terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Carpas

 

Carpas

 

Arrependido de ter acessado o jornal, ainda mais depois do almoço, ainda com a comida sendo digerida, com todas aquelas notícias dando um violento retrato da realidade, escolho sair.

Claro que esta saída é fuga.

Incomoda-me cochilar vendo tevê, escapulo, porque os problemas daqui, e não apenas desta cachola, não têm aqueles tons apocalípticos que o mundo carece de permanentemente habituar-se a tê-los.

Não me habituo nem me acostumo, necessito de saber que o amigo melhorou da espinha que o acupunturista deu jeito, quero encontrar a amiga contente que a netinha tenha sido batizada antes de completar um aninho, aproveito para pesquisar os preços do modelo de tênis que uso desde que passei a lutar contra os cadarços.

Levo a sério o meu bem-estar, já que não apelo ao cinismo estando calmo; e sobre os meus calos, submeti o meu gosto à necessidade de respeitá-los a cada passo.

De loja em loja: comprarei o modelo cuja fôrma não maltrate meus mindinhos; pelo preço que me permita pagar à vista o par cujo número é o meu, não peregrino, saio lucrando.

Poupo ao gastar pouco e exercito-me.

Não se trata apenas de saber quanto custa, é que, depois de alguns assaltos, aprendi a andar com trocadinhos, assim, quando informado do valor, corro buscar a quantia certa.

Se o assaltante se irrita, prometo trazer o dobro da próxima vez.

Se me acovardo, mesmo que dobre o tempo gasto para ir e voltar, altero o trajeto.

A flexibilidade que adoto não é humilhante, uma vez que me perfilo entre as pessoas que se apouquentam quando, sem avaliar o instante, condescendem ou intransigem.

Muita gente acha que vacilo, mas, sem titubear, pondero.

Décadas atrás, eu trabalhava na área da saúde, era um agente de combate à dengue. Indo de casa em casa, verificando calhas, ralos e geladeiras, entrei numa residência cuja fachada me enganou.

A casa era cercada por mato alto, as paredes precisavam de pintura e a sineta do portão não tinha badalo.

Quem atendeu às palmas foi um idoso que falava mal o português.

O octogenário nascera na Terra do Sol Nascente, viera para Ibiúna havia setenta anos e mudou-se pro Piratuba há meio século.

Na casa, olhei atrás da geladeira e orientei que não sobrasse água em pratinho de vaso.

Pedi para verificar o quintal.

Nos fundos, havia uma piscina de areia.

Dentro do retângulo, com uns dez centímetros de largura, tinha dois caminhos de igual comprimento: um era de pedregulho e um de grama mascarenha.

Se fosse um relógio, a vereda dos pedriscos ia das oito a uma hora e a vereda gramada partia das sete para chegar às duas.

Triangulares, tinha um tanque de carpas entre nove e doze e outro entre seis e três.

O que provocou estranhamento foi o que ele disse, que ambos não eram dois, eram um.

Caso quisesse alimentar as koi, o senhor Shigeo solicitou-me que tirasse a terra das minhocas que eu mesmo coletaria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2025.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Testemunha ocular

 

Testemunha ocular

 

Durante o café, ele pensa.

Manterei a paciência ainda que veja o caminho óbvio a seduzir-me a trilhá-lo embora suspeite que, começo de ano após começo de ano, cairei na mesmíssima arapuca que a cabecinha apraz montar.

No primeiro dia útil, vou tirar dinheiro da poupança. Não hesitarei e não admitirei cansaço, uma vez que manhã e tarde estarão reservadas ao melhor exercício que funcione como desintoxicação.

Vou comprar dois jogos de lençol e dois jogos de toalhas, comprarei um pacote com quatro escovas de dentes, vou comprar meia dúzia de tubos de creme dental, comprarei as cortinas pros banheiros e pra sala, embora precise me lembrar da boina novinha, uma que a mim repagine descontraído aos olhos das pessoas que acham que não passo de um melancólico enrustido.

Mostrarei que não mais me resguardarei das rugas que o meu rosto teima em carregar, mesmo comigo a negar a ideia que o meu rosto tem esta herança presumida ao escancarar a minha idade.

