terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O que for preciso

 

O que for preciso

 

Quero um gole de café, não quero água ou guaraná. Quero um jogo na tevê, não quero noticiário ou fofocas. Quero um banho gostoso de tomar, não quero ducha que mais aprofunde minha neurastenia.

Presumo: pra calvo topetudo, pente banguela é escova.

Passa um bando de quero-queros, e daí? Passo à varanda onde a cadeira balança, e daí? Possa acalmar-me o vaivém na rua, então?

Então nada ou muito pouco; perturbador é ser quase nada.

Perturba-me o guarda da esquina que está preso ao celular. Aflige-me o guincho que enrola para levar embora a ambulância quebrada à porta da casa de onde alguém acabou sendo levado num táxi. Sinto falta da alegria de papear no portão com gente que fala da vida alheia como se falasse de si na terceira pessoa.

Quero ser os nove fora quando a conta não fechar, não quero o cem porcento de uma nota fria, pois já tem desvio demais pra que se chegue a alguns finalmentes. Quero rir quando o sol se pôr, não quero o sufoco que tira o sono. Posso sonhar noutra noite tranquila, sem que os ruídos da geladeira sugiram haver monstros prontos pra me trucidar.

Só aí é que pego a visão: falar da vida alheia é fácil, difícil é aceitar que outros falem de mim porque me conheçam por outras faces.

Nada de noves fora ou cem porcento? Bola fora é ficar na banheira por estar em impedimento.

O que me proíbe de tomar café, estourar pipoca e vibrar com o jogo do mais novíssimo tenista que se revela potencialmente a mais recente estrela brasileira?

Não tenho dezoito anos.

Não tenho a inocência que julgava ter aos dezoito anos.

Não me quero barrado por não querer ter aqueles dezoito anos que a nostalgia supõe esplêndidos em berço dourado.

Para ser honesto, não sou pessoa disposta a fazer de tudo por um minuto de paz. Pra ser menos cínico que eu possa, acho que a paz ou é ilusória ou é compensatória, e crime algum há de compensar a ilusão de melhorar a cada dia.

É preciso treinar no banheiro?

Apesar de suspirar por ilusões, suspiro melhor depois de uma noite de sono sem monstros na cama. Apesar de acordar sozinho, concordo que o mundo ficaria bem melhor se os monstros vivessem longe daqui. Apesar de lustrar a lâmpada, Aladim não me dá o boa-noite que anseio. Apesar do espelho, Alice não entra comigo na banheira. Apesar de que suspiro, a maior parte do tempo nem me lastimo do que faço.

Para ser mais honesto ainda, não sou gente que encrenca quando o que faço nem recebe a atenção que poderia ter recebido se houvesse quem topasse encrencar comigo quando afirmo que não encrenco por qualquer troço que eu faço.

Pelo gênio de Aladim, Alice, pulo o espelho?

Não me orgulho de fazer o que for preciso para merecer a atenção, faço o que posso porque sei fazer, porque desconfio que posso fazer, porque faço ainda que ache que posso fazer melhor se não ficar rindo quando acerto o ponto, entro no jogo, ganho em causa própria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2025.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Coisa de criança

 

Coisa de criança

 

Costumo vagabundear aos sábados. Não procuro me desculpar por largar a rede e sair por aí como se estivesse a balançar o meu corpo ao sabor dos passos. Provocando esse deslocamento de ar bastante leve para que a minha passagem nem seja percebida pelos cães, vou pelas ruas como se continuasse embalado pela preguiça na rede da varanda. Uma vez que confio estar credenciado a ser o melhor vagabundo que o sábado conta que lhe esteja ao sabor dos imprevistos, desconfio que sábado bom é aquele que a folhinha ignora de qual ano, qual mês, por qual razão a minha vagabundagem tem que ser memorável.

Crendo-me merecedor do crédito de não vulgarizar o sábado, vejo-me indo ao supermercado, indo vaporoso, indo simpático a nefelibatas que voejam acima das fezes, indo isento de patrulhamento ideológico, indo feito criança cuja crueldade está em ser sincera o tempo todo, pois o dever de criança autêntica é agir como boa gente, excelentíssima no quesito patriotismo.

