domingo, 9 de fevereiro de 2025

O ar da manhã

 

O ar da manhã

 

Era uma cidade protegida pelas montanhas, pródiga em córregos e dada à serenidade que faria inveja a quem açodado por afoitezas, pena que afoitos a desconheçam tão pacata, mas toda gente, toda ela, a que tinha a sua vida vivida ali por escolha, ela era muito grata pelos tantos contentamentos.

E esta gente retribuía, gostava que a vida dali seguisse produzindo contentamentos para tão fundo sossego, porque o mundo de lá de fora podia seguir violentamente repleto de problemas, menos esse recanto, que ele seguisse paradisíaco, continuasse sendo um cantinho voltado pro futuro, pois o amanhã é o porvir que tem de vir, mesmo que àqueles cidadãos nem ocorresse a ideia de que o lugar tinha o privilégio de nem ser um ponto sequer mencionado nos mapas que a geografia pede que sejam estudados.

Nesta cidadezinha de estudantes que não precisavam decorar qual o número de habitantes nas encostas, quanto peixe é tirado das águas, quem fia as linhas para redes, tapetes, colchas e vestimentas, que isso era conhecimento irrelevante pro bem-estar, pouco havendo com o que costumam os forasteiros chamar por identidade.

Felizes consigo mesmos, há namorados que se beijam sem saber que podem beijar até na igreja, dentre tais namoradinhos, era uma vez um rapaz que mais e mais amava a namorada que o ouvia, mesmo ele repetindo que ele queria porque queria beijar no circo.

Sonho é coisa boa, vem à pessoa que mantém os olhos abertos, vê que a conhecem, sabem o que faz para viver, como ajuda as pessoas, que ela gosta de dançar, seja valsa, seja chachachá, ainda que rumba precisasse aprender, mas a prioridade era subir na corda bamba.

Crescido ali, ele tinha a tristeza de não ter aprendido que esperança inventa a vereda que haveria de ser conhecida pelo chão trilhado.

Tal sonhador beijoqueiro de portão poderia lamentar-se de ter feito a travessia sem notar de tê-la feito, vivendo a recordação do que está vindo como o porvir que a manhã sempre traz a quem aguarda.

Na tranquilidade de viver o dia, ele espera sem gabar-se que espera a corda bamba. E ele faz-se novo para novidade que espera, tornar-se artista de circo quando a lona for erguida.

O sonhador esperançoso leva os cestos de figos pras doceiras que vão fabricar compotas; à tarde, ele estripa os porcos, que os nubentes hão de fartar-se na festança do casório; mas à noite, cativo do amanhã prometido, o rapaz é devotado ao sonho esperançoso.

Para sonhar acordado, já o circo instalado, porque promessa não é bravata e ainda não existe controle remoto para afrouxar gravata, mas riacho, suor e copo d’água matam a charada: o sonhador dos beijos no portão tem futuro se agir que nem animal equilibrista.

Equilibre-se agora: inspire o ar da manhã ao meio-dia, às cinco da tarde e às oito da noite; transpire pelo futuro; venha a ser quem respira a manhã do amanhã.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2025.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Ridículo descarado

 

Ridículo descarado

 

César Augusto, no picadeiro que é seu coração, por ele, hoje, vaza esse sangue quentinho, gerando esse pulso aos chiliques, dando ritmo aos engulhos, mas não se deixe chafurdar no charco da sua memória, porque, meu chapa, sua biografia não tem que ser empastelada pelas distorções fabricadas por gente descarada, essa gentalha ridícula, que tanto trabalha para classificá-lo como apóstata.

Você nunca desonrou a tradição.

Quando chegou aos quinze anos, o senhor rebelou-se, recusou-se a debutar em casaca, cartola, luvas e polainas que nem o Fred Astaire, bateu-se pela mimosa da Betty Boop que sua avó costurou em surdina, modelo que o fez abalar inolvidável aquele baile.

César Augusto, siga honrado mais esta vez, não atire a caipirosca na cara do maninho, porque começar outra briga com Marco Aurélio é tudo o que o seu irmão quer.

