terça-feira, 30 de outubro de 2018

A festa acabou


A festa acabou

Cumpridor de minhas obrigações, fui votar. Em mais um Dia do Senhor, o domingo, e lá fui eu praticar uma ação mundana. Profana? Laica, sem implícito mistério. De olho no visor, digitei os números e confirmei. Escolhi ir, não fui pela obrigatoriedade. A multa, afinal, é uma bagatela. Hoje, custar-me-ia R$ 3,51. É que me entusiasmaram as discussões, e decidi.
Com franqueza, tenho de confessar o inconfessável.
Fui votar, não em razão de minha cidadania exemplar. Por atuar em meu nome, fui achando que estava praticando um rito narcisista. Fui convencido a externar minha opinião pelo voto.
Por sinal, a vida vai instruindo-nos a pensar por nós. Com a cabeça da gente, mesmo.
Assim é que me lembro, sem dar exatamente com o porquê, de um evento de minha infância.
Morava em Ibiúna, interior de São Paulo. Em 1967, ou 68. Tinha quatro, cinco anos. Ainda nem havia entrado na escola, que naquele tempo começava no pré-primário, o prezinho.
Chovia. Passavam caminhões com a carroceria coberta por lona camuflada. Predominava o marrom. Ou exibia a estampa atual, verde oliva? Sei lá. Só sei que os homens fora da chuva estavam armados, de capacete. Uniformizados, e gentis.
Se não me traio, acenaram de volta. Tão logo acenei.
Por que fiz aquilo? Aquilo era perigoso, gesto impensado, um aceno fora de hora endereçado a quem não devia. Daí que me puxaram para longe do vão da janela, e fecharam rápido.
Éramos três à janela: a minha irmã, alguns anos mais velha que eu; a empregada que tomava conta da casa na ausência dos meus pais, que trabalhavam fora; e esse moleque que não pensava direito e já ia dando tchau, assim, incontinenti.
Por que a gente pega da memória um cadinho de sua água?
Para mim, aquele 68 ainda não acabou. E nem tem pinta de que pretenda acabar tão cedo.
Essa rememoração? Por alguma obscuridade.
Assim como não sei dizer por quais motivos os 31.371.417 cidadãos, eleitores, não compareceram às urnas.
Abstiveram-se do quê?
Só vou saber depois da posse. Então, resignado, aceito que a resposta fique para 2019.
Peço apenas para esperar até o sexto dia de março. Será a próxima quarta-feira de cinzas...
Meu pedido não é outra molecagem. Embora eu possa estar mal acostumado, agindo com quem anda abusando, achando normal sair Brasil afora pedindo coisas razoáveis.
Perdão, mas eleições não são a festa da democracia?

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 30 de outubro de 2018.




domingo, 28 de outubro de 2018

Noves dentro



Noves dentro

Em quaisquer dos campos do conhecimento relacionados às coisas humanas, pergunto-me: aproveitar um conceito do presente para fixar uma explicação do passado ou valer-se de um conceito do passado para formular uma explicação do presente? Nenhuma das anteriores. Empregar um conceito do presente para tentar alguma explicação do presente é de minha preferência. Preferência, pois vivo aqui e agora.
Em português simples e direto. Para fugir a mistificações.
Eu busco assento na palavra, como diria o Ruy Castro, este veículo em que, digo eu, alcanço me ajeitar menos desconfortável ao passar meus olhos no mundo, na realidade com a qual tenho de lidar e nas gentes que se relacionam comigo de toda sorte de modos.
Boas maneiras em meio a muita informação?
Faço de mim o experimento a me educar. Para a vida e com a vida. Reflito-me. As retinas como filtro. Os tímpanos como radar. As narinas como sonda. As papilas como bússola. A mente e o corpo em comunicação e diálogo, permanentes. Especulo-me. Para que as digitais não contaminem com as minhas identidades o inaceitável, o intolerável, o antipático.
O zumbido dos tempos faz a rosa girar, e rodar.
Nada de certo ou errado. Apesar do certo e do errado.
O trânsito entre as verdades por vezes, e muitas vezes, não traz a chave para a fechadura. A porta segue impávida.
Acabo de fora? Chego atrasado à festa? Com as mãos no bolso? Com a boca lacrada pelo voto?
Perco a alegria. Não paro de aprender a ganhar em alegria, para melhor perdê-la. Contradizer-me, dissolver-me, já que fui névoa, já que serei outra nódoa. Habitar-me, sem habituar-me ao portal de mármore. Penso. E não desisto de pensar. Sinto. E não desisto de sentir.
Ainda há quem fale, ouço ainda as vozes, e lutarei para nos ouvirmos ainda. Pelo pouco que posso saber?
Ferro em brasa, Carlos, sou uma chave.
Eis o homem do povo que não teme o sol, a chuva, o vento, e medra em solo inculto. Entre o possível e o provável, erro a mão. À margem de mim, por que não caibo no número que me cabe? Punição pelo envolvimento, obviamente.
Amor, na conta de cabeça. Humor, na ponta do lápis.
Vem daí, da soma dos nulos, dos brancos, das abstenções e dos votos nos candidatos que ficaram pelo caminho, é desta álgebra elementar que me chega, em conclusão, que o futuro não é mais como era antigamente.
Este é o momento. Aqui é o lugar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de outubro de 2018.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Pensamento lógico





