Arrependido de ter acessado o jornal,
ainda mais depois do almoço, ainda com a comida sendo digerida, com todas aquelas
notícias dando um violento retrato da realidade, escolho sair.
Claro que esta saída é fuga.
Incomoda-me cochilar vendo tevê, escapulo,
porque os problemas daqui, e não apenas desta cachola, não têm aqueles tons
apocalípticos que o mundo carece de permanentemente habituar-se a tê-los.
Não me habituo nem me acostumo, necessito
de saber que o amigo melhorou da espinha que o acupunturista deu jeito, quero
encontrar a amiga contente que a netinha tenha sido batizada antes de completar
um aninho, aproveito para pesquisar os preços do modelo de tênis que uso desde
que passei a lutar contra os cadarços.
Levo a sério o meu bem-estar, já que não
apelo ao cinismo estando calmo; e sobre os meus calos, submeti o meu gosto à
necessidade de respeitá-los a cada passo.
De loja em loja: comprarei o modelo cuja
fôrma não maltrate meus mindinhos; pelo preço que me permita pagar à vista o par
cujo número é o meu, não peregrino, saio lucrando.
Poupo ao gastar pouco e exercito-me.
Não se trata apenas de saber quanto
custa, é que, depois de alguns assaltos, aprendi a andar com trocadinhos,
assim, quando informado do valor, corro buscar a quantia certa.
Se o assaltante se irrita, prometo
trazer o dobro da próxima vez.
Se me acovardo, mesmo que dobre o tempo
gasto para ir e voltar, altero o trajeto.
A flexibilidade que adoto não é
humilhante, uma vez que me perfilo entre as pessoas que se apouquentam quando, sem
avaliar o instante, condescendem ou intransigem.
Muita gente acha que vacilo, mas, sem titubear,
pondero.
Décadas atrás, eu trabalhava na área da
saúde, era um agente de combate à dengue. Indo de casa em casa, verificando
calhas, ralos e geladeiras, entrei numa residência cuja fachada me enganou.
A casa era cercada por mato alto, as
paredes precisavam de pintura e a sineta do portão não tinha badalo.
Quem atendeu às palmas foi um idoso que
falava mal o português.
O octogenário nascera na Terra do Sol
Nascente, viera para Ibiúna havia setenta anos e mudou-se pro Piratuba há meio
século.
Na casa, olhei atrás da geladeira e
orientei que não sobrasse água em pratinho de vaso.
Pedi para verificar o quintal.
Nos fundos, havia uma piscina de areia.
Dentro do retângulo, com uns dez
centímetros de largura, tinha dois caminhos de igual comprimento: um era de
pedregulho e um de grama mascarenha.
Se fosse um relógio, a vereda dos
pedriscos ia das oito a uma hora e a vereda gramada partia das sete para chegar
às duas.
Triangulares, tinha um tanque de carpas entre
nove e doze e outro entre seis e três.
O que provocou estranhamento foi o que ele
disse, que ambos não eram dois, eram um.
Caso quisesse alimentar as koi, o
senhor Shigeo solicitou-me que tirasse a terra das minhocas que eu mesmo
coletaria.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2025.