quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Zero a zero

 

Zero a zero

 

Bem se veja que estou disposto a encarar o insight com a seriedade que o deslumbramento pede a mim que eu a tenha, uma vez que estou bem. Ou seja, evitarei as contradições involuntárias. Ou seja, denuncio que quase me deixei convencer que, depois de uma boa noite de sono, o joão-de-barro me acordou para outro dia de céu azul, refeições leves e conversas ligeiras.

ꟷ Voltou pra cá?

ꟷ Faz cinco anos.

ꟷ Cinco! E nada de ligar pra cervejinha?

ꟷ Parei de beber.

ꟷ Rapaz, sabe que também não ando bem de saúde, já não abuso como a gente abusava na zoeira. Semana passada mesmo, fiz exame, porque passei uns dias com uma dorzinha chata, mas o resultado deu que está tudo em ordem com o meu fígado.

O diálogo deu-se ontem. Sendo abilolado de memória avariada por décadas de cachaceiro contumaz, dou a seguir o papo de quinze dias atrás.

ꟷ Quanto tempo!

ꟷ Quais as novidades?

ꟷ Tudo na mesma. Com futebolzinho no sábado, churrasco quando pinta e brejas geladas dia sim e outro também.

ꟷ Já não pertenço a esse mundo.

ꟷ Virou crente?

ꟷ Fiquei velho, mesmo.

ꟷ Rapaz, nem me diga. Na semana passada, corri fazer exame por causa de uma dor nas costas. Mas, graças ao Bom Deus, o ultrassom detectou pedra no rim. O médico mandou eu beber muito líquido. Como ordem de doutor é lei, tenho tomado cerveja que nem água.

No entanto, me persuadi a repensar o que a intuição interpusera no caminho, uma vez que, de madrugada, eu sonhava que caminhava na praia, ia com os pés na água, as ondas lambiam os meus calcanhares, o muxoxo do mar era uma delícia no ouvido, então, foi lambido que me esforcei para despertar.

Já que autoconhecimento não garante o controle sobre si, tem vez que a vontade faz correr ao banheiro sem nem ligar a luz.

Fui e urinei, porém, apraz que se embuta o outro: porém.

Todavia, autoconheço-me de outras madrugadas, de outras idas ao banheiro sem que a luz fosse acesa, de algumas topadas de joelho na cômoda, de dar com o nariz no batente, de cair de costas pela peitada na parede.

Noite passada, no escuro, com a ponta dos indicadores ajudando a situar-me, com as paredes onde deveriam estar, fui indo lento, fui indo sem me distrair, sem achar que meus passos eram práticos, sem temer que a minha boca secaria, sem me soprar à tentação de ficar tenso por achar que era outra das minhas tolices, todavia, certo de que ia sem a necessidade de confiar em mim, não encurtei a passada, uma vez que o corredor era trecho conhecido, fui indo do quarto ao banheiro, tratei somente de ir devagar, porém.

Sem estresse abissal, o sujeito e eu nos congraçamos?

Já que um cotidiano menos tóxico pede meio-termo, faço o balanço, minimizo a mão do cínico a bater no ombro, já que seis por meia dúzia não acarreta nulidade: quando o cafezinho é expresso, você toma dois, de xícara grande, e sem açúcar, pois rim ou fígado hão de reconhecer o valor da coerência, sempre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de setembro de 2025.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Que bicho te mordeu?

 

Que bicho te mordeu?

 

Virão pegá-lo, estão a caminho. Mantenha-se digno, atenda à porta. Antes não tivesse atendido o telefone, a campainha soará. Topou que viessem, antes tivesse recusado o convite. Seja digno, entre no carro, e vá comer pizza.

Indo à pizzaria, seja gentil. Escute o que dizem. Responda quando lhe for dirigida uma pergunta. Opine se lhe pedirem que opine. Tenha modos, fale baixo, não se exalte, seja simpático, para que o trajeto seja curto.

O motorista conhece as ruas de menor movimento, vai sem pressa. A ida transcorre sem aborrecimentos maiores. A pizzaria tem motorista na porta.

Considere-se um cara sensato, até ao coçar atrás da orelha, já que tem aparadas as unhas, e limpas também.