Quase disse “a idade que tenho”, o que seria um equívoco, porque o mais correto, creio, seja dizer “a idade que me tem”, porque o tempo não é meu, eu é que sou dele.

Digo à inocência que sou inexperiente em matéria de dissimulação. Insisto em pensamento que meus sessenta anos vividos ainda não me ensinaram a controlar as reações.

Culparei o espelho cujas reflexões são concretas? Para cúmulo da lucidez: veja-se, pessoa imóvel, ao mirar-me.

Depois de escovar os dentes, encarando a imagem, ele diz que não comprará nada se estiver estacionado um carro verde na frente da sua casa. Se o carro for rosa choque, um daqueles carrinhos ridículos que só existem no cinema, será do Austin Powers.

Ele não é bocó para adotar cores berrantes, ainda mais que nasceu para caminhar, não pra dirigir um objeto estigmatizado.

Se lhe desse vontade de gastar o dinheiro da poupança, compraria uma máquina elétrica, pois o A da sua Remington fica desalinhado em relação às demais letras, pairando acima da linha.

Ele quer terminar o texto que imaginara, nele a personagem diz que é melhor não dizer nada, que é melhor pensar melhor, mas sem parar na rua, uma vez que a sua sombrinha laranja se destaca em meio às tantas sombrinhas pretas, brancas e cinzentas.

Ele diz a ele próprio no espelho que não é nenhuma maluquice dizer que está bem, mesmo que o reflexo franza a testa, faça bico e meneie a cabeça, estamos bem, mesmo que não estejamos, estamos.

Ao espelho, ele queria dizer: quando houver uma folga, precisamos conversar, você e eu, precisamos de um bom e demorado papo, ou as coisas ficarão complicadas, difíceis de lidar, daremos vexame.

Ele penteia o cabelo, abotoa a camisa e, para conferir que não tem sujeira nos dentes, sorri, até ele faz sorrir ligeiramente.

A despeito disso, belo é assistir a um mini cooper sendo guinchado por estacionamento em local permitido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2025.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Não estamos a sós

 

Não estamos a sós

 

Por mais que diga que não me importo, estou tentado a admitir que as circunstâncias me afetam.

Há um pernilongo; tenho esta leitura que não pretendo interromper; quero que o inseto voe para longe para que eu termine de ler as últimas páginas do livro.

Não acho boa ideia ler em voz alta, pois isso não mudaria nada.

O pernilongo dá rasantes sobre a tela do tablete, isso me faz perder o foco, isso, estar perdido, me deixa intranquilo porque saber-me preso numa daquelas páginas finais é desapontador.

Pra que a leitura não cause desapontamento, ou lasco um tapa ou, pra ruminar o que está lido e por haver tomado pé da fadiga, aguardo ser derrotado pelo sonífero.

Há ventania. A chuva vem vindo. Ouço trovões, mas os relâmpagos ainda não são flashes. A noite pode ter alguma chance, se não chover como os raios prenunciam.

Como sei onde estarei quando a luz acabar, fecho a porta do quarto; com a cabeça coberta pelo lençol, sorrio no escuro.

Depois de recicladas como badulaques decorativos, não temo que lâmpadas queimadas voltem a iluminar.

Mesmo assim, levanto, vou conferir que a escuridão esteja em cada cômodo da casa; tudo às escuras, posso deitar.

Convém que eu cheque portas e janelas. Destravo-as e chaveio-as; corro-as e cerro-as. Convém ficar longe de portas e janelas, mas sento no sofá, perto do celular.

Os trovões estão perto; e gosto de ouvi-los. A chuva cai. As rajadas de vento silvam nas frestas. O temporal impressiona, mas não o avalio assustador, não o dimensiono além do que é.

Chuva não é monstro fantasmagórico a bicar o meu fígado.

Em tempo: quero certificar-me de que o guarda-roupa fechado está chaveado, ou os fantasmas tenderão a abrigar-se na geladeira.

A explicação que me faça compreender por que os meus fantasmas têm essa predileção por buscarem ficar protegidos na geladeira, esse conhecimento, por tamanha imbecilidade, espanta-me.

