Com você me pedindo um milhão de coisas,
não tenho tempo para roçar as costas no batente da porta, na grade do cercado.
Fico achando que você me ama pela
utilidade que eu tenho. Acabo pensando que tenho potencial, que o seu amor é para
quem quer lucrar com as minhas potencialidades.
Posso ser dobrado facilmente; esse
entendimento me alegra; sinto que sou um objeto passível de ser manuseado; pelo
papai-mamãe uma vez por semana, sou mesmo um bem alegremente desfrutável.
Quando reconhecido, meu valor está em mendigar
um mindinho da sua compaixão; meu entusiasmo é tanto que desejo dar mais tempo a
você, e não apenas no escuro.
A luz apagada uma vez por semana é a
glória.
Essa honra não gera o sentimento que seja
aplacado com o batente de qualquer porta, com mãozinha de plástico e, faça a
gentileza de não obliterar a inteligência, nem ducha de água quente me afrouxa.
Não me iludo, eu sei que sou um bobo
alegre. Mesmo você dizendo que não sai de casa pra economizar a conta de luz.
Você é um livro a ser escrito. A cada
dia, escrevo um poema. Você é a obra-prima que precisa da minha dedicação em
tempo integral para ser escrita como deve ser. Você me faz apaixonado pela
arte; e me faz desejá-la escrita dia após dia, desde que a conheci, Manoela.
Não esqueço nem quero esquecer, Manú,
porque o dia em que nos conhecemos é o marco da minha saída pra eternidade.
Passei pelo portal. Caminhei por essa outra
dimensão. Depois, tudo tinha outro sentido. Voltei a mim já alterado, tudo tem
um outro sentido. Esse algo a mais me faz sentir que existe alguma coisa além
da carne, da alma, da conjunção da alma com a carne.
Passei a viver em função dessa
conjuntura, por adorá-la.
Manú, minha nossa, que dimensão é essa!
Você botou uma coleira em mim. Você me
controla. Você sabe que gosto do seu jeitinho, mesmo que seja só uma vez por
semana, mesmo no escuro. Manú, sou louco por você.
Na realidade, Manú, permita-me que lhe
conte o que ouvi, ainda há pouco, na fila da lotérica.
Uma mulher atrás de mim começou a
mostrar um vídeo. Achei que fosse um vídeo postado na nuvem, mas era
transmissão ao vivo.
A mulher atrás de mim não deixou passar.
Ela disse que aquilo era coisa pra internet, disse que aquilo teria milhares de
visualizações.
Uma vez que renderia muito vintém, a
mulher atrás de mim pescou a loucura de deletar a postagem.
Caso a tirem do ar, chame-se a polícia, o
processo seja instaurado, seja avaliado o juízo do idiota, ele não vá
despachado para manicômio, que o juiz irônico sentencie a dose necessária do
isolamento do agente patológico na Vila Militar.
O vídeo era assim: no provador, tinha uma
mulher vestida de noiva; a saia se mexia não sei como, porque ela não tinha
braços; debaixo do véu via-se a Vênus de Milo, embonecada feito noiva.
O farfalhar me eriçou, mais ainda o reflexo;
por evidente: o smart fui eu que o dei para ti.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de março de 2025.