dádiva
o
feto foi dado como vivo entre os escombros.
comovidos
pela notícia vinda do andar de cima,
os
operários declinam da marreta, aceleram com o pasmo,
muito
atraídos, e prorrompidos pelo silêncio,
embasbacam-se.
ali
não é lugar pro insólito.
é
preciso retomar as malhas do ferro.
no
exercício do contínuo, a construção precisa andar,
fabricar-se
por mãos metódicas, edificar-se pelo racional;
atenção
ao traçado é compromisso.
o
projeto tem prerrogativas.
é
essencial sugar pras plantas a seiva dos envolvidos,
ou
nada se mantém à parte do forasteiro.
sem
dúvida, gente dessa espécie estranha a presença,
é
fundamental controlar seus fluxos mentais,
impedir
os influxos do pensamento;
ninguém
deseja acabar-se presa
dos
labirintos do cérebro.
ao
concreto do aço,
atenção.
urge
extirpar das estruturas o malquisto,
é
basilar recolhê-lo ao olhar distraído dos obreiros.
pra
que esteja inoculado pelo trabalho
o
esforço de cada gesto, o empenho de cada braçada,
ordena-se
a aplicação da vacina.
cumpra-se,
de bom grado.
esporos
não empacam, espalham-se;
raízes
não propagandeiam, aprofundam-se;
folhas
não encorajam, exibem-se.
pra
recuperação sem desperdícios daqueles restos,
é
capital vedar gargalos, calejar os ouvidos, vencer inconveniências;
pro
desbaste sanitário, coordenado, categórico,
é
capital as instruções serem seguidas, ao pé da letra,
abraçadas
rigorosamente.
rigorosamente,
fixe-se
a mirada na obediência à lógica;
bata-se
pelo regulado, contratado, firmado.
estejam
todos voltados pra erradicação do entulho.
cabe
à voz da realidade ditar tais afazeres,
comandar
a administração pro andamento do ordenado.
acaso
a sombra do trançado persista,
acaso
tome corpo a lembrança daquela vida,
acaso
o eco do verde resista à força do silêncio,
seja
constituída a redoma com os dígitos da científica,
demonstre-se
o inútil com os interstícios do virtual,
aplique-se
o contingenciamento do indômito pelo modelo.
mão
de obra carente de ser lembrada de prazos,
de
que as distrações inoportunas comem o tempo,
de
que até a fome pra ser atendida tem hora programada?
no
armário numerado, pra outro celular desligado, abra-se espaço.
longe
daquela engenharia capitalizada,
longe
daquele deserto de esqueletos recuperados,
pelas
veredas longínquas daquela sobrevivência,
à
luz da beleza, eclode a vida em clorofila.
pingente
do xaxim, ignorado pelas medidas dos outonos,
ao
lado da porta, da casa, do metro, o frondoso;
pela
espiral de suas lâminas, de acordo com os vizinhos,
a
samambaia é vista como bela bela bela.
(2014)