Sentado para escrever, não tem como
dominar o fluxo. A mordiscar o lápis, passa de um quarto de hora que seu
pensamento são palavras sobre palavras. E a frase de Atanásio Baptista que não
o sossega diz: perdedores contam histórias surdas à História.
A sordidez desse jogo é óbvia:
desafiá-lo a derrotar-se; pô-lo contra a inércia de seguir nessa balada de ser
farol queimado pela madrugada afora; como quem vive embriagado pelo mundo, naufragar.
Madrugada, tenha dó.
Quer a lucidez de sentir-se ao timão,
mas redemoinhos o enovelam em pensamento. Sem a finalidade pela qual trabalha, vai
afundar longe das bordas; em meio à névoa que esconde o cais, mesmo de estômago
vazio, regurgita, arrota, dá voz ao vazio.
No entanto, madrugada, vem aí mais uma
alvorada.
Já se anuncia o dia, que a aurora se
deleita a espraiá-lo; por sobre montes, vales e parabólicas, o dia dá outra luz
à noite.
A que podia ter sido outra ― se menos
silenciosa, menos asfixiante ―, tal noite não vingou. Houve excessivo silêncio,
e ideias desconexas abalroavam a nau. Sopesando as forças, tendo em síntese que
a nave redundará em naufrágio, há motim.
Sem vontade de balançar-se na cadeira, passa
pela varanda, vai lá fora um instante, senta-se no meio-fio.
Ele percebe, algo está diferente.
O caminhão passa devagar, os
trabalhadores usam tampões, a rua vai sendo lavada, afinal o asfalto limpo de
impurezas diminui o atrito, a via pública limpinha excita, que os automóveis
circulem mais velozes, que as freadas abruptas ocorram com maior frequência,
que o tempo de vida útil dos pneus seja menor, que a indústria fabrique-os mais
e mais, que os operários trabalhem mais e mais, que a grana extra seja gasta no
comércio, que as lojas abram mais cedo, que os empregados entrem mais cedo, que
as pessoas acordem antes que amanheça, que a gente distraída pelos sonhos
descuide-se dos próximos passos, que haja atropelamentos, que o caminhão venha
lavar o sangue, que a rua fique limpinha enquanto possa, que o poder seja exercido
dignamente, que toda gente exerça o direito de optar, ou pela velocidade ao
volante ou pelo impacto instantâneo.
Todavia, a hora é outra.
Abanando o rabo, os cães que não latiram
de madrugada são eles mesmos a lamber as mãos que lhes coçam a cabeça.
Abanam o rabo, lambem e continuam sem
latir.
Vem um bêbado, andarilho, maltrapilho,
ensebado, vem dar-lhe um cigarro, já aceso, já tragado, passa-lhe o cigarro já babado;
ele o pega, traga e, já menor e mais babado, repassa-o ainda aceso.
O bêbado maltrapilho que usufrui dos
atalhos do mundo, dele, ainda que vá indo devagar, não se sabe qual seja a sua
voz.
No pique, Atanásio, são os vencedores que
compartilham mil vezes esta verdade: todo mundo sabe que motoristas que fumam
têm maior chance de ficarem livres da identificação formal de gente atropelada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2025.