Quando chegar o momento de escolher que sabores serão pedidos, aceite comer o que a maioria pedir. Vindo as pizzas, não as enjeite, vá comendo um pedaço de cada. Permita-se ser o camarada legal que os amigos tanto apreciam. Sabem-no um sujeito comedido, que não come além da conta, para se exibir glutão.

Mastigando de boca fechada, sem estrelismo, já que raramente dá chilique, você sorri.

E come, conversa, não o intimida ter que esconder que preferiria ter ficado em casa a ler, a ouvir música, a cochilar. Mas o friozinho chegou súbito, e a noite de domingo soube insinuar-se que fosse beber vinho. Mesmo que houvesse de comer pizza, jantaria de novo.

Apesar da coceirinha, você mastiga devagar.

O que o deixa tenso, todavia, não é ter orelha ou unhas limpas para se coçar, é o silêncio. Um silêncio súbito. Sem que os demais pareçam afetados, o que incomoda é essa coisa que o faz se coçar.

As pessoas conversam, se divertem, dizem besteiras, acham graça do que lhe soa uma banalidade. Elas sorrindo e você, todavia, parece ser o único a sentir algo que o enerva, algo que não se encaixa na noite de pizza, de vinho, desse frio que chegou de repente.

Para não adensar o mal-estar de ser o único a mais ouvir que falar, você fica descalço. Sem que ninguém associe o sorrisinho a estar sem tênis, você mexe os dedos. Podia tirar as meias, mas o piso deve estar gelado.

Comentam que teve o encontro de fuscas. Beltrano diz que o Clube do Fusca organiza o evento. Por se achar engraçado, sicrano fala que os carros têm bichinhos adestrados, que os dirigem cuidadosamente, equipam-nos com peças originais que ainda são fabricadas, lavam-nos a cada sábado, enceram-nos caprichosamente, enchem-lhes o tanque uma vez por mês e rodam apenas pela cidade, por ruas asfaltadas, por ruas de baixíssimo movimento.

Coçando-se, você tem orelha. Ainda que a audição esteja em dia, você confia que embebedará o que lhe suga o sangue. Sim, senhor, o vinho apronta, tanto altera que a coceira está maior.

Sem saber que prosopometamorfopsia (PMO) não é ampla, geral e irrestrita, você pede aos dragões que nomeiem o que o chupa atrás da orelha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de setembro de 2025.

domingo, 7 de setembro de 2025

Sorriso superior

 

Sorriso superior

 

A correria virou rotina. Da casa pro serviço, num pé. Do serviço para o restaurante, corre. Do almoço pro batente, sem fio dental. Por óbvio, o corre-corre vai minando a mente, pois a vida não sendo batalhada é uma luta não vencida.

Corre sem fingimento. Pode correr sem medo, pois não bebe. Nem lembra quando foi o último porre. Deve ter sido no tempo de estudante, dias em que nem tinha dinheiro para gastá-lo à toa. Vomitava. E tudo bem, acabava se recuperando. E quando foi a última ressaca? É perda de tempo forçar-se a lembrar quando foi, porque a vida era outra, sem ter oportunidades para ganhar din-din, assim a passo.

Corre, imaginando sentir, eventualmente quando tropeça, o quanto deve ser gostoso viver de porre em porre. Queria apreciar o momento, queria andar sem afobação, sem atropelamento e sem temer tropeços. Contudo, aflige-o um tropeço ou outro. Vai no corre, vai desejando uma moringa de água mineral, e desejá-la tem um quê afrodisíaco.

Corre, sua, quer uma garrafa de água. De preferência, gelada e com gás, a ser bebida no gargalo. O primeiro gole é no gargalo. Depois, põe no copo. E só depois, vê o rapaz, cuja cara diz o quanto está acelerado. O segundo gole é um deleite. Os demais são deliciosos. Gosta do gás. Com a correria suspensa, tem esta garrafa pra ser bebida, né?

Se não corre, nem precisa olhar os preços, pois não pedirá vermute ou rum ou batida de morango. Como não vai sair correndo:

ꟷ Me vê um suco de maracujá.

