quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Bela viola

 

Bela viola

 

Terei ouvido pollo? O garotinho no carrinho, em pé entre bananas e maçãs, terá mesmo dito ‘polho’? Apontando para a verdura, ele disse novamente à mãe: eu quero comer piolho.

O seu pedido não era por pollo nem por polho nem por piolho, era, sim, pelo manjadíssimo repolho.

Um pequerrucho pedindo para comer verdura é novidade para mim, pois ainda hoje, já sendo eu um marmanjo de cavanhaque grisalho, as goiabinhas seguem em alta na minha dieta.

E lá vou eu. Às gôndolas, lá vou eu pegar fritas, amendoim e a dita cuja, a goiabinha da marca que eu como.

Ressalve-se: é preciso tomar o cuidado para não fazer propaganda gratuita; algo que sempre faço, mesmo com a bolacha de maisena cuja marca não mencionarei, ainda que esteja sempre fresquinha.

Fresca na mente é a finalidade maior deste dia: não adiar a reforma da casa da árvore.

Baixei as tábuas, medi-as, comprei-as já aparelhadas e coloquei-as no lugar ― trabalho ao qual me dediquei, pela manhã e à tarde.

Findo o serviço, sentei na área externa da casa: balancei as pernas; não vi a Liga dos Campeões; à vontade, bebi água.

No cubículo coberto, além do sofazinho da sesta e do micro-ondas para pizzas, o galão de água mineral vazio é trocado pelo cheio.

Então, dá-se o incrível.

Entre minha residência e a jabuticabeira onde me encontro, desce aquele troço.

Bato a foto e o Google identifica: este objeto voador é uma aeronave vertical elétrica.

Da engenhoca, sai um escritor cujo nome não citarei, para não levar um processo por chamar a personagem de Ricardo Lísias.

Em seguida, sai aquela personagem que o Ricardo Lísias atreveu-se a chamar de Eduardo Cunha, mesmo não sendo aquele político que está solto por decisão judicial.

Atrás da personagem que não é o Eduardo Cunha solto por decisão judicial sai da máquina futurista uma personagem togada, cujo nome é homônimo daquele juiz togado, precavendo-se de não citar seu nome, para não haver confusão com o verdadeiro Alexandre de Moraes.

Atrás da personagem que não é o verdadeiro Alexandre de Moraes sai do aparelho elétrico mais pesado que o ar a personagem cujo nome é Policarpo Quaresma, conforme decisão autoral de Lima Barreto.

Atrás do Policarpo Quaresma batizado por Lima Barreto aparece o suposto Lima Barreto, que não para de borrifar com uma bomba de flit, gritando sem parar:

Saúva! Saúva! Saúva! Saúva!

O que mais poderia desafinar este nosso allegretto?

Se a minha imaginação tivesse a coragem de enfrentar o meu tédio, se eu fosse menos plagiador, eu mudaria a pantomima felliniana, pois é patética a situação: as personagens que saíram, todas contornam o veículo aéreo e, não saindo nenhuma nova personagem, todas entram outra vez naquele objeto voador e, por onde veio, o troço regressa ao espaço, sumindo na brasileiríssima noite escura.

Cidadão que me lê, que finalzinho bem tosquinho, né?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2025.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Filtro de barro

 

Filtro de barro

 

Uma pessoa parada, sensato seria observá-la.

Pergunto-me o porquê das especulações. Inflo o balão, vejo-o mais inflamável que meus pensamentos. Como execro contaminações por óxido nitroso ou gás sulfídrico, fio que o nó cego lacre o meu bico.

A pessoa parada, ou está irritada com gente que a obriga a esperá-la ou está centrada, a encadear ideias.

É preferível que a calma ajude a ficar parada até que a outra pessoa chegue, apresente suas desculpas ou não se contenha, rindo de você que errou, tendo chegado uma hora antes.

Afoito, você veio uma hora mais cedo porque não perguntou qual o horário. Irritante, não cede que alguém possa comentar a sua conduta. Altivo, menospreza quem pontifica que a serenidade colabora que suas reflexões não exorbitem.

