O ar da
manhã ― continuação
Epaminondas respira, mas ele precisa
respirar não somente pra se manter vivo, quer vir a ser o primeiro beijoqueiro
na corda bamba.
Poderá ser o primeiro beijoqueiro a
conseguir. Já suando, o coração acelerado diz que terá de enfrentar-se. Apesar
do medo, subirá degrau a degrau, até o topo.
Os malabares caídos são um sinal. Ao pé
da escadinha, não estão ali por acaso, tem algo acontecendo. Sente que os
malabares são para testá-lo, fazê-lo suar, disparar o seu coração, colocá-lo na
posição que só ele poderia antecipar.
Joga um malabar, pega-o. Outro é atirado
pro alto, pega-o também. Joga os dois, um de cada vez, não os deixa cair.
Abaixa-se, sem deixar nenhum deles dois cair, joga pro alto um terceiro. Não
deixará nenhum dos malabares cair, e falha.
Sua. Tem a boca seca.
Sobe um. Pisa no próximo degrau. Não os
conta, apenas sobe. Vai conseguir, está certo de que conseguirá. Não vacila,
sobe um de cada vez, vai à plataforma.
A corda bamba não é corda, é um fio de
arame.
Epaminondas encara-se. Medo é
acovardar-se. O próximo passo é apoiar o pé no fio. Logo, o outro pé precisa
ter firmeza, não confia que possa conseguir. Não testa o outro pé, quer apoiá-lo
mas não faz nada. Precisa equilibrar-se, manter-se ereto.
Lá embaixo estão uma vara, uma sombrinha
e o monociclo.
Epaminondas desce. Pega a vara e volta a
subir.
A artista do circo impede-o de tentar a
travessia, grita-lhe que desça antes que se esborrache, porque é uma estupidez
querer andar no fio sem a rede de proteção, nem ela, que vive no picadeiro
desde que veio ao mundo, nem ela encara o fio sem ter a rede armada.
Epaminondas ainda sua, ainda tem o
coração disparado, ainda tem a garganta seca, tanto que balbucia, querendo
desculpar-se, temendo que o expulsem sem que possa justificar-se, dizer o
quanto ama.
Aquilo é por amor, aquilo é o seu modo
de mostrar pra todo mundo que o seu amor é para valer, é a única fonte
verdadeira que o faz viver para que o próximo passo prove ser incomparável, que
a ousadia seja contada a dez, vinte, dali a trinta anos.
Epaminondas sabe muito bem o que sente.
O que ele está sentindo é amor. Ele ama, não está apaixonado. Paixão é loucura
efêmera, mas o amor que está sentindo precisa mostrar para todo mundo que a
vida é para ser vivida de tal modo que ontem não seja confundido com hoje que
não seja confundido com amanhã, uma vez que o amor cancela o tempo, o amor detona
o instante, o amor faz o momento ser um, o que se vive não faz o vir a ser acabar.
Epaminondas subiu, perdão, queria preparar-se
pro beijo, queria a coragem de beijar com todo mundo focado no beijo, queria
ser olhado pela gente toda, perdão, pedia essa admiração.
Sentindo-se ridículo, percebendo-se ridículo,
Epaminondas cai em si: como pôde acreditar que conseguiria vencer sem nem mesmo
saber como se livrar da vara quando despencasse?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2025.