segunda-feira, 27 de agosto de 2018


passado a limpo


jogue álcool naquelas roupas, restos de outra opulência,
injustas no corpo senil, de rugas óbvias
e fraquezas improdutivas, inadequadas ao trânsito das gorjetas.
taque fogo, sem piedade.

embeba de gasolina aqueles trapos, ruínas de outro império,
de gente porca, de mente torta, de pele morta,
de corpo morto que fala, cospe varejeiras
e vocifera pelos cavalos de um velho apocalipse.
com convicção, risque o fósforo.

deixe queimar as memórias,
as mais augustas mentiras, as mais celebradas pantomimas.
sem dó, faça torrar as sinapses do abismo.

como se o tórrido fosse pro descontrole do tempo,
sinta pena, promova a pena, apenas sentencie-se à pena.
tenha em si mais argumentos que emoções,
seja a lei que os irmãos ignoram, aplique-se ao convívio com o fogo.

como se o marmelo no lombo arrancasse o couro,
faça de si o que a chama é pra imbuia de todo totem.
pra dar-se ao valor pelo que valha, queime o que for palha.
  
saída tímida dos trapos cínicos, espasmo de moribundo,
a vela alcança o breu dos arredores.
varridos da aliança com a luz, os silêncios dizem a dor
em figuras maltrapilhas, como um eco nada obscuro:
o que mais dispersa, congrega.

como pudesse o exultante, o hiperbólico, o contagiado,
o contagiante, o apostólico, o condensado,
como a sentir-se tão doce, muito adorável, de um amoroso intenso.

amores de amor ou luzes do fogo?
povo das cruzes, o vestido de amor exibe o respeito,
e garante à paz o fósforo, seu fósforo à espera de outro agora.

junto no simultâneo, no instantâneo adjunto:
o amor que me lê, leio-me nele também.
tentemos a comunicação ─ por sinais, por cores, por odores:
peça pelo sol; trace um número; chame o nome.

ó morte em vida... ó morte em vida... ó carnificina...
a que aspira, hein? à dona aspirina?

(rodrigues da silveira, 2014)

domingo, 26 de agosto de 2018


por um colapso nervoso menos maníaco


os trapos são todos bandidos e assassinos?
picaretas.

os patos são todos economistas e políticos?
cartomantes.

os sapos são todos honestos e trabalhadores?
fesceninos.

os ratos são todos passistas e compositores?
comunistas.

os gatos são todos complexos e analíticos?
humoristas.

os capos são todos ranhetas e intolerantes?
pentecostais.

(rodrigues da silveira, 2015)

sábado, 25 de agosto de 2018


pra tirar os pés do chão


o retrato na carteira
diz o amor mais vívido na voz viva.
o prato de todo dia
guarda o amor que detergente, esponja e água
não conseguem esgotar ralo adentro.
o sofá na sala
reserva pro amor o que o coração
esquecido, que parece ter esquecido,
apreende sem vergonha, com razão.

e se de repente o amor
puxar a coberta?
a madrugada muxoxa os seus serenos;
ajeitar-me o cabelo?
pra esconder a calvície;
beijar-me a testa?
com tal afeição, pelo que atesta o serenado,
dou por mim nas rugas do meu afeto.

nunca? jamais? ou?
talvez... talvez.
se ainda está nas vielas da cabeça,
a caneta permanece inocente.
  
não conheço quem chame,
ou ouse chamar ou experimente a ousadia
─ dizer este amor com outro nome.

com os pulmões nítidos
e o olhar desanuviado, digo eu
com a maior afetação que eu sinto:

mãezinha... mamãe... mãe.

vinho verde,
contemporâneo daquelas minhas memórias,
deixa-me respirar, ir pelas saudades, maturar-me vivo.
uma vez que sou pelas idades,
faço-me folha aspirando ao alvo do branco.

voo ou vivo? vivo ou voo?

se me é risível arriscar o sensível,
embriago-me, e tenho amor pela vida?
e como me mato pra ficar vivo.

(rodrigues da silveira, 2015)

sexta-feira, 24 de agosto de 2018


os dias felizes


as britadeiras do olvido
vão enchendo de buracos
a minha ruazinha de terra dócil.

o que não faço pra rememorar
o pouco que lembro,
um tanto agastado de tanta degustação.

queria lembrar o passarinho
que não matei, e voou;
queria recordar a namorada
que me escolheu, e não correu;
queria a memória seca, transitável,
mas ando a suar um bocado.

um dia a travessia
será terna, segura, menos mentirosa,
ou será inesquecível.

presto, haverei de tapar a peneira
com o sol de alguma cigarra menos atilada.

