quinta-feira, 20 de março de 2025

Controle de danos

 

Controle de danos

 

Às vezes falo sozinho. Converso comigo. Em voz alta, digo algumas verdades, aquilo que considero verdades. Falo até o que nem suporto ouvir, pioro a situação, agravo o mal-estar. Não chego a tomar-me por louco nem sinto que outra pessoa fala por mim, reconheço, entretanto, o ridículo da pantomima.

Ainda bem que não tem ninguém assistindo. Tenho consciência que preciso falar no sentido de baixar a bola, buscando aliviar a tensão, ir diminuindo o tom, abaixando o volume, regressando ao tamanho mais próximo da realidade.

Falo, e falo até que o quarto deixe de ser palco, falo até que minha voz ganhe o timbre de gente que nota a tolice que é falar exaltado, isso de falar e gesticular irritado é uma baita besteira.

É um disparate, porque o mundo não tem que ser responsabilizado pela minha irritação. Eu não controlei o ânimo, fiquei retroalimentando um camarada barulhento, me empolguei com essa face espalhafatosa, a careta de canastrão de quem precisa de holofote.

Justamente por estar sozinho, não como animal encurralado, estou mais para besta querendo atenção, pedindo para ser ouvida, exigindo que eu mesmo me comporte como público embasbacado.

Mas a paixão arrefece e a embriaguez passa, então, é hora de lidar com a ressaca, é o momento de avaliar como me pus entusiasmado, é o momento de ponderar sobre o que me fez perder a calma, é o instante de falar sem vestir a carapuça de pecador a relatar meus pecados, uma vez que nem me apetece ser confessor de mim.

Se alguma aflição foi fonte à irritação, não mais me nutre esse mel. O urso que deu seu show já não pede às abelhas que produzam o mel. No lugar da fera indomável e perigosa, um bichinho fofo, de pelúcia, o companheirinho das noites bem dormidas.

Nunca dormi em grama de praça, sequer bêbado; durmo em cama ou poltrona; cochilo vendo TV, escutando música - só que o desnorteio é tanto que estou abduzido para dentro de mim.

Sinto essa necessidade irrefreável de tomar chá, ainda que nem me dê conta de tê-lo preparado, bebido, súbito arroto o ar engolido, porque posso ter engolido muito ar, assim os soluços vêm como metrônomo, eles não passam.

Não estou com raiva nem furioso nem colérico, acho que desmaiei em pé, de olhos abertos, indo e vindo, até que o desassossego me leva a uma tranquilidade ilógica, me leva a um estado que me contraria, que não me descarrego num soco.

Tranquilo, desperto o desinteresse. Já não bebo mais chá. Não me chateia não ter nada pra fazer, o vazio momentâneo é tédio. Por cinco, dez minutos, nem ligo pro tempo.

O que eu podia ter feito, parado para fofocar, ouvido sem me alterar, ter dado umas porradas?

Vi a aglomeração, vi a motocicleta no meio-fio, vi a ambulância. Não vi outros feridos; vi o colar cervical sendo colocado na vítima.

Nem imaginei que a pessoa que queriam linchada era o piloto todo ensanguentado na maca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de março de 2025.

terça-feira, 18 de março de 2025

O outro lado do estranho

 

O outro lado do estranho

 

Tem esse vizinho que é um sujeito muito esquisito. De dia ele deixa as cortinas cerradas; depois que anoitece, puxa as cortinas, abre todas as janelas, só que nenhuma lâmpada fica acesa.

Esquisitíssimo é ele, de madrugada, fumar na varanda.

Sentado na cadeira de balanço, sim, eu o percebo sentado porque vejo aquela brasa avermelhada num vaivém vagaroso, de quem pensa e não perde o ritmo enquanto pensa, fumando daquele jeito.

Mesmo que chova ou que esteja um frio do cão, é em virtude dessas circunstâncias que fumar seja uma coisa intrigante.

Como sua casa fica do outro lado da praça, consigo observá-lo. Se não o vejo com clareza, intuo o que o seu corpo tenta esconder.

