comandá-la. Se o ego boia a esmo, vai flutuando, segue indo de papo furado em papo furado, isso é dar folga ao ego, e isso é bom.

Pois sim, camarada, de vez em quando é bom tirar uma folga de si mesmo. Sim, gente boa, é supimpa aproveitar o dia, tratar do que o dia indica que seja tratado. Tenha esse cuidado, simpatia, adivinhe o quão maravilhoso é poder anistiar-se.

O melhor amigo do estado democrático de direito é o democrata, só que não é um democrata qualquer, não é somente aquele cidadão que pesa as consequências do que faz, não é apenas o eleitor que escolhe quem há de representá-lo com dignidade, probidade e discernimento, é pessoa que não confunde direita com destra, esquerdo com sinistro, o alto com elite, o baixo com popular, benefício com a trapaça.

Então, só minta porque sente que precisa, sem precisar.

Quando encontrar-se com aquele coitado que foi ao dentista, finja que o condói o sofrimento, invente que é solidário, ainda que ele fale que as injeções não amorteceram como deviam, sim, tem esse porém, que o plano não cobre essa terceira dose necessária.

― Caraca! Tratar o canal sem a devida anistia?

Camarada bom de cabeça até num domingo, quando o tratamento não tem como acabar bem, nem que se queira que melhore de algum jeito, diga que a coisa tá feia, diga ter esse desejo até sem vontade de desejar, concorde que é normal ter enxaqueca que convém apagar a luz, virar de lado, roncar que até pareça verdadezinha batuta.

― Caraca! Sexta-feira sem a tão esperada anistia?

Tanto bate a enxaqueca que o amor não resiste, pois água tem que correr solta ou tem que ser represada, segundo a oportunidade.

― Putz! Água fria não faz gelo mais fácil de ser anistiado.

Mas hoje é domingo, é dia de ir à missa, é dia de confessar ao padre os pecados que traz na ponta da língua, é dia de admitir que só pecou porque pecar faz bem pra mente, diminui o estresse e facilita a obra de Deus, que é anistiar o devoto sincero que só mente para livrar a própria cara, não a de outros pecadores e das demais pecadoras.

Todavia, não é inteligente pegar travessa de mão única?

― Meia hora é 400,00; uma hora é mil.

Carambolas! Truco! Seis! Queira a anistia completa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de abril de 2025.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Uma visita muito viva

 

Uma visita muito viva

 

Ao abrir a porta, o cheiro era de café acabado de passar. O segundo estranhamento foi arrepiar-se pelo ar em temperatura muitíssimo mais baixa que os quinze ou dezesseis graus da rua. Bem fez em sentir que havia coisa errada, tinha um desconhecido na sua poltrona.

― Quer pipoca?

Sem resposta, o senhor sentado tirou o chapéu, coçou o cocuruto, os dedos foram pente, cobriu-se outra vez; olhou-o, coçou o queixo.

― Gente bêbada que nem você não tem frio?

Não tinha como estar com frio, usava coturno. Os fios de barba não estavam eriçados, até se lembrou do abóbora das meias. Incomodado com a observação despropositada, enfiou as mãos nos bolsos, porque não sentia frio algum. Vestia camiseta de mangas longas sobre outra, de mangas curtas. O suéter de lã estava sob a jaqueta de couro, cujos botões não a fechavam, deixando exposto o gogó.

― Você acredita que pode dominar a empolgação?

Ao encará-lo por mais de um segundo, o sujeito sumiu.

Efeito da barriga vazia, certamente. Mesmo que o olhar vidrado de mais de um segundo indicasse o tanto de hidrofobia, uma pessoa com chapéu não se desmaterializa. O chapéu haveria de restar, ainda mais sendo um típico chapéu de pescador, rústico, de palha, aba grande.

― Pensa que lhe fiz um agrado ao coar o café?

O barulho vinha da cozinha, era de micro-ondas ligado; tinha o som dos segundos regredindo, o do prato rodando, o da pipoca estourando dentro do saco.

― Cachaceiro acha melhor não comer nada?