(rodrigues da silveira, 2018)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018


quem pega a conta


o morador de rua lambe o cão que o diabo amestrou.
nós precisamos pedir explicação?
à verdade, umas verdades.

em cada cabeça? quem passou pela calçada
foi pra loja de bolsas, só bolsas,
umas bolsas ignorantes? da sua triste figura.

no coração, os noturnos calam o abismo?
conhecem bem o imundo, disfarçado de mendigo.
falam do atalho, é o atalho que salta,
entra pela boca ─ que susto!
não, não e não ─ que medo!

há quem diga o que pensa,
mesmo pensando o errado,
gerando o engodo, proporcionando
ao equívoco a estação.
vieram pedras, encobriram de pegadas
o caminho que não andava.
entrado em cena ─ não contava
o mendigo com o atirado?
não desembarca, desembarcado está.
  
que idiota! isso é o que me sobra, outro.
esse idiota quer lamber a bolsa?

o mapa na cabeça, vertendo palavras,
numa fé nos cães que abanam respostas sinceras,
certo do que dizia. afinado, afinal?
tinha pela palavra um apreço, o senso útil
de proferir profecias proeminentes, convenientes,
emblemáticas, tão necessárias.

há quem minta, acham-no palatável,
como uma folha de agrião ou um pêssego.
mesmo engolindo a página da política
sem um gole de fanta uva?
há quem confunda o abismado
com o abismado.

mas quem mente a quem mente não tem pela gente
não mais que um perdão?

na calçada, o dedo da poça esconde
o monstro do incontrolável,
o incontornável do abismo.
  
os cães enraivecidos
não mordem, saudosos do lobo que foram;
não atacam, assanhados pelos ossos assinalados;
não esquecem das presas mal-educadas.
cães de raiva não se desmancham na poça.

morto a pauladas, o mendigo
vê na tevê: ele cabô de morrê!

fizeram a gentileza:
uma fita amarela separa o pudor da notícia.
nova situação, nova política.

foi aí, sem pedir licença;
foi assim, sem ao menos pedir licença;
foi deste jeito, com o fio de vida babando uma sentença;
mandrião do cão, um cabra pra lamber o chão?
para! o porreta foi.

das veias abertas do anacoreta este poema não veio.

(rodrigues da silveira, 2016)


quarta-feira, 22 de agosto de 2018


ópera sem remate


costuma chover um bocado em março.
pelos vãos, a água da chuva conhece melhor a casa:
vai entrando pelo telhado, ensopando o casal;
infalível dizer: tão embriagante, o sono é?

como queria o desejo de uns pregos.
mas pegar um martelo? falta a disposição.
cansado? lamenta a chuva, na lata.
a mulher morde a romã, cospe os podres, exibe
a nudez dos olhos, urde uma afronta. o marido?
mexe a mão, suga o dedo que dói, mordido.

o acaso da casa num espaço cômodo?
entre outras duas, no meio dos abelhudos mexeriqueiros.
do primeiro ímpar, arrematemos:
a natureza da dor não é a mesma da pica numa suruba.
a não mais poder, a chuva desaba
o abacateiro, bisbilhotaram. doutro vizinho: furioso.

seduzido o telhado, resta o bom colchão.
os vãos como vão? cuspidos pela vida, e vão.

(rodrigues da silveira, 2016)

terça-feira, 21 de agosto de 2018


o luar na garrafa


dividiremos o rio, ó sorocabuçu,
em águas azuis, outras vermelhas;
dividiremos a correnteza do rio, ó cubatão;
em enluarada, também ensimesmada;
dividiremos a ponte sobre o rio, ó são francisco,
em à esquerda, ainda à direita.

se de concreto forjamos o fundamental,
permitimos o fogo da madeira, do algodão e da lâmpada.
eia! tiremos fotos, mandemos mensagens.
valentes, não querer lixar a ferrugem da história.

o que o rio não aprende: tentáculos têm fome.
como a luz não come o sol, come os barracos e os homens.
tentáculos muito apreendem da euforia
a manter os olhos vidrados, de lunático fora do jornal.
o que a língua esconde dos dentes?
a raiva lupina, espumante, de ratazana no cio.

e faremos tudo com louvor?
desde que nos livremos da maldita rolha, o eclipse.