É vero, gente tranquila descomplica-se.

Ela não liga que esteja a observá-la, pois estou com o polegar sob o queixo e o indicador sobre a boca, é evidente minha versão, em carne e dissimulação, da obra O Pensador.

Você que está vindo, talvez você nem imagine que sou o fulano que provoca um risinho interior na pessoa parada, afinal ela entende que o mundo anda assaz complicado, a sugerir-me que eu seja um camarada mais sardônico, que eu compreenda que ela não precisa olhar pra mim para que eu seja percebido.

Você e a pessoa parada talvez comunguem do princípio: não faça o que possa dar pano pra manga, ou o balão inflado, para não explodir, cantará que a vida é boa, que o riso não vai virar choro, que o ar fétido é flato que passa desde que se abram janelas e portas, ou ligue-se o ventilador.

De fato, nem todo nojo faz vomitar.

Para que as ações não a prejudiquem ou façam-na ser vista como gente desequilibrada, ou haja bate-boca que poderia ter sido evitado, o jeito é desligar o ventilador quando houver dentes batendo.

Nem todo desequilibrado tem simpatia por pinguim de geladeira, ou seja, gente biruta conta que o vento que a deixa mais lelé é temido por pilotos, meteorologistas e adestradores de pégasos.

Como não desejo ser cuspido para longe, enviado a manicômio de renome na praça, permaneço imóvel, persevero naquela pose que faria Rodin rodar a baiana, chamando-me de reles imitador.

O que não consigo evitar é saliva acre.

Não lembro direito, se ontem ou hoje cedo, mas eu peguei a caneca e virei uma, virei duas, só que a terceira vez não houve, pois a caneca que peguei do escorregador tinha restos na borda.

Certamente a pessoa parada faria o mesmo que eu fiz: despejei na pia a água que virei uma, virei duas, que virei no filtro usando a caneca que nem deveria estar no escorredor, uma caneca que mal lavei.

Em respeito ao patrimônio emocional que me liga à pessoa parada, peço que continue vindo. Mesmo que tenham ligado às autoridades por causa de mim, que não posso ver uma pessoa parada que viro logo a arremedá-la, sorria quando houver de sorrir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2025.

domingo, 19 de janeiro de 2025

Guerra não declarada

 

Guerra não declarada

 

Sentado para escrever, não tem como dominar o fluxo. A mordiscar o lápis, passa de um quarto de hora que seu pensamento são palavras sobre palavras. E a frase de Atanásio Baptista que não o sossega diz: perdedores contam histórias surdas à História.

A sordidez desse jogo é óbvia: desafiá-lo a derrotar-se; pô-lo contra a inércia de seguir nessa balada de ser farol queimado pela madrugada afora; como quem vive embriagado pelo mundo, naufragar.

Madrugada, tenha dó.

Quer a lucidez de sentir-se ao timão, mas redemoinhos o enovelam em pensamento. Sem a finalidade pela qual trabalha, vai afundar longe das bordas; em meio à névoa que esconde o cais, mesmo de estômago vazio, regurgita, arrota, dá voz ao vazio.

No entanto, madrugada, vem aí mais uma alvorada.

Já se anuncia o dia, que a aurora se deleita a espraiá-lo; por sobre montes, vales e parabólicas, o dia dá outra luz à noite.

A que podia ter sido outra ― se menos silenciosa, menos asfixiante ―, tal noite não vingou. Houve excessivo silêncio, e ideias desconexas abalroavam a nau. Sopesando as forças, tendo em síntese que a nave redundará em naufrágio, há motim.

Sem vontade de balançar-se na cadeira, passa pela varanda, vai lá fora um instante, senta-se no meio-fio.

Ele percebe, algo está diferente.