Deu a descarga. Olhou-se no espelho do armarinho. Apertou na pia o tubo de pasta, jogou o tubo pelo vitrô; um cachorro latiu. Na verdade, a realidade ainda vigorava. Urinou na mão, e o mijo era quente.

― Você jura que a vida não é nenhum pesadelo?

O que viu no espelho era coisa de alucinado: o homem tinha topete; o chapéu sumira; o topete era abóbora; o chapéu nem virou fumaça.

― Vai resistir a um golinho de bourbon?

O cheiro era de fio queimado. Tinha que achar o que estava dando curto. A prioridade era acabar com o curto. Tinha que evitar que a casa pegasse fogo. A prioridade era desligar o ar condicionado. O cheiro era nauseante, era mesmo de revirar o estômago.

― Num gole, consegue matar o copo desse uísque?

Deu a descarga. Lavou a boca. Gargarejou. Enxaguou a boca. Sem antisséptico para jogar pelo vitrô, escarrou; o cachorro latiu.

― Tem a audácia de recusar café e pipoca?

Acende o abajur. Olha embaixo da cama. O homem de topete está deitado de costas, tem as mãos cruzadas sobre o peito.

Apaga o abajur. Sente algo esquisito. O chapéu do homem deitado de mãos cruzadas sobre o peito veio parar na sua cabeça, o que o faz sentir-se leve, pois a bebedeira o faz querer dormir de chapéu.

Com o homem debaixo da cama roncando, fica comprovado que o universo do sonho comunica-se com a realidade, ou a cachorrada da vizinhança estaria latindo para venezianas e vitrôs fechados.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de abril de 2025.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Um fujão

 

Um fujão

 

Passava das duas quando ouvi a campainha. Num instante, lembrei que campainha não toca sozinha. Este estúpido demorou um instante para relacionar o dedo que pressionou o botão e o som da campainha. Estupidamente sonado, vi que eram duas e vinte.

Não quis pular da cama, principalmente àquela hora, com o din-don, pelas repetidas vezes que tive de escutar esse som, fui forçado a ir ver quem estava à porta.

Às duas e vinte, tinha de ter motivo forte, que fosse questão de vida ou morte, que a briga de marido e mulher tivesse virado caso de polícia, que houvesse desespero, sangue e lágrimas.

Se vieram pelo absurdo de querer enxugar lágrimas às duas e vinte, pegaria um lenço para amordaçar, entupir a boca, tornar surdo o choro, sufocar, iria matar se fosse a última opção, pois eu contava sonhar até o céu trazer o sol, que não era feriado, que seria outra segunda-feira, que enfrentaria outra jornada de oito horas de trabalho.

À porta, a Ciça veio pedir que a acudisse.

A Ciça disse que era uma emergência. A Ciça disse, pois a tragédia estava ocorrendo. O Dado nem molhou a boca com o leite. Não devia ser pelo futebol mostrado na TV. O Dado sumiu da poltrona por causa de outra coisa, não foi pela falta de gols. A Ciça não ouviu o ruído que pudesse ter atraído o Dado. Algo gravíssimo devia estar acontecendo; pro Dado sumir assim, tão súbito, só havendo uma tragédia.

Senhora, o problema é que não sou médico, e jamais rezei ao anjo da guarda que me concedesse a oportunidade de socorrer uma pessoa padecendo de algo tão grave, seja derrame ou ataque cardíaco.

Senhora, embora possa me compadecer dessa luta contra a morte, ainda que se chame Dado a qualquer hora, permita-me a sinceridade: embora soe escandalosa a recusa, muito embora a senhora chame-se Ciça que nem a minha avó, não abrirei a porta nem mesmo às duas e vinte. Sequer a senhora falando de si como se eu a conhecesse. Ainda que eu continue acreditando que a senhora é movida pela verdade que a senhora apregoa ser realmente verdadeira, pois, muito bem, eu não abrirei a porta nem me mostrarei desarmado, que nunca o faço às duas e vinte, nem que fosse para amanhecer domingo.

