A mulher que atendeu disse que o funcionário
levaria dez minutos para chegar, mas faz uma hora que liguei.
Torno a ligar, a mesma mulher pede
desculpa, diz que o funcionário teve que ir atender a uma emergência, mas em vinte
minutos chegará ao meu endereço.
Antes que digam que a cidade está um
caos por causa dos quarenta graus, resolverei o problema em quinze minutos.
Na primeira loja, acabou. Na segunda, a
vendedora avisa que está para chegar. Na terceira, só tem modelos de teto. Depois
de quarenta minutos batendo perna, encontro o modelo que me satisfaz pelo preço
e por poder levá-lo debaixo do braço.
Se o ar-condicionado precisa de
conserto, nada tenho que reclamar do ventilador, cujo consumo de energia será
bem menor, mesmo ligado por vinte e quatro horas.
Sim, senhora, o aparelho ficará ligado o
dia todo, pois sou humano, sou um bicho que não para de funcionar mesmo
dormindo, mesmo que o sol vá torrar as pessoas do outro lado do planeta, mesmo
que a água ainda ferva a cem graus Celsius, mesmo que o corpo siga no propósito
de estabilizar-se entre 35,5 e 37,5 graus, sim, senhor, o ventilador tem que ficar
ligado ou vou surtar por falarem besteiras.
Dane-se, aquecimento global! Que se dane
a conta da luz! Dane-se quem acha que ventilador tem que ficar ligado apenas o
necessário. Dane-se quem não pensa que ventilador bom é aquele que só queima
por uso abusivo. Dane-se essa gente que se recusa a regular o ar que respira. Dane-se
quem acha que o novo normal é a rotina insuportável dos quarenta graus.
Quarenta graus na sombra?
Quarenta graus com o ventilador ligado,
pô!
O que a mim me cabe fazer, faço. Uso a
internet pra trabalhar. Urino no box enquanto tomo banho em cinco minutos. Instalei
placas solares no telhado. Pintei a casa inteira de branco. Capto a água da
chuva em bombona de 200 litros. Vou a pé a farmácias e supermercados. Acendo
lâmpada quando não tem outro jeito; até para ler, uso luz natural. Tomo banho
frio, no escuro. Não tenho micro-ondas nem fogão a lenha. Vivo maltrapilho e
não jogo fora o que pode ser usado como pano de chão. Pra economizar de verdade?
Não fico doente porque não me descuido: chupo laranja, tomo limonada, como jiló
e mocotó, não frito batata, não gosto de hamburguer nem de sundae, tomo água
filtrada, não mordisco tampa de caneta nem chupo o dedão.
Se ainda assim me enviam link pra minha contribuição
espontânea, clico e torço pra que não seja golpe, pois espero que o pix que
enviarei tenha bom uso, que o dinheiro não vire asfalto nem vire munição contra
minha genética, pois, caraca!, eu sou do bem.
Sim, amigão, tenha dó, pois estou
cônscio que labuto para o mundo melhorar, que eu, gota a gota, suo à beça para que
a Terra siga sendo humanamente habitável.
Como o corpo funciona bem entre trinta e
cinco e trinta e sete graus, acima disso, em pane, viro urso.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de fevereiro de 2025.