O caminhão passa devagar, os trabalhadores usam tampões, a rua vai sendo lavada, afinal o asfalto limpo de impurezas diminui o atrito, a via pública limpinha excita, que os automóveis circulem mais velozes, que as freadas abruptas ocorram com maior frequência, que o tempo de vida útil dos pneus seja menor, que a indústria fabrique-os mais e mais, que os operários trabalhem mais e mais, que a grana extra seja gasta no comércio, que as lojas abram mais cedo, que os empregados entrem mais cedo, que as pessoas acordem antes que amanheça, que a gente distraída pelos sonhos descuide-se dos próximos passos, que haja atropelamentos, que o caminhão venha lavar o sangue, que a rua fique limpinha enquanto possa, que o poder seja exercido dignamente, que toda gente exerça o direito de optar, ou pela velocidade ao volante ou pelo impacto instantâneo.

Todavia, a hora é outra.

Abanando o rabo, os cães que não latiram de madrugada são eles mesmos a lamber as mãos que lhes coçam a cabeça.

Abanam o rabo, lambem e continuam sem latir.

Vem um bêbado, andarilho, maltrapilho, ensebado, vem dar-lhe um cigarro, já aceso, já tragado, passa-lhe o cigarro já babado; ele o pega, traga e, já menor e mais babado, repassa-o ainda aceso.

O bêbado maltrapilho que usufrui dos atalhos do mundo, dele, ainda que vá indo devagar, não se sabe qual seja a sua voz.

No pique, Atanásio, são os vencedores que compartilham mil vezes esta verdade: todo mundo sabe que motoristas que fumam têm maior chance de ficarem livres da identificação formal de gente atropelada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2025.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Reclame depois

 

Reclame depois

 

Noutros tempos, o senhor achava divertido sair correndo depois de ter tocado a campainha. Hoje, o menino grisalho posta um meme como quem aperta uma campainha.

Outrora, uma vez que ele não pensava que tomaria bronca por essa brincadeira, era revoltante ficar proibido de ver Bonanza. Atualmente, mesmo que nem consiga terminar de assistir ao jornal das sete, teima em sentar-se para assisti-lo desde o início.

O orgulho está em fazer bem o que teme conseguir fazê-lo somente a contento, terminando, ainda que mereça congratulações, isso não o põe envaidecido, isso o deixa tranquilo, pois a sua tranquilidade é a de quem valoriza a própria modéstia.

Modéstia à parte, foi de guri que aprendeu as artimanhas que julga positivamente eficazes, como se a campainha tocada fosse a da casa cujos donos não sejam de tirar satisfação por molecagens.

Para que a vida siga serena, o jeito é tocar em frente, é postar mais um meme, outro que faça rir sem a pecha de notícia falsa, sem que o rotulem como obra perpetrada por um reaça das antigas.

Ele não é gente que saliva por erros do passado, até porque os pais lhe ensinaram que a punição de ir pra cama sem sono virava o castigo de ser impedido de testemunhar a explosão de Dona Redonda.

A vida educa, e pessoa educada sabe que as alegrias perdidas não movem moinho, elas só remoem pão amassado por teimoso.

Teimosias à parte, o velho que toca campainhas como se estivesse postando verdades irrefutáveis é gente que cobra os joinhas que faltam para passar de um milhão de curtidas.

Bicho, ter um milhão de amigos é o maior barato.

Embora vá às redes para mais uma bola fora, para outro gol contra, é uma sensação maravilhosa dar em primeira mão que o mundo pode ser um lugar bacana para viver, basta que a gente não se envergonhe das coisas que precisam ser compartilhadas, sejam mostradas, ditas e tornadas públicas sem medo de cancelamento, até porque o mundo de hoje não é o mesmo mundo de ontem.

Em vez de pavões misteriosos, pessoas com problemas.

Como a campainha toca quando tocada, a alegria do tagarela é não segurar a matraca.

Então, o idoso sente-se no dever de compartilhar o que pensa, pois isso de arrebanhar para si a autoridade de quem viu a série do começo ao fim, é isso que o faz apresentar-se apto a ligar os pontos sem abrir as pernas ao entretenimento.

Como cabe ao crítico ultrapassar os chavões que enquadrem o que seja campainha ou meme, o menino grande que dorme a hora que quer não se acabrunha diante do seriadinho assistido.

