quarta-feira, 26 de setembro de 2018


poema útil


cale-se, poema,
se não tem nada pra dizer, cale-se.

pra que ficar fazendo marolinhas
quando o mar está infestado de tubarões?

quando o céu não esconde estrelas mortas,
a ignorância está nos olhos de quem pensa que o vê.

por que insiste em querer tudo em ordem,
querendo a quimera destrinchada.
com a palavra certa no lugar certo, por quê?

se nunca se arriscará saltar entre os trapézios,
pra que colocar a rede?

poema, perca o juízo, perca-se.
ao menos uma vez, erre a mão e grite pela vida, a sua vida,
vamos, poema, seja exemplar pelo exagero,
seja pérola barroca, única na imperfeição.
vamos, poema, não se deixe naufragar em plena praia.

(rodrigues da silveira, 2017)

terça-feira, 25 de setembro de 2018

o príncipe dos mundos


amarremos o cão andarilho
com as palavras que permitam controlar os ganidos de dor,
para que o lixo da noite seja recolhido.
e a madrugada acorda sem poetas caídos da cama.

amamentemos o cão maltrapilho
com o leite entrevado de nossas mamas enrugadas,
para que o caminhão possa passar.
e a madrugada desponta sem poetas caídos na lama.

adornemos o cão moradilho
com as placas de letras gritantes de vende-se
para que não queimemos de pronto aqueles barracos de vento.
e a madrugada traz os poetas saídos da lama.

amemos o cão fanfarrilho
que nos salta sobre a carne das maçãs,
nós que nos distraímos assuntando essa fome dos reinos.
e a madrugada estraga os poetas traídos na cama.

pelamordedeus, é preciso mostrar o pau?

(rodrigues da silveira, 2016)

segunda-feira, 24 de setembro de 2018


canto da carochinha


dentro do barco
tem um mapa

dentro do mapa
tem um oceano

dentro do oceano
tem uma concha

dentro da concha
tem um palácio

dentro do palácio
tem uma lâmpada

dentro da lâmpada
o silêncio abissal

(rodrigues da silveira, 2017)

domingo, 23 de setembro de 2018


coleira perdida


não tendo por focinheira o nome
não tendo por sarna as esmolas
não tendo por vacina as dentadas
não tendo por dono o sono
cão sem pulgas tem pulsado de ódio
ser poema não distrai, concentra

(rodrigues da silveira, 2015)

sábado, 22 de setembro de 2018


um instantâneo do sublime


a menina olha a borboleta
e nem pensa, a beleza sabe voar.

a menina não inventa um nome
pra entender o que sente.

distraída pela mãe que sempre sabe o que dizer,
a menina nem viu aonde foi o encantamento.

(rodrigues da silveira, 2016)


quarta-feira, 19 de setembro de 2018


sono do menino


adormece,
os monstros do oceano vão pra debaixo da cama.
o vento dos sonhos espalha rochedos
entre as penumbras dos brinquedos.

falta-lhe fé, ó militante das falácias.

como criança no pijama do seu paraíso,
vê nítido o que vem.
vem o monstro mais bonzinho, embora o mais feio,
o único que se arrisca a caminhar na sua direção.

o menino abre os olhos,
descobre-se na cama, dá com o pasmo imenso do bicho.

o monstro todo tímido:
olá... tudo bem... tome uma flor.

sem saber o que fazer,
o olho pensa rápido pelo menino: come-a.
com o arroto, ele acorda.

(rodrigues da silveira, 2016)

terça-feira, 18 de setembro de 2018


o corpo devorado


não lembra a primeira palavra
do primeiro poema.

nem se lembra se pensada
ou logo escrita.

dói atirar-se ao corte antes do curativo.

a primeira palavra parece encantada,
latejando ainda,
querendo vir pelo grafite do lápis.

nem é bom querer lembrar-se,
só se está querendo ter febre, certo?

o primeiro poema que nunca será escrito,
sempre será lembrado.

e como dói.