A Ciça que se apresentou como Ciça e eu que nem me dispus abrir a porta pra revelar as minhas mãos nuas, ambos fomos surpreendidos por um dálmata que passou correndo, fugindo de uns gatos.

Passaram o cão chamado Dado e aquela gata com seus filhotes, e, óbvio, a Ciça disparou atrás, pra salvar seu bichinho desses gatos, que pareciam raivosos, animais endemoniados, tanto que espumavam, se não fossem possessos, não miariam como bestas.

Os outros não me viram pé ante pé, mas ninguém ter visto não me deixou menos nervoso, pois a estabanada correr pela rua não diminuiu a tensão.

Convenhamos, eu não devia ter aberto a porta às duas e vinte, nem a qualquer hora, uma vez que eu vibrava, resfriadíssimo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de abril de 2025.

domingo, 6 de abril de 2025

Aquele truque

 

Aquele truque

 

Mal apresentaram a proposta, o mais articulado dos apressadinhos, reputado gênio, foi logo negando que a sua ideia estivesse pronta; por hábito desse humilde criador, ela foi dita como esboço a ser trabalhado pelo grupo, pois ele, a destacá-lo como o mais modesto dos criadores, era apenas mais um membro criativo na equipe de criação.

Ouviram-no. Entreolharam-se.

Pelas palavras terem soado ajustadas, próprias à reputação de ser pessoa genial, a ideia foi tomada como boa, muito boa, ela merecendo, aliás, ser chancelada ideia excelente.

Certa da vergonha a tocá-la, por acaso amuada, a segunda pessoa mais articulada era também a mais reativa; diante da condescendência de sempre nesses olhares, tendo em vista que à segunda pessoa não convinha confirmar a personalidade aceita como evidente, a segunda ideia poderia ser ridícula, o mais que alcançasse fazê-la ridícula.

Sendo uma pessoa pouco dada a gracejos, a sua ideia fez rir e toda gente riu-se, pois era ideia inesperada, era muito mesmo.

A primeira pessoa que teve a primeira ideia foi a primeira a abraçar a segunda pessoa, pois a segunda pessoa foi a primeira pessoa a fazer rir todo mundo que estava na reunião, e isso era sensacional, uma vez que a primeira pessoa, tanto quanto as demais, foi surpreendida pela primeira ideia incontestavelmente ridícula.

Mesmo sendo uma segunda ideia, tomaram como a primeira a ser desenvolvida, esmiuçada, reelaborada, examinada uma, duas, tantas vezes quanto fossem necessárias, até pararem de rir.

Depois de tanto riso por compreendê-la ridícula, sem ninguém a se sentir propenso a rir-se ao ouvi-la, a segunda ideia foi declarada como sendo uma terceira ideia.

A sério, ouviram-na. A sério, entreolharam-se.

A primeira pessoa que teve a primeira ideia sentia-se incomodada, porque ela queria que o debate criativo fosse retomado.

A primeira pessoa trocou as palavras da terceira ideia, para que ela fosse deixada atrás, para que soasse tão ridícula como a segunda ideia, sem que ela, a terceira ideia sob roupagem nova, fosse tomada como uma volta à segunda ideia, ambas sendo ridículas.

A primeira pessoa queria que ouvissem a terceira ideia como sendo uma quarta. Portanto, debatessem-na rindo, zombando das palavras, ridicularizando, sem meandros ou à deriva, já que ideias puxam ideias, bem como a graça faz rir.

Rindo, não se compreenderam menos aflitos nem mais felizes.

A quarta ideia não era a segunda em outras vestimentas?

Sem cortarem o riso, a precisarem reprimir as aflições, as pessoas reunidas concluíram que uma quinta ideia surgiria.

Ágil para achar pomba na cachola, o idiota desencantou.

De imediato, percebendo-a maravilhosamente ridícula, todo mundo ficou eufórico, porque o bico, as penas, as asas, os arrulhos e as fezes faziam a quinta ideia ser bem a primeira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de abril de 2025.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Em defesa dos anunciantes

 

Em defesa dos anunciantes

 

Encontro o sumido.