Então, a fotografia que mostra o menino observando a cena não diz que ele não viu a faca fazendo o xis no braço para que a mãe sugasse o sangue, embora a imagem autorize o flagrante.

O jeito é embirrar em querer ir aonde até o sangue lambido pareça indicar que a justiça deseje tanto dar acesso, ou a obra teria outro título que não esse: Disclaimer.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2025.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Carpas

 

Carpas

 

Arrependido de ter acessado o jornal, ainda mais depois do almoço, ainda com a comida sendo digerida, com todas aquelas notícias dando um violento retrato da realidade, escolho sair.

Claro que esta saída é fuga.

Incomoda-me cochilar vendo tevê, escapulo, porque os problemas daqui, e não apenas desta cachola, não têm aqueles tons apocalípticos que o mundo carece de permanentemente habituar-se a tê-los.

Não me habituo nem me acostumo, necessito de saber que o amigo melhorou da espinha que o acupunturista deu jeito, quero encontrar a amiga contente que a netinha tenha sido batizada antes de completar um aninho, aproveito para pesquisar os preços do modelo de tênis que uso desde que passei a lutar contra os cadarços.

Levo a sério o meu bem-estar, já que não apelo ao cinismo estando calmo; e sobre os meus calos, submeti o meu gosto à necessidade de respeitá-los a cada passo.

De loja em loja: comprarei o modelo cuja fôrma não maltrate meus mindinhos; pelo preço que me permita pagar à vista o par cujo número é o meu, não peregrino, saio lucrando.

Poupo ao gastar pouco e exercito-me.

Não se trata apenas de saber quanto custa, é que, depois de alguns assaltos, aprendi a andar com trocadinhos, assim, quando informado do valor, corro buscar a quantia certa.

Se o assaltante se irrita, prometo trazer o dobro da próxima vez.

Se me acovardo, mesmo que dobre o tempo gasto para ir e voltar, altero o trajeto.

A flexibilidade que adoto não é humilhante, uma vez que me perfilo entre as pessoas que se apouquentam quando, sem avaliar o instante, condescendem ou intransigem.

Muita gente acha que vacilo, mas, sem titubear, pondero.

Décadas atrás, eu trabalhava na área da saúde, era um agente de combate à dengue. Indo de casa em casa, verificando calhas, ralos e geladeiras, entrei numa residência cuja fachada me enganou.

A casa era cercada por mato alto, as paredes precisavam de pintura e a sineta do portão não tinha badalo.

Quem atendeu às palmas foi um idoso que falava mal o português.

O octogenário nascera na Terra do Sol Nascente, viera para Ibiúna havia setenta anos e mudou-se pro Piratuba há meio século.

Na casa, olhei atrás da geladeira e orientei que não sobrasse água em pratinho de vaso.

Pedi para verificar o quintal.

Nos fundos, havia uma piscina de areia.

Dentro do retângulo, com uns dez centímetros de largura, tinha dois caminhos de igual comprimento: um era de pedregulho e um de grama mascarenha.

Se fosse um relógio, a vereda dos pedriscos ia das oito a uma hora e a vereda gramada partia das sete para chegar às duas.

Triangulares, tinha um tanque de carpas entre nove e doze e outro entre seis e três.

O que provocou estranhamento foi o que ele disse, que ambos não eram dois, eram um.

Caso quisesse alimentar as koi, o senhor Shigeo solicitou-me que tirasse a terra das minhocas que eu mesmo coletaria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2025.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Testemunha ocular

 

Testemunha ocular

 

Durante o café, ele pensa.

Manterei a paciência ainda que veja o caminho óbvio a seduzir-me a trilhá-lo embora suspeite que, começo de ano após começo de ano, cairei na mesmíssima arapuca que a cabecinha apraz montar.

No primeiro dia útil, vou tirar dinheiro da poupança. Não hesitarei e não admitirei cansaço, uma vez que manhã e tarde estarão reservadas ao melhor exercício que funcione como desintoxicação.

