Uma pessoa parada, sensato seria
observá-la.
Pergunto-me o porquê das especulações. Inflo
o balão, vejo-o mais inflamável que meus pensamentos. Como execro contaminações
por óxido nitroso ou gás sulfídrico, fio que o nó cego lacre o meu bico.
A pessoa parada, ou está irritada com
gente que a obriga a esperá-la ou está centrada, a encadear ideias.
É preferível que a calma ajude a ficar
parada até que a outra pessoa chegue, apresente suas desculpas ou não se
contenha, rindo de você que errou, tendo chegado uma hora antes.
Afoito, você veio uma hora mais cedo
porque não perguntou qual o horário. Irritante, não cede que alguém possa comentar
a sua conduta. Altivo, menospreza quem pontifica que a serenidade colabora que suas
reflexões não exorbitem.
É vero, gente tranquila descomplica-se.
Ela não liga que esteja a observá-la,
pois estou com o polegar sob o queixo e o indicador sobre a boca, é evidente minha
versão, em carne e dissimulação, da obra O Pensador.
Você que está vindo, talvez você nem
imagine que sou o fulano que provoca um risinho interior na pessoa parada,
afinal ela entende que o mundo anda assaz complicado, a sugerir-me que eu seja
um camarada mais sardônico, que eu compreenda que ela não precisa olhar pra mim
para que eu seja percebido.
Você e a pessoa parada talvez comunguem
do princípio: não faça o que possa dar pano pra manga, ou o balão inflado, para
não explodir, cantará que a vida é boa, que o riso não vai virar choro, que o
ar fétido é flato que passa desde que se abram janelas e portas, ou ligue-se o
ventilador.
De fato, nem todo nojo faz vomitar.
Para que as ações não a prejudiquem ou
façam-na ser vista como gente desequilibrada, ou haja bate-boca que poderia ter
sido evitado, o jeito é desligar o ventilador quando houver dentes batendo.
Nem todo desequilibrado tem simpatia por
pinguim de geladeira, ou seja, gente biruta conta que o vento que a deixa mais
lelé é temido por pilotos, meteorologistas e adestradores de pégasos.
Como não desejo ser cuspido para longe, enviado
a manicômio de renome na praça, permaneço imóvel, persevero naquela pose que
faria Rodin rodar a baiana, chamando-me de reles imitador.
O que não consigo evitar é saliva acre.
Não lembro direito, se ontem ou hoje
cedo, mas eu peguei a caneca e virei uma, virei duas, só que a terceira vez não
houve, pois a caneca que peguei do escorregador tinha restos na borda.
Certamente a pessoa parada faria o mesmo
que eu fiz: despejei na pia a água que virei uma, virei duas, que virei no
filtro usando a caneca que nem deveria estar no escorredor, uma caneca que mal
lavei.
Em respeito ao patrimônio emocional que
me liga à pessoa parada, peço que continue vindo. Mesmo que tenham ligado às
autoridades por causa de mim, que não posso ver uma pessoa parada que viro logo
a arremedá-la, sorria quando houver de sorrir.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2025.