Com sua permissão, quero compartilhar o
que estou sentindo. Noto que a alegria me consola nos momentos em que o cansaço
começa a prevalecer. Posso estar cansado, mas não nego que sossegar da luta é
um passo atrás. Este recuo é estratégico, pois dou-me o tempo que preciso para
perceber o bem-estar. Quando sinto o cansaço, não quero exagerar a intensidade,
uma vez que a alegria mobiliza-me a destacar-lhe o valor, pelos benefícios e
pelas possíveis benesses, sossegando-me a um passo da exaustão, a um passo de
entregar-me à inércia.
Cansado, preciso de um refresco.
Pela estafa, o sentimento que agora eu vivo
é de calmaria; mesmo que não tenha a paz que eu ainda almejo, acalmo-me.
Embora perceba horrível a pacificação
que não mascara as forças contraditórias que me fazem vivo, experimento a vida a
puxar-me para lá e para cá ― passível de horrorizar-me comigo, estou vivo.
A ansiedade me movimenta, não me deixa
criar limo, não me deixa mofar à sombra de mim, pois também tenho esta
modéstia, que é ouvir as pessoas dizerem o quanto as afeto.
Dou valor ao que os outros dizem. Tento
aprender com suas falas. Quero descobrir como ser benfazejo. Procuro ficar
tranquilo. Sei que a alegria pode ajudar quem precisa de mim para alegrar-se.
Bebo uma cerveja. Bebo outra. Bebo mais,
mais, mais.
Ainda que a cerveja esteja suplicando
pra vir à tona, atrás da banca pode até ser lugar mais à mão pra mijar, mas
atrás da árvore funciona que é uma maravilha, bem longe dos críticos abelhudos.
Aceito a crítica, ureia demais é veneno
em vez de nutriente. Então, saúdo os foliões que me levam a regar as outras
árvores.
Para que meu brinde alcance quem nem precisa
continuar bebendo por estar feliz da vida, sinta-se saudado.
Daqui eu o saúdo, folião, pois simpatizo
com a sua animação.
Quem não conhece fraqueza nem cansaço,
sabe que Carnaval é o tempo mais normal do mundo pra cantar desafinado, dançar
abraçado e beijar à beça.
Não se desculpe, os perrengues que
fiquem pra depois.
Sim, poste de cachorro é imóvel, juros
aumentam todo dia, lasanha nunca é servida antes das duas e todas as tardes, sejam
soalheiras ou chuvosas, elas conhecem o fim no crepúsculo.
Conheço gente que associa o anoitecer
com a escuridão, pensando que a alma sente o baque, abala-se, passa a temer
criaturas que vivem atrás de portas, cortinas e fotografias.
Há quem fotografe a lua, querendo a cabeça
arejada, enriquecida quando monstros ameaçam e geram um clima em que angústias
têm garras, desesperanças produzem náusea e olhos não titubeiam.
Para o seu prazer, ardiloso, saiba ser
vigilante e observe-se.
É lisonjeiro ser amigo de gente que
bebe, baba, sua e não para de beber, babar e suar, até porque, em casa depois
de mais outra jornada no bloquinho, é hora de encarar um belo banho.
Humildemente, saúdo bêbados, beijoqueiros
e a falta d’água.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de março de 2025.