Uma coisa estranha acontece. Há
adolescentes na biblioteca; estão em silêncio; todos usam fones de ouvido; cada
um deles tem a cabeça arcada na direção da tela do telefone. Embora pareça improvável,
tem esse aluno esquisito, que está quieto e concentrado como os demais, mas,
sentado numa cadeira, apoiando os cotovelos na bancada, sem sequer mascar um
chicletinho, ele está lendo. Isso é bem esquisito, ter esse aluno que ficará
lendo até que o sinal toque e a classe se revolte que a aula tenha terminado,
mas, pessoal, toda aula boa tem sempre que ser interrompida.
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― Tem dez segundos, irmão?
― Obrigado por ter-me escolhido, mas não
vou comprar nenhuma revista gratuita, mesmo que você insista que ela é gratuita.
― Paspalho!
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Naquela época, durante o papado de Paulo
VI, a vida tinha perigos. Para chegar na escola, era preciso andar quinze
minutos, era preciso subir um lado do morro e descer o outro, era preciso ir adiante
mesmo que os cães latissem, se aproximassem e arreganhassem os dentes. E o
maior combate era ignorar o homem do carrinho ao lado do portão, pois ele
oferecia pipoca, algodão doce e figurinhas da copa, de todas elas, até daquelas
copas, ó tentação!, que o Brasil perdera.
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Quando a gente reza para que nada
aconteça, nada acontece.
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― Onde é que fica o Peru?
― Fica looonge, professooora, beeem
looonge!
― Não, meus anjos. Ele fica na nossa
amada América Latina.
― Não, ‘fessora. Lá em casa, o peru fica
na geladeira.
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Para júbilo mundial, a fumaça branca do
Vaticano anuncia que está eleita a pessoa a ficar obrigatoriamente ausente do
próximo conclave.
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Naquela época, durante o papado de Paulo
VI, a minha casa tinha mistérios. Eu bebia um copo de leite, comia bolachas,
ficava vendo TV e, num átimo, era hora de beber o copo de leite quente, comer
bolachas e, com chuva ou sem chuva, pôr o uniforme da escola.
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Há aves no telhado. Pela foto, o
buscador identifica, são gaivotas. “Melhor seria que batesse asa”, diz o poema.
“Talvez o erro fosse meu também”, prossegue o poema. “Afinal não há lá muita
razão em querer silenciar qualquer canção”, diz o poema de Robert Frost, cuja
tradução, de Gabriel Campos Medeiros, pode ser encontrada na internet.
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Naquela época, durante o papado de Paulo
VI, o Peru ficava longe, tão longe, que nunca soube que existia. Nunca houvera
escutado que peruanos eram os bravos que civilizaram Machu Picchu. Nunca fiquei
sabendo que era para ter cuidado com esses índios, pois nem sempre o National
Kid estava disponível pra proteger dos malvados, daqueles seres abissais que a
tevê dizia que viviam nos subterrâneos, uma vez que eles, esses Incas
Venusianos, eles é que eram os perigosíssimos guardiães da Imperatriz Aura,
eram os reais, verdadeiros e espantosos inimigos da minha meninice.
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Por falar em pombas, meu coração cordato
não me quer afoito, uma vez que, posso admitir, essa alma me sabe ser colérica.
Não quero precipitar-me, atirar-me no
abismo que o meu ser interior abre quando sinto a iniquidade de quem quer
avivar esse fogo obscuro que se alastrará indomável assim que me precipite.
Sabendo que as aves quase encostadas na
chaminé do telhado da Capela Sistina são gaivotas, mesmo que circule nas redes
esse poema que prega o escândalo, fico sem motivo para esculhambar esse poema
radicalmente afrontoso a quem tem a fé católica.
Certo da minha paz, não viralizarei a
blasfêmia, não compartilharei os versos que comparam o Espírito Santo a uma
pomba, que O dizem ser “uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo”, porque
Ele “coça-se com o bico e empoleira-se nas cadeiras e suja-as”, o cabotino do
poema diz que “tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica”.
Seguro da minha paz, tenho fé no que
sossega e faz-me perguntar: haverá quem tenha ouvido falar em Alberto Caeiro?
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― Mãe, são pombas no telhado?
― Filhotinho da mamãe, que pombinhas mais
diferentes...
― Mãe, posso dar uma estilingada nelas?
― Elas têm esse gosto do calorzinho da
chaminé...
― Mãe, eu pego as mamonas?
― Pombas normais não vivem em telhado...
― Quede ele, mãe? Me devolve o
estilingue, mãe.
― E as nossas pombas, filhote, moram em
árvore, fazem ninho nas árvores da praça, mas essas daí, concorda que elas
ficam engraçadas, assim, tão recatadas na televisão?
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Naquela época, durante o papado de Leão
XIV, o otimismo me faz contar com a previdência que, ainda que demore até
amanhã, o justo cobrará a restituição do que se há subtraído, pois, convocados
e, sob juramento, ouvidos, hão de vir os entes consignados como Mãe Dináh,
Walter Mercado e Jorgina Maria.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de maio de 2025.