Estou bem. Pelo fato de estar bem, não
sinto que precise dizer que mantenho-me controlado por essa cachola sossegada.
Percebo que a estabilidade permite seguir de cabeça erguida, a dar bom-dia a todos,
mesmo a quem nem saiba quem sou.
Faz sentido, o mundo é movido pelo bem-estar
― pelo meu e pelo nosso, até o dessa gente que passa que nem percebe o quanto
pode ir na paz de preocupar-se com assuntos que lhe sejam prementes.
Com pássaros no céu, meus tênis no chão
e cachorros largados ao sol, não escarro nem que algum chato insista que eu
assine um abaixo-assinado contra o apocalipse climático ou, encarecidamente, faça
o pix pelo pagamento de certa arena futebolística.
Só depois de quarteirões é que a vida levou-me
ao chato que conta que entre em enfrentamento, lute, saia da asa da apatia.
Não me surpreende o bom ser humano que me
faz pegar da caneta, me faz concordar positivamente com a crítica ao
capitalismo predador, me faz rabiscar a minha assinatura como se fosse eu
assinando.
Eu ou esse eu que a mim me representa?
Ora, ora, ora essa, como recordo a Mário
de Sá-Carneiro: eu não sou eu nem sou outro, sou qualquer coisa de intermédio,
pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro.
Sempre que posso, ou quando é preciso, paro
um instante, penso que ouvirei melhor quem me interpele se escutar primeiro esse
coração desdobrado, simplesmente a resguardar-me (mal) dos espinhos que a vida
dardeja.
Faço de conta que a barriga quer
prioridade, justamente quando os borborigmos mostram o quão intenso é o caos
gástrico.
Sem ninguém que me impeça, penso na comida,
busco aplacar-me da fome, cobra-me o almoço que saia ao meio-dia em ponto.
Dentro da loja, à espera de que me
vendam um cadeado, contando que tenham à venda um cadeado forte, resistente e a
preço módico, lá fora estão os mesmos cachorros que vi na praça, porém, minha
nossa!, eles estão na chuva.
De onde veio esta chuva toda?
Poderia ter reparado, mas havia gente a
dar bom-dia, havia queixas pelo cadeado ter caído; se tivesse percebido, veria
que o mormaço era de chuva.
Como tem gente que sai sem guarda-chuva?
Penso que estar bem é meio caminho para
a felicidade, penso que é um passo relevante no sentido de comprometer-se com o
bem-estar de cada pessoa que vamos nos encontrando, seja nos dias de sol, seja em
dias de roupas encharcadas.
Céus!
São minhas essa calça, essa bermuda,
essa camiseta; sou eu nos meus tênis. Todo, todinho, sou eu na figura, que estou
ensopado.
Sem apertar o passo, volto para casa.
Sem ralhar com o aguaceiro, vou em frente. Rindo com quem faz graça, passo
adiante.
Meio-dia em ponto, sento-me à mesa, sento
pra almoçar.
Na vinda, entretanto, uma pessoa amiga, realmente
muito próxima, ajeitou na minha cabeça o boné que ela usava, mas, como tenho
medo de dragão, não regresso à mensagem politicamente explícita.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2025.