quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Bola fora

 

Bola fora

 

Se vejo nas tiras do Minas frescal as bandeirolas de Volpi, dou por coisa de mané fotografar o pão coberto pelos retângulos do queijo, mas a beleza quer prevalecer e eu, comovido à vaidade, dou o clique.

O sentimento de ter cometido um deslize pesa na consciência deste bobão, uma vez que convivo com poucos que enfrentam uma realidade difícil.

Comendo meu sanduíche, penso nessa gente que dá vida a um dia a dia sombrio. Bebendo o meu café, lamento que essa gente nem saiba o quão danoso é este cotidiano que lhes vampiriza o suor.

Assistindo à TV, vejo gente passando fome, sobrevivendo debaixo de viaduto, acreditando que a vida deve ser bem mais penosa a legiões que nem aparecem na TV.

Confiando que faço o que dá, certo de que nem sempre faço o que posso, sem desistir de melhorar-me pelo que me seja possível, termino o meu café.

Com a cafeína agindo na mente, vejo claramente que levanto cedo, trabalho, como grelhados, compro livros para o tempo compadecer-se da minha insignificância, durmo logo, sem sobressaltos, porque a pílula que tomo tem o poder de me fazer capotar bonitinho.

Babo no travesseiro, ronco, não calculo como os sonhos colaboram para a minha recuperação, desperto com o cocoricó do celular, acordo, novamente e outra vez, com vontade de cortar as fatias do frescal que me seduzam às bandeirolas do Volpi.

Faria diferente se fosse outra pessoa?

Para ser quem não sou, leio, e convivo com personagens, incorporo tensões, vibro nas altercações, tomo água. Sigo na leitura mesmo que, páginas à frente, a boca torne a secar. Sim, Antígona, não a repudiarei, pois, outra vez contigo e de novo comigo, continuarei na caverna.

A caverna onde vivo tem ducha de água morna, tem faca inoxidável, tem travesseiro antialérgico. Para não fugir de quem sou, banho-me na ducha morna e cuspo a mordida estragada da maçã.

Ainda que ainda esteja um breu, danado feito o cão, abro os olhos, e conto com que a ansiedade me auxilie a controlar-me.

Não hesitarei! O pé direito primeiro? Não sou supersticioso! Todavia o pé esquerdo para mostrar-me resoluto?

Faz bem comprometer-me comigo, pois abrir os olhos não basta. É gostoso espreguiçar-me. Convém apoderar-me dos pés. Não me quero desequilibrado. Para que ambos toquem simultaneamente o tapetinho, coordeno as coxas, os joelhos e meus pés.

Sentado na cama, tomo siso da situação: vejo os dois pés pisando o chão, estou convicto de que poderei levantar aprumado, acautelado, seguro de que levantarei sem me precipitar, estou certo de que ligarei a TV só depois de ter adoçado o café e feito meu sanduíche.

Mesmo que não movimente um neurônio a favor da paz universal, deixo a cama, ponho todo meu peso nas plantas dos pés, dou comigo, todavia, a tombar de queixo, que dói e sangra.

Por mil diabos! Por mil diabos!

Por que, logo agora, eu me fiz ter uma tamanha câimbra?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de setembro de 2025.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Sem laranjada

 

Sem laranjada

 

Hoje, como ontem, é um dia frio, garoento, de pouca gente na rua, é dia em que os vira-latas também preferem ficar entocados, sumidos. Hoje é dia para recolhimento, para cobrir-se, para um café passado na hora, para a pipoca que faltou ontem.

Pensando bem, hoje é um dia para a cabeça dispensar avisos. Sem pôr a água no fogo e sem medir o pó, sem pegar o milho para pô-lo na panela, nada de ligar o gás, pois pensar-se enfarado é cansar-se.

Ainda mais que hoje é segunda-feira. É uma segunda-feira fria, com a língua do frio falando suas intermitências. Querer entendê-las? Até a vontade de refletir sobre os intervalos, sobre as intermitências, também ela é cansativa. Ainda que o vento estabeleça padrões, cansa querê-lo traduzido. Que o vento passe, o vento venha e que seja possível vê-lo vindo e passando, que as folhas tremeliquem. Quando lambida pelo frio que passa, qualquer árvore enregela-se toda.

Mesmo frio e garoento, é dia da padroeira, é dia de Nossa Senhora das Dores, é dia para recusar cansaços, todos, não apenas os esforços vãos, os tédios cabotinos, que hoje seja dia pra tomá-lo bem como ele se apresenta.

