Era uma cidade protegida pelas
montanhas, pródiga em córregos e dada à serenidade que faria inveja a quem
açodado por afoitezas, pena que afoitos a desconheçam tão pacata, mas toda
gente, toda ela, a que tinha a sua vida vivida ali por escolha, ela era muito grata
pelos tantos contentamentos.
E esta gente retribuía, gostava que a
vida dali seguisse produzindo contentamentos para tão fundo sossego, porque o
mundo de lá de fora podia seguir violentamente repleto de problemas, menos esse
recanto, que ele seguisse paradisíaco, continuasse sendo um cantinho voltado pro
futuro, pois o amanhã é o porvir que tem de vir, mesmo que àqueles cidadãos nem
ocorresse a ideia de que o lugar tinha o privilégio de nem ser um ponto sequer
mencionado nos mapas que a geografia pede que sejam estudados.
Nesta cidadezinha de estudantes que não
precisavam decorar qual o número de habitantes nas encostas, quanto peixe é
tirado das águas, quem fia as linhas para redes, tapetes, colchas e vestimentas,
que isso era conhecimento irrelevante pro bem-estar, pouco havendo com o que costumam
os forasteiros chamar por identidade.
Felizes consigo mesmos, há namorados que
se beijam sem saber que podem beijar até na igreja, dentre tais namoradinhos, era
uma vez um rapaz que mais e mais amava a namorada que o ouvia, mesmo ele
repetindo que ele queria porque queria beijar no circo.
Sonho é coisa boa, vem à pessoa que
mantém os olhos abertos, vê que a conhecem, sabem o que faz para viver, como
ajuda as pessoas, que ela gosta de dançar, seja valsa, seja chachachá, ainda
que rumba precisasse aprender, mas a prioridade era subir na corda bamba.
Crescido ali, ele tinha a tristeza de
não ter aprendido que esperança inventa a vereda que haveria de ser conhecida pelo
chão trilhado.
Tal sonhador beijoqueiro de portão
poderia lamentar-se de ter feito a travessia sem notar de tê-la feito, vivendo
a recordação do que está vindo como o porvir que a manhã sempre traz a quem aguarda.
Na tranquilidade de viver o dia, ele
espera sem gabar-se que espera a corda bamba. E ele faz-se novo para novidade
que espera, tornar-se artista de circo quando a lona for erguida.
O sonhador esperançoso leva os cestos de
figos pras doceiras que vão fabricar compotas; à tarde, ele estripa os porcos,
que os nubentes hão de fartar-se na festança do casório; mas à noite, cativo do
amanhã prometido, o rapaz é devotado ao sonho esperançoso.
Para sonhar acordado, já o circo
instalado, porque promessa não é bravata e ainda não existe controle remoto
para afrouxar gravata, mas riacho, suor e copo d’água matam a charada: o
sonhador dos beijos no portão tem futuro se agir que nem animal equilibrista.
Equilibre-se agora: inspire o ar da
manhã ao meio-dia, às cinco da tarde e às oito da noite; transpire pelo futuro;
venha a ser quem respira a manhã do amanhã.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2025.