quarta-feira, 3 de outubro de 2018


suspiro do inverno numa tarde de verão


quando escapa do vidro,
o sonho caminha entre as prateleiras,
sem deixar a impressão oleosa
nas caixas de sabão em pó.

irrompida fresta no meio do corredor,
na meridional do passo, o buraco é um poço.

com a plumagem dentro do prazo,
olha, grasna e goza, salta sem esforço e goza.

voltando pro circo, os palhaços,
entre latinhas de cerveja e garrafas de rum,
despercebidos do bafo, deixam aberta a passagem.

posso beber água na bica?
seu barato ainda é contar moedas?

o sonho fuma a ousadia, mais outra
da criança? diz a tradição da traição, do fundo
para diante, troca os fonemas, sua voz metálica do enigma
querendo dizer, esperando ouvir, um sim
do mesmo, seja sincero e sonoro, seja mesmo um sim.

a camiseta são os troncos caídos, as cinzas
da floresta dos xamãs orientados; ao antagônico,
fosse um lar. aos pretendentes do trono, o abatido do uníssono.

sementes da areia alimentam najas,
há braços hipnotizados por cigarros vulturinos.
desdenhada a lua, amante dos sonhos, frutifica o avesso.
coma-se, flor do inverno; oculte-se, breu do véu.

à porta, quem chega atravessado,
direto pro setor, toma do gosto a graxa,
samba os sapatos, batuca a caixa, teme um invisível
que canta o que vê. os pés lambidos.
o engraxate cego de atrações, faísca, enxerga rastros.

no meridiano das plumas, o pássaro do bizarro?
e dói um bocado tecer a noite. nenhum mendigo está só,
a disfarçar-se, assobio a arrepiar-se lume.
é adrenalina, é dopamina, é ninguém no tragado.
cadê a serotonina do desespero?
o coração da razão é o espelho do eco.

(rodrigues da silveira, 2017)

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