Sem desânimos que chateiem, seja bom, ótimo, seja um excelente dia para entender-se na rede, porque, sem misticismos que modorrem, é auspicioso entender-se vão e entediado, é razoável que se indique o quanto é conveniente tirar a sesta. Mas o ajuizado capture o alerta dos pelos eriçados: saudável é quedar-se no quentinho do sofá.

Hoje é dia de Nossa Senhora das Dores. Quando é feriado, o tédio é desculpa. Eu sequer vou à lavanderia. Muito me entristeceria dar com o cesto cheio. Me aborreceria a ideia de lavar roupa. Desincumbo-me das tarefas. Abdico-me de dar banho nos cachorros. Não vou varrer a varanda e não vou deitar-me na rede. Ainda, não vou acender vela.

Mal saio à rua, uma vez que Dona Cremilda ligou convidando para almoçar, uma varetona cenoura de bermuda, camiseta regata e óculos espelhados troca um picolé por dois reais.

Se o picolé não fosse de limão, eu teria dois reais trocados.

Indo para a casa de Dona Cremilda, sem lenço e sem carteira, levo no bolso mais de um quilo de moedas.

Peguei uns punhados da caixa de sapato que nem tampa tem, quiçá uns vinte reais em moedinhas de cinco e dez centavos, peguei-as para pagar as laranjas que darão a laranjada.

Enquanto ando, ainda que me pesem no bolso, alegra-me a música que elas fazem, uma vez que aquele tilintar tem ritmo, dita o meu ritmo, me faz andar satisfeito.

E nem sei de onde vem, mas sinto uma ânsia esquisita. Quero mais moedas. Preciso ter os dois bolsos carregados.

Entristeço-me, que tenho apenas um bolso carregado. Triste e sem apetite, não erro nem quero errar por aí.

Fora da vista de quem passa, entro num boteco.

Embora não esteja nem lambido nem mordido, chuparei o picolé de limão, chupá-lo-ei tranquilo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de setembro de 2025.

domingo, 14 de setembro de 2025

Presunções

 

Presunções

 

Oito horas, mal a funcionária senta-se na cadeira, toca o telefone:

ꟷ Alô, a minha mãe está?

ꟷ Meu querido, qual é o nome da sua mamãe?

ꟷ Dona, o nome dela é Samara.

ꟷ Não tem ninguém aqui que se chama Samara, meu anjo.

ꟷ Então tá, muito obrigado. Tchau, moça.

Oito e dez, a sensata engole o gole de café:

ꟷ Alô, pode me dizer se a Samara já chegou?

ꟷ Não, garoto, até agora nenhuma Samara chegou.

ꟷ É que a minha mãe esqueceu o celular dela. Obrigado. Tchau.

Oito e quinze, a educada é obrigada a engolir outro gole do café:

ꟷ Bom dia! Você pode me informar se a Samara já chegou?

ꟷ Bom dia é o cacete! Não tem nenhuma Samara que trabalha aqui, senhora. Se não sabe, a senhora fique sabendo: trote é crime!

Oito e quinze, ainda, o café nem chegou à boca da moça irritada:

ꟷ Bom dia, novamente. Não desligue o telefone na minha cara outra vez. Por gentileza, posso saber com quem eu estou falando?

ꟷ Meu nome é Patrícia, por quê? Vai querer me ver gritar contigo?

ꟷ Patrícia, eu procuro a Samara porque ela é a nova gerente.

ꟷ Então, por acaso, você trabalha com a gente aqui na nossa firma?

ꟷ Além de trabalhar aí, Patrícia, quem contratou a Samara fui eu, e eu lhe digo o porquê. É porque, Patrícia, você trabalha pra mim.

 

*********

 

ꟷ Vamos ao olho clínico do Repórter Aéreo. E quem fala ao vivo a bordo do nosso helicóptero é Flávio Alves. E aí, amigo, conta pra gente, como anda o trânsito aí pelas imediações do festival?

ꟷ Como os assinantes podem imaginar, Ana, o fluxo é pesado, pois a principal saída da área está entupida, com os moradores fugindo da banda de metal, cujo vocalista, Cristo Altíssimo!, acabou de começar a se esgoelar lá em cima do palco. Me libera disso daqui, Ana!

 

*********

 

ꟷ Caramba, amigo, o que você fez para o seu rosto estar vermelho?

ꟷ Eu não fiz nenhuma extravagância, amiga. Só fiz a barba.