Ele pensa que fazer piada vale o tempo todo.

Foi-se o tempo, babaca. Agora são dias de respeitar as pessoas. O vento virou. O que atraía, já não mais, causa repulsa. Se o tempo é de ouvir quem não podia falar, também é tempo de falar na hora certa. Se é tempo para celular no bolso, é tempo para desligá-lo no cafezinho. É tempo para os filhos estudarem na sala de aula, bem como é certo não correr de telefone na mão.

Do que mais se lembra?

César Augusto, recreio era intervalo pra se esquecer da taboada do sete e da conjugação do verbo ser.

Você era outra criança correndo, gritando, fugindo da polícia porque era ladrão. Vocês, alunos do grupo, brincavam sem medo de quebrar a perna. No pique ou pulando mula, vocês eram alunos que paravam para cantar pelo Brasil Grande.

Você era o futuro, César Augusto.

Você cresceu, casou, descasou, os seus filhos já não brincam mais o carnaval como Betty Boop ou Fred Astaire.

Você não tem que pôr mais carvão para queimar a picanha do seu irmão, opte por caprichar na caipirosca.

Conte piada que não seja ofensiva a quem mantém celular no bolso enquanto toma uma caipirosca e acha a picanha uma delícia.

Você sabe, você sente, este é o tempo de encher a boca com o que há de melhor, bem como são dias para mastigar sem cuspir na cara de gente que mastiga de boca aberta, não larga o celular e adora insultar, sempre cuspindo.

Seja firme, César Augusto, honre os seus perdigotos, tão somente esporádicos, coisa de gente prudente, gente que é bem capaz de errar a mão no açúcar da caipirosca, no fogo da churrasqueira, no tabefe na fuça do camarada que não controla a matraca.

Você é brasileiro, César Augusto, lembre-se que é brasileiro gentil, daquela vertente que só paga mico sendo pato. Você é gente que sabe com quantas patacas é feita uma patacoada, né?

Quando o álcool na cachola incendiar miolos, não seja outro ridículo descarado, é tempo de voltar para casa. Vai, César Augusto, tá na hora de mandar às favas quem sequer saiba o que são favas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2025.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Sentido oculto

 

Sentido oculto

 

Estou bem. Pelo fato de estar bem, não sinto que precise dizer que mantenho-me controlado por essa cachola sossegada. Percebo que a estabilidade permite seguir de cabeça erguida, a dar bom-dia a todos, mesmo a quem nem saiba quem sou.

Faz sentido, o mundo é movido pelo bem-estar ― pelo meu e pelo nosso, até o dessa gente que passa que nem percebe o quanto pode ir na paz de preocupar-se com assuntos que lhe sejam prementes.

Com pássaros no céu, meus tênis no chão e cachorros largados ao sol, não escarro nem que algum chato insista que eu assine um abaixo-assinado contra o apocalipse climático ou, encarecidamente, faça o pix pelo pagamento de certa arena futebolística.

Só depois de quarteirões é que a vida levou-me ao chato que conta que entre em enfrentamento, lute, saia da asa da apatia.

Não me surpreende o bom ser humano que me faz pegar da caneta, me faz concordar positivamente com a crítica ao capitalismo predador, me faz rabiscar a minha assinatura como se fosse eu assinando.

Eu ou esse eu que a mim me representa?

Ora, ora, ora essa, como recordo a Mário de Sá-Carneiro: eu não sou eu nem sou outro, sou qualquer coisa de intermédio, pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro.

Sempre que posso, ou quando é preciso, paro um instante, penso que ouvirei melhor quem me interpele se escutar primeiro esse coração desdobrado, simplesmente a resguardar-me (mal) dos espinhos que a vida dardeja.

Faço de conta que a barriga quer prioridade, justamente quando os borborigmos mostram o quão intenso é o caos gástrico.

Sem ninguém que me impeça, penso na comida, busco aplacar-me da fome, cobra-me o almoço que saia ao meio-dia em ponto.

