terça-feira, 13 de maio de 2025

Choro sentido

 

Choro sentido

 

Eu tento, quero ser agradável o mais que eu posso. Sobre ser uma pessoa legal, que agrega, que não desperta o pior nos outros, isso para mim é algo que posso fazer, que consigo fazer, sem que me ache uma pessoa falsa, trapaceira, que procura camuflar-se de bonzinho, simpático, que é ardilosa a ponto de gerar desconfiança nos demais.

Eu acredito que sei mesmo como ser um sujeito bacana.

Ao longo da vida, venho aprendendo a ser um cara afável; acho que tenho sabido me virar com os perrengues, com as decepções, sem que tudo fique pior, porque, sendo bom e fraterno, tudo pode seguir sendo como é, do jeito que o mundo se apresenta a mim.

Quando é melhor não falar nada, não falo.

Com as muitas situações pelas quais passei, desde pequeno, tenho aprendido a lidar com as pessoas. Sem as magoar, sem as adular pelo pior que elas tenham a oferecer, procuro ser diplomático, educado, sou o melhor que posso ser, agindo de acordo com as circunstâncias.

Fui criado num lar de gente austera mas bem-humorada, é isso que me faz optar pela sobriedade dos justos. Mesmo que transpareça que sou implacável, inflexível, inconvenientemente intransigente, opto pela verdade de ser quem sou, porque eu sei quem deva ser.

Poderia ser um exibido, um chato sabichão, mas prefiro observar e intervir quando a minha isenção é de fato necessária, para que a coisa desande, a situação se complique, quando acabarei sendo visto como pessoa omissa, cúmplice, um comparsa.

O tempo todo, a vida ensina que o melhor a ser feito é ser o menos patético, o menos escalafobético, o menos destrambelhado que posso ser, e queira ser. Portanto, eu quero e eu posso ser essa pessoa gentil que, ao notar que serei inconveniente, recue e repense.

Sim, é preferível ser amável, ser uma alma adorável.

Quando era garoto, me arrumaram um cachorro.

É provável que os meus pais tenham ouvido a opinião da babá, que, brincando com o bicho e correndo, pulando, rolando no chão e fingindo de morto, isso seria bom pra mim.

O que a babá e meus pais não previram é que me apegaria ao cão. Afeiçoado a ele, passei a tomá-lo um membro da família. E gente igual a mim não poderia andar pelado, mostrando suas vergonhas, foi então que passei a vesti-lo.

O meu irmãozinho tinha que ser apresentável, tinha que deixar claro o quanto era importante, tinha que mostrar que era parte da família.

À custa de muito choro e cabeçada na parede, consegui demonstrar aos meus pais que era natural que meu irmãozinho exibisse ao mundo a sua nobreza, a sua realeza, a sua verdadeira beleza.

Então, eu tinha orgulho de passear com ele. Eu percebia que o meu irmãozinho deixava todo mundo com inveja dele e de mim, porque era eu quem o conduzia.

E o mal venceu! Houve o dia em que foi atropelado.

Tento não chorar, mas ficou impossível vê-lo novamente esplêndido como Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de maio de 2025.

domingo, 11 de maio de 2025

Rapidinhas

 

Rapidinhas

 

Uma coisa estranha acontece. Há adolescentes na biblioteca; estão em silêncio; todos usam fones de ouvido; cada um deles tem a cabeça arcada na direção da tela do telefone. Embora pareça improvável, tem esse aluno esquisito, que está quieto e concentrado como os demais, mas, sentado numa cadeira, apoiando os cotovelos na bancada, sem sequer mascar um chicletinho, ele está lendo. Isso é bem esquisito, ter esse aluno que ficará lendo até que o sinal toque e a classe se revolte que a aula tenha terminado, mas, pessoal, toda aula boa tem sempre que ser interrompida.

 

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― Tem dez segundos, irmão?