Patriota não paga banana pelo preço de bananada.

É sábado, outro sábado qualquer, mais um que me dispensa de lhe instituir tranquilíssimo, boníssimo, outro momento que me dispense de senti-lo sabadíssimo, pelo modo como me embala esplendorosamente soalheiro, um instante assaz luciferino.

O calor está no ar, no cuspe, no mijo, no suor, no pescoço, na nuca, nas partes íntimas, é calor que deixa a gente zonza, grogue, lânguida, deixa a gente mole, mole, tão idiota.

Na moleza de seguir imbecil, vou indo como se viver seja continuar indo na contracorrente, vou indo como gente que não se sente teimosa, displicente, sem querer assistir à malemolência de ir adiante ainda que pense que o melhor é parar no bar, beber um copo de água e, pelo sol na moringa, sacar que ir pra casa é o óbvio a ser feito.

Um garotinho estica os braços na direção do meu rosto, a pedir-me que as suas mãos possam tocá-lo, a indicar que os seus dedos podem estudar-me as bochechas, apertando-as uma e uma segunda vez, até que lhe seja natural me asseverar:

― O senhor não é um fantasma. O senhor é tão fofucho.

Fofucho!

― Sim, eu sei que tipo de fantasma eu quero ser, mas não espalhe que tenho as carnes modeladas pelos quarenta ovos que eu como todo dia.

Quarenta ovos todo dia! Este é o segredo que pago para mascarar o franzino que ainda cochila sob os músculos do meu corpo.

A mãe do menino intervém:

― Deixa o moço em paz, Naná.

Sem segundas intenções, replico:

― Moça, o seu filho não está me incomodando.

Tranquila e logicamente, o garotinho diz:

― Mamã, o moço está em paz porque ele é o fantasma fofucho do frango magricela que ele é.

O pequerrucho pisca para a mãe; a moça sorri para mim.

Pra que a moça experimente o meu rosto, eu novamente me inclino, a pedir-lhe que, se a sua criança testou minha fofurice, sinta-a também, pois escandaloso é não beijar minhas maçãzinhas coradas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2025.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

O ar da manhã - final

 

O ar da manhã ― final

 

O rapaz que sai do circo não olha para trás, pois a mulher que pedia que parasse nem era a mulher da corda bamba, esta faz parceria com o atirador de facas em outro número, com risco bem maior.

Em ação, apesar do perigo, ela sorri. Não apenas pela possibilidade de um erro, talvez porque as facas atiradas, ao final, deixam definida a sua silhueta na roda que gira, que lentamente vai girando, até que ela desça para os aplausos.

Ele não olhou para trás nem quis virar-se, tinha certeza de que eram verdes os olhos da moça do ato em que o atirador dá o espetáculo de atirá-las de olhos vendados.

O atirador não é nenhum Tonho para ficar latindo aos vira-latas que o sigam, latindo para ele até que uive ou lata. O artista das facas não é nenhum Tonho para uivar ou latir por influência da lua.

Se o atirador não é nenhum Tonho que late feito vira-lata, a mulher sorrindo assombra, pois ela fica amarrada de olhos vendados na roda que gira de acordo com o rufar de um tarol.

Tem esse palhaço de olhar triste que toca num ritmo marcial de olho na velocidade da roda, rufando o tarol sem nada a ver com sentenciado a fuzilamento num paredão, pois o palhaço rufa dando a entender que o ritmo controla as mãos ao atirador.

Aquela tristeza não é bem tristeza de palhaço, está mais para olhar entediado, porque seus olhos têm essa indiferença, têm esta tristeza serena que muitos sabem identificá-la como melancolia.

O rapaz que saiu do circo certo de ter passado pelo papel de ridículo não precisa voltar-se para saber que a mulher do atirador de facas não é nenhuma Tonha para ficar indo atrás de qualquer Tonho que a queira feito musa precisando que uivem para ela.

