A
festa acabou
Cumpridor de minhas obrigações, fui
votar. Em mais um Dia do Senhor, o domingo, e lá fui eu praticar uma ação
mundana. Profana? Laica, sem implícito mistério. De olho no visor, digitei os
números e confirmei. Escolhi ir, não fui pela obrigatoriedade. A multa, afinal,
é uma bagatela. Hoje, custar-me-ia R$ 3,51. É que me entusiasmaram as
discussões, e decidi.
Com franqueza, tenho de confessar o
inconfessável.
Fui votar, não em razão de minha
cidadania exemplar. Por atuar em meu nome, fui achando que estava praticando um
rito narcisista. Fui convencido a externar minha opinião pelo voto.
Por sinal, a vida vai instruindo-nos a
pensar por nós. Com a cabeça da gente, mesmo.
Assim é que me lembro, sem dar
exatamente com o porquê, de um evento de minha infância.
Morava em Ibiúna, interior de São
Paulo. Em 1967, ou 68. Tinha quatro, cinco anos. Ainda nem havia entrado na
escola, que naquele tempo começava no pré-primário, o prezinho.
Chovia. Passavam caminhões com a carroceria
coberta por lona camuflada. Predominava o marrom. Ou exibia a estampa atual,
verde oliva? Sei lá. Só sei que os homens fora da chuva estavam armados, de
capacete. Uniformizados, e gentis.
Se não me traio, acenaram de volta.
Tão logo acenei.
Por que fiz aquilo? Aquilo era
perigoso, gesto impensado, um aceno fora de hora endereçado a quem não devia.
Daí que me puxaram para longe do vão da janela, e fecharam rápido.
Éramos três à janela: a minha irmã,
alguns anos mais velha que eu; a empregada que tomava conta da casa na ausência
dos meus pais, que trabalhavam fora; e esse moleque que não pensava direito e
já ia dando tchau, assim, incontinenti.
Por que a gente pega da memória um
cadinho de sua água?
Para mim, aquele 68 ainda não acabou. E
nem tem pinta de que pretenda acabar tão cedo.
Essa rememoração? Por alguma
obscuridade.
Assim como não sei dizer por quais
motivos os 31.371.417 cidadãos, eleitores, não compareceram às urnas.
Abstiveram-se do quê?
Só vou saber depois da posse. Então,
resignado, aceito que a resposta fique para 2019.
Peço apenas para esperar até o sexto dia
de março. Será a próxima quarta-feira de cinzas...
Meu pedido não é outra molecagem. Embora
eu possa estar mal acostumado, agindo com quem anda abusando, achando normal
sair Brasil afora pedindo coisas razoáveis.
Perdão, mas eleições não são a festa
da democracia?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 30 de outubro de
2018.











