segunda-feira, 10 de setembro de 2018


fundamentos morais para a sobrevivência


sem surpresa, o tédio me assombra,
funda essa febre que não passa.

sei bem obedecer às regras:

depois de acordar, espreguiçar-me,
para que a noite não se apegue tanto ao meu dia;

depois das espreguiçadas, levantar-me,
para que o dia trate de apoderar-se dos ossos;

depois de levantar, tomar café;
depois do café, escovar os dentes;

depois, deveras acordado, vou pro esperado
─ ganhar a vida na lida mais renhida.

agora, não vou negar nem nada,
sei muito bem que tenho lugar no mundo.

faltam-me apenas, e tão somente,
um emprego, o que comer, e a tal cama.
cachorro eu já tenho.
  
o resto?
tudo em ordem, num progresso só.

em febre baixa, este meu corpo nem
pede remédios; o corpo cede
à paz o descanso, a tal recompensa
do sono, um sono bom, sem sobressaltos,
sem os pesadelos, sem certos sonhos,
a quimera sem monstruosidades,
deformações, informações, sazões.

à margem do atalho, prisioneiro da liberdade?
o feito do desfeito, por desfeita:
amanhã, outra vez, amanhã.

o amanhã não começa noutra manhã.

(rodrigues da silveira, 2018)






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