Ainda que fossem Tonho e Tonha, há esse amor a ligá-los.

Sem olhar pra artista que resta atrás, o beijoqueiro a sonhar com o beijo na corda bamba sabe que o amor desafia o dono do circo.

Ninguém disse que o palhaço é o dono do circo, mas o sujeito sob a máscara precisa do público, precisa mesmo das risadas, ou não dará os cachês do atirador e da mulher que desce, sorridente, da roda.

É dia, o rapaz não precisa sorrir nem uivar enquanto faz o que tem para fazer; sobre bater-se nas tarefas para fazer, ele nem titubeia.

Tem que apanhar laranja antes do almoço, dar lavagem aos leitões a serem assados no fim do ano e beijar no portão caso não chova.

Lá longe, naquele naco de horizonte, as montanhas deixam ver que, para logo, vem chuva.

Quem aparece no meio do caminho é a moça que quer beijá-la bem diante do espanto de toda gente, lá no fio do circo.

A moça e o rapaz sentam-se na beira do rio, enfiam os pés na água, murmuram, ronronam, beijam-se, até começa a chover.

Achando ter ficado de uma a duas horas namorando sua amada, o rapaz, debaixo de chuva, apanha as laranjas para dá-las às doceiras; elas, pelo ar de quem esteve aos beijos na beira do rio, aplaudem-no pela meia horinha de atraso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2025.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O ar da manhã ― continuação

 

O ar da manhã ― continuação

 

Epaminondas respira, mas ele precisa respirar não somente pra se manter vivo, quer vir a ser o primeiro beijoqueiro na corda bamba.

Poderá ser o primeiro beijoqueiro a conseguir. Já suando, o coração acelerado diz que terá de enfrentar-se. Apesar do medo, subirá degrau a degrau, até o topo.

Os malabares caídos são um sinal. Ao pé da escadinha, não estão ali por acaso, tem algo acontecendo. Sente que os malabares são para testá-lo, fazê-lo suar, disparar o seu coração, colocá-lo na posição que só ele poderia antecipar.

Joga um malabar, pega-o. Outro é atirado pro alto, pega-o também. Joga os dois, um de cada vez, não os deixa cair. Abaixa-se, sem deixar nenhum deles dois cair, joga pro alto um terceiro. Não deixará nenhum dos malabares cair, e falha.

Sua. Tem a boca seca.

Sobe um. Pisa no próximo degrau. Não os conta, apenas sobe. Vai conseguir, está certo de que conseguirá. Não vacila, sobe um de cada vez, vai à plataforma.

A corda bamba não é corda, é um fio de arame.

Epaminondas encara-se. Medo é acovardar-se. O próximo passo é apoiar o pé no fio. Logo, o outro pé precisa ter firmeza, não confia que possa conseguir. Não testa o outro pé, quer apoiá-lo mas não faz nada. Precisa equilibrar-se, manter-se ereto.

Lá embaixo estão uma vara, uma sombrinha e o monociclo.

Epaminondas desce. Pega a vara e volta a subir.

A artista do circo impede-o de tentar a travessia, grita-lhe que desça antes que se esborrache, porque é uma estupidez querer andar no fio sem a rede de proteção, nem ela, que vive no picadeiro desde que veio ao mundo, nem ela encara o fio sem ter a rede armada.

Epaminondas ainda sua, ainda tem o coração disparado, ainda tem a garganta seca, tanto que balbucia, querendo desculpar-se, temendo que o expulsem sem que possa justificar-se, dizer o quanto ama.

Aquilo é por amor, aquilo é o seu modo de mostrar pra todo mundo que o seu amor é para valer, é a única fonte verdadeira que o faz viver para que o próximo passo prove ser incomparável, que a ousadia seja contada a dez, vinte, dali a trinta anos.

Epaminondas sabe muito bem o que sente. O que ele está sentindo é amor. Ele ama, não está apaixonado. Paixão é loucura efêmera, mas o amor que está sentindo precisa mostrar para todo mundo que a vida é para ser vivida de tal modo que ontem não seja confundido com hoje que não seja confundido com amanhã, uma vez que o amor cancela o tempo, o amor detona o instante, o amor faz o momento ser um, o que se vive não faz o vir a ser acabar.