Vou comprar dois jogos de lençol e dois jogos de toalhas, comprarei um pacote com quatro escovas de dentes, vou comprar meia dúzia de tubos de creme dental, comprarei as cortinas pros banheiros e pra sala, embora precise me lembrar da boina novinha, uma que a mim repagine descontraído aos olhos das pessoas que acham que não passo de um melancólico enrustido.

Mostrarei que não mais me resguardarei das rugas que o meu rosto teima em carregar, mesmo comigo a negar a ideia que o meu rosto tem esta herança presumida ao escancarar a minha idade.

Quase disse “a idade que tenho”, o que seria um equívoco, porque o mais correto, creio, seja dizer “a idade que me tem”, porque o tempo não é meu, eu é que sou dele.

Digo à inocência que sou inexperiente em matéria de dissimulação. Insisto em pensamento que meus sessenta anos vividos ainda não me ensinaram a controlar as reações.

Culparei o espelho cujas reflexões são concretas? Para cúmulo da lucidez: veja-se, pessoa imóvel, ao mirar-me.

Depois de escovar os dentes, encarando a imagem, ele diz que não comprará nada se estiver estacionado um carro verde na frente da sua casa. Se o carro for rosa choque, um daqueles carrinhos ridículos que só existem no cinema, será do Austin Powers.

Ele não é bocó para adotar cores berrantes, ainda mais que nasceu para caminhar, não pra dirigir um objeto estigmatizado.

Se lhe desse vontade de gastar o dinheiro da poupança, compraria uma máquina elétrica, pois o A da sua Remington fica desalinhado em relação às demais letras, pairando acima da linha.

Ele quer terminar o texto que imaginara, nele a personagem diz que é melhor não dizer nada, que é melhor pensar melhor, mas sem parar na rua, uma vez que a sua sombrinha laranja se destaca em meio às tantas sombrinhas pretas, brancas e cinzentas.

Ele diz a ele próprio no espelho que não é nenhuma maluquice dizer que está bem, mesmo que o reflexo franza a testa, faça bico e meneie a cabeça, estamos bem, mesmo que não estejamos, estamos.

Ao espelho, ele queria dizer: quando houver uma folga, precisamos conversar, você e eu, precisamos de um bom e demorado papo, ou as coisas ficarão complicadas, difíceis de lidar, daremos vexame.

Ele penteia o cabelo, abotoa a camisa e, para conferir que não tem sujeira nos dentes, sorri, até ele faz sorrir ligeiramente.

A despeito disso, belo é assistir a um mini cooper sendo guinchado por estacionamento em local permitido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2025.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Não estamos a sós

 

Não estamos a sós

 

Por mais que diga que não me importo, estou tentado a admitir que as circunstâncias me afetam.

Há um pernilongo; tenho esta leitura que não pretendo interromper; quero que o inseto voe para longe para que eu termine de ler as últimas páginas do livro.

Não acho boa ideia ler em voz alta, pois isso não mudaria nada.

O pernilongo dá rasantes sobre a tela do tablete, isso me faz perder o foco, isso, estar perdido, me deixa intranquilo porque saber-me preso numa daquelas páginas finais é desapontador.

Pra que a leitura não cause desapontamento, ou lasco um tapa ou, pra ruminar o que está lido e por haver tomado pé da fadiga, aguardo ser derrotado pelo sonífero.

Há ventania. A chuva vem vindo. Ouço trovões, mas os relâmpagos ainda não são flashes. A noite pode ter alguma chance, se não chover como os raios prenunciam.

Como sei onde estarei quando a luz acabar, fecho a porta do quarto; com a cabeça coberta pelo lençol, sorrio no escuro.

Depois de recicladas como badulaques decorativos, não temo que lâmpadas queimadas voltem a iluminar.

Mesmo assim, levanto, vou conferir que a escuridão esteja em cada cômodo da casa; tudo às escuras, posso deitar.

Convém que eu cheque portas e janelas. Destravo-as e chaveio-as; corro-as e cerro-as. Convém ficar longe de portas e janelas, mas sento no sofá, perto do celular.