Não pergunto se estou motivado a ir pela trilha que deixam a cada vez que as tempestades tanto os assombram.

Na geladeira hermeticamente vedada, a água comunica-se comigo. Entendo que me queira tremendo, tenha calafrios, que minha estupidez de idiota faça-me ter consciência da minha condição.

Não perco tempo, ligo a lanterna do celular, pego a caneta e anoto na lista de compra: vela para filtro.

Como a força vai mesmo cair, e prevenção é bom negócio, risco o escrito e novamente escrevo: duas velas para filtro de barro.

Abro a geladeira. Checo a temperatura do jarro. A língua apura que a água sequer está morna, apesar das bolhas. Engulo um gole d’água gelada. Sei, a borracha segue útil, não está frouxa, é ela que impede o temporal de adulterá-la, torná-la amara.

De cima da pia, pego o copo nem lavado. E sem nojo da borda suja, beberico a água.

O que o temporal não imagina que se passa comigo?

Eventualmente, tenho sede quando estou só.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2025.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Isso é só o começo

 

Isso é só o começo

 

A sensação que me incomodou ontem torna a incomodar-me agora, e, assim como o fiz ontem, abro bruscamente a porta da frente, porque me dá força a convicção de que tem gente escutando.

Tanto não há ninguém quanto não houve ― é vão o assalto.

Queria que tivesse, uma vez que isso facilitaria: a pessoa é amiga ou sequer é conhecida da vizinhança?

Sendo amiga, entre tomar um refresco; tão somente alcoviteira, vá cuidar das próprias misérias.

Ontem quanto agora, apelo a golinhos de laranjada. E cada gole me fortalece que não enlouqueci. Ainda que nem tenha sentido, não pirei. Embora tomar uma jarra de dois litros de laranjada por dia, já passa de uma quinzena, possa ser definida como sintoma.

Estou ficando paranoico, ou o quê?

Na semana passada, tanto na quinta quanto na quarta, o fato de ter acordado no meio da noite com a certeza de ter ouvido barulho dentro de casa, esses dois eventos não são sinal de arrombamento.

Como não tenho nenhum seguro, nem da minha vida, fui à cozinha e fui à sala ― as duas portas estavam trancadas.

Mais ou menos há um mês, noutra madrugada de calor, eu tive um sonho. Por duas noites seguidas, num sábado e num domingo, o sonho se repetiu. O mesmo sonho uniu dois mundos, o da laranjada gelada e o do café coado na hora.

Sonhei que tomava um gole de café. Sim, tomava. E o bebia quente, com açúcar. Deliciava-me bebê-lo passado na hora, algo bem diferente de beber laranjada, com laranjas espremidas sabe-se lá quando.

Porque esse gole de café era o último do copo; e tendo bebido esse gole único, restava o último dedo. Bebia, mas o dedo ficava na mesma. Tinha fé, e tornava a beber o gole que permanecia intocado.

Para amanhecer ontem, segunda, sonhei que tomava laranjada, e tive tempo, eu fui urinar no banheiro. Pra amanhecer hoje, todavia, não tive, pois o golinho de café foi o bastante para preocupações.

Salivo e cuspo, que isso de molhar o pijama me faz engasgar, pelo tanto que enjoo.

Na sexta-feira, acordei com esse gosto de café, aquele que só havia sonhado que bebia. No entanto, cuspi. Uma vez que acordei certo de que engasgara, preferi cuspi-lo, e ainda cuspo. Quero a certeza de que a laranjada não se transformou em café, ou restaria a sensação de que a cabeça quer-me desconfiado.

Não intuo, pois atino que suo.

É terça-feira, ontem desmontei a árvore, guardei guirlanda, bolas e a manjedoura de vime forrada com palha de milho.

É terça, me esforcei para não brincar a folia, mas a cantoria veio de longe, vinda de lá, de onde a criança que fui ainda brinca comigo, pois continuo respeitoso.

É terça-feira, e eu medirei, serrarei e pregarei as tábuas.