Epaminondas subiu, perdão, queria preparar-se pro beijo, queria a coragem de beijar com todo mundo focado no beijo, queria ser olhado pela gente toda, perdão, pedia essa admiração.

Sentindo-se ridículo, percebendo-se ridículo, Epaminondas cai em si: como pôde acreditar que conseguiria vencer sem nem mesmo saber como se livrar da vara quando despencasse?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2025.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

O ar da manhã

 

O ar da manhã

 

Era uma cidade protegida pelas montanhas, pródiga em córregos e dada à serenidade que faria inveja a quem açodado por afoitezas, pena que afoitos a desconheçam tão pacata, mas toda gente, toda ela, a que tinha a sua vida vivida ali por escolha, ela era muito grata pelos tantos contentamentos.

E esta gente retribuía, gostava que a vida dali seguisse produzindo contentamentos para tão fundo sossego, porque o mundo de lá de fora podia seguir violentamente repleto de problemas, menos esse recanto, que ele seguisse paradisíaco, continuasse sendo um cantinho voltado pro futuro, pois o amanhã é o porvir que tem de vir, mesmo que àqueles cidadãos nem ocorresse a ideia de que o lugar tinha o privilégio de nem ser um ponto sequer mencionado nos mapas que a geografia pede que sejam estudados.

Nesta cidadezinha de estudantes que não precisavam decorar qual o número de habitantes nas encostas, quanto peixe é tirado das águas, quem fia as linhas para redes, tapetes, colchas e vestimentas, que isso era conhecimento irrelevante pro bem-estar, pouco havendo com o que costumam os forasteiros chamar por identidade.

Felizes consigo mesmos, há namorados que se beijam sem saber que podem beijar até na igreja, dentre tais namoradinhos, era uma vez um rapaz que mais e mais amava a namorada que o ouvia, mesmo ele repetindo que ele queria porque queria beijar no circo.

Sonho é coisa boa, vem à pessoa que mantém os olhos abertos, vê que a conhecem, sabem o que faz para viver, como ajuda as pessoas, que ela gosta de dançar, seja valsa, seja chachachá, ainda que rumba precisasse aprender, mas a prioridade era subir na corda bamba.

Crescido ali, ele tinha a tristeza de não ter aprendido que esperança inventa a vereda que haveria de ser conhecida pelo chão trilhado.

Tal sonhador beijoqueiro de portão poderia lamentar-se de ter feito a travessia sem notar de tê-la feito, vivendo a recordação do que está vindo como o porvir que a manhã sempre traz a quem aguarda.

Na tranquilidade de viver o dia, ele espera sem gabar-se que espera a corda bamba. E ele faz-se novo para novidade que espera, tornar-se artista de circo quando a lona for erguida.

O sonhador esperançoso leva os cestos de figos pras doceiras que vão fabricar compotas; à tarde, ele estripa os porcos, que os nubentes hão de fartar-se na festança do casório; mas à noite, cativo do amanhã prometido, o rapaz é devotado ao sonho esperançoso.

Para sonhar acordado, já o circo instalado, porque promessa não é bravata e ainda não existe controle remoto para afrouxar gravata, mas riacho, suor e copo d’água matam a charada: o sonhador dos beijos no portão tem futuro se agir que nem animal equilibrista.

Equilibre-se agora: inspire o ar da manhã ao meio-dia, às cinco da tarde e às oito da noite; transpire pelo futuro; venha a ser quem respira a manhã do amanhã.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2025.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Ridículo descarado

 

Ridículo descarado

 

César Augusto, no picadeiro que é seu coração, por ele, hoje, vaza esse sangue quentinho, gerando esse pulso aos chiliques, dando ritmo aos engulhos, mas não se deixe chafurdar no charco da sua memória, porque, meu chapa, sua biografia não tem que ser empastelada pelas distorções fabricadas por gente descarada, essa gentalha ridícula, que tanto trabalha para classificá-lo como apóstata.