― Obrigado por ter-me escolhido, mas não vou comprar nenhuma revista gratuita, mesmo que você insista que ela é gratuita.

― Paspalho!

 

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Naquela época, durante o papado de Paulo VI, a vida tinha perigos. Para chegar na escola, era preciso andar quinze minutos, era preciso subir um lado do morro e descer o outro, era preciso ir adiante mesmo que os cães latissem, se aproximassem e arreganhassem os dentes. E o maior combate era ignorar o homem do carrinho ao lado do portão, pois ele oferecia pipoca, algodão doce e figurinhas da copa, de todas elas, até daquelas copas, ó tentação!, que o Brasil perdera.

 

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Quando a gente reza para que nada aconteça, nada acontece.

 

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― Onde é que fica o Peru?

― Fica looonge, professooora, beeem looonge!

― Não, meus anjos. Ele fica na nossa amada América Latina.

― Não, ‘fessora. Lá em casa, o peru fica na geladeira.

 

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Para júbilo mundial, a fumaça branca do Vaticano anuncia que está eleita a pessoa a ficar obrigatoriamente ausente do próximo conclave.

 

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Naquela época, durante o papado de Paulo VI, a minha casa tinha mistérios. Eu bebia um copo de leite, comia bolachas, ficava vendo TV e, num átimo, era hora de beber o copo de leite quente, comer bolachas e, com chuva ou sem chuva, pôr o uniforme da escola.

 

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Há aves no telhado. Pela foto, o buscador identifica, são gaivotas. “Melhor seria que batesse asa”, diz o poema. “Talvez o erro fosse meu também”, prossegue o poema. “Afinal não há lá muita razão em querer silenciar qualquer canção”, diz o poema de Robert Frost, cuja tradução, de Gabriel Campos Medeiros, pode ser encontrada na internet.

 

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Naquela época, durante o papado de Paulo VI, o Peru ficava longe, tão longe, que nunca soube que existia. Nunca houvera escutado que peruanos eram os bravos que civilizaram Machu Picchu. Nunca fiquei sabendo que era para ter cuidado com esses índios, pois nem sempre o National Kid estava disponível pra proteger dos malvados, daqueles seres abissais que a tevê dizia que viviam nos subterrâneos, uma vez que eles, esses Incas Venusianos, eles é que eram os perigosíssimos guardiães da Imperatriz Aura, eram os reais, verdadeiros e espantosos inimigos da minha meninice.

 

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Por falar em pombas, meu coração cordato não me quer afoito, uma vez que, posso admitir, essa alma me sabe ser colérica.

Não quero precipitar-me, atirar-me no abismo que o meu ser interior abre quando sinto a iniquidade de quem quer avivar esse fogo obscuro que se alastrará indomável assim que me precipite.

Sabendo que as aves quase encostadas na chaminé do telhado da Capela Sistina são gaivotas, mesmo que circule nas redes esse poema que prega o escândalo, fico sem motivo para esculhambar esse poema radicalmente afrontoso a quem tem a fé católica.

Certo da minha paz, não viralizarei a blasfêmia, não compartilharei os versos que comparam o Espírito Santo a uma pomba, que O dizem ser “uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo”, porque Ele “coça-se com o bico e empoleira-se nas cadeiras e suja-as”, o cabotino do poema diz que “tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica”.

Seguro da minha paz, tenho fé no que sossega e faz-me perguntar: haverá quem tenha ouvido falar em Alberto Caeiro?

 

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― Mãe, são pombas no telhado?

― Filhotinho da mamãe, que pombinhas mais diferentes...

― Mãe, posso dar uma estilingada nelas?

― Elas têm esse gosto do calorzinho da chaminé...

― Mãe, eu pego as mamonas?

― Pombas normais não vivem em telhado...

― Quede ele, mãe? Me devolve o estilingue, mãe.