Adoça-o e experimenta. Põe mais açúcar, saboreia, aprova e toma. Embora o mundo o queira de volta na correria, beberica numa boa.

Acha graça, vê-se no rapaz que faz o queijo quente, lava os copos, tira o expresso, faz o que faz porque pensa no dinheirinho que o patrão lhe paga, pensa no salário que o emprego lhe rende.

Sempre tem o que pagar, por isso corre. Como tem pelo que correr, volta à rua, corre à larga, volta à bancada, avança sobre as horas, abre planilhas, fala ao telefone. Como não surta, trabalha.

Justamente por correr a semana toda, a sexta chega e deve honrar o compromisso, tem que seguir pro jantar.

Jantam.

Tem coisa no dente. Saiu? Nada. E agora? Nem pra se limpar! É o quê? É alface. Tirou? Claro, imbecil!

Além de imbecil, parvo. Com tanto medo de morder a língua.

Tem outra coisa no dente. De novo? É fiapo de frango. Sério? Claro, idiota! Não acho você mentirosa. É bom que não ache, ou vai levar uns tapas, seu assanhado!

Sim, ele é atirado. Tem pressa para fazer tudo certo. É mesmo! Ele quer ser o melhor companheiro com que a mulher tivesse sonhado. Ele é sério. Por isso, o que o põe nervoso é fazer tudo sem errinho algum. A mulher conta que seja homem, seja um cara esperto.

Vai pedir sobremesa? Café. Café? Café, seu doente, café!

Peraí... Saquei... E daí que faltem nove parcelas, porque meu novo piano tem até vãozinho entre os dentes, que baita belezura.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de setembro de 2025.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Chorinho

 

Chorinho

 

Nem pergunte o que eu penso, pois não pretendo confessá-lo. Digo apenas o que me seja conveniente, ainda mais se disfarço o quanto é divertido rir por dentro, rir desbragadamente.

Eu ri porque a cena que presenciei foi patética, e foi tão bizarra que continuo rindo. Pornograficamente a riso solto, sem peias.

O que dá motivo para não me conter?

Vi um sujeito virar um copo de pinga. Vi o dono do bar entregar uma toalhinha. Sem piscar, o homem que bebeu a pinga numa golada foi à pia junto à porta do banheiro. Lavou as mãos, lavou-as bem.

Notei que, ao lavar-se, ele fazia o biquinho de quem assobia, quiçá mentalizando Inútil, do Ultraje a Rigor.

O que ninguém disse, nem confirmo, é que, para não ter confusão, a toalhinha era para frear a gastança das toalhas de papel.

Limpo e seco, o homem veio sentar-se no banquinho.

O dono do bar nunca se vangloriou de que tinha na clientela um pau d’água acerbamente motivado a se livrar dos resquícios da branquinha, pois o que amargura esse homem cuidadoso é que pinguços são gente que se emporcalha, mas ele, o dono do bar, é solidário com o borracho que tem ojeriza de quem transpira álcool.

Olhando-me de soslaio, o dono do bar queria que eu não caísse na besteira de rir, comentar ou fazer o mesmo que o camarada, ir lavar as mãos depois de entornar o lavrado da puríssima.

Quando simular inocência é um bom jeito de senti-la, embora fosse engraçado, não disse que era um troço que eu nunca tinha visto, algo pitoresco, algo risível, mas eu virei o copo, lavei as mãos, enxuguei-as com duas toalhas de papel.

Sem rir, retomei o meu posto.

E tudo como dantes?

Atrás do balcão, o dono do bar olhava-me com o canto dos olhos; pouco a fim de questionar-me o porquê da gracinha, o homem de mãos limpas olhava pro chão.

O meditabundo olhou-me, mas o seu olhar não deu comigo, embora eu estivesse a meio metro de si, eu me preservasse ao alcance de uma cusparada.

As minhoquinhas provocavam os clarões que me punham ansioso. Por que raios o camarada lava as mãos mesmo depois de desrespeitar o santo? Aliás, razão, santo insultado concede perdão? A tempestade iluminava as respostas, só que minhoquinhas não falam.

Enquanto bebíamos, não ousei dizer o que havia entendido.