Pensamento lógico

O voto é secreto. Então?
No próximo domingo, dia 28 de outubro de 2018, teremos o segundo turno das eleições e o nome do novo presidente da República sairá das urnas. Para o bem e para o mal, haverá de sair das urnas um escolhido.
Escolhido, e não o vencedor. Não haverá um vencedor nem sequer um derrotado. Porque eu elejo esta minha presunção: a de negar algum crédito racional com o voto.
O voto é secreto, lembra-se?
Minha maneira de pensar pouco importa, porque votarei. O voto não é a expressão do que penso, desejo, e do que pareço entender como escolha. A urna trará manifesto o escolhido que irá julgar o que penso. Discreta, por natureza, a urna berrará nos ouvidos do escolhido que ele pode tomar para si a decisão de dizer o que quero. Meu desejo é o resultado do que escolho, não do que posso desejar. Desejo, esse inconsciente.
O voto é secreto, tão sensível ao inconsciente.
Nem preciso de coragem para admitir a covardia de não ter a visão precisa de mim. O que é preciso? A balela da vez. O quanto me enojo. Por minha inutilidade quanto aos dados computados,  às miudezas de classe, idade, região, escolaridade, da crença no Redentor.
Depois? O voto é secreto.
Não teclo na urna a hipótese que me tira das ruas ou me faz seu morador. A facilidade complica. Meu corpo não vota contra ou a favor de um teto todo meu, e só por minha escolha. A rua escapa ao voto. Uma cifra teclada não é passaporte nem dá voz a quem normativamente escolhido. Urna consultada, urna somada. Silenciado, o voto.
Afinal, o voto é secreto. Não faço ideia do que o escolhido pensa de mim. Pouco importa. O escolhido precisa do voto, elo a subtrair ─ soma é abate. O poder de escolha escapa do voto. O voto acelera a mão que balança a rede. A rede, mortalha de mil milhares de almas em busca de um rosto, o do escolhido.
O voto é secreto?
Liberdade. Fraternidade. Igualdade. Minha é a náusea. Sem trazer à baila a Tríade Freudiana. Por que não tenho a opção da escolha? O instante de hesitação. O momento de raciocínio. Obrigatório é o voto. Ou não será voto. Quanto a mim, não me cabe nenhuma convicção em contrário.
E quando a dúvida deixa de sê-lo, passo a agir na cláusula pétrea da minha verdade. Que me falhem as palavras. Não me faltem. Optando por mim, não opto pelos demais.
Ademais, reduzido ao sincero, secreto o meu voto.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de outubro de 2018.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Em tempo



