Terei ouvido pollo? O garotinho no
carrinho, em pé entre bananas e maçãs, terá mesmo dito ‘polho’? Apontando para a
verdura, ele disse novamente à mãe: eu quero comer piolho.
O seu pedido não era por pollo
nem por polho nem por piolho, era, sim, pelo manjadíssimo repolho.
Um pequerrucho pedindo para comer
verdura é novidade para mim, pois ainda hoje, já sendo eu um marmanjo de
cavanhaque grisalho, as goiabinhas seguem em alta na minha dieta.
E lá vou eu. Às gôndolas, lá vou eu
pegar fritas, amendoim e a dita cuja, a goiabinha da marca que eu como.
Ressalve-se: é preciso tomar o cuidado para
não fazer propaganda gratuita; algo que sempre faço, mesmo com a bolacha de maisena
cuja marca não mencionarei, ainda que esteja sempre fresquinha.
Fresca na mente é a finalidade maior
deste dia: não adiar a reforma da casa da árvore.
Baixei as tábuas, medi-as, comprei-as já
aparelhadas e coloquei-as no lugar ― trabalho ao qual me dediquei, pela manhã e
à tarde.
Findo o serviço, sentei na área externa
da casa: balancei as pernas; não vi a Liga dos Campeões; à vontade, bebi água.
No cubículo coberto, além do sofazinho
da sesta e do micro-ondas para pizzas, o galão de água mineral vazio é trocado
pelo cheio.
Então, dá-se o incrível.
Entre minha residência e a jabuticabeira
onde me encontro, desce aquele troço.
Bato a foto e o Google identifica: este objeto
voador é uma aeronave vertical elétrica.
Da engenhoca, sai um escritor cujo nome
não citarei, para não levar um processo por chamar a personagem de Ricardo
Lísias.
Em seguida, sai aquela personagem que o
Ricardo Lísias atreveu-se a chamar de Eduardo Cunha, mesmo não sendo aquele
político que está solto por decisão judicial.
Atrás da personagem que não é o Eduardo
Cunha solto por decisão judicial sai da máquina futurista uma personagem
togada, cujo nome é homônimo daquele juiz togado, precavendo-se de não citar
seu nome, para não haver confusão com o verdadeiro Alexandre de Moraes.
Atrás da personagem que não é o
verdadeiro Alexandre de Moraes sai do aparelho elétrico mais pesado que o ar a
personagem cujo nome é Policarpo Quaresma, conforme decisão autoral de Lima
Barreto.
Atrás do Policarpo Quaresma batizado por
Lima Barreto aparece o suposto Lima Barreto, que não para de borrifar com uma
bomba de flit, gritando sem parar:
Saúva! Saúva! Saúva! Saúva!
O que mais poderia desafinar este nosso allegretto?
Se a minha imaginação tivesse a coragem
de enfrentar o meu tédio, se eu fosse menos plagiador, eu mudaria a pantomima
felliniana, pois é patética a situação: as personagens que saíram, todas contornam
o veículo aéreo e, não saindo nenhuma nova personagem, todas entram outra vez naquele
objeto voador e, por onde veio, o troço regressa ao espaço, sumindo na brasileiríssima
noite escura.
Cidadão que me lê, que finalzinho bem tosquinho,
né?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2025.