Entendi, mas não abri a boca nem a abrirei agora, porque entidades tão sensíveis não vacilam.

Então, sensato é o santo que não bebe? Aquele que não bebe nem quando a cachola faz as mãos tremerem? Um santo de Carrara escuta o suor escorrendo?

A verdade é que o sujeito que me ensinou a beber a dose toda não apontou o chão, não puxou o ar, não teve de falar o óbvio: esse negócio de virar o primeiro teco de toda dose é maracutaia das grandes, porque o dono do bar vende mais bebida, lucra mais e expulsa a gente quando quer, alegando que o chão está imundo, fedendo, escorregadiço.

Tudo por culpa nossa, amor, pois veneramos um santo troncho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de setembro de 2025.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Chamando gente

 

Chamando gente

 

Em vez de sentado no fundo da lanchonete, o garoto ficaria melhor na foto tirando a sesta no sofá da sua casa, mas ele não resistiu de vir comer coxinha, uma vez que criança, e não importa o quão sessentona ela seja, tem dessas lombrigas lúbricas.

A tamborilar os dedos no tampo da mesa a cada vez que fazia um novo pedido de fritura, sem se dar conta das arcadas superior e inferior a friccionarem-se, eventualmente pigarreando, o guri não chega a suar neste propósito de passar-se por um velhinho desinteressado do papo dos homens junto ao balcão.

Dividindo outra cerveja, a quarta, pelo número de cascos no tampo do balcão, eles conversam ao sabor dos assuntos que vão pipocando, seja porque a notícia na tevê instigue a comentá-la, seja porque algum freguês fala algo que estimule a uma segunda opinião.

Como os palpiteiros são dois, as divergências são muitas.

ꟷ Digo que um homem é um indivíduo, uma mulher é uma pessoa. Já você diz que dois homens são?

ꟷ Ora, dois homens são uma dupla.

ꟷ E duas mulheres?

ꟷ Ora, ora, duas mulheres formam uma dupla.

ꟷ Meu caro, e se forem muitas mulheres?

ꟷ É óbvio, muitas mulheres são a mulherada.

ꟷ Quando se reúnem muitos homens?

ꟷ Meu caro, homens ordeiros são a força da nação.

ꟷ Aleluia! Você é dos meus.

ꟷ Evidente! É da união da nossa gente que surge o povo.

De acordo com a corrente versão da Novíssima Gramática Política Brasileira, cuja edição de 1992 foi ampliada em 2016, “vós” é voz mais que perfeita a reger (oculta) a “nós” e a quem somos “eles”.

De costas para a rua, fumando, o homem vai bebericando a cerveja sem temor exasperado pela segurança de filhos e netos e da primeira bisnetinha que está para nascer, uma vez que, de momento, sua maior preocupação são os fios mais negros que as asas da graúna.

De olho na TV, fumando, o homem de rabinho de cavalo, de quando em quando, passa um lenço no topo nu da cabeça, pois a cerveja não ameniza o calor, nem depois de garantir que o elástico ainda prende o seu rabicho gris.

O suarento usa relógio, mas ele não o usa para ver as horas, já que o mostrador está voltado para o braço. Então, pela exibição inusual do relógio, o distinto é mais uma figurinha premiada da cidade.

Contam que o famigerado acredita que o corpo tem o coração para dar-lhe a energia do pulso, já o relógio tem a bateria para fazer as suas geringonças funcionarem.

Assim, a pele percebe que o relógio não é outra máquina qualquer, é um tipo especial de coração, cujo organismo foi criado para a mente se orientar mecanicamente.

Eis o grande achado: o corpo capta o que os ponteiros transmitem, uma vez que, segundo a segundo, um a um, o coração resguarda-se de ansiedades, mantém-se em concomitância com o tempo do mundo; assim, criatura, ninguém entope as veias com discordâncias.

Com papais e mamães ligados na tevê, a esperança é a criançada continuar brincando na rua.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de setembro de 2025.

domingo, 31 de agosto de 2025

Jokenpô

 

Jokenpô

 

Late em mim um coração danado. Poderia pulsar menos apertado, que eu agradeceria. Não que me seja um aperto górdio a pedir espada que o resolva de vez, extirpando o mal, porque a faceta demoníaca me apimenta e dela, dessa carranca que diz o meu nome a dizer-me outro, não me quedo livre nem que eu me mascare libertado, portanto livre.