Discretamente, espio o que ele faz. Uso a cortina para permanecer invisível. Sou discreto por conta do pudor, não por temer suas reações. Ainda assim, melhor vigiá-lo sem ser visto. Mesmo que não o imagine violento, não desejo vê-lo esquentado.

Também não o concebo um agente que tenha vindo pra vizinhança com a ideia de detonar o chafariz com bombas caseiras.

Gente que deseja o bem, nossa praça é um lugarzinho pobre, cuja maior riqueza são as poucas árvores onde os passarinhos vêm cantar pela manhã.

Pessoa augusta que só faz o bem, perdoe-me se o acho bem capaz de saracotear peladão no coreto. Perdoe-me, pois tal pensamento me embaraça, tanto que, ao imediato de pensá-lo em pelo, breco-me e tiro os fones.

Satanás não saracoteará na casa do Senhor?

A minha mente é uma casa térrea. Vivo onde um porão secreto tem difícil acesso. Sendo térreo, não visito nenhum sótão e não uso escada pra alcançar o subsolo. Não piso o subterrâneo quando bem quero, ele é que abre suas picadas. Mesmo quando me vejo de fora, sou térreo e sinto que a escada que não vejo é transitória. Pelo reflexo na bolha de sabão, tanjo pétalas, espinhos e o capacho.

Caro vizinho que veio morar à beira da nossa praça, não nos queira mal, não pense mal de quem o espreita.

Não sei seu nome, mas não use minha ignorância contra mim.

Quem sabe, amanhã, eu o encontre comprando água sanitária; juro que não pretendo denunciá-lo, juro, nem sei se água sanitária seja útil na fabricação de artefato explosivo.

Seja afável, não abuse da franqueza. Não sou covarde porque sinto medo, só me falta a audácia da franqueza.

Posso estar enganado, mas o cavalheiro realmente parece ser um camarada corajoso.

Ao fotografá-lo comprando água sanitária, não creia que eu também seja corajoso; só produzirei provas do quão corajoso o senhor é.

Sem fazer especulações sobre o que não vejo, o senhor não precisa fumar pra que eu alcance farejá-lo insone.

Mesmo que eu esteja acordado de madrugada, vá dormir tranquilo, até porque sua casa tem sótão e toda casa que tem sótão, ela também tem porão; fique sossegado, sou gente pacata que nem porão costuma acessar quando flagrado nervoso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de março de 2025.

domingo, 16 de março de 2025

À luz dos fatos

 

À luz dos fatos

 

Com roupa no varal, faz sol.

Mãs, mamã, a manhã mancha as minhas maçãs, mamã ― sobre a luz do sol, é assim que escuto a minha menina interior, em suas tranças laterais ornadas cada qual com seu lacinho amarelo, os pezinhos bem acomodados em sapatinhos lustrosos, de laca, porque a minha menina interior não é moleca, maloqueira nem malandrinha, é boneca chinesa, que, essencialmente budista ou zen, não fala mandarim, mas confunde a língua com macarrão, aquele cuja sopinha melhora uma barbaridade se comida emborcando-a da tigelinha.

Escuto-a, menininha, pois aprendi a desenovelar-me, sou feito uma cebola, tenho anéis sobre anéis, sou, portanto, matrioska, tenho dentro outro dentro outro dentro, assim me percebo, penso e sinto.

Penso que o sol quara, mata bolor, aviva a alma; e quando me posto vivaz, há vozes que, sem esforço ao tagarelar, posso fazê-las.

Soar-me gutural, falar em falsete, ter voz anasalada, emular língua presa, gaguejar, virar metralhadora com palavras sobre palavras, falar por suspiros, meneando a cabeça, dando de ombros, por pigarros, por tossidinhas, salivando, mesmo engolindo seco.

Matraqueiam na TV que biscoito e bolacha são sinônimos; contudo, meninazinha, você e eu sabemos que a bolacha tem recheio e biscoito arranha a garganta.

Quando a guloseima machuca, é preciso passar manteiga ou creme de ricota. Ou seja, é uma bobageira ferrada dizer que bolacha é coisa de paulista e biscoito é um troço de carioca.