Dentro da loja, à espera de que me vendam um cadeado, contando que tenham à venda um cadeado forte, resistente e a preço módico, lá fora estão os mesmos cachorros que vi na praça, porém, minha nossa!, eles estão na chuva.

De onde veio esta chuva toda?

Poderia ter reparado, mas havia gente a dar bom-dia, havia queixas pelo cadeado ter caído; se tivesse percebido, veria que o mormaço era de chuva.

Como tem gente que sai sem guarda-chuva?

Penso que estar bem é meio caminho para a felicidade, penso que é um passo relevante no sentido de comprometer-se com o bem-estar de cada pessoa que vamos nos encontrando, seja nos dias de sol, seja em dias de roupas encharcadas.

Céus!

São minhas essa calça, essa bermuda, essa camiseta; sou eu nos meus tênis. Todo, todinho, sou eu na figura, que estou ensopado.

Sem apertar o passo, volto para casa. Sem ralhar com o aguaceiro, vou em frente. Rindo com quem faz graça, passo adiante.

Meio-dia em ponto, sento-me à mesa, sento pra almoçar.

Na vinda, entretanto, uma pessoa amiga, realmente muito próxima, ajeitou na minha cabeça o boné que ela usava, mas, como tenho medo de dragão, não regresso à mensagem politicamente explícita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2025.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Muito pelo contrário

 

Muito pelo contrário

 

Sou convincente, tenho que ser.

A mim não entedia o jogo do toma aí que te dou de cá, que o melhor jeito de persuasão é o fundado nos argumentos, não nas suposições e conjecturas.

Enfadonho é empatar no caminho, a convencer-me do que convém. Ajusto-me, não tomo se não dou, travo e patino, acabo convencido de que é melhor agir sem me justificar pelo que estou a fazer.

Aliás, fácil é o blábláblá me encantar, seduzir, mobilizar. Tenho essa volúpia pelo papo furado, pela conversa fiada, pelo tempo jogado fora, porque, afinal de contas, minha papada é gorda, meu crédito goza de confiança e não apresso o relógio.

Como eu disse, sou desses a quem é uma dádiva ter que pesar as palavras e moderar os pensamentos, quero é despachar a enrolação; ou quem gosta de ouvir baboseiras acha-me uma pessoa encantadora ou me remenda, pois acha insuportável gente tagarela.

Estou sempre a tagarelar?

Ou falo a bel-prazer ou calo por sisudez, mas o que preocupa é ter gente taciturna que manipula o abismo que traz em si como veículo ao tartamudo que trago em mim.

Eu não saber como ficar quieto, que inferno!

Melhor falar pelos cotovelos do que engolir a seco, já surtando.

Compartilho este segredo, que passo a rir ainda que ignore a razão de desandar a rir; confio-lhe, uma vez que acredito que possa guardá-lo ou possa usá-la, a admissão, com parcimônia.

Arranjo os detalhes para que o diabo revele-se o sedicioso que ele sempre há de ser, pois mordomos já não calham de ser admiráveis no papel outrora a eles designado, causando desequilíbrio.

Por minha culpa, minha mínima culpa, cometo a falta.

Falho nesta tagarelice, antecipo que a poderei negar como fruto do meu esforço, sendo obra do diabo. Isto é, cabe-lhe a função de casto, cabe que seja o mordomo que já não há, aquele que finja não querer haver-se como diabólico ou mordomo.

Nem mais nem menos, percebo-me talhado para atuar como autor, essa pessoa que escreve porque não sabe a razão de fazê-lo, apesar de tentado a dizer-me fruto do seu labor, que isso vem dele.

Se a mim me cabe a máscara de gente detalhista que revela o diabo que carrego nas tintas, disparo a falar, mesmo que as palavras alvejem a esmo, ainda que as ideias ganhem sentido, ventilo o que sopra esse homem sutil que suscita tão boas sutilezas.

Fastidioso, sacramento os devidos créditos ao diabo.