ꟷ Ele está cheio de bolinhas... Por acaso, fez com uma faca?

ꟷ Não, não, nada disso. É que sou alérgico a níquel.

ꟷ Níquel? Caraca, amigo! Quem falou pra usar gilete de níquel?

ꟷ A lâmina é inoxidável, mas o níquel é usado para afiar o aço.

ꟷ Sei não, amigo. Pra mim, isso deve ser coisa de velho.

ꟷ Pois é, amiga, devo ser velho desde os meus dezoito anos.

ꟷ Que engraçadinho você é, hein?

ꟷ Olha, tenho uma coisa engraçada sobre minha alergia. Por conta do rosto ficar vermelho, queimando, empipocado toda vez que eu fazia a barba, precisei ir me consultar com uma dermatologista.

ꟷ Ela te revelou que existe aparelho pra pele sensível? Bingo!

ꟷ Não. Ela receitou creme e, pra tomar, um antialérgico.

ꟷ Amigo, que médica mais chatinha.

ꟷ Pachorrento fui eu, amiga, uma vez que meti na ficha do cadastro que a minha profissão era, veja só, que eu era... escritor.

ꟷ Lamento te decepcionar, amigo, mas você é escritor.

ꟷ Naquela época, eu não tinha nada escrito. Hoje, já que eu tenho crônicas publicadas, eu não erraria se preenchesse: escrevinhador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de setembro de 2025.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Zero a zero

 

Zero a zero

 

Bem se veja que estou disposto a encarar o insight com a seriedade que o deslumbramento pede a mim que eu a tenha, uma vez que estou bem. Ou seja, evitarei as contradições involuntárias. Ou seja, denuncio que quase me deixei convencer que, depois de uma boa noite de sono, o joão-de-barro me acordou para outro dia de céu azul, refeições leves e conversas ligeiras.

ꟷ Voltou pra cá?

ꟷ Faz cinco anos.

ꟷ Cinco! E nada de ligar pra cervejinha?

ꟷ Parei de beber.

ꟷ Rapaz, sabe que também não ando bem de saúde, já não abuso como a gente abusava na zoeira. Semana passada mesmo, fiz exame, porque passei uns dias com uma dorzinha chata, mas o resultado deu que está tudo em ordem com o meu fígado.

O diálogo deu-se ontem. Sendo abilolado de memória avariada por décadas de cachaceiro contumaz, dou a seguir o papo de quinze dias atrás.

ꟷ Quanto tempo!

ꟷ Quais as novidades?

ꟷ Tudo na mesma. Com futebolzinho no sábado, churrasco quando pinta e brejas geladas dia sim e outro também.

ꟷ Já não pertenço a esse mundo.

ꟷ Virou crente?

ꟷ Fiquei velho, mesmo.

ꟷ Rapaz, nem me diga. Na semana passada, corri fazer exame por causa de uma dor nas costas. Mas, graças ao Bom Deus, o ultrassom detectou pedra no rim. O médico mandou eu beber muito líquido. Como ordem de doutor é lei, tenho tomado cerveja que nem água.

No entanto, me persuadi a repensar o que a intuição interpusera no caminho, uma vez que, de madrugada, eu sonhava que caminhava na praia, ia com os pés na água, as ondas lambiam os meus calcanhares, o muxoxo do mar era uma delícia no ouvido, então, foi lambido que me esforcei para despertar.

Já que autoconhecimento não garante o controle sobre si, tem vez que a vontade faz correr ao banheiro sem nem ligar a luz.

Fui e urinei, porém, apraz que se embuta o outro: porém.

Todavia, autoconheço-me de outras madrugadas, de outras idas ao banheiro sem que a luz fosse acesa, de algumas topadas de joelho na cômoda, de dar com o nariz no batente, de cair de costas pela peitada na parede.

Noite passada, no escuro, com a ponta dos indicadores ajudando a situar-me, com as paredes onde deveriam estar, fui indo lento, fui indo sem me distrair, sem achar que meus passos eram práticos, sem temer que a minha boca secaria, sem me soprar à tentação de ficar tenso por achar que era outra das minhas tolices, todavia, certo de que ia sem a necessidade de confiar em mim, não encurtei a passada, uma vez que o corredor era trecho conhecido, fui indo do quarto ao banheiro, tratei somente de ir devagar, porém.

Sem estresse abissal, o sujeito e eu nos congraçamos?