― E as nossas pombas, filhote, moram em árvore, fazem ninho nas árvores da praça, mas essas daí, concorda que elas ficam engraçadas, assim, tão recatadas na televisão?

 

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Naquela época, durante o papado de Leão XIV, o otimismo me faz contar com a previdência que, ainda que demore até amanhã, o justo cobrará a restituição do que se há subtraído, pois, convocados e, sob juramento, ouvidos, hão de vir os entes consignados como Mãe Dináh, Walter Mercado e Jorgina Maria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2025.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Chuleta bem temperada

 

Chuleta bem temperada

 

Com a luminosidade do meio-dia atrapalhando que eu visse TV, era pra puxar a cortina, mas o que mais prejudicava encarar-me era pensar na festa que eu dei ontem, fechei o vidro.

Normalmente, considero imperativo e inegociável tirar o domingo só para passear com os cachorros, escutar música, sentar na varanda se vem gente falar de alegrias alcançadas e alegrias por alcançar.

Considerado, domingo é dia pra humanidade ficar cindida entre as pessoas que, sem deixar descarregado o celular, se alegram do estado da arte e gente que, ainda que nem se perceba alegre, reclama de ter os braços exauridos pelo tanto a que se entrega.

Gente da minha laia, considerado, não esquenta que o céu desabe na cabeça, pois havendo um galo, gelo nele.

Só alegrinho confesso gostar de assistir quem se lamenta; às vezes me esforço para não rir, às vezes vem o riso descontrair.

Considerado, me julgue como bem você me compreenda, pois isso a mim não me convencerá a mudar de opinião, que é divertido assistir à humanidade que luta para salvar-se, curar-se, remediar-se.

São fascinantes os garranchos que balconistas não têm dificuldade alguma em materializar em ansiolítico, sonífero ou antidepressivo?

Uma festa tem momentos que a minha mente precisa e não precisa experimentar, mas uma festança me faz extrapolar.

Antes da festa, horas antes do início da festa, veio uma amiga que nem previa que viesse, pois mal me lembrava que a conhecia.

E ela chegou preparada: trouxe vinho e uma boca disposta a beber comigo o quanto eu quisesse.

Já que chegou cedo, ela viu que eu ainda nem tinha arrumado nada. Ela entendeu que sua visita deu-se em momento oportuno, porque me ajudaria a manter tudo desarrumado.

Não deixamos o tapete da sala nas condições anteriores à segunda taça de vinho. Não fechamos a cortina da sala como seria apropriado que o fizéssemos. Não paramos de não fazer nada que uma visita não tinha que fazer, porque eu não previra, afinal, aquela visita.

Rapidinho eu entendi o propósito do conhecimento que passaria a ter quando o domingo deixasse de ser domingo.

Era domingo. Era o melhor dia da semana pra se deixar ser ajudado por uma pessoa disposta a beber vinho, pôr fogo na churrasqueira, pôr a carne na grelha, virar a carne para não ser queimada, cantar, dançar, rir de piada engraçada e rir de quem não sabe ser engraçado.

Domingo foi mesmo ontem, e isso não tenho como negar; é melhor que eu reconheça que a festa acabou, até porque o copo transbordar com a torneirinha do filtro ainda aberta é evidência de que água é boa para fazer a gente concordar que ontem foi bom, foi divertido, foi aquilo que eu nem contava.

Rapidinho, portanto, digo que hoje é segunda, digo que o sol brilha porque hoje o papo pode ser outro, até porque a visita segue disposta a prosseguir visitante, na sua mais que bem-vinda visitação.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de maio de 2025.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Um boa-pinta

 

Um boa-pinta

 

Sabe aquele momento, você percebe que tem gente olhando. Tem esse sujeito que não tira o olho, provocando pressão. Você não duvida, a pessoa tem a cristalina percepção de aumentar seu incômodo. Tanto você se compreende sob vigilância que sorrir é a sua defesa. Não que seja sua melhor defesa, é a arma automática a lhe defender mais uma vez, até o momento passar logo.