Libertação é ato, é praticar a liberdade, mas a morte não liberta, ela mata, extingue, finaliza; sim e finalmente, a morte é arrematadora.

Arrematar não é ver-se livre, é não mais ver-se excluído, não é mais situar-se à margem por vontade, é não mais posicionar-se à parte em prol das partes marginalizadas pelas vontades de terceiros, não é mais voltar o espelho às faces que manipulam os fins manejando os punhos, até porque é um negocinho satânico de ruim tratar a morte como sendo outra coisa, como se arrematação fosse o toque final, dando ao fetiche o papel de sacada esplêndida, maravilhosa, divina.

Tudo bem, admito latir em mim um chihuahua bem zureta, um bicho a correr atrás do próprio rabo, que dispara alimentar-se dos latidos que muito o divertem, até porque, quando não há morte nem ressurreição, o que há são os efeitos colaterais de uma vacina.

Para padecer algumas reações adversas, na quinta passada fui ao posto de saúde mais próximo, fui tomar a quarta, quiçá a quinta, dose da vacina que dê proteção contra certo coronavírus já meio esquecido, um que foi nomeado SARS-Cov-2.

Bem que eu podia ter ficado de boa, ignorando este vírus que segue à espreita, faz tocaia, vai vigilante, preparado para assaltar-me, a mim que não sou fascista, entreguista, um bebedor do ki-suco de quem não tem caninos assanhados, não mostra predileção tarada por jugulares, não professa aptidão para guerrilhas.

Bobo que é bobo, como outros tantos, ainda sigo na trincheira.

Um camarada na trincheira, embora mortinho.

Como foi que eu morri na sexta-feira?

A dor no braço onde foi aplicada a injeção, por óbvio, foi o primeiro sinal do que viria. Pouco antes de me deitar, veio a dorzinha de cabeça. Na madrugada, a vontade de adoçar a boca foi saciada com guaraná, que, por azar ou trapaça das zonas obscuras da cachola, eu comprara às vésperas daquela injeçãozinha. Por fim, mas sem menor desgrama, os calafrios ensoparam touca, camiseta, cueca e a alma.

No sábado à noite, soube que sobrevivera à ressurreição quando me bateu um cansaço muscular que não foi possessivamente dolorido nem um apocalipse calafrioso.

Tudo bem, a vida vai.

Tudo certo, o quintal tem câmeras que o guardam.

Tudo legal, corte e coorte que se entendam.

Tudo é vero, é veríssimo, aquela camarilha terá o que merece, a tal quadrilha saberá o que pode a justiça instituída, a cambada conhecerá o que tanto maldiz, porque, se me faço claro, sem pedra e sem tesoura, tal malta há de saber: rato não rói o papel da constituição.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de agosto de 2025.


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Criança feliz

 

Criança feliz

 

Lavando a alface, Claudiomiro não acha direito o que houve, porque foram inverdades o que disseram. Cortando o tomate, o pior é que nem quiseram ouvir o seu lado. Lacrimejando, os olhos vermelhos, não parou de cortar o tanto de cebola que gosta de ter na salada, ele queria ser escutado pelo que realmente acontecera.

A poça aos pés da mesa não era porque urinara, foi um acidente, o seu braço esbarrou no jarro de água, foi porque ficou empolgado e não porque fosse invejoso.

Quem delatou não passa de um oportunista. Quem acatou o que foi relatado sem checar a verdade cometeu uma injustiça. Quem tem que pagar pelo que não fez é ele, Claudiomiro, agora desempregado.

Ele não era o responsável pelo camarim bagunçado, só não soube dizer não no instante em que houve constrangimento. Não foi ele quem falou que não era errado brincar com as roupas. Se a estrela da peça vestiu-se como se aquilo fosse divertido, Claudiomiro foi logo pegando o vestido de noiva.

Mas não lhe deram a chance de falar que dançou uma valsa com o galã, uma vez que ele insistiu, ele foi mesmo um cara insistente, tanto que rodopiaram de rosto coladinho.