Em tempo

Como a guarita de vigilância fica ao lado do portão de entrada do edifício onde moro, costumo parar para conversar com seu Josué, o incansável faz-tudo do condomínio.
Os assuntos acabam sendo os do dia a dia ─ se vai chover; se logo mais o Cruzeiro será campeão sobre o Timão; se é verdade que o Bolsonaro caçará o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Isso e mais aquilo, mas sem alvoroçar o gogó e sem o entusiasmo descabelante dos fanáticos. Mantemos a civilidade: eu, na minha fé de levantar outro caneco em nossa casa, e o mineiro, que não disfarça o otimismo azul por sua Raposa.
De cara, pelo que tem chovido nas últimas semanas e com o céu fechado que não permite alguma nesga para o sol, opto pela chuva vespertina, ao que me segue já agora um desalentado jardineiro, olhando no arbusto a copa indisciplinada, toda túrgida de tão verdejante.
Gosto de gente assim, cuja conversa não é de quem fica de papo para o ar. Eis que pronto se faz a hora, e como ambos não matamos o dia curtindo tudo que nos enviam pelos grupos zapianos, vamos à luta.
O zelador trata de pegar na caixa do correio as correspondências, para vir distribuindo-as do sétimo andar ao térreo. Despede-se de mim, e some prédio adentro.
De minha parte, vou-me embora para a escola, pois lá tenho alunas e alunos à minha espera. E nesta quarta de tantas inquietações, está agendada uma produção textual a partir da leitura de um poema do Luiz Gama, Saudades do Escravo.
Preciso esquecer o jogo noturno, pois nem quero pensar que vão usar o VAR, esse recurso que tanto estrago fez nos campos da Rússia. Em pleno século 21, o ser humano depender das lentes da tecnologia para abrir os olhos para o que vê?
Tudo certo, tudo em ordem. Como o cronista já sabe do hexa celeste, melhor mudar o assunto.
Afinal, estou encafifado... Por que não bolam algum treco eletrônico de ponta que faça chegar ao Tribunal de Justiça de São Paulo a decisão (de 2014) do Superior Tribunal de Justiça quanto às responsabilidades do que fazia em 1971 o coronel Ustra.
Como diz o sábio, momentos há para falar e para calar.
Bendito VAR!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de outubro de 2018.



terça-feira, 16 de outubro de 2018

Cabeça feita




Cabeça feita

Curiosa a tal da cabeça.
Outra manhã, tendo eu acabado de ler uma crônica, na qual pus muito gosto pela profunda leveza no trato com o assunto, salvei-a no computador.
Aquele estilo, cada palavra a seduzir à próxima, a música a brotar das ideias, o pensamento elegante a formar em mim, com a nitidez dos convictos, o nome do autor. Sem pestanejar, no salvamento do arquivo, creditei-o a quem de direito.
Barafundei-me por completo com a composição alheia.
Autor deposto, autora posta. Paulo Mendes Campos? Nada! Eram as linhas de Rachel de Queiroz ─ “há muitas espécies de poesia neste mundo de poetas”.
Dona Memória, fui por ali e não por aqui.
Os caminhos vão e vêm, já anda longa a jornada...
Se a História é comprida, o voto é curto. Por isso, não faço petição do nulo no segundo turno. E não o farei porque nem só de Cacareco, Tião e Tiririca pode-se desafinar o coro dos descontentes.
Descontente, e não raivoso.
Diante da seriedade dos nossos dias, não brinco. Assim, nem por curtição nem para tirar onda nem para desandar a maionese. Não vou virar no siri lá no colégio eleitoral.
Isso não faço. Sou educado. Meu pai e minha mãe deram-me modos e uso-os na praia, na fila do mercado, e, ao teclar na urna, mais ainda.
Ontem, por sinal, foi a data para compartilhar minhas mais sinceras homenagens às professoras e aos professores, que, do jeito que dá, tornam os dias de escola um paraíso na Terra.
E como os tempos mudaram! Hoje, é preciso ter um olho na faca e outro no celular. Os malabarismos são tantos que, além de estrábico, ando mal de olfato que nem sei dizer o que fede mais, o peixe ou o jornal que o embrulha.
Ou seja: votar é humano, mas Tiririca outra vez?
Claro que não considero muito higiênico votar em branco para limpar Câmara e Senado. Também não toco na fanfarra dos que atravessam o samba acreditando que é da lei isso de invalidar um pleito acaso os nulos resultem em mais da metade dos votos.
Desde já, aviso que no segundo turno irei votar. E votarei consciente. De olho na educação das nossas crianças? Sem dúvida. Pensando nas tetas em que muitos dos eleitos querem mamar? Com indignação cívica. Desejando a paz entre as eleitoras e os eleitores? Meu coração pulsa forte, tão sedento de conciliação universal, geral e irrestrita.
Como reza a Constituição, o voto é secreto. Mas espero que não chova no dia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 16 de outubro de 2018.