Nem somei que fossem quinze dias sem que papeássemos; ele tem o número exato porque há uma quinzena sentiu uma agulhada no lado esquerdo da cabeça.

A principal sequela daquela ferroada foram as tonturas.

Desde então, tem tontura ao levantar-se, percebe, mesmo deitado, o mundo girando, sente o medo medonho de cair sem sequer se mexer pra se avaliar, deliberadamente.

Ao fim e ao cabo, o melhor foi manter-se distante das provocações com que, a torto e a direito, a realidade lhe faz ranger os dentes, calçar tênis sem cadarço e controlar ansiosamente os resultados dos exames que a clínica geral e o cardiologista acharam por bem que os fizesse, uma vez que, de qualquer jeito, teria de fazê-los.

Pelo lado bom, dispomos de uma quinzena de opiniões represadas nestas nossas cacholas diuturnamente fertilizadas por uma carrada de soberbos acontecimentos.

Escancararíamos as nossas bocas pra escarrarmos cravos fétidos, crisântemos sórdidos ou girassóis repugnantes?

Para não nos apresentarmos tão cafonas, o mundo existe.

Como imagem bem trabalhada desse veículo ao universo civilizado, a digníssima estava pundonorosamente uniformizada, metodicamente gentil, admiravelmente bela.

Para meu assombro, a jovem disse bom-dia, perguntou se desejaria saborear o creme trufado que recheia o ovo de Páscoa, cuja logomarca da empresa estampa encantadoramente a camiseta, e, mesmo depois da negativa formalmente automática, tornou a dizer bom-dia.

Para não sermos bovinamente mecânicos, a beleza sabe se postar como algo sagrado, escoiceante, um soco no estômago.

Como imagem bem modelada desse estado de encantamento, eis a mulher bonita que me faz crer que a vida fica tão maravilhosa, desde que eu ame chocolate.

Obrigado, não tenho filha nem namorada.

Obrigado, sou solteiro que não passa batom.

Mesmo que chocolate provoque bem-estar que tende à felicidade, embora dispense cosméticos, muitíssimo obrigado por sugerir...

Lê-se na blusinha: CHOCOLATE É AMOR.

Pelo lado da maldade, se abusasse de coisa que me enfurecesse, fizesse espumar, levasse a detonar relógio, espatifar espelhos, destruir poltronas, eu não desculparia, perdoaria, nem clamaria por anistia.

Amo chocolate, e respeito o poder de sedução de quem tenta me convencer, mas, mocinha boa de lábia, não induzirei alérgicos a passar batom do que seja.

De modo cristalino: é tranquilo dizer que, nem em Brasília nem aqui, eu jamais batalhei por algum golpe de estado.

Poupe a garganta, ranrã pelo ar terrivelmente condicionado da sala de tomografia, anuncio por nós, que você e eu não vamos espernear, pois, Luisinho, naquele 08 de janeiro de 2023, nos esbaldávamos com cerveja e picanha, uma vez que era aniversário do amado sete cordas, do canhoto afinadíssimo, do nosso caro Aristeu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de abril de 2025.


terça-feira, 1 de abril de 2025

O bom doutor

 

O bom doutor

 

“É um teste, não é? Estão querendo saber o quanto eu consigo ficar parado, o quanto eu aguento ficar sendo observado, não é isso? Como aguento, querem saber até quando suportarei ficar sem que me façam algum pedido? Quando explodir, irritado com esses mal-agradecidos que passam sem ligar para minha pessoa, será que eu gritarei, eu darei as costas, eu lascarei um tapa ou o quê?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é pessoa a ser vista sem que a abordem com solicitações, seja de caixão à criança morta por dengue, seja para capinar o mato na frente da creche.

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é homem de dispensar atenção, ainda assim, envaidecem-no que a ele incomodem, o procurem por ajuda, socorro, pela misericórdia de uma palavra.