Você nunca desonrou a tradição.

Quando chegou aos quinze anos, o senhor rebelou-se, recusou-se a debutar em casaca, cartola, luvas e polainas que nem o Fred Astaire, bateu-se pela mimosa da Betty Boop que sua avó costurou em surdina, modelo que o fez abalar inolvidável aquele baile.

César Augusto, siga honrado mais esta vez, não atire a caipirosca na cara do maninho, porque começar outra briga com Marco Aurélio é tudo o que o seu irmão quer.

Ele pensa que fazer piada vale o tempo todo.

Foi-se o tempo, babaca. Agora são dias de respeitar as pessoas. O vento virou. O que atraía, já não mais, causa repulsa. Se o tempo é de ouvir quem não podia falar, também é tempo de falar na hora certa. Se é tempo para celular no bolso, é tempo para desligá-lo no cafezinho. É tempo para os filhos estudarem na sala de aula, bem como é certo não correr de telefone na mão.

Do que mais se lembra?

César Augusto, recreio era intervalo pra se esquecer da taboada do sete e da conjugação do verbo ser.

Você era outra criança correndo, gritando, fugindo da polícia porque era ladrão. Vocês, alunos do grupo, brincavam sem medo de quebrar a perna. No pique ou pulando mula, vocês eram alunos que paravam para cantar pelo Brasil Grande.

Você era o futuro, César Augusto.

Você cresceu, casou, descasou, os seus filhos já não brincam mais o carnaval como Betty Boop ou Fred Astaire.

Você não tem que pôr mais carvão para queimar a picanha do seu irmão, opte por caprichar na caipirosca.

Conte piada que não seja ofensiva a quem mantém celular no bolso enquanto toma uma caipirosca e acha a picanha uma delícia.

Você sabe, você sente, este é o tempo de encher a boca com o que há de melhor, bem como são dias para mastigar sem cuspir na cara de gente que mastiga de boca aberta, não larga o celular e adora insultar, sempre cuspindo.

Seja firme, César Augusto, honre os seus perdigotos, tão somente esporádicos, coisa de gente prudente, gente que é bem capaz de errar a mão no açúcar da caipirosca, no fogo da churrasqueira, no tabefe na fuça do camarada que não controla a matraca.

Você é brasileiro, César Augusto, lembre-se que é brasileiro gentil, daquela vertente que só paga mico sendo pato. Você é gente que sabe com quantas patacas é feita uma patacoada, né?

Quando o álcool na cachola incendiar miolos, não seja outro ridículo descarado, é tempo de voltar para casa. Vai, César Augusto, tá na hora de mandar às favas quem sequer saiba o que são favas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2025.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Sentido oculto

 

Sentido oculto

 

Estou bem. Pelo fato de estar bem, não sinto que precise dizer que mantenho-me controlado por essa cachola sossegada. Percebo que a estabilidade permite seguir de cabeça erguida, a dar bom-dia a todos, mesmo a quem nem saiba quem sou.

Faz sentido, o mundo é movido pelo bem-estar ― pelo meu e pelo nosso, até o dessa gente que passa que nem percebe o quanto pode ir na paz de preocupar-se com assuntos que lhe sejam prementes.

Com pássaros no céu, meus tênis no chão e cachorros largados ao sol, não escarro nem que algum chato insista que eu assine um abaixo-assinado contra o apocalipse climático ou, encarecidamente, faça o pix pelo pagamento de certa arena futebolística.

Só depois de quarteirões é que a vida levou-me ao chato que conta que entre em enfrentamento, lute, saia da asa da apatia.

Não me surpreende o bom ser humano que me faz pegar da caneta, me faz concordar positivamente com a crítica ao capitalismo predador, me faz rabiscar a minha assinatura como se fosse eu assinando.

Eu ou esse eu que a mim me representa?

Ora, ora, ora essa, como recordo a Mário de Sá-Carneiro: eu não sou eu nem sou outro, sou qualquer coisa de intermédio, pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro.