Livro de poemas.



domingo, 14 de outubro de 2018

Sem dúvida!





Sem dúvida!

─ A morte é que nem parente distante, vai dali um descuido da gente e lá entra ela porta adentro, e logo com o nosso nome na ponta da foice. Daí não cabe recurso nem propina.

─ Não tenho palavras, dona Rúbia.

(Dona Rúbia! E isso é nome que se fale em público sem mais nem menos? Poderia ser Rosaura ou Rosana, só para não sair da casa do erre. Mas Rúbia? Tem certas gabolices...)

─ Não vim aqui para ficar à toa, seu Aurélio.

(Seu Aurélio! Como é que alguém põe nome de dicionário em uma criaturinha? Se, por ventura, o indivíduo já nascesse um convicto e juramentado lustrador de bigorna, ninguém haveria de contestar. Mas... Aurélio não chore, meu anjinho... Aurélio, não pise o encerado da sala com estes tênis sujos de barro, seu infeliz... Aurélio! Quando você vai crescer, seu imprestável. Nem vou me alongar mais, porque algumas coisas não cabem em quem carrega um nome desses pela vida afora. Gente...)

─ Seu Aurélio, o senhor me empresta quinhentos reais para eu pagar no começo do mês?

─ Dona Rúbia, a senhora há de convir comigo que... Do jeito que está o Brasil... Olhe bem, dona Rúbia... Com o perdão da verdade... Como a senhora é pessoa honesta, cumpridora dos seus deveres, sabedora das leis, respeitadora dos costumes... Vou confessar à senhora... Sei por mim que não deve estar sendo muito fácil... Nada, nada... Então! Eu lhe empresto o dinheiro, mas tenho uma condição...

(O espanto é só meu, ou o quê?)

─ Que a senhora só me apareça aqui para pagar o empréstimo sem um centavo a mais ou nada feito! Porque o dinheiro é meu e sei muito bem o quanto me custou juntá-lo. A senhora põe fé na sua palavra?

(Nem foi preciso furar a ponta do dedo para selar com sangue o contrato. Bastou saliva, que o pacto era mesmo de boca.)

─ Meu bom homem, o senhor não vai se arrepender. Afinal, quem empresta ao pobre...

─ Empresta a Deus. Eu sei, dona Rúbia, eu sei.


Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de outubro de 2018.



Livro de poemas.