Amanhã e depois, lá do galho, de lá verei o quintal, a rua que corre na frente e o riozinho que flui ao fundo.

E brindarei, pois começo a sacar que café e laranjada se mesclam, tal qual alegria e histrionismo, feito rã e seus mergulhos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de janeiro de 2025.

domingo, 5 de janeiro de 2025

A aurora do madrugador

 

A aurora do madrugador

 

Não queria madrugar, mas madrugou. Mais uma mentira que conta sem ruborizar, contada a si mesmo. Queria tanto madrugar, e virou de lado, e dormiu até dez pras dez. Queria madrugar, precisava, não para ouvir o galo cantar porque vive num bairro sem galos, poleiros e ovos colhidos no ninho, e os bichos que vê nas ruas e em colo de madame são cães; eventualmente, passam burrico ou pangaré.

Precisava acordar cedo, com o raiar do sol, mas o medo de perder a hora o fez dormir mal. Por haver dormido mal, virou que nem viu. Não escolheu dormir até não mais poder, mas ficou até dez e dez.

Quando dorme além da conta, ainda que não tenha compromissos, levanta com dor de cabeça, pigarro e vontade danada de urinar, o que o atira em direção ao vaso.

Nada disso!

Puxou o livro que, ao deitar-se, pôs na cômoda; rasgou o plástico; cheirou-o; ajeitou o travesseiro às costas e, na página aberta ao acaso, foi apanhado pelo trecho em que bateram os seus olhos: “Lia ora num ônibus apinhado, ora num banco da praça da República, ou em pé nas intermináveis filas paulistas; e nesses momentos me ilhava de tudo, com esse consolo, essa alegria”.

Voltou uma página, a crônica era O Poder do Braga.

Este texto está no livro A Intensa Palavra, uma seleta de crônicas inéditas que foram publicadas, entre 1954 e 1969, no jornal Correio da Manhã, cujo autor é Carlos Drummond de Andrade.

As citadas aspas são de leitora anônima, cuja intenção fulcral ao enviar a carta era agradecer o cronista pela ‘terapêutica infalível’ que as suas palavras provocavam. Embora agradecida, ela, grave e terna, segundo Drummond, perguntou ao Braga:

“Você ao menos calcula o poder que tem?”

Queria paz, mas, no café, afloraram outras questões.

O que faz uma pessoa ter poder? O que é preciso fazer pra ser vista como pessoa poderosa?

Queria ter saído da cama às cinco e meia, tomaria banho, café e o ônibus como quem dorme bem, acorda bem e repete que, mesmo sem ver a quem, aprecia fazer apenas o bem.

Queria descer antes, passaria na feira, comeria pastel, tomaria refri e só depois iria sentar-se à mesa, checaria números, fecharia planilhas e largaria aquele trabalho às cinco.

Mas esqueceu que tinha de descer antes do banco, tinha que retirar dinheiro no caixa eletrônico, tinha de parar de pensar no poder que não tinha, mas esqueceu que era gente que bate o ponto, responde a quem a chefia e vai usando cartão até que o saldo fique negativo, os juros do especial abocanhem um naco do salário do próximo mês e, já que tem imaginação, a bola de neve atropele ladeira abaixo.

Queria dormir mais um pouco, questionou-se de pronto: quem bebe sozinho acarreta que seja pessoa à espera de que possa lamentar-se de que beba sozinha antes do almoço?

Despertou-se.

Não vai entregar currículo, entrega marmitex. Para trocar a magrela por moto, vai precisar do crédito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de janeiro de 2025.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Moça Bonita

 

Moça Bonita

 

Tchau, Moça Bonita ― disse a balconista ao sessentão de cabeleira grisalha arranjada em rabo de cavalo, jardineira jeans respingada de tinta, óculos redondinhos de aro de tartaruga, sandália franciscana de couro e uma afabilidade de corpo inteiro.

A moça também soube ser afável.

Havia sugerido objetos pelo que captou do que o senhor lhe dissera; tendo-o convencido com algo que a ele pareceu ter o preço satisfatório; embrulhado a blusinha de crochê não que fosse que nem uma tiara de diamantes numa debutante; entregue-lhe o mimo com os seus olhinhos de quem amaria recebê-lo de alguém feito o Moça Bonita.