Em casa, minha menina, você aprendeu comigo a diferenciar meia de peúga, pois a bisa, a mãe da mãe da minha mãe, foi criada num lar de portugas, é indiscutível: meia é peça de algodão pros dias quentes e a peça de lã, para as auroras do inverno, é peúga.

Qual roupa é menos ridícula?

Guturalmente estarrecedora foi a experiência que vivi na Bahia. Em meados dos anos 90, acho que foi em Santa Cruz Cabrália.

Lembro da lagoa com aquela lama medicinal.

Como brincar na água nunca foi o meu forte, até hoje não sei nadar, lembro que atração maior eu senti pelo quiosque.

Não que fosse mais sedutora a ideia de tomar cerveja às oito da matina. Comecei cedo, pois os cotovelos ancoraram-me no balcão.

Fui bebendo, mas vieram os turistas. Embora lambuzados, abracei-os com a camaradagem dos ébrios.

Ou a lama com poderes terapêuticos me deixaria limpinho ou minha embriaguez me conduziria à ducha.

Entrei no chuveiro.

Como ducha não é duche, porque duche é palavra sem a delícia da água caindo. Pelo prazer do chuá explícito em ducha, sem pensar que estava vestido, urinei nas calças curtas.

Sim, calças curtas, pois foi, num dia radiante, que peguei a tesoura e cortei os jeans batidíssimos, tornando-os uma bela bermuda.

É claro que não quero emburrar nem implicar, pois compreendo que short, calção e bermuda não desfiam como as minhas calças curtas.

Touché, é ducha!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de março de 2025.

quinta-feira, 13 de março de 2025

Falso positivo

 

Falso positivo

 

Ser interpelado por algo escrito, eis a vanglória. Quando há embate pelo não escrito, há júbilo. Por esta glória esporadicamente alcançada, sinto o prazer de ter desejado cada palavra escrevinhada.

Meu sorriso não vem do inimigo interior que despreza meu sorriso, é para dar confiança à pessoa cativada que me toma por cativa.

Sim, esbalda-se este cronista: mastiga de boca fechada; bebe sem fazer ruídos; escuta o que é dito; matuta respostas astutas, justo essas que não diz; acha graça em falar o que se espera que eu fale.

Por pacíficos, conformamos a harmonia.

Houvesse apenas desapontado quem me faz ouvi-la, essa pessoa não chegaria ao ponto de ameaçar-me.

Ela afirma que deixará de ler as minhas crônicas; mordo o pastel de carne. Ela assegura que minha recusa em desculpar-me por escrito a obrigará a bloquear-me; tomo um gole de garapa. Ela garante que fará tudo o que estiver ao seu alcance para que haja o meu cancelamento; não me furto de dizer-lhe quais são meus nicknames.

Devidamente avisado, confirmo, estou devidamente envergonhado, adianto, minha vergonha de escrevinhador corrigido pela prudência me fará agir com empatia, afianço, passarei a escrever pondo-me no lugar do outro, comovido, eu topo, mudarei minha conduta.

Porei misericórdia ao escrever.

Se o Timão precisa de mais um gol pra seguir na Libertadores, dou como feito que este gol esteja faltando. Assim, bando de loucos, a faixa de campeão 2026 seja envergada, o tutu seja creditado, o chope esteja gelado como deve estar.

Não é por acaso, faço que nem a Sylvia Telles, ela canta que o vento que fala nas folhas contando as histórias de ninguém, ele, vento, conta ainda que as histórias são minhas e de você também.

Prezo a crônica que especula.

Se o Liverpool, que, de momento, joga o melhor futebol da Europa, perde nos pênaltis, que o PSG sinta esta perda, Darwin Núñez, como cobra que morde o próprio rabo, que ele prove do mesmo veneno, que o PSG, Curtis Jones, que o PSG ainda perca.

Se três vezes eu digo, que as três vezes não me bastem, direi pela terceira vez, que cantarei a história que ninguém antes haja ouvido de mim que não a cantei.

Moça Bonita...

Em crônica já publicada, Moça Bonita não é mulher, é apelido, não é gente que goste, aprecie e aprove que a digam patriarcal, gente que peça por anistia antes do carimbo, que a cacifem culpada a merecer a culpa que não tem e não julga ter. Todavia, no transitado e julgado que, ao fim e ao cabo, tenha por cumprir, posto que se cumpra e, sob vara, se cumpra.