sábado, 13 de outubro de 2018

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Boca de urna





Boca de urna

VAI ACABAR, VAI ACABAR / ESSA MANIA DE ROUBAR.
1992 – MASP. Tal palavra de ordem entra, escolhe um lugar para ficar e continua aí. Muito além dos meus ouvidos.
Não me lembrava. Mas algo mais pinta da memória.
Somos uma nação ou uma cloaca?
Com a pergunta, Otto Lara Resende encerrava crônica do dia 26 de agosto de 1992 publicada na Folha de São Paulo, cuja manchete deixava explícito que o povo brasileiro queria o impeachment do Collor.
Minha cara, por certo, era de quem tinha ido à manifestação trabalhar. Andava precisado de um frila, até do Notícias Populares. E tinha vindo a pé da estação Paraíso.
Tempos difíceis aqueles.
2018 – Largo da Batata. Os pedestres me encaram.
Juan Arias, no El País/Brasil, informa que 23 milhões dos eleitores não têm o ensino fundamental e 30 milhões correram do ensino médio. E, segundo o jornalista, quem mal consegue ler um livro por ano juntou-se a “milionários que pagam menos impostos que os pobres”. Daí que muitos deles estão entre os 46,03% ou 49.276.990 que, no primeiro turno, votaram no Bolsonaro.
Em 1992, num “Comunicado à Nação”, os ministros de Collor assumiram o compromisso de que a crise política encontraria “o seu desfecho natural na órbita da Constituição e das instituições democráticas”.
Em 2018, Jair Bolsonaro e seus futuros ministros querem nova constituição elaborada por “notáveis” e ameaçam com autogolpe caso reine a anarquia. Mas, o que é anarquia?
Em 1992, os jovens, de 16 a 25 anos, que foram às ruas, eles, hoje, estão na faixa de 42 a 51 anos.  E têm histórias para não esquecer. A indignação com o Mensalão de 2005, o desastre do governo Dilma, as manifestações de 2013...
Não esquecem. E não foram ouvidos.
Agora os filhos daqueles estudantes que pediam decência e vergonha na cara, os muitos que escorraçaram os partidos das ruas nas jornadas de cinco anos atrás, são eles que gritam nas urnas o nome daquele que diz entender o sentimento de quem nunca foi ouvido.
1992 – MASP: “1, 2, 3, 4, 5 mil / o bolso do meu pai não é o Banco do Brasil”.
2018 – INTERNET. Com carta branca para a polícia, o Jair adverte que é hora de acabar com os ativismos no Brasil.
Contudo, essa gritaria não torna surda a minha fome pela democracia. E tenho insaciável esta boca. Para alimentá-la regularmente, não tolero nem aceito que me impeçam de votar e de escolher em quem votar.

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, 11 de outubro de 2018.













Livro de poemas.



quarta-feira, 10 de outubro de 2018

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Asa da imbecilidade


Asa da imbecilidade

Já é o dia seguinte ao dia posterior às eleições, terça-feira, nove de outubro. Segue estabelecida a corrente de dias muito expressivos para nós, humanos, pessoas. E, para alegria dos chatos, sem que o escriba tivesse ciência da particularidade do fluxo do tempo. Há tanta coisa humana que não tenho a menor ideia do que seja.
Com os dias passando rápidos e definitivos, e como não sei nadar nem pratico mergulho, decidi parar de ficar boiando, ou me afogaria.
Quiçá por insanidade, tal qual curimbatá na piracema, rompi com a inércia de ir na correnteza e concentrei as forças para ir rio acima. Afinal, não aceitava o Brasil de tantas desigualdades e nunca fiz de conta que a realidade nada tinha que ver comigo. Não aceitava, e não aceito.
Tenho gastrite nervosa, por isso não vou ingerir lagartixas, cobras, moscas, tocos, pedras. Ainda mais de olhos fechados.
Sem mordidas na língua, e com acontecimentos em série a me abalroar, não surfo na rede. Foco-me nos fatos, naqueles que não me parecem gratuitos ou aleatórios.
Entro na corrente dos últimos dias.
O primeiro dia da Era Judaica? Calhou de ocorrer num sete de outubro, em 3761 a.C. Antes de Cristo...
No dia oito de outubro de 1998, José Saramago tornou-se o primeiro escritor da língua portuguesa a ir pegar em Estocolmo o seu Nobel, o de literatura, é claro.
Aos falantes do português, o que importa é que posso dizer o que penso nesta Língua Portuguesa que não é mais nenhum patinho feio no reino das letras.
Finalmente, chego ao presente nove de outubro.
Com a mente atenta, para não me afogar no mar de amores que muitos têm demonstrado ter por políticos. E haja ódio para dar vazão a tanto amor por fulano, por beltrano. E os sicranos?
Todavia, no Portal da Crônica Brasileira, li Coincidências, do Paulo Mendes Campos. Eis que fiquei vibrando com as aspas do primeiro parágrafo, "vento da asa da imbecilidade".
Ignorante que sou mas curioso, voltei a navegar na internet e localizei o fragmento destacado. Charles Baudelaire, o autor dessas palavras, começa o texto com um otimismo proativo, ao afirmar que “quanto mais se quer, melhor se quer”.
Então, de olhos bem abertos, encerro esta primeira crônica, registrando que o imbecil em mim, vivamente espantado com o mundo, pensa as mágoas cotidianas sem fingir que não sofro com a ventania muito humana dos instantes.

