quarta-feira, 26 de setembro de 2018


poema útil


cale-se, poema,
se não tem nada pra dizer, cale-se.

pra que ficar fazendo marolinhas
quando o mar está infestado de tubarões?

quando o céu não esconde estrelas mortas,
a ignorância está nos olhos de quem pensa que o vê.

por que insiste em querer tudo em ordem,
querendo a quimera destrinchada.
com a palavra certa no lugar certo, por quê?

se nunca se arriscará saltar entre os trapézios,
pra que colocar a rede?

poema, perca o juízo, perca-se.
ao menos uma vez, erre a mão e grite pela vida, a sua vida,
vamos, poema, seja exemplar pelo exagero,
seja pérola barroca, única na imperfeição.
vamos, poema, não se deixe naufragar em plena praia.

(rodrigues da silveira, 2017)

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