Quando, na mocidade, ele passou a chamar toda e qualquer mulher de moça bonita, aquilo não pegou bem.

Irritavam-se as bonitas com o agrado desse cabeludo que só podia ter fumado um fino a mais. As maduras riam-se desse pobre-diabo que devia ter-se desencaminhado no regresso de Águas Claras. Por serem bem-casadas damas, às senhoras a investida era coisa divertida, uma ingenuidade de galante.

A namorados, noivos e maridos menos tolerantes, aquilo não tinha nada de gracejo, era desrespeito, afronta, um troço inaceitável.

Apesar de muitas rusgas, alguns entreveros e raros sopapos terem acontecido, ele persistiu, uma vez que o seu “moça bonita” era dito por educação, como sinal de carinho, jamais por desfeita.

Depois de tantos anos, já não riem, já não puxam briga, a ninguém ocorre de tratá-lo de modo diferente, ele é o Moça Bonita, uma pessoa de gestos suaves, é cidadão que vaga pelas ruas com mãos às costas, é gente que ainda põe gosto em cumprimentar quem lhe cruza a frente, mas, ai caramba!, que velhinho tão amável ele é.

E o crochê da blusinha faz Miranda sorrir.

― Moça Bonita, que peça caprichada! O ponto é de gente de mãos firmes, olho bom e verdadeiro carinho pelo que faz.

Miranda.

Quando a conheceu, Moça Bonita estranhou-lhe o nome.

Esbarraram-se entre as gôndolas do supermercado.

Ele se desculpou pelo inconveniente da distração, pois se agachara para ler o preço das pastilhas de repelente elétrico.

― Pernilongo é bicho insuportável, Moço Simpático.

O moço simpático foi o mesmo de sempre: não reclamou do preço, não discordou da gentileza recebida e não deixou de sorrir ao desejar que o dia fosse bom àquela moça bonita, que era de uma boniteza tão simpática.

Nesse mesmo dia, viram-se outra vez.

― Boa noite, Moço Simpático.

― Gosta de pizza, moça bonita?

― A moça bonita é Miranda, viu?

― Miranda! Que nem o zagueiro do São Paulo?

― Moço Simpático, não é sobrenome. O meu pai gostava de teatro, sobretudo do Shakespeare. Miranda vem da peça A Tempestade.

― Moça Bonita que se chama Miranda por conta do Shakespeare, eu nunca vi peça que passa em teatro.

Neste primeiro de janeiro de muita alegria, e pelo nono ano seguido, o Moça Bonita está na festa de aniversário da amiga Miranda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2025.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

A última do cronista

 

A última do cronista

 

Conheço as palavras, sei o que significam, mas soarão falsas se as trouxer à crônica. Soarei hipócrita se desejar feliz ano novo, com muita paz, muito amor, muita saúde, muito isso e muito aquilo. Sem esquecer o dinheiro no bolso para o pote de sorvete, o pacote de talharim e, para o mês que vem, dois quilos de patinho moído.

Adoto o cinismo ao pensar que a vida poderia ser nova apesar das guerras, das chuvaradas, das emendas chegando atrasadas às pontes que caem.

Apesar dos remendos, que os pneus rodem até restar-lhes a única opção: a reciclagem.

Reciclo a esperança, tiro a folhinha da parede, martelo para afirmar o prego bambo, passo um pano seco, penduro a nova folhinha, porém não conto quantos feriados cairão na sexta ou na segunda, que desejo o ano novo como repleto de energia boa, que há de impulsionar-me às jornadas, haverá de pulsar em mim como objeto não identificado, posto que será novo, desconhecido, irredutível ao esperado.

Não conto que a esperança aflija-me outra vez, pois será nova, será desconhecida, e, ao sabor do acaso, será flexível.

Ao azar do gosto, malemolência não significa adaptação, quer dizer que sambarei e assobiarei ao colher jaca. Ou seja, só vou apanhar jaca porque a ela irei, apesar de ir assobiando e sambando.