Apoteoticamente, tomo pé do siso que me norteia, anoto, injuriado pelo que não houve, não há nem haverá de haver, opino que o pênalti do Arboleda no Vítor Roque é pênalti inexistente, e a penalidade, VAR, o que sucede é o simulacro a olhos vistos, o dobrar-se sobre perna que se recolhe vai seguir patético por Paulistas afora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de março de 2025.

terça-feira, 11 de março de 2025

Além da conta

 

Além da conta

 

Preparado para mais uma jornada?

Para começo de conversa, não devo, escolho: quero conversar com quem esteja a fim; sem forçar, sem exigir, sem constranger, penso que o papo possa transcorrer pacífico, pouco brusco ou brutalizado.

Todavia?

Giro a chave no sentido anti-horário, mas a porta proíbe-me de sair, trancafiando-me em casa, que é um lugar em que as pessoas que não sei quem sejam ficarão sem saber da minha condição, que estou a fim de papear à toa, despreocupadamente, sem me condicionar à hora, ao segundo seguinte, sem me cobrar pela inutilidade de falar sobre anjos, arcanjos e arcebispos em quaisquer conclaves vindouros.

Digito a senha, embalde. Quem sabe a brincadeira gere satisfação se considerar o ocorrido com a porta, pois girando a chave no sentido inverso ao usual a destranquei, assim, por tal lógica, só preciso digitar os números na sequência invertida pro celular ficar desbloqueado.

O que eu posso deduzir?

Como conclusão precipitada: induzo-me a pisar a calçada com o pé esquerdo; passo sob a escada do limpador de toldo; afago o gato preto que mia para que o afague; faço a aposta com as seis dezenas que os algarismos do telefone da lotérica sugestionam-me incontestavelmente que sejam atalhos à fortuna.

Serei lorpa a tal ponto?

Vem a brisa que não ameniza o calor que sinto. Vou à sombra que não estanca nem um pouco o suor a empapar a gola da camiseta. Vem o vento avisar do inferno, aquele que, de fato, há, mesmo a quem não se pegue apaixonado por ele nem o acomode na mente e à gente que se bate a aventá-lo inventado, tão somente por horror ao real.

Que aloprado trago em mim que seduz a tantos desvarios?

A garota dos bolos e tortas está vagando entre as agências. Não há começo de mês sem que as filas dos aposentados estejam postadas à porta dessas agências.

Compro um bolo?

A torta é de atum, não é de sardinha. Ela apela à minha queda pela sua torta de atum; e eu como ali mesmo, à vista dos aposentados que até comeriam um pedaço, caso me oferecesse de pagar-lhes um, dois, três, quatro, que eu pagasse pela torta inteirinha.

Por que não pago?

Embora haja explicações plausíveis, todas são tocantes.

Por que não falo nada à vendedora?

Penso no quanto é gasto pra fazer uma torta ou um bolo. Penso nos preços de farinha, manteiga, leite e ovos. Penso no custo da luz elétrica para que bolo e torta sejam assados.

Para fechar a conta?

Como a vida não para nem enquanto mastigo, a garota justifica-se, que ela cobra sete reais pelo pedaço, seja de torta, seja de bolo. Então, sendo sete, quem paga tem que dar uma nota de cinco e uma de dois. Quem dá uma nota de dez sabe muito bem que não existe nota de três, é por isso que ela não volta troco.

Não é óbvio?

Com o sol estimulando minha testa, sinto que a farinha, a manteiga, o leite e a energia são os vilões que pegam pelo ponto nevrálgico, que todo mundo tem boca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de março de 2025.

domingo, 9 de março de 2025

Dois palitos

 

Dois palitos

 

Com os dedos que a mim não me desarmam de mim, na esperança de ser guiado pela sensibilidade de um poeta, uso do cotoco, acabado de apontar, para reproduzir ao Mario Quintana, que minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.

Não deliberei elegê-lo mestre, fui embebido nessa fonte oculta que me seca a garganta a cada gole, porque um grande poeta não é o leitor que o descobre, mas ele é quem descobre o leitor.