Embora o diabo minta que não existo, não surto. Sei que não passo de um escrevinhador a anotar-lhe o segredinho, de bem saber por mim que eu não existo. Fora do fardo de escrevinhar, não existo.

Calma! Calma! Calma!

Uma vez que a bandeja com as taças de vinho não vem sozinha à mesa, encontro o lugar que não atino que o procurasse: em realidade, como nova ordem, sou o mordomo que hei de ser ao servir o vinho que eu próprio o tenha vertido e louvado.

Tendo esclarecido o ponto, não convém recusar a ressaquinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2025.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Nome novo na praça

 

Nome novo na praça

 

Quinze minutos antes de deitar, liga o repelente. Depois das muitas tentativas, chegou ao tempo que lhe serve para, no escuro, contar com o calor da tela do celular. Sempre tem um pernilonguinho que se recusa a sair do quarto, embora a porta que dá pro quintal tenha permanecido aberta grande parte do dia, tem um que fica. O teimoso vem resvalar a tela do telefone, mas ele usa a mão como abano e o gás exalado pela pastilha espalha-se, então, o indivíduo alado sente o gás que o repele. Sem mais o que fazer, o referido inseto luta contra seu instinto, mesmo atraído pelo calor da tela, atraído pelo gás que o camarada exala pelas narinas, o que repele o mosquito é o gás produzido pelo calor gerado pela eletricidade. O que não deixa de ser uma diversão; algo perversa, é só brincadeira contra a natureza do bicho.

Algo bem diferente é usar jujuba como isca?

Tem chovido forte. Tem chovido muito em poucos minutos. É chuva para lá de metro, caso haja quem meça a altura da enchente e compare esta última com a altura da enchente anterior, com a altura da enchente anterior, com a altura anterior, com a anterior, indo até o início, pra que se conclua: tem chovido forte, muito e em pouco tempo, o que acarreta estragos, prejuízos e desespero, uma vez que dias tão chuvosos serão o novo normal, até que o antropoceno encontre o fim.

Como a jujuba pode estar relacionada com o fim da civilização?

O telhado da casa de Eurípedes não veda o aguaceiro. Há goteiras nas duas águas; elas são tantas, e tantas elas são, que baldes e bacias transbordam, inundando sala, quarto e cozinha.

A casa do cidadão fica à beira-rio. Com a chuvarada, as margens não barram as águas do rio.

Logo, a água na casa e as águas do rio viram uma.

Peixe não conhece limite ou o sentido do limite, peixe nada e come.

Eurípedes gosta de peixe, tanto gosta que não tem preferência: seja assado, grelhado, cozinho, cru; sendo peixe, ele quer, ele pode; então, as águas ficam misturadas quando chove; e como tem peixe no quarto da sua casa, adora chuva.

Ele sonhou e duvidou, mas fez a armadilha.

Deitado, vê os peixes que passam nadando. Tem um retângulo no piso, é uma piscina. E os peixes que entram nadando são atraídos por jujuba, são esses que ficam presos. Assim que a chuva passa, ele tira a água do piso e, vendo os peixes no buraco feito no chão, sorri.

O que Eurípedes não sabia, mas ficou sabendo, é que muriçoca dá uma massa irresistível; e, segundo falaram, há uma quantidade muito maior de peixe que é tarado por massa de muriçoca.

O próximo projeto está claro: informar-se sobre as muriçocas; o que as atraem; os alimentos preferidos; o tempo de vida; quais as melhores condições pra conservá-las vivas; sobre, incontestavelmente, o fabrico dessa isca infalível.

Regozija-se: não será apenas o rei da tilápia, uma vez que, dali em diante, será Jujuba Muriçoca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2025.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Relações misteriosas

 

Relações misteriosas

 

O motorista não precisou manobrar o caminhão para estacioná-lo, era domingo. Sem perda de tempo, os funcionários começaram a levar caixas, encontraram portão e porta abertos. O motorista sentou-se na calçada, recostou-se no muro, tinha tanta coisa para assistir, pena que fosse alérgico a fones de ouvido. No uniforme dos funcionários estava estampado o logo daquela famigeradíssima empresa de mudanças ― o mais vistoso às costas e o menor no cantinho em que a maioria julga sentir o coração, à esquerda.