Assobiando e sambando como o camarada sóbrio que sou, porque, afinal, embriagados são os outros.

Direi as palavras que conheço, farei com que sejam entendidas pelo que acredito que signifiquem, mas não me negarei pela segunda vez e descansarei à sombra da jaqueira.

Apesar de saber que jacas caem, à sombra de mim, ficarei à mercê da Terra, que vai girar, rodar e extravagar pelo cosmo.

E vagamundearei, comigo inclusive.

Quando as formigas começarem a vir, não me abalarão, eu boiarei no corpo; elas que façam a festa que precisem fazer, pois jaca abatida é repasto posto.

Não fingirei que não percebo e disfarçarei o maravilhamento: a vida é fogo que corre pelo que ainda pode queimar.

No entanto, não queimarei ponte alguma: o mundo é jaca caída que chama quem tem fome, quem come para sobreviver.

Sobreviverei sem comer jaca, sem pular da ponte e sem babar feito bocó enquanto as formigas sumirem com o repasto caído do céu.

Sei que jaqueira tem raízes, tronco e galhos, mas não chamarei a atenção sobre o meu corpo à sombra daquele ser em flor.

A realidade diz jaca, jaqueira, formigas, sobrevivência e soneira, sei que poderei recolher-me ao songamonga que pense o instante com o próximo, que há de seguir distante pra que eu, mentecapto e gracioso, não faça a besteira de lambuzar-me de jaca só pra assistir às formigas fervendo.

De repente lambuzado, embora isso mostre o quão besta eu posso ser, seguirei sem tocar Beethoven.

Como não toco piano, nem mesmo o piano que não tenho à sombra das jacas...

Fala sério! Não tem nenhuma crônica mais jocosa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2024.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Almoço grátis

 

Almoço grátis

 

Hoje não? Hoje sim.

É claro que irei almoçar com meus amigos. Só não iria ao encontro se houvesse calamidade pública ou um problema físico a impedir-me de ir encontrá-los. Ainda que o nosso almoço, no dia seguinte ao Natal, seja compromisso renovado automaticamente, vou tal qual uma pomba ― nas asas, levo a paz; o amor, levo no bico.

Já embebido no otimismo, que avento a quem sobreviver às festas deste finalzinho de ano, preparo-me, quero dizê-lo bem, pois sou capaz de manter a calma e mantendo-a, com algum esforço para evitar meus destrambelhos, pelejo comigo para soá-lo menos cafajeste.

Para comermos e bebermos sem rilhar facas, falaremos de política, religião e futebol. Se falássemos de família, discutiríamos, perderíamos amizade e vomitaríamos na esquina.

Uma vez que, todos, demos dinheiro e definimos o menu, bebemos e comemos sabedores de que a reunião seria mantida aprazível desde que nos ativéssemos às trivialidades, se permanecêssemos infensos a boçalidades, pois não nos adulamos com aplauso ou vaia, gostamos de beijos, abraços e presentes sorteados na hora.

Nós bebemos e banqueteamos e, por último mas sem importância menor, brindamo-nos, sim!, nós nos mimoseamos com livros.

Deztroços (de Nelson Cruz) foi para o Aristeu; Antologia Pessoal (de Dalton Trevisan) foi para o Domingos; Sempre Repórter (de Lilian Ross) foi para o Luisinho; O Mestre e Margarida (de Mikhail Bulgakov) foi para a Dona Cremilda; já A Cidade das Mulheres (de Christine de Pizan) veio para mim.

Amanhã talvez? Amanhã certamente.

Já na calçada, combinamos de trocar os livros. Depois de abraços e beijos, combinamos de comentarmos as nossas leituras.

Ontem ninguém sabe? Ontem eu mesmo é que soube.

Indo à livraria para comprar, como sempre em cima da hora, o livro que precisaria entregar a amigo nada oculto, adiei a compra.

― Moço, me paga um almoço?

― Se importa se almoçarmos juntos?

Entramos e fizemos nossos pratos e pedimos nossos refrigerantes: ela, Coca; eu, guaraná. Observados pelas outras mesas, sentamo-nos fora, na varanda.