Já que um cotidiano menos tóxico pede meio-termo, faço o balanço, minimizo a mão do cínico a bater no ombro, já que seis por meia dúzia não acarreta nulidade: quando o cafezinho é expresso, você toma dois, de xícara grande, e sem açúcar, pois rim ou fígado hão de reconhecer o valor da coerência, sempre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de setembro de 2025.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Que bicho te mordeu?

 

Que bicho te mordeu?

 

Virão pegá-lo, estão a caminho. Mantenha-se digno, atenda à porta. Antes não tivesse atendido o telefone, a campainha soará. Topou que viessem, antes tivesse recusado o convite. Seja digno, entre no carro, e vá comer pizza.

Indo à pizzaria, seja gentil. Escute o que dizem. Responda quando lhe for dirigida uma pergunta. Opine se lhe pedirem que opine. Tenha modos, fale baixo, não se exalte, seja simpático, para que o trajeto seja curto.

O motorista conhece as ruas de menor movimento, vai sem pressa. A ida transcorre sem aborrecimentos maiores. A pizzaria tem motorista na porta.

Considere-se um cara sensato, até ao coçar atrás da orelha, já que tem aparadas as unhas, e limpas também.

Quando chegar o momento de escolher que sabores serão pedidos, aceite comer o que a maioria pedir. Vindo as pizzas, não as enjeite, vá comendo um pedaço de cada. Permita-se ser o camarada legal que os amigos tanto apreciam. Sabem-no um sujeito comedido, que não come além da conta, para se exibir glutão.

Mastigando de boca fechada, sem estrelismo, já que raramente dá chilique, você sorri.

E come, conversa, não o intimida ter que esconder que preferiria ter ficado em casa a ler, a ouvir música, a cochilar. Mas o friozinho chegou súbito, e a noite de domingo soube insinuar-se que fosse beber vinho. Mesmo que houvesse de comer pizza, jantaria de novo.

Apesar da coceirinha, você mastiga devagar.

O que o deixa tenso, todavia, não é ter orelha ou unhas limpas para se coçar, é o silêncio. Um silêncio súbito. Sem que os demais pareçam afetados, o que incomoda é essa coisa que o faz se coçar.

As pessoas conversam, se divertem, dizem besteiras, acham graça do que lhe soa uma banalidade. Elas sorrindo e você, todavia, parece ser o único a sentir algo que o enerva, algo que não se encaixa na noite de pizza, de vinho, desse frio que chegou de repente.

Para não adensar o mal-estar de ser o único a mais ouvir que falar, você fica descalço. Sem que ninguém associe o sorrisinho a estar sem tênis, você mexe os dedos. Podia tirar as meias, mas o piso deve estar gelado.

Comentam que teve o encontro de fuscas. Beltrano diz que o Clube do Fusca organiza o evento. Por se achar engraçado, sicrano fala que os carros têm bichinhos adestrados, que os dirigem cuidadosamente, equipam-nos com peças originais que ainda são fabricadas, lavam-nos a cada sábado, enceram-nos caprichosamente, enchem-lhes o tanque uma vez por mês e rodam apenas pela cidade, por ruas asfaltadas, por ruas de baixíssimo movimento.

Coçando-se, você tem orelha. Ainda que a audição esteja em dia, você confia que embebedará o que lhe suga o sangue. Sim, senhor, o vinho apronta, tanto altera que a coceira está maior.

Sem saber que prosopometamorfopsia (PMO) não é ampla, geral e irrestrita, você pede aos dragões que nomeiem o que o chupa atrás da orelha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de setembro de 2025.

domingo, 7 de setembro de 2025

Sorriso superior

 

Sorriso superior

 

A correria virou rotina. Da casa pro serviço, num pé. Do serviço para o restaurante, corre. Do almoço pro batente, sem fio dental. Por óbvio, o corre-corre vai minando a mente, pois a vida não sendo batalhada é uma luta não vencida.

Corre sem fingimento. Pode correr sem medo, pois não bebe. Nem lembra quando foi o último porre. Deve ter sido no tempo de estudante, dias em que nem tinha dinheiro para gastá-lo à toa. Vomitava. E tudo bem, acabava se recuperando. E quando foi a última ressaca? É perda de tempo forçar-se a lembrar quando foi, porque a vida era outra, sem ter oportunidades para ganhar din-din, assim a passo.