Nem são sete horas! Lavo o rosto e troco de roupa, pois o cheiro do corpo suado ganha proeminência, ilusória, encantatória, por sequer me afugentar do desígnio de ser domado pelos tigres, afinal, o vento fareja tudo, contudo, Mario, o vento cheio de ideias vãs põe-se a pensar em outras coisas...

Quero um lume. Sei, a luz pode obscurecer. Tem a lua lá fora, tenho algum chão para percorrer, mas a crônica não diz aonde chegarei, de que maneira estou indo, se parado avanço com menor dispersão, se o ridículo que faz rir é o mesmo que me aperta no peito, até porque quem nunca se contradiz deve estar mentindo.

Os tigres (em meio ao turbilhão do mundo o poeta reza sem fé) são palavras, são ideias, são a mão que segura o lápis e a folha em que as palavras enchem o copo, esvaziam o copo, o deixam pela metade, são miragem a apresentar-se sombra aberta no seio do deserto.

Ganha tempo quem ignora a hora? Sim, o senhor acerta quando diz que a eternidade é um relógio sem ponteiros.

Porque as conexões que não existem são as mais difíceis de serem coligadas, assim duas agulhas sem lã tricoteiam um suéter inconsútil, assim dois palitos sem yakisoba forram a pança de ninguém, assim o lápis, a folha, o polegar e o indicador contam com uma cabeça livre pra crônica ir além das ideias.

Como não me quero um palhaço irônico demais para não rir de mim quando me ponho preguiçoso, quando me revisto de poeta vagabundo, quando bem sei que um dia o meu cavalo voltará sozinho, assumo que, alheio ao murmurar das gentes, as distrações do mundo levam a minha própria imagem e semelhança a sentar-se para ler, como sempre neste mesmo café, o nosso jornal de cada dia.

No entanto, levanto os olhos, corro-os a esmo, estou sozinho, estou à disposição da crônica, lá fora há sol, vento e a paisagem que a janela me permite ver.

Essa nesga do mundo encoraja-me a confessar a tristeza que sinto, pois cada palavra é uma borboleta morta espetada na página: por isso a palavra escrita é sempre triste...

Vou tomar vitamina C. No copo d’água jogo outro comprimido, o de vitamina D, um que não é efervescente, é essa troca que me faz sorrir, é esse descuido que me aponta que domingo é um cachorro escondido debaixo da cama.

Mario Quintana, vim por suas palavras, que elas são um gole d’água bebido no escuro, são o mistério d’uma formiguinha que atravessa, em diagonal, a página ainda em branco, são um olhar e o seu olhar, poeta, é o olhar de um condenado...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de março de 2025.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Muttley condecorado

 

Muttley condecorado

 

A dois passos do supermercado, cheguei a tempo de testemunhar uma cena que, a princípio, chateou-me um tanto, mas, miolos adentro, o humor brotou-se por meus neurônios, que se avivaram das sinapses bem mapeadas; e pelas trilhas da ironia, pelas encostas do sarcasmo, pelos ecos de humanista poltrão que tem cá sua poltrona, por me saber a mim pelos repentes de folgazão, brinquei em pensamento, pois, se o fizesse em voz alta, certamente me tomariam por biruta, então, me pus a trocar ‘ocasional’ por ‘racional’ por ‘genial’, até que minha experiência acolheu como cristalina a frase: meu emagrecimento tem um processo natural, basta abrir a carteira.

Tendo aceitado o desfecho, veio-me que a vida anda espetaculosa e, desde domingo passado, muita gente não se avexa de suas fumaças sobre a sétima arte, sobre métodos de atuação, sobre a banalidade do bem maior, que é o povo feliz com a Fernanda Torres.

Dona Cremilda, a senhora me perdoe pelo entusiasmo com o Oscar que Ainda Estou Aqui recebeu.

Poderia ter começado elogiando a fita, mas ainda não a vi nem sei quando a vou assistir.

Minha querida, não vejo a hora que o filme passe na TV, porque os parabéns à obra, ao elenco, à equipe técnica e ao cineasta funcionam como felicitações que andei carente de granjear.

