a descoberto
esquecido
numa gaveta, o bilhete.
perdido
na sua luz, não encerra
a
sua mensagem numa vergonha
de
ser lido, nessa outra vez.
não
se sabe se portador
de
algum crime, algum pecado?
de
juras de amor nefasto,
ou
belo, algo incestuoso?
tornado
inédito pelo encontro inesperado,
aquele
lume obscurece o olho que não o decifra.
suas
entrelinhas a fazer água.
caravela
de papel,
não
se faz navegante,
conhecida
dos mares,
não
vela umas audácias,
é
luz de outras eras;
na
espiral das esferas,
é
mensagem obscura,
alheia
ao imo do céu.
sem
saber dos aspirantes aventurosos
nem
das dores que sangram daquele corpo,
a
memória traça desconhecido o mapa.
sua
mera curiosidade afoga os navegantes ardorosos,
perpetradores
de um amor além das palavras;
seu
irritante desembaraço diante daquele troço
mutila
os amantes aplicados,
despudoradamente
carnais pros limites de umas linhas.
na
sua lenda sem legenda,
desembarcadas
no meio desse quarto mortiço,
eis
as águas incomunicáveis.
forasteiro
do mar, o seco nas articulações cordiais,
o
bronco anil de umas não prorrompidas pneumonias
─
o neto a boiar sobre os avós.
o
homem que merece não recebe pelo que percebe,
seus
haveres. o oceano do amor não dorme sonos caligráficos.
o
outono? ao canhestro tuberculosamente incurável:
andar
no torto não faz xucro alguém ridículo.
(rodrigues da silveira, 2016)