Compadecido, não exporia os meus cães àqueles funks em volume enlouquecedor: os pugs Marx e Rosa foram os primeiros a correr atrás das pombas; Sebastian e Clara, os collies, nunca as comeram.

Pedindo vênia a você que me lê, é em nome da transparência que informo que batizei os cães por causa de Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Johann Sebastian Bach e Clara Schumann.

Tão logo as margaridas pararam a um passo, enluvei as mãos com sacolinhas de supermercado e atirei no carrinho a pomba abatida pela tão entusiasmada Clara.

Pra não me criticarem condescendente com os bichinhos, invitei-as a que bebessem café, pedissem pãozinho na chapa ou simplesmente me agradecessem, gratas por eu não ser mais um toleirão na praça.

“O senhor é sempre o mesmo, sempre generoso, sempre pagando um cafezinho, sempre ajudando, jogando o lixo no lixo, sempre”.

Para ser sincero, tomamos café, comemos coxinha, reclamamos do calor, clamamos por chuva, nada de temporal que dê prejuízo a quem já tem sofrido uma barbaridade com o preço das coisas.

Em outras palavras: sensato seria eu confessar que, sem ninguém espiando, pensando em dores lombares e joelhos estalando, prioritário é preservar a espinha ereta.

Eis que a ociosidade tem esse poder sutil, o de permitir que o ocioso espie um pouco, só mais outro tantico, até que o arroz com feijão venha à mesa que nem as cuecas lavadas que se penduram no varal.

Como era domingo, como estava a fim de ficar à toa mais um pouco, fui à janela que dá para o beco, fui chupar uva, fui ver o que desse para ver, e eu vi.

Sem caixas pra descarregar, distribuídos de acordo com o cômodo, transportaram tevê, camas, cômodas, guarda-roupas, tevê, geladeira, fogão, mesa, cadeiras, poltronas, retratos, abajures, livros e livros.

Reconheci os móveis, eram antigos. Embora bem antigos, estavam preservados. Aquele mobiliário fora retirado da casa quando morreu aquele que a construiu do zero, pondo abaixo a residência erguida por um fundador da cidade.

O primeiro dono da atual construção nasceu para pescar, e pescava o ano todo. De domingo a domingo, levantando-se antes da aurora, ele só tinha o trabalho de ir pescar a cem metros da porta da cozinha, indo ao rio que, mesmo hoje, corre ainda nos fundos da propriedade.

O mundo são mistérios que a razão tenta emaranhá-los?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2025.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Caçambeiro

 

Caçambeiro

 

Taborda está com a corda toda ― não com ela no pescoço; pronto para capturar quem se distraia pro óbvio do enlaçamento.

Senhor, preciso de um deus que brinque. Dispenso aquela criatura que puna. Sou fonte de desculpas, mas desculpa não é explicação. Eu não tenho de ficar me culpando. Não quero esse deus que entenda por que preciso sassaricar. Não me avexa gargalhar. Creio que a piedade me enfraqueça. Acredite, sou o gozador que não oferece a outra face. Não preciso de um deus que castigue na face oferecida, pois não tem nenhuma humildade naquele que escolhe levar castigo. Quem escolhe a outra face não espera rir melhor, noto aí a esperteza. Falta-me o deus que decifre os hermetismos, que me esconder é coisa de espertalhão. Mas um esperto quer ser estapeado, achando que o deus que atende às suas preces é igual ao deus que pode castigar. Sem fustigar esse malandrão que pula na jugular, venha a ser o deus que não adora ser adestrado. Desespero não ter esse deus que pule antes, que dê o bote certeiro, para desossar a farsa. Não desejo esse deus que faça sombra quando suo, que cave o poço quando tenho sede. Quero um deus que vente, derrube árvores, deslize pedras, traga trovões, relampeje, faça um espetáculo que seja divertido.

Taborda bebe.

Cadê você, abestado?