Minha autoestima em baixa enquadra-me naquela turma que gosta muito de aplaudir-se, afinal preciso mesmo dessa energia que agrega, suplanta desavenças, irmana a todos que não nos diminuímos:

― Vencemos!

Amiga, não é uma característica tão somente minha, há tantos que não estufam o peito para apropriar-se do mérito de terceiros, só que se alteram sem dar trela a mesquinharias, já que a vitória é nossa.

Ainda que os troféus de Melhor Atriz e de Melhor Filme tenham ido parar em mãos estrangeiras, que talvez tenham lá as suas habilidades, mas sou gente criada no orgulho de nunca ser derrotada por causa dos meus atributos genuinamente positivos.

― Somos vencedores, ganhamos um Oscar!

Dona Cremilda, não peço desculpa pela senhora não ter dito o que acha de Ainda Estou Aqui. Não peço nada que a senhora não esteja em condições de se pronunciar, porque sei das suas capacidades.

Também tenho minhas limitações, tanto as possuo que não vou às redes atrás de vilanias nos comentários compartilhados, uma vez que tenho esse espírito revoltado que há de me irritar com quem insiste em passar de ‘revolução’ pra ‘movimento’.

― O Oscar é nosso!

Querida, desço ao lodo que constitui a minha mente. Levo uma vela; cuido que ventanias não me ceguem. Tomo pé do que sinto; persevero que vivi o que vivi. Paro um instante, puxo pelo ar que me mantém vivo.

Se a rede quer-me rendido às falácias, recuo dessa arapuca.

Pra evitar que o diálogo acabe inviabilizado, recorro àquela cena a dois passos do supermercado:

― Mãos ao alto! Esvazie os bolsos!

― Cumé?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de março de 2025.

terça-feira, 4 de março de 2025

A beleza da vida

 

A beleza da vida

 

Com sua permissão, quero compartilhar o que estou sentindo. Noto que a alegria me consola nos momentos em que o cansaço começa a prevalecer. Posso estar cansado, mas não nego que sossegar da luta é um passo atrás. Este recuo é estratégico, pois dou-me o tempo que preciso para perceber o bem-estar. Quando sinto o cansaço, não quero exagerar a intensidade, uma vez que a alegria mobiliza-me a destacar-lhe o valor, pelos benefícios e pelas possíveis benesses, sossegando-me a um passo da exaustão, a um passo de entregar-me à inércia.

Cansado, preciso de um refresco.

Pela estafa, o sentimento que agora eu vivo é de calmaria; mesmo que não tenha a paz que eu ainda almejo, acalmo-me.

Embora perceba horrível a pacificação que não mascara as forças contraditórias que me fazem vivo, experimento a vida a puxar-me para lá e para cá ― passível de horrorizar-me comigo, estou vivo.

A ansiedade me movimenta, não me deixa criar limo, não me deixa mofar à sombra de mim, pois também tenho esta modéstia, que é ouvir as pessoas dizerem o quanto as afeto.

Dou valor ao que os outros dizem. Tento aprender com suas falas. Quero descobrir como ser benfazejo. Procuro ficar tranquilo. Sei que a alegria pode ajudar quem precisa de mim para alegrar-se.

Bebo uma cerveja. Bebo outra. Bebo mais, mais, mais.

Ainda que a cerveja esteja suplicando pra vir à tona, atrás da banca pode até ser lugar mais à mão pra mijar, mas atrás da árvore funciona que é uma maravilha, bem longe dos críticos abelhudos.

Aceito a crítica, ureia demais é veneno em vez de nutriente. Então, saúdo os foliões que me levam a regar as outras árvores.

Para que meu brinde alcance quem nem precisa continuar bebendo por estar feliz da vida, sinta-se saudado.

Daqui eu o saúdo, folião, pois simpatizo com a sua animação.

Quem não conhece fraqueza nem cansaço, sabe que Carnaval é o tempo mais normal do mundo pra cantar desafinado, dançar abraçado e beijar à beça.

Não se desculpe, os perrengues que fiquem pra depois.

Sim, poste de cachorro é imóvel, juros aumentam todo dia, lasanha nunca é servida antes das duas e todas as tardes, sejam soalheiras ou chuvosas, elas conhecem o fim no crepúsculo.