(rodrigues da silveira, 2016)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018


eu topo


meio copo
meio tonto

meio certo
meio ponto

meio perto
meio longe

meio santo
meio monge

esse tanto?

(rodrigues da silveira, 2015)

domingo, 16 de setembro de 2018


o xis da questão


o poema não acaba
depois de lido

depois de lido
começa

(rodrigues da silveira, 2014)


sábado, 15 de setembro de 2018


alerta de consciência


ele fala em alma
como quem diz
cães ganindo à noite

ele fala em culpa
como quem traz
fósforos apagados

ele fala em redenção
como quem espera
a queda da maçã

ele fala em carne
como quem aprende
as equações do lamento

ele fala em esperança
como quem sabe o que diz

tatibitate é esperanto?

(rodrigues da silveira, 2014)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018


gozo, o palhaço reprimido


o poeta é um gozador
e goza tão seguidamente
que toma posse da fingida satisfação
gozando à mão de outra pessoa

o poeta é um gozador
e possuído nessa carne de segunda
finge tão bem o gozo que não tem
que muitos gozam também

o poeta é um gozador
e não deixa o riso engasgado na garganta
revelando-o com todos os dentes

o poeta é um gozador
e se pode rir sem tanto siso
por que gozar apenas com um sorriso?

(rodrigues da silveira, 2014)

quarta-feira, 12 de setembro de 2018


mão amiga


quando deus está pescando,
o diabo está de luto.

quando o diabo sobe a montanha,
deus brinca com as crianças.

quando deus fica parado,
o diabo fica vibrando.

quando o diabo reclama de tudo,
deus chama seus anjos.

quando deus visita o inferno,
o diabo lustra os chifres.

quando o diabo entende o recado,
deus inventa outro pecado.

(rodrigues da silveira, 2016)

terça-feira, 11 de setembro de 2018


lição primeira da vida


o que se revela, revela-se:
chegar à resposta sem perguntar?

com aquele ar místico de mistagogo,
fazer do rosto um pensador explícito,
coerente, indispensável.

cuidado! poema à frente.
sim, é preciso discernimentos
ao tratar com um poema,
as palavras à frente costumam fabricar-se
ajuntadas com lupa, besuntadas com carradas de propriedade,
calibradas na brisa das mais nobres sensibilidades.

cuidado, primeiro. com o poema,
quando está dito, não está sendo dito.
olhe-me de cima, leia-me de cima,
o rosto aqui representado
está aqui representado.
deus do céu! é pegadinha.
quando o poema anuncia o rosto,
sequer há o que vir.
há-de se ver comigo, mostre-se!
  
cuidado, um segundo cuidado.
sou esperto, tenho experiência, sei desler.
leio nas entrelinhas, desconstruo o poema, desmembro
as artimanhas do poeta.
poema algum me prende nos versos, viu?
ler o poema separando-o em versos...
livrado o leitor dos espaços pantagruélicos,
minotáuricos,
ectoplasmáticos que pulsam entre as letras,
e se expulsam a leitura pra dentro de
uma mesma letra, umazinha?

cuidado, cuidado, cuidado.
o poema esconde o que revela,
o poeta revela o que esconde.
o revelado do poeta está recôndito no poema.

talvez devêssemos, nós dois,
avisarmos de antemão, é que nestas linhas:
o cão do poema mija no chão.

(rodrigues da silveira, 2018)


segunda-feira, 10 de setembro de 2018


fundamentos morais para a sobrevivência


sem surpresa, o tédio me assombra,
funda essa febre que não passa.

sei bem obedecer às regras:

depois de acordar, espreguiçar-me,
para que a noite não se apegue tanto ao meu dia;

depois das espreguiçadas, levantar-me,
para que o dia trate de apoderar-se dos ossos;

depois de levantar, tomar café;
depois do café, escovar os dentes;

depois, deveras acordado, vou pro esperado
─ ganhar a vida na lida mais renhida.

agora, não vou negar nem nada,
sei muito bem que tenho lugar no mundo.

faltam-me apenas, e tão somente,
um emprego, o que comer, e a tal cama.
cachorro eu já tenho.
  
o resto?
tudo em ordem, num progresso só.

em febre baixa, este meu corpo nem
pede remédios; o corpo cede
à paz o descanso, a tal recompensa
do sono, um sono bom, sem sobressaltos,
sem os pesadelos, sem certos sonhos,
a quimera sem monstruosidades,
deformações, informações, sazões.

