fundamentos morais para a sobrevivência
sem surpresa, o
tédio me assombra,
funda essa febre
que não passa.
sei bem obedecer
às regras:
depois de
acordar, espreguiçar-me,
para que a noite
não se apegue tanto ao meu dia;
depois das
espreguiçadas, levantar-me,
para que o dia
trate de apoderar-se dos ossos;
depois de
levantar, tomar café;
depois do café,
escovar os dentes;
depois, deveras
acordado, vou pro esperado
─ ganhar a vida
na lida mais renhida.
agora, não vou
negar nem nada,
sei muito bem
que tenho lugar no mundo.
faltam-me
apenas, e tão somente,
um emprego, o
que comer, e a tal cama.
cachorro eu já
tenho.
o resto?
tudo em ordem,
num progresso só.
em febre baixa,
este meu corpo nem
pede remédios; o
corpo cede
à paz o
descanso, a tal recompensa
do sono, um sono
bom, sem sobressaltos,
sem os
pesadelos, sem certos sonhos,
a quimera sem
monstruosidades,
deformações,
informações, sazões.
à margem do
atalho, prisioneiro da liberdade?
o feito do
desfeito, por desfeita:
amanhã, outra
vez, amanhã.
o amanhã não
começa noutra manhã.
(rodrigues da silveira, 2018)