Tudo passa, pois, já dizia o bebum, a vida é feita de momentos, com um sobrepondo-se a outro, até a morte libertar você do fluxo.

Veja bem, a libertação será sua, pois eu, já me antecipo, continuarei aqui. Entenda esta lógica: enquanto houver quem me leia, continuarei disponível a quem leia. Pelas leituras que levam a leituras, por leituras afora, permanecerei, pois é lendo que me fazem ficar feito texto.

É bobagem, eu sei, mas arrisque, saiba.

Ao final do que tenho a dizer, preocupe-se com você. Por causa de uma leitura, isso leve você a recompensar-se; comigo, projeto ser esse cara que repensa, sendo preconceituoso.

Pois veja só, acompanhe pelo que lhe ofereço, que logo há pouco eu descia a rua e passei pelo funcionário da zona azul. Cumprimentei-o e o que me saiu foi um “bom trabalho pra vocês”.

Você percebeu, se o funcionário era um e eu disse “pra vocês”, esse rapaz trabalhando deixou de ser um indivíduo porque o plural sinaliza que o enquadro como representante da firma que opera a cobrança de vagas de estacionamento das vias públicas.

Você não se engana, eu vi o rapaz da zona azul como ‘um’ agente operacional de uma ‘corporação’, ou seja, você entende que eu sinto o rapaz como corporação, uma vez que ele fica enquadrado no lema: um por todos e todos por um.

Talvez você pense de mim, que cara mais idiota.

Este idiota pensa, esse rapaz é este indivíduo que veste a camisa, trabalha com afinco, faz o que faz para que o supervisor veja o quanto se dedica, pois, efetivamente, é preciso servir à empresa como se sua vida estivesse condicionada à permanência do seu nome na folha de pagamento por mais um mês; sim, ainda que o mês demore a passar, ele rala pra que seu nome continue na folha de pagamento pelo tempo que o seu supervisor permita, comunicando à gerência que é o tipo de colaborador que não esmorece, e segue sendo capaz de relevar quem lhe diz “bom trabalho pra vocês”.

E você me acha mais que idiota, releva-me como estúpido.

Como minha estupidez é de gente que tem o olhar vidrado, eu não enrolo, pois eu não sei fingir que não vejo monstros em vez de pessoas comuns. Vejo monstros a atenderem aqui e ali, o tempo todo eu interajo com eles. São monstros que costumam sorrir, sabem ser informais, me tratam com o respeito que julgam ser bom para mim.

E você considera, que maluco à solta.

Este maluco funciona, acho que na sedução desejar um beijo é ser um sujeito legal, é beijar o reflexo como faz uma pessoa comum, uma que sorria e dê tchauzinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de maio de 2025.

domingo, 4 de maio de 2025

A menina da sanfona

 

A menina da sanfona

 

Eu via Desaparecimento na Noruega achando que fosse a primeira vez, mas a cena em que a repórter, dentro do carro parado na travessa, observa o vaivém dos funcionários da oficina mecânica bastou para eu constatar que, além de ter visto a minissérie, a viela era parecida com um beco sem saída da Ilha Caraguatá.

No começo dos anos 2000, trabalhei em Cubatão. Morei no Jardim Casqueiro; e, com vista para a Beira-Mar, o apartamento ficava em um predinho de três andares.

Saía às cinco e não saía para tomar banho e jantar, saía bater bola, ao lado da quadra de areia, no campinho cujos gols eram demarcados por chinelos.

Sendo uma sexta não chuvosa, vindo lá da Ponte Nova, indo lá pra Ilha Caraguatá, passava um senhor com uma sanfona.

Passava tocando; parando só quando lhe era oferecido um gole de cerveja. Tomado o gole, seguia cantando, tocando, como se a sanfona não lhe alterasse o centro da gravidade.

