Quando o mundo quer ver-me irritado,
basta que dispare o alarme do carro que, pela altura e pela proximidade, só tem
que ser do vizinho; ele segue disparado, tocando por cinco minutos, parando
outros cinco e voltando a tocar por cinco minutos; é sério que seja uma
provocação, isso de tocar, parar e voltar a tocar, assim por diante; então eu
levanto, vou à janela, grito que o vizinho venha dar jeito naquilo; então eu
grito, chamo o vizinho, ele vem ao carro, tenta desligar o alarme, mas minha
irritação avança; chamo-lhe parvo, enfatizo que se quer um parvo, mas é minha a
parvoíce, pois o carro de alarme fanfarrão é meu.
Quando o mundo quer o meu vizinho contra
mim, só preciso ser eu mesmo, mas na versão endiabrada; daí emendo uma mentira
na outra, retomo, altero, cismo dos detalhes, brinco com o que havia contado; o
que meu cérebro percebe é o que corrijo, porém falar, desdizer, falar e
desdizer, tal método, cuja finalidade é o convencimento de que eu falo a
verdade, acaba irritando o vizinho; porque a bicicleta não foi roubada, eu a
peguei porque tinha pressa de ir e voltar da farmácia, mas a minha dor de
cabeça tinha solução fácil que bastava eu fosse rápido, portanto achei melhor
não falar nada; fui e voltei da padaria para ganhar tempo, para não injuriar o
vizinho, dono da bicicleta, pai da menina que usa a bicicleta, pois eu não
tinha a intenção de puxar briga; eu queria apenas comer um pãozinho com peito
de peru.
Quando o mundo quer que me iluda, toco a
campainha do vizinho, soco a porta; bebo da latinha, torno a tocar a campainha,
bato na porta com a mão espalmada; sei que a campainha não está alta o suficiente,
esmurro a porta; tem gente em casa; está com vergonha de vir à porta depois de eu
ter apertado a campainha o suficiente pra que saia e deixe que pegue emprestado
seu cachorro, pois o pitbull impõe respeito, não fica atrás de pastor, e o novo
vizinho vai ter que correr pra dentro.
Quando o mundo quer compensar-me, no meu
caminho aparece a pedra, nela não darei uma bicuda; não testarei o dedão e não
quebrarei o para-brisa do carro do vizinho que acabou de mudar-se; não estarei possesso
o bastante pra furar pneu de carro recém-chegado; sei o que é preciso para que
seja mantida a ordem na vizinhança.
Quando o mundo me quer um palhaço, aparece
um cachorro com segundas intenções; aproveito o sinal vermelho e corro, mas
olho para trás, me desequilibro e caio; já não há cão e já não quero voltar,
porque enfrentei o medo de ser mordido pelo chihuahua; me levanto, mostro o
dedo do meio aos motoristas que buzinam, buzinam, buzinam, porque não tenho
medo de manter firme o meu dedo do meio.
Quando o mundo quer que eu erga um muro
que me esconda, deito na rede, bebo guaraná, como pipoca e espero que o mundo
passe; que ele há de passar, e não assobiarei; serei respeitoso, mesmo que
passe a caminho do lar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de maio de 2025.