Tanto faz, você entenda certo ou escute
como queira. É indiferente, Onofre, porque o melhor seria você ter ficado
quieto. Mas, fazer o quê, essa coceirinha na língua é mesmo forte, faz você
querer falar, querer explicações, exigir que a verdade seja dita.
Cruamente, você errou ao intransigir,
fez as pessoas recordarem a criança que foi, pelas quantas maluquices que foi capaz
de fazer, como se as tantas coisas bizarras fossem obra de gente folgazã.
Onofre, pessoas comuns não pegam fita
métrica pra medir rua, isso você fez e a isso deu justificativa, pois a sua mãe
disse que bater perna não era vadiação, era trabalhar na prefeitura, então,
você foi pondo fita métrica na calçada, pra medi-la metro a metro.
Se tivesse graça na sua brincadeirinha, você
começaria a medição pela rua da sua casa, mas você tinha de começar pela principal
rua da cidade, pois, havendo mais gente, passando mais carros e a sua mãe sabendo
da sua traquinagem quando, à noite, voltasse da escola onde trabalhava, então, ficava
garantida a peraltice da tarde toda.
Isso se a gaiatice não começasse logo
cedo, Onofre. Tenho certeza que muita gente não deve ter esquecido as vezes em
que você, pê da vida com sua mãe, que era realmente uma baita de uma mão de
vaca, você pegava o chapeuzinho de palha de dançar quadrilha, sentava-se à
porta da casa do vizinho e, como se não fizesse nada de vergonhoso para os seus
e para si, você pedia esmola.
Caso a memória ande avariada pelos
alambiques que já entornou, permita-me ajudá-lo, Onofre, que você não juntava
as moedinhas para que a sua família pusesse bisteca na mesa, era para comprar
tubaína, bala e aqueles glamorosos cigarrinhos de chocolate.
Não finja que não quer passar a perna, pois
essa cara de sonso não engana, você entende, sim, a que ponto eu quero chegar.
Das tantas humilhações, jamais o perdoarei
daquela vez do vinho, porque não bebi sozinho a garrafa, mas, panaca como
sempre, eu não consegui fugir a tempo e tive que levar cascudos no cocuruto,
tive que apanhar de cinta e tive que ficar ajoelhado por dez ave-marias e trinta
pais-nossos, com você passando de magrela pela porta da igreja.
Mas você sabe ser o sujeito bacana que
tem a palavra certa quando ninguém sequer me pergunta se não sou o sortudo cujo
destino é estar no lugar errado e no momento errado, como se tivesse nascido e
sido criado para continuar no lugar errado, no momento errado.
Sim, Onofre, você não está errado em
achar que sou uma pessoa de segunda classe. Sou esse camarada que, viajando em
pé, sonha em viajar na janela. Sou esse sujeitinho que, ainda que me faltem
cinco reais pra inteirar a passagem, espera pegar o ônibus lotado.
Para seu próprio bem, Onofre, não insista,
volte para casa, não tem graça você ficar pensando que pode pagar o maço de
cigarro com esse punhado de balas que te dei de troco.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de maio de 2025.