Entre uma garfada e outra:

― Você é de onde?

― Não sou daqui. Sou da divisa da Bahia com Minas.

― É mesmo? De que estado você é?

― Caramba que eu já disse! Sou da divisa da Bahia com Minas.

Entre um golinho e outro:

― E se acostumou com a cidade? Aqui faz muito frio, né?

― Trinta graus é frio? Pelo Cristo! Com um calor desses, vou passar o Ano Novo na praia.

― Que bom! E onde você vai ver a queima de fogos?

― Que aperreação! Como não sou besta, vou pular as sete ondas, porque não tem cabimento tomar banho de piscina.

Embora os abelhudos seguissem de orelha em pé:

― Quer sorvete ou cafezinho?

― Sorvete? Quero pudim! Casquinha eu vou ter na ilha.

― Ô coisa boa! E vai pra qual ilha?

― Pra Ilha Comprida, claro! E já arrumei carona. O duro é aguentar o papo de pobre ser tudo comunista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2024.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Boa vontade

 

Boa vontade

 

De costas para o televisor, ligado com som baixinho, o homem está ocupado em observar as formigas que vão indo, com os restos do que ele acabou de comer, e vêm voltando, atrás do restante que houver.

― Quero panetone.

Sem esperar pela resposta, batendo as mãos no chão; já virado pro homem sentado na cadeira junto à porta, ele grita:

― Eu quero mais panetone!

Ao entregar-lhe outra fatia, o rapaz enfatiza com o indicador:

Pela última vez, chega de porcaria antes do café.

É cedo, ainda são seis e pouco.

Sem exceções, as regras precisam ser respeitadas. Se somente às sete o refeitório será aberto para o desjejum, a ninguém está permitido qualquer privilégio, até o de fazer uma boquinha às seis e pouco, pois a essa hora gente respeitável deveria estar na cama.

Ele não mastiga de boca aberta por achar divertido, já as formigas ocuparem-se do que lhe cai da boca é o que o prende daquele jeito.

Com mais migalhas para serem transportadas, aumenta o número daqueles insetos. Ainda que elas nem prevejam chineladas, borrifos de inseticida e palavrões, intensifica-se o tráfico.

Pouco importando ter razão, o homem esticado no chão fala:

― Quero panetone.

Sem o equívoco de vê-lo como um partidário da ioga, ao carequinha que apoia o tronco nos cotovelos nem lhe ocorre de voltar-se ao moço de jaleco que nem se mexe na cadeira.

― Eu quero mais panetone!

Sem desviar os olhos da tela do celular, fala o moço:

― Já te disse. Chega de comer antes do café.

― Eu quero mais panetone! ― berrou o careca barrigudinho.

O funcionário para de jogar, diz que já deve estar na hora de ir tomar café e, pelo interfone ao lado da porta, pede que alguém venha varrer a sujeira, uma vez que tem bicho que não para mais de surgir, e sabe-se lá de que buraco aquelas formigas saem.

O carequinha barrigudo junta os farelos, mais ou menos numa linha, e as formigas parecem entender que aquela linha quase retilínea está assim disposta para lhes facilitar o trabalho.

― Quero panetone.

Como ninguém aparece, o rapaz de jaleco interfona outra vez. Para que uma equipe venha logo limpar, ele altera a voz, pontuando frases com o falsete digno de ser respeitado:

― Eu não estou inventando. Tem tanta formiga que o paciente está com medo e eu também estou com medo, pois, sei lá, vai que ele tenha um troço por causa das picadas.

― Eu quero mais panetone!

O quê? Isso é um insulto! Então a senhora acha que alguém com as minhas responsabilidades seria homem para brincar sobre o perigo que um paciente meu está correndo?

― Quero panetone.

― A pessoa que só pode estar brincando é a senhora, não eu. E a senhora fique informada que relatarei, pois isso não se faz, senhora.

― Eu quero mais panetone!

― Tenha dó! A senhora está fingindo que não escuta. Porque expor paciente a ataque de saúva é uma falta grave, é insubordinação que a chefia vai ter que punir.

― Quero panetone.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2024.