Conheço gente que associa o anoitecer com a escuridão, pensando que a alma sente o baque, abala-se, passa a temer criaturas que vivem atrás de portas, cortinas e fotografias.

Há quem fotografe a lua, querendo a cabeça arejada, enriquecida quando monstros ameaçam e geram um clima em que angústias têm garras, desesperanças produzem náusea e olhos não titubeiam.

Para o seu prazer, ardiloso, saiba ser vigilante e observe-se.

É lisonjeiro ser amigo de gente que bebe, baba, sua e não para de beber, babar e suar, até porque, em casa depois de mais outra jornada no bloquinho, é hora de encarar um belo banho.

Humildemente, saúdo bêbados, beijoqueiros e a falta d’água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de março de 2025.

domingo, 2 de março de 2025

Jogo aberto

 

Jogo aberto

 

Chega de lenga-lenga, não estou nem um pouco satisfeito. Daqui a pouco, eles chegarão. Minha mulher tem esse defeito, vive convidando quem nem se esforça para irritar. Por que são parentes, tudo certo? Se tudo estivesse bem, eu não estaria limpando a grelha.

Para receber a família, o pior dia é o domingo.

Sem o corre-corre que a ninguém imuniza mas engana um bocado, o cunhado não percebe que cerveja não estimula a inteligência, nem a dele, que se embriaga de gole em gole, nem a minha, que me amofino com o entendimento de que, aos domingos, a cabeça ganha leveza se escarafuncha miudezas à cata de sutilíssimas nuances.

― Até o diabo sabe: é malpassada que a picanha fica no ponto.

Roberto Carlos é sábio, nem por isso, Ísis, nem pela sapiência, toda ela, tagarela do seu irmão, eu a amo menos.

Nunca o chamo de Betinho, Robertinho ou Roberto Carlos, uma vez que o respeito, ainda mais sendo o irmão mais velho da minha esposa; sempre soube tratá-lo carinhosamente como cunhado.

― Viu a vaia na cantora baiana lá em Salvador?

Não vi, mas ouvi as sete latinhas:

― Será possível que ela não percebe? Evangélico acender vela pra pedir dinheiro ao diabo para fazer caridade em louvor a Deus, isso não é livramento, isso é trapaça, é testemunho que condena.

Cunhado, cunhadinho, se jerico tem ideias, essa é uma, mas tenho a grelha pra cuidar, daí que eu cuido dela.

― Fiz toda a programação pro sábado, mas amanheceu sexta e me manquei, feliz. Veio a véspera, não o Carnaval. Só que não sou gente que aceita derrota, às dez, abri uma lata. Dez da matina? Perdido o dia de serviço? Bebi a latinha em três goladas.

Se latinhas dão alegria, pra que somar os boletos, né?

― Naquela hora da chuva, nem quis saber. Mesmo trovejando, dá para continuar na piscina. Continuei bebendo. Dá para gostar da água fria da chuva. Nem quis saber de resfriado, continuei bebendo a minha cervejinha, continuei achando que não vinha temporal coisa nenhuma. Continuei torcendo para que mais gente entrasse na piscina, mas sabe como é, família gosta que a feijoada dure o sábado todo, daí ninguém janta, ninguém quer esquentar a sobra da feijoada.

Roberto Carlos também é irmão do José Carlos, embora o pai seja Aspásio, não seja Carlos nem José Roberto, por isso o nome da minha esposa é Ísis, pois cada família tem o patriarca que sabe dos mistérios da vida, e da latinha tomada em três goladas.

― O Carnaval tem esse mistério, tem o poder maravilhoso de fazer a véspera do Carnaval ser um autêntico sábado de Carnaval em plena sexta, havendo, assim, dois sábados de Carnaval.

Com a sexta que nem sábado, o Carnaval supõe que o encanto de boletos, pizzas e novela das nove pode ser quebrado.

― Jesus é amor. Deus é pai. O que faz o pai do amor? Faz o diabo acreditar que está à frente do Carnaval.

Craque nas cavadinhas, eis o meu caçula:

― Tio Betão, o senhor pula no pênalti?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de março de 2025.