“Por que testar alguém que nem eu, uma pessoa de trato fácil, gente procurada pelas virtudes? Pois não sabem da minha infinita tolerância a ouvir quem venha com explicações sobre conta de luz atrasada? Que sou eternamente grato pela sinceridade de gente que se justifique por não ter votado em mim, mas espera que lhe pague um quilo de arroz? Para que confirmar que sou generoso, atencioso e sensível?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é gente que finge a alegria de satisfazer alguma vontade, ele atende e sorri na foto, ao ser abraçado, ao lhe darem tapinhas no ombro, ao apertarem a sua mão, ainda que o cumprimentem com mão suada, com unhas sujas de terra, com camiseta encardida, com uma boca de dentes podres.

“Pesquisa desse naipe não revela a má intenção? Isso não confirma que sou popular? Não querem, no fundo, medir a minha popularidade? No fundo, não estão preocupados comigo? Não estão querendo saber a quem estou pensando em apoiar nas próximas eleições?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não vota à toa.

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não transparece que se candidatará, uma vez que está convicto da vitória, está certo de que a sua campanha será barata, está feliz por não precisar mexer em nenhum dos seus investimentos, está aberto que o incomodem.

“Será que o povo precisa que gente de fora venha confirmar que eu sou perfeccionista em tudo o que faço? Será que esses terceiros estão conscientes do benefício que me proporcionam? Porque estou unido à gente que vive na nossa cidade, será que percebem que me gabo de ser pessoa séria? Será que não veem que priorizo e hei de priorizar as necessidades da nossa gente, mesmo num período de eleição?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é outro filho do filho do filho do filho do filho de político, no seu sangue vaga o germe da boa esperança, suas sístoles e diástoles fazem circular os melhores elementos que a natureza humana já haja produzido.

O político não é doutor para dar dois reais à toa.

“Dois real é pro pão, hein!”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de abril de 2025.

domingo, 30 de março de 2025

O amor do noivo

 

O amor do noivo

 

Com você me pedindo um milhão de coisas, não tenho tempo para roçar as costas no batente da porta, na grade do cercado.

Fico achando que você me ama pela utilidade que eu tenho. Acabo pensando que tenho potencial, que o seu amor é para quem quer lucrar com as minhas potencialidades.

Posso ser dobrado facilmente; esse entendimento me alegra; sinto que sou um objeto passível de ser manuseado; pelo papai-mamãe uma vez por semana, sou mesmo um bem alegremente desfrutável.

Quando reconhecido, meu valor está em mendigar um mindinho da sua compaixão; meu entusiasmo é tanto que desejo dar mais tempo a você, e não apenas no escuro.

A luz apagada uma vez por semana é a glória.

Essa honra não gera o sentimento que seja aplacado com o batente de qualquer porta, com mãozinha de plástico e, faça a gentileza de não obliterar a inteligência, nem ducha de água quente me afrouxa.

Não me iludo, eu sei que sou um bobo alegre. Mesmo você dizendo que não sai de casa pra economizar a conta de luz.

Você é um livro a ser escrito. A cada dia, escrevo um poema. Você é a obra-prima que precisa da minha dedicação em tempo integral para ser escrita como deve ser. Você me faz apaixonado pela arte; e me faz desejá-la escrita dia após dia, desde que a conheci, Manoela.

Não esqueço nem quero esquecer, Manú, porque o dia em que nos conhecemos é o marco da minha saída pra eternidade.

Passei pelo portal. Caminhei por essa outra dimensão. Depois, tudo tinha outro sentido. Voltei a mim já alterado, tudo tem um outro sentido. Esse algo a mais me faz sentir que existe alguma coisa além da carne, da alma, da conjunção da alma com a carne.

Passei a viver em função dessa conjuntura, por adorá-la.

Manú, minha nossa, que dimensão é essa!

Você botou uma coleira em mim. Você me controla. Você sabe que gosto do seu jeitinho, mesmo que seja só uma vez por semana, mesmo no escuro. Manú, sou louco por você.

Na realidade, Manú, permita-me que lhe conte o que ouvi, ainda há pouco, na fila da lotérica.

Uma mulher atrás de mim começou a mostrar um vídeo. Achei que fosse um vídeo postado na nuvem, mas era transmissão ao vivo.

