miss do universo
realidade, ainda
que tardia?
a minha
realidade poderia ser um copo d’água cheio,
quase a
transbordar,
impossível
tomá-lo nas mãos sem dispensar um dedinho.
cheio dessa água
que me fui resgatar
do poço, o meu
fosso, a minha fossa.
pródiga em
emaranhamentos,
ramas que vão
pelo subsolo, sobem pela cozinha,
a bailar aéreas
e pela laje.
água
arvorando-se como os meus dias na infância.
cinquenta anos
depois, ainda infectada,
insalubre,
danosa, água da minha lavra, água.
cinquenta anos
depois, a infância ainda não chega,
fica-me pelo
caminho, pedra que canta e dança,
fica-me a entrar
pelas palavras, pelos pensamentos.
quer que eu a
escale, palavra líquida expelida de mim;
dando-me essa
ideia, posso escalá-la,
dançar com ela,
subir ou descer quando queira, posso.
a infância pelo
caminho dando-me a ideia:
os azulejos da
casa dos meus avós dizem-me o fumo
do fogo de
lenha; temperam-me a saudade
a leitoa, o ovo
frito e o mingau de aveia.
estranho, alguém
que perdeu o
chapéu sem nunca ter um na cabeça,
e a cabeça
perfeita prum coco, ou palheta.
alguém, estranho
que tosse o
amargo do charuto tomado ao pai.
um estrangeiro,
esse alguém
à mercê do que
não lembro, a infância à porta do quarto.
no fundo da
fossa, do fosso, do poço, na água da poça:
espio o tão real
do lá de fora. se me acenassem... esperem!
matarei em mim a
criança que me querem morta.
(rodrigues da silveira, 2018)