Corre, imaginando sentir, eventualmente quando tropeça, o quanto deve ser gostoso viver de porre em porre. Queria apreciar o momento, queria andar sem afobação, sem atropelamento e sem temer tropeços. Contudo, aflige-o um tropeço ou outro. Vai no corre, vai desejando uma moringa de água mineral, e desejá-la tem um quê afrodisíaco.

Corre, sua, quer uma garrafa de água. De preferência, gelada e com gás, a ser bebida no gargalo. O primeiro gole é no gargalo. Depois, põe no copo. E só depois, vê o rapaz, cuja cara diz o quanto está acelerado. O segundo gole é um deleite. Os demais são deliciosos. Gosta do gás. Com a correria suspensa, tem esta garrafa pra ser bebida, né?

Se não corre, nem precisa olhar os preços, pois não pedirá vermute ou rum ou batida de morango. Como não vai sair correndo:

ꟷ Me vê um suco de maracujá.

Adoça-o e experimenta. Põe mais açúcar, saboreia, aprova e toma. Embora o mundo o queira de volta na correria, beberica numa boa.

Acha graça, vê-se no rapaz que faz o queijo quente, lava os copos, tira o expresso, faz o que faz porque pensa no dinheirinho que o patrão lhe paga, pensa no salário que o emprego lhe rende.

Sempre tem o que pagar, por isso corre. Como tem pelo que correr, volta à rua, corre à larga, volta à bancada, avança sobre as horas, abre planilhas, fala ao telefone. Como não surta, trabalha.

Justamente por correr a semana toda, a sexta chega e deve honrar o compromisso, tem que seguir pro jantar.

Jantam.

Tem coisa no dente. Saiu? Nada. E agora? Nem pra se limpar! É o quê? É alface. Tirou? Claro, imbecil!

Além de imbecil, parvo. Com tanto medo de morder a língua.

Tem outra coisa no dente. De novo? É fiapo de frango. Sério? Claro, idiota! Não acho você mentirosa. É bom que não ache, ou vai levar uns tapas, seu assanhado!

Sim, ele é atirado. Tem pressa para fazer tudo certo. É mesmo! Ele quer ser o melhor companheiro com que a mulher tivesse sonhado. Ele é sério. Por isso, o que o põe nervoso é fazer tudo sem errinho algum. A mulher conta que seja homem, seja um cara esperto.

Vai pedir sobremesa? Café. Café? Café, seu doente, café!

Peraí... Saquei... E daí que faltem nove parcelas, porque meu novo piano tem até vãozinho entre os dentes, que baita belezura.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de setembro de 2025.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Chorinho

 

Chorinho

 

Nem pergunte o que eu penso, pois não pretendo confessá-lo. Digo apenas o que me seja conveniente, ainda mais se disfarço o quanto é divertido rir por dentro, rir desbragadamente.

Eu ri porque a cena que presenciei foi patética, e foi tão bizarra que continuo rindo. Pornograficamente a riso solto, sem peias.

O que dá motivo para não me conter?

Vi um sujeito virar um copo de pinga. Vi o dono do bar entregar uma toalhinha. Sem piscar, o homem que bebeu a pinga numa golada foi à pia junto à porta do banheiro. Lavou as mãos, lavou-as bem.

Notei que, ao lavar-se, ele fazia o biquinho de quem assobia, quiçá mentalizando Inútil, do Ultraje a Rigor.

O que ninguém disse, nem confirmo, é que, para não ter confusão, a toalhinha era para frear a gastança das toalhas de papel.

Limpo e seco, o homem veio sentar-se no banquinho.

O dono do bar nunca se vangloriou de que tinha na clientela um pau d’água acerbamente motivado a se livrar dos resquícios da branquinha, pois o que amargura esse homem cuidadoso é que pinguços são gente que se emporcalha, mas ele, o dono do bar, é solidário com o borracho que tem ojeriza de quem transpira álcool.

Olhando-me de soslaio, o dono do bar queria que eu não caísse na besteira de rir, comentar ou fazer o mesmo que o camarada, ir lavar as mãos depois de entornar o lavrado da puríssima.

Quando simular inocência é um bom jeito de senti-la, embora fosse engraçado, não disse que era um troço que eu nunca tinha visto, algo pitoresco, algo risível, mas eu virei o copo, lavei as mãos, enxuguei-as com duas toalhas de papel.

Sem rir, retomei o meu posto.

E tudo como dantes?

Atrás do balcão, o dono do bar olhava-me com o canto dos olhos; pouco a fim de questionar-me o porquê da gracinha, o homem de mãos limpas olhava pro chão.