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, 09 de outubro de 2018.




Livro de poemas





Livro de poemas



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

sábado, 6 de outubro de 2018


o presente do futuro


vividas as tantas perplexidades,
o monstro não tem culpa da mensagem que carrega.
agora, podemos nos comunicar?

(rodrigues da silveira, 2018)

quinta-feira, 4 de outubro de 2018


miss do universo


realidade, ainda que tardia?
a minha realidade poderia ser um copo d’água cheio,
quase a transbordar,
impossível tomá-lo nas mãos sem dispensar um dedinho.
cheio dessa água que me fui resgatar
do poço, o meu fosso, a minha fossa.
pródiga em emaranhamentos,
ramas que vão pelo subsolo, sobem pela cozinha,
a bailar aéreas e pela laje.
água arvorando-se como os meus dias na infância.

cinquenta anos depois, ainda infectada,
insalubre, danosa, água da minha lavra, água.
cinquenta anos depois, a infância ainda não chega,
fica-me pelo caminho, pedra que canta e dança,
fica-me a entrar pelas palavras, pelos pensamentos.
quer que eu a escale, palavra líquida expelida de mim;
dando-me essa ideia, posso escalá-la,
dançar com ela, subir ou descer quando queira, posso.
a infância pelo caminho dando-me a ideia:
os azulejos da casa dos meus avós dizem-me o fumo
do fogo de lenha; temperam-me a saudade
a leitoa, o ovo frito e o mingau de aveia.

estranho, alguém
que perdeu o chapéu sem nunca ter um na cabeça,
e a cabeça perfeita prum coco, ou palheta.
alguém, estranho
que tosse o amargo do charuto tomado ao pai.
um estrangeiro, esse alguém
à mercê do que não lembro, a infância à porta do quarto.

no fundo da fossa, do fosso, do poço, na água da poça:
espio o tão real do lá de fora. se me acenassem... esperem!
matarei em mim a criança que me querem morta.

(rodrigues da silveira, 2018)

quarta-feira, 3 de outubro de 2018


suspiro do inverno numa tarde de verão


quando escapa do vidro,
o sonho caminha entre as prateleiras,
sem deixar a impressão oleosa
nas caixas de sabão em pó.

irrompida fresta no meio do corredor,
na meridional do passo, o buraco é um poço.

com a plumagem dentro do prazo,
olha, grasna e goza, salta sem esforço e goza.

voltando pro circo, os palhaços,
entre latinhas de cerveja e garrafas de rum,
despercebidos do bafo, deixam aberta a passagem.

posso beber água na bica?
seu barato ainda é contar moedas?

o sonho fuma a ousadia, mais outra
da criança? diz a tradição da traição, do fundo
para diante, troca os fonemas, sua voz metálica do enigma
querendo dizer, esperando ouvir, um sim
do mesmo, seja sincero e sonoro, seja mesmo um sim.

a camiseta são os troncos caídos, as cinzas
da floresta dos xamãs orientados; ao antagônico,
fosse um lar. aos pretendentes do trono, o abatido do uníssono.

sementes da areia alimentam najas,
há braços hipnotizados por cigarros vulturinos.
desdenhada a lua, amante dos sonhos, frutifica o avesso.
coma-se, flor do inverno; oculte-se, breu do véu.

à porta, quem chega atravessado,
direto pro setor, toma do gosto a graxa,
samba os sapatos, batuca a caixa, teme um invisível
que canta o que vê. os pés lambidos.
o engraxate cego de atrações, faísca, enxerga rastros.

no meridiano das plumas, o pássaro do bizarro?
e dói um bocado tecer a noite. nenhum mendigo está só,
a disfarçar-se, assobio a arrepiar-se lume.
é adrenalina, é dopamina, é ninguém no tragado.
cadê a serotonina do desespero?
o coração da razão é o espelho do eco.

(rodrigues da silveira, 2017)