quinta-feira, 4 de outubro de 2018


miss do universo


realidade, ainda que tardia?
a minha realidade poderia ser um copo d’água cheio,
quase a transbordar,
impossível tomá-lo nas mãos sem dispensar um dedinho.
cheio dessa água que me fui resgatar
do poço, o meu fosso, a minha fossa.
pródiga em emaranhamentos,
ramas que vão pelo subsolo, sobem pela cozinha,
a bailar aéreas e pela laje.
água arvorando-se como os meus dias na infância.

cinquenta anos depois, ainda infectada,
insalubre, danosa, água da minha lavra, água.
cinquenta anos depois, a infância ainda não chega,
fica-me pelo caminho, pedra que canta e dança,
fica-me a entrar pelas palavras, pelos pensamentos.
quer que eu a escale, palavra líquida expelida de mim;
dando-me essa ideia, posso escalá-la,
dançar com ela, subir ou descer quando queira, posso.
a infância pelo caminho dando-me a ideia:
os azulejos da casa dos meus avós dizem-me o fumo
do fogo de lenha; temperam-me a saudade
a leitoa, o ovo frito e o mingau de aveia.

estranho, alguém
que perdeu o chapéu sem nunca ter um na cabeça,
e a cabeça perfeita prum coco, ou palheta.
alguém, estranho
que tosse o amargo do charuto tomado ao pai.
um estrangeiro, esse alguém
à mercê do que não lembro, a infância à porta do quarto.

no fundo da fossa, do fosso, do poço, na água da poça:
espio o tão real do lá de fora. se me acenassem... esperem!
matarei em mim a criança que me querem morta.

(rodrigues da silveira, 2018)

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