Asa
da imbecilidade
Já
é o dia seguinte ao dia posterior às eleições, terça-feira, nove de outubro. Segue
estabelecida a corrente de dias muito expressivos para nós, humanos, pessoas. E,
para alegria dos chatos, sem que o escriba tivesse ciência da particularidade
do fluxo do tempo. Há tanta coisa humana que não tenho a menor ideia do que
seja.
Com
os dias passando rápidos e definitivos, e como não sei nadar nem pratico
mergulho, decidi parar de ficar boiando, ou me afogaria.
Quiçá
por insanidade, tal qual curimbatá na piracema, rompi com a inércia de ir na
correnteza e concentrei as forças para ir rio acima. Afinal, não aceitava o Brasil
de tantas desigualdades e nunca fiz de conta que a realidade nada tinha que ver
comigo. Não aceitava, e não aceito.
Tenho
gastrite nervosa, por isso não vou ingerir lagartixas, cobras, moscas, tocos,
pedras. Ainda mais de olhos fechados.
Sem
mordidas na língua, e com acontecimentos em série a me abalroar, não surfo na
rede. Foco-me nos fatos, naqueles que não me parecem gratuitos ou aleatórios.
Entro
na corrente dos últimos dias.
O
primeiro dia da Era Judaica? Calhou de ocorrer num sete de outubro, em 3761 a.C.
Antes de Cristo...
No
dia oito de outubro de 1998, José Saramago tornou-se o primeiro escritor da
língua portuguesa a ir pegar em Estocolmo o seu Nobel, o de literatura, é
claro.
Aos
falantes do português, o que importa é que posso dizer o que penso nesta Língua
Portuguesa que não é mais nenhum patinho feio no reino das letras.
Finalmente,
chego ao presente nove de outubro.
Com
a mente atenta, para não me afogar no mar de amores que muitos têm demonstrado ter
por políticos. E haja ódio para dar vazão a tanto amor por fulano, por beltrano.
E os sicranos?
Todavia,
no Portal da Crônica Brasileira, li Coincidências, do Paulo Mendes Campos. Eis
que fiquei vibrando com as aspas do primeiro parágrafo, "vento da asa da imbecilidade".
Ignorante
que sou mas curioso, voltei a navegar na internet e localizei o fragmento destacado.
Charles Baudelaire, o autor dessas palavras, começa o texto com um otimismo
proativo, ao afirmar que “quanto mais se quer, melhor se quer”.
Então,
de olhos bem abertos, encerro esta primeira crônica, registrando que o imbecil
em mim, vivamente espantado com o mundo, pensa as mágoas cotidianas sem fingir
que não sofro com a ventania muito humana dos instantes.
Rodrigues
da Silveira
Praia
Grande, 09 de outubro de 2018.


