Segundo autoridades de astrofísica
precisão, o inverno começou às 5h24 deste vinte e um de junho de dois mil e
vinte e seis. Para pessoas habituadas a guardar intimidades com o tempo, a mais
fria estação do ano começou “hoje”.
Não pude sentir nem comprovar que tal
exatidão foi mesmo sentida, comprovável ou afortunada. Naquele “então”, eu
dormia.
Na privacidade do meu quarto, deitado
desde a véspera, nem o meu travesseiro me pôs desassossegado com o que posso
ter sonhado, em silêncio ou roncando. E, se a minha carcaça corpórea for devera
dócil aos conhecimentos da fisiologia, o rigor muscular deixou-me quietinho a
noite toda.
Sem maiores palpitações, fui capaz de sentir:
quando eu acordei, o inverno já tinha dominado o mundo.
Como com sentimento não se brinca,
pus-me a testá-lo.
Pisei o chão do quarto com meias de lã e
foram filtrados os catorze graus que o aplicativo diz que vigoram “agora”, às
seis e meia.
Com a água da pia transferindo parte dos
seus dez graus para meu rosto, lavei-me porque, inclusive no inverno, sou dado
a abluções.
Abdiquei-me de checar a temperatura do
café, passei-o e bebi-o, e isso bem me alegrou.
Levemente alegre, fui ver Dona Cremilda.
Ela me convidara para o almoço. Para
confirmar que o combinado continuava de pé, cheguei duas horas antes.
Dona Cremilda estava melhor, ela me
assegurou.
— Mas, amiga... Recuperou-se de quê?
Na madrugada de sábado, ou seja, para
amanhecer “ontem”, ali por volta de uma e dez, houve um aviso. O celular apitou
que chegara não uma dica de radical sapiência, veio um ALERTA EXTREMO.
— Você acreditou que a Defesa Civil iria
enviar uma mensagem que mais parece uma brincadeira?
Para mim, bem me pareceu que fosse algo
jocoso.
— Se dormisse com o celular ligado, você
sentiria o que senti. Era o fim do mundo que ninguém tinha dito que viria.
Dona Cremilda — e milhões de
conterrâneos — checou com seus amigos de zap. O que havia era “histeria”, “pânico”
e “caos”.
Posta frente a frente com os comentários
sobre Brasil 3 X 0 Haiti, ela deu as costas à tevê. E correu à janela.
— Dona Cremilda, que perereco!
Assim como o inverno chegou na madrugada
deste “domingo”, esse final dos dias continuava à espera de que Brahma
acordasse. E aquele deus hindu não enviara mensagem alguma, até porque o texto
veio em português corrente.
MISANTROPI4.
Em nome da Defesa Civil, o “A”
cabalisticamente veio grafado feito o tal “4”. Em outras palavras, não havia
como negar que traficaram a “cabala” para dentro do lar de pessoas que
conseguem dormir com luz acesa. Também, não havia condições para duvidar que
alguém tivesse tomado para si a primazia de abrir os portões do Apocalipse.
Assim como há sirenes em cidades com
risco de deslizamentos por causa de chuvas intensas e prolongadas, assim o
mundo inteiro sabe que o aviso da hecatombe geral e irrestrita virá sem nenhum
mistério, uma vez que — a verdade “matadora” seja dita — nem Shiva nem João
impedirão o que virá tão logo seja disparado o DEFCON 1.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 21 de junho de 2026.
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