(rodrigues da silveira, 2016)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018


a pescaria


a rede não fora lançada,
o pescador dormiu.
longe da malha do vento, havia estrelas no seu olhar.

a lua convidou o silêncio
para uma janta entre amigos, familiares,
convivas de apreço.

o anzol estava de prontidão,
deixava a lâmina prateada passar os serenos.

a carne escondida na luz do rosto.
havia águas na língua que amansava o vento,
fabricando-o brisa, mais apetecível.

ondulações pusilânimes eram um manto,
cobriam as perplexidades, desenganavam os cardumes.
os cílios ribeirinhos colhiam o orvalho,
reconciliados.

abaixo do queixo, havia o que estancar:
que fosse queixa, seria lamento;
que fosse desprezo, seria rancor.
  
havia fome.
ancorado, havia um barco.
por que não retornou?

isca da aurora, o corpo não navegou.

o maldito, que em mim não colabora, denuncia
com a vida, com o amor,
denuncia o fracasso de quem, em mim,
não elabora, renuncia
em nome do que afunda, na forma do que abunda,
renuncia ao explícito, ao bendito.

faço o possível pra entender o impossível,
mas não tenho imaginação
pra pensar o infinito.
bebo da água. como do peixe, engasgo com a espinha?

sou humano, e míope.

(rodrigues da silveira, 2017)



domingo, 19 de agosto de 2018


sessão do cinematógrafo


entendimentos? a tarde venta,
o azul concorda;
a camaradagem? a pipa desalinha
o tempo pros meninos.
fotograma dos parceiros ─ a camisa amarela,
de verde.

sem artimanhas, a criançada
não faz a roda cantar.

e lá da tela? que tela?
o aplauso não apita, não dá trela,
não faz sonoro o virtual
do tão irradiante, do muito contagiante.

a correria, o alvoroço, a balbúrdia?
sem faca, garfo ou perfurantes:
o pleno do lanche? esse é o plano ─
comer o quanto antes.

breve, o uivo jorra a urina:
o soco no rosto, o rosto na terra, a terra aberta a certezas.
o caos não respeita toldos e marquises.
  
como um poste, mijado;
como um cão, desgarrado;
pelas pulgas, convulsionado.

queria acordar?
um gato qualquer não lambe boca alguma;
tem sombras dentro do olho, inchado.

o menino não consegue despertar.
que sujeitinho põe os seus olhos num copo d’água?
ele ainda deita de tênis, querendo menos sonhos
do que o pão com hambúrguer, que nem na televisão.

pras manobras na parede?
falta-lhe vela, e parede.

volte a sonhar, menino, um dia você acorda.

(rodrigues da silveira, 2015)





sábado, 18 de agosto de 2018


tratamento de canal


o quanto antes,
e que seja rápido.
mesmo que me faça vil?
conheço as minhas covardias;
e que mexa nos meus esforços pouco fiéis?
traga-me à exaustão;
e que as mãos sejam práticas?
pelo primor da técnica.

a dor é agora,
e não me será transferível.

o doce, o salgado, o amargo?
ai de mim!
refém das águas cafés, chopes uísques.

a dor é agora,
e não hei de transportá-la a outrem.
é agora. é sem aviso.

um sopro me põe no vivo.
o gelado do nome pronunciado?
pela coroa, na cárie. dor que me infesta.

a dor instalada, infiltrada, provocada.
não há tempo pra manhã ou tarde. o que dói,
dói! e é agora. é neste instante.
não existe o depois do almoço, um logo agora...

estamos conversados?
canal resoluto, estamos entendidos?

na hora derradeira,
a dor sou eu exposto na cadeira.

anestesia... anestesia...
onde a senhora tarda, a dor em mim me esconde.

viver é fria!

(rodrigues da silveira, 2015)







sexta-feira, 17 de agosto de 2018


a corredeira


árvore de raízes movediças, os homens
sobem montanhas, descem seus andaimes,
entram pelas cavernas, querem o café passado na hora...
de caule arenítico, os homens
aumentam as nuvens, diminuem o vento,
circulam o ventre central, têm açúcar na manga...

da floração ao fruto?
os homens têm gosto, degustam-se por dentro,
são madeira fluída, engolem a própria baba.

minha vida paralisa em segredo?
o nicho da morte é o degredo.
o instinto me acanha com seiva de aranha?
teço-me labirinto. daí peço cuidado!
não alimente o poeta, esse bicho alopra;
é forte: morde mas não assopra.
quando aflora a sua semente,
não simplifica? não mumifica? unifica.

nada como fazer pouco do demente.

(rodrigues da silveira, 2016)