Os trovões estão perto; e gosto de ouvi-los. A chuva cai. As rajadas de vento silvam nas frestas. O temporal impressiona, mas não o avalio assustador, não o dimensiono além do que é.

Chuva não é monstro fantasmagórico a bicar o meu fígado.

Em tempo: quero certificar-me de que o guarda-roupa fechado está chaveado, ou os fantasmas tenderão a abrigar-se na geladeira.

A explicação que me faça compreender por que os meus fantasmas têm essa predileção por buscarem ficar protegidos na geladeira, esse conhecimento, por tamanha imbecilidade, espanta-me.

Não pergunto se estou motivado a ir pela trilha que deixam a cada vez que as tempestades tanto os assombram.

Na geladeira hermeticamente vedada, a água comunica-se comigo. Entendo que me queira tremendo, tenha calafrios, que minha estupidez de idiota faça-me ter consciência da minha condição.

Não perco tempo, ligo a lanterna do celular, pego a caneta e anoto na lista de compra: vela para filtro.

Como a força vai mesmo cair, e prevenção é bom negócio, risco o escrito e novamente escrevo: duas velas para filtro de barro.

Abro a geladeira. Checo a temperatura do jarro. A língua apura que a água sequer está morna, apesar das bolhas. Engulo um gole d’água gelada. Sei, a borracha segue útil, não está frouxa, é ela que impede o temporal de adulterá-la, torná-la amara.

De cima da pia, pego o copo nem lavado. E sem nojo da borda suja, beberico a água.

O que o temporal não imagina que se passa comigo?

Eventualmente, tenho sede quando estou só.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2025.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Isso é só o começo

 

Isso é só o começo

 

A sensação que me incomodou ontem torna a incomodar-me agora, e, assim como o fiz ontem, abro bruscamente a porta da frente, porque me dá força a convicção de que tem gente escutando.

Tanto não há ninguém quanto não houve ― é vão o assalto.

Queria que tivesse, uma vez que isso facilitaria: a pessoa é amiga ou sequer é conhecida da vizinhança?

Sendo amiga, entre tomar um refresco; tão somente alcoviteira, vá cuidar das próprias misérias.

Ontem quanto agora, apelo a golinhos de laranjada. E cada gole me fortalece que não enlouqueci. Ainda que nem tenha sentido, não pirei. Embora tomar uma jarra de dois litros de laranjada por dia, já passa de uma quinzena, possa ser definida como sintoma.

Estou ficando paranoico, ou o quê?

Na semana passada, tanto na quinta quanto na quarta, o fato de ter acordado no meio da noite com a certeza de ter ouvido barulho dentro de casa, esses dois eventos não são sinal de arrombamento.

Como não tenho nenhum seguro, nem da minha vida, fui à cozinha e fui à sala ― as duas portas estavam trancadas.

Mais ou menos há um mês, noutra madrugada de calor, eu tive um sonho. Por duas noites seguidas, num sábado e num domingo, o sonho se repetiu. O mesmo sonho uniu dois mundos, o da laranjada gelada e o do café coado na hora.

Sonhei que tomava um gole de café. Sim, tomava. E o bebia quente, com açúcar. Deliciava-me bebê-lo passado na hora, algo bem diferente de beber laranjada, com laranjas espremidas sabe-se lá quando.

Porque esse gole de café era o último do copo; e tendo bebido esse gole único, restava o último dedo. Bebia, mas o dedo ficava na mesma. Tinha fé, e tornava a beber o gole que permanecia intocado.

Para amanhecer ontem, segunda, sonhei que tomava laranjada, e tive tempo, eu fui urinar no banheiro. Pra amanhecer hoje, todavia, não tive, pois o golinho de café foi o bastante para preocupações.

Salivo e cuspo, que isso de molhar o pijama me faz engasgar, pelo tanto que enjoo.

Na sexta-feira, acordei com esse gosto de café, aquele que só havia sonhado que bebia. No entanto, cuspi. Uma vez que acordei certo de que engasgara, preferi cuspi-lo, e ainda cuspo. Quero a certeza de que a laranjada não se transformou em café, ou restaria a sensação de que a cabeça quer-me desconfiado.