Aquela travessia deixou-me curioso: o sanfoneiro das sextas tocava para viver ou seria pela farra?

Vê-lo, ouvi-lo, acompanhá-lo de latinha na mão, mas, serei honesto, nunca fui puxado da cadeira, jamais me deu a comichão de dançar ao som daquele pé de serra.

Não dançava, mas tremelicava. Embora outros desconfiassem que tomava choquinhos ou fosse possuído por entidade fanfarrona, sempre desacreditei que meu sacolejo motivasse risinhos, porque havia graça no meu remelexo emocionado.

Sendo camarada incapaz de gracinhas na internet para ganhar uma bolada, mostrando-me um vídeo, cuspiu: que diabo dessa menina usar os oito baixos pra insultar o Gonzagão com a Quinta do Beethoven!

Será que a memória não me trazia um momento que nunca existiu?

Com a exibição parada, busquei e não achei o tal vídeo da menina que, no Beethoven, mandava brasa.

A imagem congelada era um close da investigadora principal, era o rosto da atriz norueguesa Yngvild Støen Grotmol.

Olhei com atenção. O que fazia esplêndida essa face?

Sem demora, achei um retrato em branco e preto, clicado por Erika Hebbert. Observei-o. O que me levava a achá-lo um adorável exemplo da beleza? Com atenção, observei-o: Yngvild tem olhos amendoados; a parte superior da cabeça é oblonga e a inferior é triangular. Observei uma mancha escura sobre uma das maçãs daquela face, era uma área propositadamente assombreada.

No súbito da intuição, mente brincalhona assombra.

Escapou-me um riso, uma vez que, numa camisetinha chumbrega, vi o clássico homenzinho verde fazendo paz e amor com os dedos.

Escapou outra risadinha; ocorreu-me recorrer à inteligência artificial para compor a menina da sanfona com o rosto do homenzinho verde, mas o vídeo resultante trouxe uma anã tocando uma sanfona de cujos foles não saía som algum, nem mesmo aquela Quinta chiclete.

Cão danado!

Negarei três vezes ter visto o sorriso da anã a me espiar da tevê.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2025.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

A velha e o bar

 

A velha e o bar

 

A velha está no bar. Se estivesse em casa, fazendo tricô, seria outra história; até sem graça, seria outra daquelas histórias da qual a gente sai com uma lição.

Com a velha num bar, não se presuma que advirá um aprendizado. À revelia do narrador, caso venha à luz um final edificante, ele virá por descuido, como se tapetes precisassem ser puxados.

Para o impacto não causar trauma, e funcionar mais como pasmo, ainda que nem provoque o estupor do queixo caído, a velha não pode estar fora do balcão.

Atrás do balcão, sim, pois ela não é mais uma pinguça, dessas que tagarelam, achando-se perfeitamente compreendidas, embora falem a língua dos embriagados.

Como não bebe, ela não fala quando não precisa. Ainda que outros peçam que intervenha, ela só se manifesta quando acha indispensável que a sua autoridade ganhe corpo.

Precisando falar, ela fala grosso. Sem tibiezas frente aos beberrões que aporrinham de quando em quando, ela é quem manda na birosca. Por haver-se firme nas suas decisões, os marmanjos barbados sabem que é inegociável a decisão de manter-se sóbria.

Poderíamos designá-la hipócrita, e cometeríamos injustiça, pois ela não é velhaca a ponto de ir beber uma cachacinha em outro bar. Se a criticássemos por pagar as contas vendendo bebida alcoólica, também praticaríamos velhacaria.

Ela sabe quantas ressacas lhe foram necessárias para nunca mais botar uma gota na boca. Ela é quem sabe a dor de sentir a falta quando dos tremores incontroláveis. Quem se viu obrigada a aprender a jamais saborear uma gotinha foi ela, portanto cabe a ela, e tão somente a ela, não esquecer as náuseas vividas.