O meditabundo olhou-me, mas o seu olhar não deu comigo, embora eu estivesse a meio metro de si, eu me preservasse ao alcance de uma cusparada.

As minhoquinhas provocavam os clarões que me punham ansioso. Por que raios o camarada lava as mãos mesmo depois de desrespeitar o santo? Aliás, razão, santo insultado concede perdão? A tempestade iluminava as respostas, só que minhoquinhas não falam.

Enquanto bebíamos, não ousei dizer o que havia entendido.

Entendi, mas não abri a boca nem a abrirei agora, porque entidades tão sensíveis não vacilam.

Então, sensato é o santo que não bebe? Aquele que não bebe nem quando a cachola faz as mãos tremerem? Um santo de Carrara escuta o suor escorrendo?

A verdade é que o sujeito que me ensinou a beber a dose toda não apontou o chão, não puxou o ar, não teve de falar o óbvio: esse negócio de virar o primeiro teco de toda dose é maracutaia das grandes, porque o dono do bar vende mais bebida, lucra mais e expulsa a gente quando quer, alegando que o chão está imundo, fedendo, escorregadiço.

Tudo por culpa nossa, amor, pois veneramos um santo troncho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de setembro de 2025.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Chamando gente

 

Chamando gente

 

Em vez de sentado no fundo da lanchonete, o garoto ficaria melhor na foto tirando a sesta no sofá da sua casa, mas ele não resistiu de vir comer coxinha, uma vez que criança, e não importa o quão sessentona ela seja, tem dessas lombrigas lúbricas.

A tamborilar os dedos no tampo da mesa a cada vez que fazia um novo pedido de fritura, sem se dar conta das arcadas superior e inferior a friccionarem-se, eventualmente pigarreando, o guri não chega a suar neste propósito de passar-se por um velhinho desinteressado do papo dos homens junto ao balcão.

Dividindo outra cerveja, a quarta, pelo número de cascos no tampo do balcão, eles conversam ao sabor dos assuntos que vão pipocando, seja porque a notícia na tevê instigue a comentá-la, seja porque algum freguês fala algo que estimule a uma segunda opinião.

Como os palpiteiros são dois, as divergências são muitas.

ꟷ Digo que um homem é um indivíduo, uma mulher é uma pessoa. Já você diz que dois homens são?

ꟷ Ora, dois homens são uma dupla.

ꟷ E duas mulheres?

ꟷ Ora, ora, duas mulheres formam uma dupla.

ꟷ Meu caro, e se forem muitas mulheres?

ꟷ É óbvio, muitas mulheres são a mulherada.

ꟷ Quando se reúnem muitos homens?

ꟷ Meu caro, homens ordeiros são a força da nação.

ꟷ Aleluia! Você é dos meus.

ꟷ Evidente! É da união da nossa gente que surge o povo.

De acordo com a corrente versão da Novíssima Gramática Política Brasileira, cuja edição de 1992 foi ampliada em 2016, “vós” é voz mais que perfeita a reger (oculta) a “nós” e a quem somos “eles”.

De costas para a rua, fumando, o homem vai bebericando a cerveja sem temor exasperado pela segurança de filhos e netos e da primeira bisnetinha que está para nascer, uma vez que, de momento, sua maior preocupação são os fios mais negros que as asas da graúna.

De olho na TV, fumando, o homem de rabinho de cavalo, de quando em quando, passa um lenço no topo nu da cabeça, pois a cerveja não ameniza o calor, nem depois de garantir que o elástico ainda prende o seu rabicho gris.

O suarento usa relógio, mas ele não o usa para ver as horas, já que o mostrador está voltado para o braço. Então, pela exibição inusual do relógio, o distinto é mais uma figurinha premiada da cidade.

Contam que o famigerado acredita que o corpo tem o coração para dar-lhe a energia do pulso, já o relógio tem a bateria para fazer as suas geringonças funcionarem.

Assim, a pele percebe que o relógio não é outra máquina qualquer, é um tipo especial de coração, cujo organismo foi criado para a mente se orientar mecanicamente.

Eis o grande achado: o corpo capta o que os ponteiros transmitem, uma vez que, segundo a segundo, um a um, o coração resguarda-se de ansiedades, mantém-se em concomitância com o tempo do mundo; assim, criatura, ninguém entope as veias com discordâncias.

Com papais e mamães ligados na tevê, a esperança é a criançada continuar brincando na rua.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de setembro de 2025.