Não intuo, pois atino que suo.

É terça-feira, ontem desmontei a árvore, guardei guirlanda, bolas e a manjedoura de vime forrada com palha de milho.

É terça, me esforcei para não brincar a folia, mas a cantoria veio de longe, vinda de lá, de onde a criança que fui ainda brinca comigo, pois continuo respeitoso.

É terça-feira, e eu medirei, serrarei e pregarei as tábuas.

Amanhã e depois, lá do galho, de lá verei o quintal, a rua que corre na frente e o riozinho que flui ao fundo.

E brindarei, pois começo a sacar que café e laranjada se mesclam, tal qual alegria e histrionismo, feito rã e seus mergulhos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de janeiro de 2025.

domingo, 5 de janeiro de 2025

A aurora do madrugador

 

A aurora do madrugador

 

Não queria madrugar, mas madrugou. Mais uma mentira que conta sem ruborizar, contada a si mesmo. Queria tanto madrugar, e virou de lado, e dormiu até dez pras dez. Queria madrugar, precisava, não para ouvir o galo cantar porque vive num bairro sem galos, poleiros e ovos colhidos no ninho, e os bichos que vê nas ruas e em colo de madame são cães; eventualmente, passam burrico ou pangaré.

Precisava acordar cedo, com o raiar do sol, mas o medo de perder a hora o fez dormir mal. Por haver dormido mal, virou que nem viu. Não escolheu dormir até não mais poder, mas ficou até dez e dez.

Quando dorme além da conta, ainda que não tenha compromissos, levanta com dor de cabeça, pigarro e vontade danada de urinar, o que o atira em direção ao vaso.

Nada disso!

Puxou o livro que, ao deitar-se, pôs na cômoda; rasgou o plástico; cheirou-o; ajeitou o travesseiro às costas e, na página aberta ao acaso, foi apanhado pelo trecho em que bateram os seus olhos: “Lia ora num ônibus apinhado, ora num banco da praça da República, ou em pé nas intermináveis filas paulistas; e nesses momentos me ilhava de tudo, com esse consolo, essa alegria”.

Voltou uma página, a crônica era O Poder do Braga.

Este texto está no livro A Intensa Palavra, uma seleta de crônicas inéditas que foram publicadas, entre 1954 e 1969, no jornal Correio da Manhã, cujo autor é Carlos Drummond de Andrade.

As citadas aspas são de leitora anônima, cuja intenção fulcral ao enviar a carta era agradecer o cronista pela ‘terapêutica infalível’ que as suas palavras provocavam. Embora agradecida, ela, grave e terna, segundo Drummond, perguntou ao Braga:

“Você ao menos calcula o poder que tem?”

Queria paz, mas, no café, afloraram outras questões.

O que faz uma pessoa ter poder? O que é preciso fazer pra ser vista como pessoa poderosa?

Queria ter saído da cama às cinco e meia, tomaria banho, café e o ônibus como quem dorme bem, acorda bem e repete que, mesmo sem ver a quem, aprecia fazer apenas o bem.

Queria descer antes, passaria na feira, comeria pastel, tomaria refri e só depois iria sentar-se à mesa, checaria números, fecharia planilhas e largaria aquele trabalho às cinco.

Mas esqueceu que tinha de descer antes do banco, tinha que retirar dinheiro no caixa eletrônico, tinha de parar de pensar no poder que não tinha, mas esqueceu que era gente que bate o ponto, responde a quem a chefia e vai usando cartão até que o saldo fique negativo, os juros do especial abocanhem um naco do salário do próximo mês e, já que tem imaginação, a bola de neve atropele ladeira abaixo.

Queria dormir mais um pouco, questionou-se de pronto: quem bebe sozinho acarreta que seja pessoa à espera de que possa lamentar-se de que beba sozinha antes do almoço?

Despertou-se.

Não vai entregar currículo, entrega marmitex. Para trocar a magrela por moto, vai precisar do crédito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de janeiro de 2025.