Demônio espertinho não agrada só com um copo, oferece a garrafa. Com dois dedos de caninha, pede que seja brindado o momento. Pela esperança de um dia menos estafante, brinde-se. Pelo instante em que a confiança sobrepuja a soberba, não são as doses que secam o litro, é a lubricidade.

A velha do bar entende os impulsivos. Por sua língua ter explorado as bocas que quis, ela se reconhece contida. Se confidenciam paixões, cobra apenas pelas doses servidas. Quando teimam em pagar-lhe um trago, ela compartilha uma história.

Na parede atrás do balcão há uma prateleira, nela estão as imagens de Nossa Senhora Aparecida e São Jorge e entre elas fica uma garrafa de Velho Barreiro.

Por manter esta garrafa à vista de todos, a velha não deixa os copos emporcalharem a pia. Sem ver a garrafa, acha engraçado quando um fiado lhe é pedido, uma vez que só o papo é fiado.

Cadê a história?

Como o marido esqueceu, ela tratou de ir comemorar o aniversário no bar mais perto da sua casa.

Por não ter dado um dedo da bebida que pagou com o dinheiro que era seu, dois chumbados trocaram sopapos e um morreu apunhalado.

Sem olhar pra trás, ela adormeceu abraçada à garrafa; justo aquela, que sempre a faz recordar-se daquele causo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de maio de 2025.

terça-feira, 29 de abril de 2025

A última palavra

 

A última palavra

 

Sou parado por um senhor.

Quiçá o sujeito queira comentar a conquista do Liverpool; quiçá eu diga que tive uma boa noite de sono.

A paradinha é por cautela, pois um homem e uma mulher discutem sobre quem é mais estúpido: o homem que não quer ceder ou a mulher que exige passar à frente por não ter um carrinho cheio, posto que veio comprar só uma água sanitária.

O senhor que ainda nem disse uma palavra e eu que nem comecei a papear somos dois felizardos, pois não carregamos cestinhas cheias nem trajamos a camisa verde-amarela da seleção.

Como felizes têm olhos leves, os nossos olhares sorriem: como eles são patriotas, estes canarinhos raivosos que se biquem.

Sendo assim leve, feliz e sorridente, a minha mente se deixa poluir pela polarização, pois, com a merda sendo feita, em vez do ventilador, eletrizou-me um pensamento inquietantemente conservador: o embate entre ela e ele ganhará tons mais virulentos se um dos fraticidas estiver envergando a suposta nova camisa vermelha do escrete nacional.

Como mansos de coração com horror a energúmenos, dispostos a um papinho ameno, tomamos distância do pandemônio.

Embora o diabinho em mim deseje brincar, não aposto que o senhor ouse ridicularizar a fiel torcida, porque vestir a camisa do Timão depois de ter sido surrado de quatro pelo Mengão é para corintiano acima de uma reles suspeita.

Sem mais, o camarada argumenta:

― Ficou sabendo que o Ancelotti vai sair do Real? Ele vindo, quero ver se vai dar conta do estrelismo do elenco. Vai precisar ter peito para não virar um cordeirinho. Esses caras pensam que são os melhores do mundo, mas faz vinte e três anos que não levantamos a Copa.

― Já fez o cálculo? Outro dia eu vi o óbvio: antes de vencermos na Suécia, foram quatro copas; depois do tri no México, foram cinco taças; desde o penta no Japão, são seis copas sem levantar o caneco; então, é lógico: seremos hexa em 2026.

O senhor não parece irritado. Mesmo que pareça estar ouvindo, ele não demonstra interesse. Tão logo me calo, vêm mais argumentos:

― Não é boa ideia contratar um técnico estrangeiro, porque ele virá pelo prestígio de treinar os pentacampeões. Quem tem que comandar o nosso esquadrão é quem jogou na Espanha, jogou em time grande e foi campeão. O melhor técnico pra melhor seleção do mundo é quem fala português, sabe das nossas manhas e dará jeito na rapaziada.