Sempre que posso, ou quando é preciso, paro um instante, penso que ouvirei melhor quem me interpele se escutar primeiro esse coração desdobrado, simplesmente a resguardar-me (mal) dos espinhos que a vida dardeja.

Faço de conta que a barriga quer prioridade, justamente quando os borborigmos mostram o quão intenso é o caos gástrico.

Sem ninguém que me impeça, penso na comida, busco aplacar-me da fome, cobra-me o almoço que saia ao meio-dia em ponto.

Dentro da loja, à espera de que me vendam um cadeado, contando que tenham à venda um cadeado forte, resistente e a preço módico, lá fora estão os mesmos cachorros que vi na praça, porém, minha nossa!, eles estão na chuva.

De onde veio esta chuva toda?

Poderia ter reparado, mas havia gente a dar bom-dia, havia queixas pelo cadeado ter caído; se tivesse percebido, veria que o mormaço era de chuva.

Como tem gente que sai sem guarda-chuva?

Penso que estar bem é meio caminho para a felicidade, penso que é um passo relevante no sentido de comprometer-se com o bem-estar de cada pessoa que vamos nos encontrando, seja nos dias de sol, seja em dias de roupas encharcadas.

Céus!

São minhas essa calça, essa bermuda, essa camiseta; sou eu nos meus tênis. Todo, todinho, sou eu na figura, que estou ensopado.

Sem apertar o passo, volto para casa. Sem ralhar com o aguaceiro, vou em frente. Rindo com quem faz graça, passo adiante.

Meio-dia em ponto, sento-me à mesa, sento pra almoçar.

Na vinda, entretanto, uma pessoa amiga, realmente muito próxima, ajeitou na minha cabeça o boné que ela usava, mas, como tenho medo de dragão, não regresso à mensagem politicamente explícita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2025.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Muito pelo contrário

 

Muito pelo contrário

 

Sou convincente, tenho que ser.

A mim não entedia o jogo do toma aí que te dou de cá, que o melhor jeito de persuasão é o fundado nos argumentos, não nas suposições e conjecturas.

Enfadonho é empatar no caminho, a convencer-me do que convém. Ajusto-me, não tomo se não dou, travo e patino, acabo convencido de que é melhor agir sem me justificar pelo que estou a fazer.

Aliás, fácil é o blábláblá me encantar, seduzir, mobilizar. Tenho essa volúpia pelo papo furado, pela conversa fiada, pelo tempo jogado fora, porque, afinal de contas, minha papada é gorda, meu crédito goza de confiança e não apresso o relógio.

Como eu disse, sou desses a quem é uma dádiva ter que pesar as palavras e moderar os pensamentos, quero é despachar a enrolação; ou quem gosta de ouvir baboseiras acha-me uma pessoa encantadora ou me remenda, pois acha insuportável gente tagarela.

Estou sempre a tagarelar?

Ou falo a bel-prazer ou calo por sisudez, mas o que preocupa é ter gente taciturna que manipula o abismo que traz em si como veículo ao tartamudo que trago em mim.

Eu não saber como ficar quieto, que inferno!

Melhor falar pelos cotovelos do que engolir a seco, já surtando.

Compartilho este segredo, que passo a rir ainda que ignore a razão de desandar a rir; confio-lhe, uma vez que acredito que possa guardá-lo ou possa usá-la, a admissão, com parcimônia.

Arranjo os detalhes para que o diabo revele-se o sedicioso que ele sempre há de ser, pois mordomos já não calham de ser admiráveis no papel outrora a eles designado, causando desequilíbrio.

Por minha culpa, minha mínima culpa, cometo a falta.

Falho nesta tagarelice, antecipo que a poderei negar como fruto do meu esforço, sendo obra do diabo. Isto é, cabe-lhe a função de casto, cabe que seja o mordomo que já não há, aquele que finja não querer haver-se como diabólico ou mordomo.

Nem mais nem menos, percebo-me talhado para atuar como autor, essa pessoa que escreve porque não sabe a razão de fazê-lo, apesar de tentado a dizer-me fruto do seu labor, que isso vem dele.

