Quero um gole de café, não quero água ou
guaraná. Quero um jogo na tevê, não quero noticiário ou fofocas. Quero um banho
gostoso de tomar, não quero ducha que mais aprofunde minha neurastenia.
Presumo: pra calvo topetudo, pente banguela
é escova.
Passa um bando de quero-queros, e daí? Passo
à varanda onde a cadeira balança, e daí? Possa acalmar-me o vaivém na rua, então?
Então nada ou muito pouco; perturbador é
ser quase nada.
Perturba-me o guarda da esquina que está
preso ao celular. Aflige-me o guincho que enrola para levar embora a ambulância
quebrada à porta da casa de onde alguém acabou sendo levado num táxi. Sinto falta
da alegria de papear no portão com gente que fala da vida alheia como se
falasse de si na terceira pessoa.
Quero ser os nove fora quando a conta
não fechar, não quero o cem porcento de uma nota fria, pois já tem desvio
demais pra que se chegue a alguns finalmentes. Quero rir quando o sol se pôr, não
quero o sufoco que tira o sono. Posso sonhar noutra noite tranquila, sem que os
ruídos da geladeira sugiram haver monstros prontos pra me trucidar.
Só aí é que pego a visão: falar da vida
alheia é fácil, difícil é aceitar que outros falem de mim porque me conheçam por
outras faces.
Nada de noves fora ou cem porcento? Bola
fora é ficar na banheira por estar em impedimento.
O que me proíbe de tomar café, estourar
pipoca e vibrar com o jogo do mais novíssimo tenista que se revela
potencialmente a mais recente estrela brasileira?
Não tenho dezoito anos.
Não tenho a inocência que julgava ter
aos dezoito anos.
Não me quero barrado por não querer ter aqueles
dezoito anos que a nostalgia supõe esplêndidos em berço dourado.
Para ser honesto, não sou pessoa disposta
a fazer de tudo por um minuto de paz. Pra ser menos cínico que eu possa, acho
que a paz ou é ilusória ou é compensatória, e crime algum há de compensar a ilusão
de melhorar a cada dia.
É preciso treinar no banheiro?
Apesar de suspirar por ilusões, suspiro
melhor depois de uma noite de sono sem monstros na cama. Apesar de acordar
sozinho, concordo que o mundo ficaria bem melhor se os monstros vivessem longe
daqui. Apesar de lustrar a lâmpada, Aladim não me dá o boa-noite que anseio.
Apesar do espelho, Alice não entra comigo na banheira. Apesar de que suspiro, a
maior parte do tempo nem me lastimo do que faço.
Para ser mais honesto ainda, não sou
gente que encrenca quando o que faço nem recebe a atenção que poderia ter
recebido se houvesse quem topasse encrencar comigo quando afirmo que não
encrenco por qualquer troço que eu faço.
Pelo gênio de Aladim, Alice, pulo o
espelho?
Não me orgulho de fazer o que for
preciso para merecer a atenção, faço o que posso porque sei fazer, porque
desconfio que posso fazer, porque faço ainda que ache que posso fazer melhor se
não ficar rindo quando acerto o ponto, entro no jogo, ganho em causa própria.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2025.