à margem do atalho, prisioneiro da liberdade?
o feito do desfeito, por desfeita:
amanhã, outra vez, amanhã.

o amanhã não começa noutra manhã.

(rodrigues da silveira, 2018)






domingo, 9 de setembro de 2018


o louco da vez


despido dessa gramática do meio-dia,
duma lógica vernacular, lapidar, exemplar.
o que deu nesse homem?

um emérito comedor de rabanetes,
levados consigo num vasinho pintado a dedo.

o que houve?

dizem que o vento da lua cheia
bateu nos tímpanos, cantou
a nidificar, multiplicar ideias nadificantes.

dizem, ai pobre-diabo, como dizem.

no cão posto como sombra de si,
rodopiante, circunvirante, buscador,
tendo a cauda já evoluída, só um ossinho.

iluminado de pinga;
então o bom homem rola no chão,
dissipado pra luares, borboletas, louros,
pros olhares quatrocentões.
  
ei! nada de chamar o nosso homem
de cínico, cão das ruas.

embora passe a fingir-se de torto,
capaz de mãozadas nas vitrines recatadas,
até a querer-se um incendiário gago,
da pedra na pedra, bem poderia o tosco, até...

o homem bom, espelho dos naturais desenterrado,
é arbusto seco, é lama seca, rio evaporado.

aquando
o lugar do instante dá um instante ao lugar,
é em razão das palavras enraizadas
na névoa cristalina além da íris, do opaco do leite;
adonde
ele acorda e desanda a andar em voz alta,
célere a dormitar o silêncio no cérebro.

será pela graça de haver-se dessa laia, um chalaça.

(rodrigues da silveira, 2015)


sábado, 8 de setembro de 2018


poema desgraçado


não tem graça pensar a chave
se não houver fechadura.

não tem graça pensar o fio
se não houver meada.

não tem graça pensar o alho
se não houver bugalho.

não tem graça pensar o olho
se não houver o cisco.

não tem graça pensar a música
se não houver o silêncio.

não tem graça pensar a palavra
se não houver sentido.

não tem graça pensar a ideia
se não houver pensamento.

(rodrigues da silveira, 2015)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018


as labaredas da alma


como ninguém entende o que diz o rato,
trazem a ratoeira com o seu melhor queijo,
armam com cuidado, bastante esperançosos.

como ninguém atende o que bate à porta,
fazem uma fogueira com o seu melhor graveto,
amam com recato, assaz temerosos.

como ninguém apreende o que falta no rosto,
rezam em uníssono com a sua melhor intenção,
falam com vigor, muito entusiasmados.

como ninguém compreende o que brilha lá fora,
rogam pela morte com a sua melhor ilusão,
calam com rigor, ensimesmados bastantes.

a formiga ignora o açúcar do poema, ignora
também a celulose, a brancura, a superfície, e segue
no seu papel de formiga,
e na sua natureza, a que pouco sabe de si,
isso basta. e isso, minha gente, isso não basta.

(rodrigues da silveira, 2017)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018


frêmito


passou por você
e foi adiante
sentiu o fantasma
enregelando-lhe a língua

travou o amargor
em sua língua de pedra
provando da alegria
o horror da plenitude

arrepia até suas retinas
concentrando o asco nas papilas
sem nada vir

o que passou
passou e foi adiante
sentiu a poesia
sentiu-se fantasma

como lúcifer, daríamos
as asas para voar?

(rodrigues da silveira, 2016)