Preparado para mais uma jornada?
Para começo de conversa, não devo,
escolho: quero conversar com quem esteja a fim; sem forçar, sem exigir, sem
constranger, penso que o papo possa transcorrer pacífico, pouco brusco ou
brutalizado.
Todavia?
Giro a chave no sentido anti-horário,
mas a porta proíbe-me de sair, trancafiando-me em casa, que é um lugar em que
as pessoas que não sei quem sejam ficarão sem saber da minha condição, que
estou a fim de papear à toa, despreocupadamente, sem me condicionar à hora, ao
segundo seguinte, sem me cobrar pela inutilidade de falar sobre anjos, arcanjos
e arcebispos em quaisquer conclaves vindouros.
Digito a senha, embalde. Quem sabe a
brincadeira gere satisfação se considerar o ocorrido com a porta, pois girando
a chave no sentido inverso ao usual a destranquei, assim, por tal lógica, só
preciso digitar os números na sequência invertida pro celular ficar desbloqueado.
O que eu posso deduzir?
Como conclusão precipitada: induzo-me a
pisar a calçada com o pé esquerdo; passo sob a escada do limpador de toldo; afago
o gato preto que mia para que o afague; faço a aposta com as seis dezenas que
os algarismos do telefone da lotérica sugestionam-me incontestavelmente que
sejam atalhos à fortuna.
Serei lorpa a tal ponto?
Vem a brisa que não ameniza o calor que
sinto. Vou à sombra que não estanca nem um pouco o suor a empapar a gola da
camiseta. Vem o vento avisar do inferno, aquele que, de fato, há, mesmo a quem
não se pegue apaixonado por ele nem o acomode na mente e à gente que se bate a
aventá-lo inventado, tão somente por horror ao real.
Que aloprado trago em mim que seduz a tantos
desvarios?
A garota dos bolos e tortas está vagando
entre as agências. Não há começo de mês sem que as filas dos aposentados
estejam postadas à porta dessas agências.
Compro um bolo?
A torta é de atum, não é de sardinha.
Ela apela à minha queda pela sua torta de atum; e eu como ali mesmo, à vista
dos aposentados que até comeriam um pedaço, caso me oferecesse de pagar-lhes
um, dois, três, quatro, que eu pagasse pela torta inteirinha.
Por que não pago?
Embora haja explicações plausíveis, todas
são tocantes.
Por que não falo nada à vendedora?
Penso no quanto é gasto pra fazer uma
torta ou um bolo. Penso nos preços de farinha, manteiga, leite e ovos. Penso no
custo da luz elétrica para que bolo e torta sejam assados.
Para fechar a conta?
Como a vida não para nem enquanto
mastigo, a garota justifica-se, que ela cobra sete reais pelo pedaço, seja de
torta, seja de bolo. Então, sendo sete, quem paga tem que dar uma nota de cinco
e uma de dois. Quem dá uma nota de dez sabe muito bem que não existe nota de
três, é por isso que ela não volta troco.
Não é óbvio?
Com o sol estimulando minha testa, sinto
que a farinha, a manteiga, o leite e a energia são os vilões que pegam pelo
ponto nevrálgico, que todo mundo tem boca.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de março de 2025.