Se a mim me cabe a máscara de gente detalhista que revela o diabo que carrego nas tintas, disparo a falar, mesmo que as palavras alvejem a esmo, ainda que as ideias ganhem sentido, ventilo o que sopra esse homem sutil que suscita tão boas sutilezas.

Fastidioso, sacramento os devidos créditos ao diabo.

Embora o diabo minta que não existo, não surto. Sei que não passo de um escrevinhador a anotar-lhe o segredinho, de bem saber por mim que eu não existo. Fora do fardo de escrevinhar, não existo.

Calma! Calma! Calma!

Uma vez que a bandeja com as taças de vinho não vem sozinha à mesa, encontro o lugar que não atino que o procurasse: em realidade, como nova ordem, sou o mordomo que hei de ser ao servir o vinho que eu próprio o tenha vertido e louvado.

Tendo esclarecido o ponto, não convém recusar a ressaquinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2025.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Nome novo na praça

 

Nome novo na praça

 

Quinze minutos antes de deitar, liga o repelente. Depois das muitas tentativas, chegou ao tempo que lhe serve para, no escuro, contar com o calor da tela do celular. Sempre tem um pernilonguinho que se recusa a sair do quarto, embora a porta que dá pro quintal tenha permanecido aberta grande parte do dia, tem um que fica. O teimoso vem resvalar a tela do telefone, mas ele usa a mão como abano e o gás exalado pela pastilha espalha-se, então, o indivíduo alado sente o gás que o repele. Sem mais o que fazer, o referido inseto luta contra seu instinto, mesmo atraído pelo calor da tela, atraído pelo gás que o camarada exala pelas narinas, o que repele o mosquito é o gás produzido pelo calor gerado pela eletricidade. O que não deixa de ser uma diversão; algo perversa, é só brincadeira contra a natureza do bicho.

Algo bem diferente é usar jujuba como isca?

Tem chovido forte. Tem chovido muito em poucos minutos. É chuva para lá de metro, caso haja quem meça a altura da enchente e compare esta última com a altura da enchente anterior, com a altura da enchente anterior, com a altura anterior, com a anterior, indo até o início, pra que se conclua: tem chovido forte, muito e em pouco tempo, o que acarreta estragos, prejuízos e desespero, uma vez que dias tão chuvosos serão o novo normal, até que o antropoceno encontre o fim.

Como a jujuba pode estar relacionada com o fim da civilização?

O telhado da casa de Eurípedes não veda o aguaceiro. Há goteiras nas duas águas; elas são tantas, e tantas elas são, que baldes e bacias transbordam, inundando sala, quarto e cozinha.

A casa do cidadão fica à beira-rio. Com a chuvarada, as margens não barram as águas do rio.

Logo, a água na casa e as águas do rio viram uma.

Peixe não conhece limite ou o sentido do limite, peixe nada e come.

Eurípedes gosta de peixe, tanto gosta que não tem preferência: seja assado, grelhado, cozinho, cru; sendo peixe, ele quer, ele pode; então, as águas ficam misturadas quando chove; e como tem peixe no quarto da sua casa, adora chuva.

Ele sonhou e duvidou, mas fez a armadilha.

Deitado, vê os peixes que passam nadando. Tem um retângulo no piso, é uma piscina. E os peixes que entram nadando são atraídos por jujuba, são esses que ficam presos. Assim que a chuva passa, ele tira a água do piso e, vendo os peixes no buraco feito no chão, sorri.

O que Eurípedes não sabia, mas ficou sabendo, é que muriçoca dá uma massa irresistível; e, segundo falaram, há uma quantidade muito maior de peixe que é tarado por massa de muriçoca.

O próximo projeto está claro: informar-se sobre as muriçocas; o que as atraem; os alimentos preferidos; o tempo de vida; quais as melhores condições pra conservá-las vivas; sobre, incontestavelmente, o fabrico dessa isca infalível.

Regozija-se: não será apenas o rei da tilápia, uma vez que, dali em diante, será Jujuba Muriçoca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2025.