Eu tento, quero ser agradável o mais que
eu posso. Sobre ser uma pessoa legal, que agrega, que não desperta o pior nos
outros, isso para mim é algo que posso fazer, que consigo fazer, sem que me ache
uma pessoa falsa, trapaceira, que procura camuflar-se de bonzinho, simpático, que é ardilosa a ponto de gerar desconfiança nos demais.
Eu acredito que sei mesmo como ser um
sujeito bacana.
Ao longo da vida, venho aprendendo a ser
um cara afável; acho que tenho sabido me virar com os perrengues, com as
decepções, sem que tudo fique pior, porque, sendo bom e fraterno, tudo pode
seguir sendo como é, do jeito que o mundo se apresenta a mim.
Quando é melhor não falar nada, não
falo.
Com as muitas situações pelas quais
passei, desde pequeno, tenho aprendido a lidar com as pessoas. Sem as magoar,
sem as adular pelo pior que elas tenham a oferecer, procuro ser diplomático, educado,
sou o melhor que posso ser, agindo de acordo com as circunstâncias.
Fui criado num lar de gente austera mas
bem-humorada, é isso que me faz optar pela sobriedade dos justos. Mesmo que
transpareça que sou implacável, inflexível, inconvenientemente intransigente, opto
pela verdade de ser quem sou, porque eu sei quem deva ser.
Poderia ser um exibido, um chato sabichão,
mas prefiro observar e intervir quando a minha isenção é de fato necessária,
para que a coisa desande, a situação se complique, quando acabarei sendo visto
como pessoa omissa, cúmplice, um comparsa.
O tempo todo, a vida ensina que o melhor
a ser feito é ser o menos patético, o menos escalafobético, o menos
destrambelhado que posso ser, e queira ser. Portanto, eu quero e eu posso ser essa
pessoa gentil que, ao notar que serei inconveniente, recue e repense.
Sim, é preferível ser amável, ser uma
alma adorável.
Quando era garoto, me arrumaram um
cachorro.
É provável que os meus pais tenham
ouvido a opinião da babá, que, brincando com o bicho e correndo, pulando,
rolando no chão e fingindo de morto, isso seria bom pra mim.
O que a babá e meus pais não previram é
que me apegaria ao cão. Afeiçoado a ele, passei a tomá-lo um membro da família.
E gente igual a mim não poderia andar pelado, mostrando suas vergonhas, foi
então que passei a vesti-lo.
O meu irmãozinho tinha que ser apresentável,
tinha que deixar claro o quanto era importante, tinha que mostrar que era parte
da família.
À custa de muito choro e cabeçada na
parede, consegui demonstrar aos meus pais que era natural que meu irmãozinho
exibisse ao mundo a sua nobreza, a sua realeza, a sua verdadeira beleza.
Então, eu tinha orgulho de passear com
ele. Eu percebia que o meu irmãozinho deixava todo mundo com inveja dele e de
mim, porque era eu quem o conduzia.
E o mal venceu! Houve o dia em que foi atropelado.
Tento não chorar, mas ficou impossível
vê-lo novamente esplêndido como Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve...
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de maio de 2025.