Só consigo balançar a cabeça, ora aprovando, ora duvidando, mas o entusiasmado nem percebe a diferença.

― Se o Coringão tomou um vareio, então, quem tem que comandar o país é o Filipe Luís, pois ele é gente nossa e tem gabarito para marcar um golaço histórico.

Cúmplice da sua inocência, também não digo que o tolo acredita no que pensa seja o otário levado a acreditar no que dizem que pensa, eu até lacrimejo:

― Hexa! Seremos Hexa! Engula essa! Engula essa, Trump! Vamos ser Hexa! Hexa!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de abril de 2025.

domingo, 27 de abril de 2025

Falando grosso

 

Falando grosso

 

Amiga, beijinhos.

Espero que você esteja bem. Caso não esteja, espero não agravar o seu estado. Espero que minhas palavras sejam um convite para que saia da cama, que elas funcionem do melhor modo possível, a façam abrir a janela, gostar do sol do outono. Espero que as minhas palavras cheguem a você como uma fruta boa de ser comida, que você a morda com vontade, não a morda com força, morda-a com fé, porque aprecia o que há de ser aprazível. Que minhas palavras sirvam para você como um analgésico potente, que lhe alivie a dor que é esforçar-se para sair da cama. Que elas não sejam nuvens, pois, mesmo que o sol seja de outono, espero que seja bom levantar-se, que consiga encarar a hora, que enfrente o seu corpo ao meio-dia. Porque agora pode mesmo ser meio-dia, quero as palavras certas como o sol do meio-dia.

Agora que deixou a cama, abriu a janela e sentiu a brisa no rosto, vá lavar-se, vá escovar os dentes, tire o bafo, livre-se do sarro de cada um dos cigarros que lhe tragaram outras vontades.

Sinta a lufada do refrigério; perceba a renovação do ar de sua casa; mantenha-se aberta como janela aberta; seja a janela que precisa ser pra que o ar permaneça renovando-se, refrigerando-a de suas neuras, dos seus pecadilhos, de seus deslizes que não são maiores que o seu desejo de ter um dia bom, um dia que a faça sentir-se com vontade de vivê-lo sem a necessidade de guardá-lo, preservá-lo de algum jeito, por meio de fotos, através de mensagens, debaixo de palavras que postará como se hoje devesse agir como gelo na canela escoriada.

Também sei me repreender por minhas distrações, mas ansiolíticos também anestesiam, também me deixam pronto pra encarar o dia, pra encarar-me enquanto o sol me testa, prova e desafia.

Apesar de desafiado, desafio-me a seguir desejoso do sol.

Amiga, acredito em você.

Sei que as minhas palavras podem fazê-la tirar os olhos do que está lendo. Olhe, enxergue-se no que lhe possa confortar. Conforte-se que haja algo que a alegre, que lhe agrade, pois há muita coisa que lhe dá prazer, faz você se sentir bem pelo prazer que percebe ao querer mais, e mais. Não negue a satisfação de enxergar-se em tudo o que faz, faça e toque em frente, esqueça tudo o que há pouco a sufocava.

Não quero que minhas palavras a sufoquem. Caso elas lhe sejam asfixiantes, supere-as.

Falo sério, é para sair pela vida.

Ontem, por exemplo, peguei a estrada. Um caminhão puxava a fila, segurava os carros. Percebi que o caminhão puxando a fila é o mesmo caminhão da semana passada.

Amiga, a pessoa que não se entristece com o mundo sabe ver sem véus, por isso me esforcei, tanto me esforcei que entendi. O caminhão da semana passada é o mesmo caminhão de ontem, pois o caminhão desafia, faz a gente entender que a vida é um jogo. Por isso escolho o jogo da razão, pois a razão diz que viver é não sair da fila.

Beijinhos, amiga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de abril de 2025.