Se o sujeito disser que se beijaram, teria sido um beijo técnico, pois o Claudiomiro nunca escondeu que gosta da mulher, que ama os filhos, que está economizando porque pretende levar a família à praia quando puder dirigir o carro que seja seu.

Apesar da revolta, já que as pessoas o impediram de contar que ele até tentou deixar tudo como tinha de estar, com os vestidos, os sapatos e os chapéus, cada item em seu lugar, mas Claudiomiro foi arrastado pro bar.

O que o desviou de agir certo foi ir beber.

A prioridade de um homem é não fazer desfeita, ainda mais quando juram que irão pagar a conta. Por isso, Claudiomiro foi para o bar sem sequer ter tirado o chapéu usado pela noiva da peça.

Sem que ninguém o fizesse parar, o cara achou de explicar como a história ia sendo contada com as sobreposições de realidade, memória e alucinação. Era importante dizer o quanto o texto era atual, porque o autor tinha sido genial ao desmascarar a caretice da época.

Uma vez que a nenhum deles sobreviesse a vontade de controlar-se, eles beberam cervejas e caipirinhas, comeram salsichas, e ficaram nisso até que o dia clareou.

Como se a noite tivesse sido mais uma noite de vigilância sem nada de incomum, às oito horas de cada dia, o Claudiomiro chegou.

Circunstância atípica para a hora, ele a procurou.

Sentindo o bafo, certa de que a coisa desandaria, ela achou melhor deixá-lo dormir. E teriam de ter, mais tarde, uma boa conversa, porque homem quando é responsável não age assim.

Ele queria sonhar, pois nenhuma criança tem que se preocupar, tão logo acorde, de procurar outro serviço.

Que sorte a sua, Claudiomiro, já que você não almoça sozinho, pois a embriaguez dessa felicidade ímpar veio à mesa consigo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de agosto de 2025.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Domingo antalógico

 

Domingo antalógico

 

Eu ia pelo calçadão da orla de Praia Grande, dois ou três anos antes da Covid-19, quando acabei decepcionando quem me interpelou, pois eu não era, e continuo não sendo, o Pondé.

Na TV, o filósofo exibe uma barbona que me faz tomá-lo por profeta bíblico, mas, naqueles dias, ele costumava usar uma barba de uns dias sem fazer e, antes como agora, calçar tênis All Star, o que eu também costumava usar e calçar.

Veio a pandemia, o distanciamento social foi-me deprimente, tanto foi que virei um lastimável leitor de revistas velhas. Nos consultórios de psiquiatra e psicólogo, fui aconselhado a estabelecer rotinas. Passei a caminhar no calçadão diariamente, uma hora por dia. Adotei uma rotina nova, tão nova que a cabeça estressada precisou de ir-me adaptando devagarinho. Foi desmamando sem empolgação que eu passei a bater cartão em boteco uma vez por semana, uma vez quinzenalmente, até chegar a uma vez por mês. Equivoco-me, parei em 2019. Em maio. Foi um ano antes das restrições sanitárias. Parei e sigo sem beber desde então. Já não uso a barba de uns dias sem fazer, adotei o cavanhaque. Continuo fiel à marca Converse, pois valorizo tênis cuja fôrma não me aperreie. Tenho calos, em cada mindinho. Não os cito pra me justificar, que já não caminho uma hora por dia. Bato perna. Saio de casa quase todo dia. Vou a banco, a supermercado e à farmácia.

Maravilha! Ainda que as novidades aporrinhem, não bebo.

Aos domingos, saio passear com os cães. Sem querer voltar, passo diante de um, de um segundo, de um terceiro, são tantos os bares que passo e sigo sem pressa. Tenho que passear os meus cães. E isso me alegra. Tanto apraz que nem me apresso. Não me aperreia ir parando. Meus cães e os vira-latas não me aborrecem. Eles latem e cheiram-se. Até os automóveis, os poucos que circulam, não me são aflitivos.

