quem pega a conta
o
morador de rua lambe o cão que o diabo amestrou.
nós
precisamos pedir explicação?
à
verdade, umas verdades.
em
cada cabeça? quem passou pela calçada
foi
pra loja de bolsas, só bolsas,
umas
bolsas ignorantes? da sua triste figura.
no
coração, os noturnos calam o abismo?
conhecem
bem o imundo, disfarçado de mendigo.
falam
do atalho, é o atalho que salta,
entra
pela boca ─ que susto!
não,
não e não ─ que medo!
há
quem diga o que pensa,
mesmo
pensando o errado,
gerando
o engodo, proporcionando
ao
equívoco a estação.
vieram
pedras, encobriram de pegadas
o
caminho que não andava.
entrado
em cena ─ não contava
o
mendigo com o atirado?
não
desembarca, desembarcado está.
que
idiota! isso é o que me sobra, outro.
esse
idiota quer lamber a bolsa?
o
mapa na cabeça, vertendo palavras,
numa
fé nos cães que abanam respostas sinceras,
certo
do que dizia. afinado, afinal?
tinha
pela palavra um apreço, o senso útil
de
proferir profecias proeminentes, convenientes,
emblemáticas,
tão necessárias.
há
quem minta, acham-no palatável,
como
uma folha de agrião ou um pêssego.
mesmo
engolindo a página da política
sem
um gole de fanta uva?
há
quem confunda o abismado
com
o abismado.
mas
quem mente a quem mente não tem pela gente
não
mais que um perdão?
na
calçada, o dedo da poça esconde
o
monstro do incontrolável,
o
incontornável do abismo.
os
cães enraivecidos
não
mordem, saudosos do lobo que foram;
não
atacam, assanhados pelos ossos assinalados;
não
esquecem das presas mal-educadas.
cães
de raiva não se desmancham na poça.
morto
a pauladas, o mendigo
vê
na tevê: ele cabô de morrê!
fizeram
a gentileza:
uma
fita amarela separa o pudor da notícia.
nova
situação, nova política.
foi
aí, sem pedir licença;
foi
assim, sem ao menos pedir licença;
foi
deste jeito, com o fio de vida babando uma sentença;
mandrião
do cão, um cabra pra lamber o chão?
para!
o porreta foi.
das
veias abertas do anacoreta este poema não veio.
(rodrigues da silveira, 2016)