A mulher atrás de mim não deixou passar. Ela disse que aquilo era coisa pra internet, disse que aquilo teria milhares de visualizações.

Uma vez que renderia muito vintém, a mulher atrás de mim pescou a loucura de deletar a postagem.

Caso a tirem do ar, chame-se a polícia, o processo seja instaurado, seja avaliado o juízo do idiota, ele não vá despachado para manicômio, que o juiz irônico sentencie a dose necessária do isolamento do agente patológico na Vila Militar.

O vídeo era assim: no provador, tinha uma mulher vestida de noiva; a saia se mexia não sei como, porque ela não tinha braços; debaixo do véu via-se a Vênus de Milo, embonecada feito noiva.

O farfalhar me eriçou, mais ainda o reflexo; por evidente: o smart fui eu que o dei para ti.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de março de 2025.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Te achas uma maritaca?

 

Te achas uma maritaca?

 

Como parece que de modo algum você pretende assumir que errou, vou deixá-lo babando. Desta vez, vou sim, e não vou voltar atrás como sempre conta que eu volte.

O que eu pretendo com isso?

Quero que pense um pouco, o mínimo que consiga, pois é você que precisa refletir a respeito, é você que tem que parar um segundo, conto que seja só por um segundo, pois pense nisso, reveja essa sua alegria que eu vá recuar mais uma vez.

Desta vez, não.

Não pense o senhor que fazer cara de choro vai me convencer, que falar com voz embargada vai me amolecer, que me chamar de amada vai lhe dar o direito de apertar as minhas bochechas.

Não se finja de bobo, eu sempre falei, para você e para todo mundo, que não gosto nada que apertem as minhas bochechas.

Sinto a boca amargar quando lembro que meu pai apertava minhas bochechas. Quando ficava sem opção, lá vinha o velho.

Era inevitável, uma coisa chata, era um troço revoltante.

No fim de tarde dos domingos, pouco antes de escurecer, não tinha fim de tarde domingueiro que o danado não se esquecia de lembrar-se de mim. Meu Deus, era sempre no crepúsculo dos domingos que papai achava de focar em mim.

Ele dizia que tinha me escolhido para uma tarefa que nem mamãe sabia caprichar como eu.

Que a mãe estivesse na missa, ora, isso nem era dito.

Ele caminhava quarenta minutos, trazia a camisa que cismava que tinha de usar e, já que eu era a sua filha predileta, sua filha mais velha, mais amável, mais trabalhadeira, eu merecia o privilégio de lhe passar a camisa, pois, com certeza, ela ficaria um brinco.

― Capriche como sempre. Porque só você sabe deixar uma camisa sem nenhuma dobrinha, sem amarrotado. Sabrina, minha querida, não se sinta pressionada, apenas capriche.

Amargo a boca porque eu sempre guardei pra mim, papai. O senhor nunca deu sandália, saia, brincos, só me presenteava com os afazeres quando nem a mamãe tinha mão para satisfazê-lo.

Ora, ora, sua filha tão amável, sempre a mais velha, eternamente a mais trabalhadeira, ora, ora, que nunca passou pela minha mente pedir à sua excelência que me desse um botão de rosa ou bombons.

Acaso o senhor esteja de olho em mim, aceite que me sinto aliviada, embora respire melhor com as janelas abertas.

Por que estou de bem com a vida que levo?

Porque, meu amado e estimado pai, certas obrigações nunca foram minhas quando era única filha nem são minhas agora que lavo e passo em outro endereço.

Já que anoitece, prefiro ouvir o alvoroço no quintal da casa ao lado, prefiro ver a algazarra dos bichos, prefiro me deliciar com as maritacas fervilhando na mangueira carregadíssima.

― Ouça o que digo, tomar quatro gols da Argentina não é o mesmo que levar 7X1 da Alemanha, porque isso foi na Copa do Mundo, e pior ainda, meu anjo, isso foi em casa. Portanto, Astolfo, dar com o celular na parede não anulará gol algum nem me fará manga pro teu bico.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de março de 2025.