Taborda seca a garrafa.

A carroça não vai sem o burro que a puxe. A puxar, não ligo. Desde que a carroça avance, puxo até que falhem as forças, com os músculos a latejar. Desde que a lenha vá à padaria, puxo, sou burro que empaca, zurra à cascavel no caminho, porque sei escoicear. Desde que o forno siga assando os pães, prefiro servir feito burro. Preciso de ser útil. Não quero ser reservado, quero ser puxado, exposto no uso.

Como plástico não gera cacos, a garrafa atirada quica no muro.

Gosto de ser útil. Tenho essa necessidade de trabalhar. Desde que ninguém me impeça, não diga para sair do sol. Quero deitar depois de outro dia de trabalho. Mesmo exaurido, vou querer o mesmo de ontem, rir. Bato perna sem medo de dar com quem faça rir, me pagando. Nem ligo que falem, não esgoto os meus braços. Quero acordar quando tiver que acordar, só depois vou carregar lenha. Sigo burro, levo a lenha à padaria. Depois de nocauteado pelo cansaço de andar, preciso sair do lugar, não vou atolar, não vou encalhar a carroça.

Taborda tem outra garrafa de água de coco.

O pior sentimento é aquele da impotência, de ser carroça carregada que fica vazia, ociosa. É desperdício ficar parado no tempo. Sou essa lama que apodrece os pés, as rodas, a que trava os eixos. Com a lenha a sentir que o forno se resfria, sou lenha a ser levada, vou tostar o pão. Desde que o padeiro amasse a massa, cuspa a lama e beba o quanto queira o leite da alvorada.

Debaixo do meio-dia, o lixo esconde o resto.

Amanhã tem mais? Que chatice! Amanhã é já, ou não será.

Nunca lhe deram água de coco?

Caçamba!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2025.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Bela viola

 

Bela viola

 

Terei ouvido pollo? O garotinho no carrinho, em pé entre bananas e maçãs, terá mesmo dito ‘polho’? Apontando para a verdura, ele disse novamente à mãe: eu quero comer piolho.

O seu pedido não era por pollo nem por polho nem por piolho, era, sim, pelo manjadíssimo repolho.

Um pequerrucho pedindo para comer verdura é novidade para mim, pois ainda hoje, já sendo eu um marmanjo de cavanhaque grisalho, as goiabinhas seguem em alta na minha dieta.

E lá vou eu. Às gôndolas, lá vou eu pegar fritas, amendoim e a dita cuja, a goiabinha da marca que eu como.

Ressalve-se: é preciso tomar o cuidado para não fazer propaganda gratuita; algo que sempre faço, mesmo com a bolacha de maisena cuja marca não mencionarei, ainda que esteja sempre fresquinha.

Fresca na mente é a finalidade maior deste dia: não adiar a reforma da casa da árvore.

Baixei as tábuas, medi-as, comprei-as já aparelhadas e coloquei-as no lugar ― trabalho ao qual me dediquei, pela manhã e à tarde.

Findo o serviço, sentei na área externa da casa: balancei as pernas; não vi a Liga dos Campeões; à vontade, bebi água.

No cubículo coberto, além do sofazinho da sesta e do micro-ondas para pizzas, o galão de água mineral vazio é trocado pelo cheio.

Então, dá-se o incrível.

Entre minha residência e a jabuticabeira onde me encontro, desce aquele troço.

Bato a foto e o Google identifica: este objeto voador é uma aeronave vertical elétrica.

Da engenhoca, sai um escritor cujo nome não citarei, para não levar um processo por chamar a personagem de Ricardo Lísias.

Em seguida, sai aquela personagem que o Ricardo Lísias atreveu-se a chamar de Eduardo Cunha, mesmo não sendo aquele político que está solto por decisão judicial.

Atrás da personagem que não é o Eduardo Cunha solto por decisão judicial sai da máquina futurista uma personagem togada, cujo nome é homônimo daquele juiz togado, precavendo-se de não citar seu nome, para não haver confusão com o verdadeiro Alexandre de Moraes.