Sem estresse. Entro que nem tranco a porta. Tudo bem se aparecer visita. Talvez tragam bolo. E domingo é bom para bolo, suco e debate. Também é ótimo para falar pelos cotovelos. Claro! Sendo bom escutar, calar-se é melhor. Talvez venha quem se entusiasme com um assunto e não com outro. É coisa boa ter uma conversinha que não faça a gente engasgar-se. Ou querer tomar banho. Até porque chegará o momento de lembrar-se de que amanhã vai ser segunda-feira.

Estou vendo TV. Anunciam que Jaguar morreu. Puxa vida, a notícia me entristece. Desligo a TV. A TV desligada não desvia o pensamento, que o cartunista bebeu piscinas. Deu em cirrose. E câncer no fígado. Confesso que bebi, ele escreveu.

Sinto que preciso fazer algo. Faço a barba. Tiro o cavanhaque. Meu rosto não é nenhum bumbum de bebê. Tenho rugas e pés de galinha.

E essa agora! Será meu desejo querer um chopinho?

Já que eu não sou nenhum Buda, a moça sequer se contém:

ꟷ Caraca! A carequinha do senhor é tão gostosa de alisar.

Ah sim! Larguei a boina em casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de agosto de 2025.

domingo, 24 de agosto de 2025

Dálias

 

Dálias

 

Com o patriarca no vigor dos sessenta anos, com o pulso firme da sua cônjuge a meter a colher nos momentos críticos, com Lúcia Maria casada com o marido certo, com Dália Cristina afeiçoada ao consorte que muito a afortuna, sem mais, seja dito que tal família está destinada às felicidades que tanto a distinguem.

Senhor leitor, é compreensível que se queira entender a razão para Dália Cristina ter fechado os olhos ao inspirar o aroma da flor recebida, o que me parece não ser nem um pouco plausível é a indagação, cadê as sereias que não cantam?

Cantando que fique insinuado que o caos não existe neste mundo, esta é crônica escrita para que lhe seja possível, senhor leitor, rastrear os variados sentimentos que constam do escrito.

Com a sua vênia, senhor leitor, sigo a querer exitosa a empreitada, que é o prazer de dar com a moral da história justamente quando nada for preciso de ser acrescido, habilitando-o, sem mais, para a liberdade que, creio eu, advirá aquando do instante derradeiro.

Compreender-se condicionada faz a gente acreditar que a história contada não acoberta o que seja essencial, o que, por sua vez, implica que as incoerências insinuam-se feito peta, induzindo-o, senhor leitor, a divertir-se, posto que, desde o Big Bang, a vida não vai além de uma barafunda, um pandemônio ou um caótico picadeiro.

Para que venha a ser sentido o gostinho do que seja este picadeiro caótico, senhor leitor, eis que toques picantes são para que o paladar perceba o mundo como guisado avesso a mixórdias insípidas.

Lúcia Maria, indubitavelmente a mais sorridente das filhas, reina no lar que o marido instituíra para ela oferecer martírios, onde o jardineiro teme os dentes de leão dispersados pelo noroeste, onde os pitadaços das cozinheiras são justificativa para irem pra rua, onde a garagem tem vagas para ele, para ela e pros novíssimos carros de Ana Beatriz e Ana Catarina, as netinhas mais queridas do Doutor Agripino.

Uma vez que nem filhos Dália Cristina tem, anime-se, senhor leitor, vibre estarrecido ao pegá-la empurrando um carrinho de bebê; todavia, ao vê-la uniformizada, inteirinha de branco e fantasiando-se uma babá, pasme-se, demonstre o choque que pode tão bem atarantá-lo.

Chocada está Dália Cristina, pela confirmação de que a fofoca não é falsa, pois, estacionado diante do edifício onde Belinha mora, o SUV pertence ao filho de uma égua, àquele “marido certo”.

Para não ser desmascarada feito babá e para ter o que respaldá-la caso necessite chantageá-lo, ela os fotografa.

Como é difícil manter-se acima de suspeitas, o amante da babá de Ana Beatriz e Ana Catarina, pelas fotos no celular da Belinha, sabe que a burguesinha que deprecia as tolices da vida burguesa é outra a ser amaciada.

ꟷ Embora a formosura desta flor seja inferior à sua, minha doce e gentil Branca de Neve, aceite-a.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de agosto de 2025.