Atrás da personagem que não é o verdadeiro Alexandre de Moraes sai do aparelho elétrico mais pesado que o ar a personagem cujo nome é Policarpo Quaresma, conforme decisão autoral de Lima Barreto.

Atrás do Policarpo Quaresma batizado por Lima Barreto aparece o suposto Lima Barreto, que não para de borrifar com uma bomba de flit, gritando sem parar:

Saúva! Saúva! Saúva! Saúva!

O que mais poderia desafinar este nosso allegretto?

Se a minha imaginação tivesse a coragem de enfrentar o meu tédio, se eu fosse menos plagiador, eu mudaria a pantomima felliniana, pois é patética a situação: as personagens que saíram, todas contornam o veículo aéreo e, não saindo nenhuma nova personagem, todas entram outra vez naquele objeto voador e, por onde veio, o troço regressa ao espaço, sumindo na brasileiríssima noite escura.

Cidadão que me lê, que finalzinho bem tosquinho, né?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2025.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Filtro de barro

 

Filtro de barro

 

Uma pessoa parada, sensato seria observá-la.

Pergunto-me o porquê das especulações. Inflo o balão, vejo-o mais inflamável que meus pensamentos. Como execro contaminações por óxido nitroso ou gás sulfídrico, fio que o nó cego lacre o meu bico.

A pessoa parada, ou está irritada com gente que a obriga a esperá-la ou está centrada, a encadear ideias.

É preferível que a calma ajude a ficar parada até que a outra pessoa chegue, apresente suas desculpas ou não se contenha, rindo de você que errou, tendo chegado uma hora antes.

Afoito, você veio uma hora mais cedo porque não perguntou qual o horário. Irritante, não cede que alguém possa comentar a sua conduta. Altivo, menospreza quem pontifica que a serenidade colabora que suas reflexões não exorbitem.

É vero, gente tranquila descomplica-se.

Ela não liga que esteja a observá-la, pois estou com o polegar sob o queixo e o indicador sobre a boca, é evidente minha versão, em carne e dissimulação, da obra O Pensador.

Você que está vindo, talvez você nem imagine que sou o fulano que provoca um risinho interior na pessoa parada, afinal ela entende que o mundo anda assaz complicado, a sugerir-me que eu seja um camarada mais sardônico, que eu compreenda que ela não precisa olhar pra mim para que eu seja percebido.

Você e a pessoa parada talvez comunguem do princípio: não faça o que possa dar pano pra manga, ou o balão inflado, para não explodir, cantará que a vida é boa, que o riso não vai virar choro, que o ar fétido é flato que passa desde que se abram janelas e portas, ou ligue-se o ventilador.

De fato, nem todo nojo faz vomitar.

Para que as ações não a prejudiquem ou façam-na ser vista como gente desequilibrada, ou haja bate-boca que poderia ter sido evitado, o jeito é desligar o ventilador quando houver dentes batendo.

Nem todo desequilibrado tem simpatia por pinguim de geladeira, ou seja, gente biruta conta que o vento que a deixa mais lelé é temido por pilotos, meteorologistas e adestradores de pégasos.

Como não desejo ser cuspido para longe, enviado a manicômio de renome na praça, permaneço imóvel, persevero naquela pose que faria Rodin rodar a baiana, chamando-me de reles imitador.

O que não consigo evitar é saliva acre.

Não lembro direito, se ontem ou hoje cedo, mas eu peguei a caneca e virei uma, virei duas, só que a terceira vez não houve, pois a caneca que peguei do escorregador tinha restos na borda.

Certamente a pessoa parada faria o mesmo que eu fiz: despejei na pia a água que virei uma, virei duas, que virei no filtro usando a caneca que nem deveria estar no escorredor, uma caneca que mal lavei.

Em respeito ao patrimônio emocional que me liga à pessoa parada, peço que continue vindo. Mesmo que tenham ligado às autoridades por causa de mim, que não posso ver uma pessoa parada que viro logo a arremedá-la, sorria quando houver de sorrir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2025.