terça-feira, 23 de outubro de 2018

Em tempo



Em tempo

Como a guarita de vigilância fica ao lado do portão de entrada do edifício onde moro, costumo parar para conversar com seu Josué, o incansável faz-tudo do condomínio.
Os assuntos acabam sendo os do dia a dia ─ se vai chover; se logo mais o Cruzeiro será campeão sobre o Timão; se é verdade que o Bolsonaro caçará o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Isso e mais aquilo, mas sem alvoroçar o gogó e sem o entusiasmo descabelante dos fanáticos. Mantemos a civilidade: eu, na minha fé de levantar outro caneco em nossa casa, e o mineiro, que não disfarça o otimismo azul por sua Raposa.
De cara, pelo que tem chovido nas últimas semanas e com o céu fechado que não permite alguma nesga para o sol, opto pela chuva vespertina, ao que me segue já agora um desalentado jardineiro, olhando no arbusto a copa indisciplinada, toda túrgida de tão verdejante.
Gosto de gente assim, cuja conversa não é de quem fica de papo para o ar. Eis que pronto se faz a hora, e como ambos não matamos o dia curtindo tudo que nos enviam pelos grupos zapianos, vamos à luta.
O zelador trata de pegar na caixa do correio as correspondências, para vir distribuindo-as do sétimo andar ao térreo. Despede-se de mim, e some prédio adentro.
De minha parte, vou-me embora para a escola, pois lá tenho alunas e alunos à minha espera. E nesta quarta de tantas inquietações, está agendada uma produção textual a partir da leitura de um poema do Luiz Gama, Saudades do Escravo.
Preciso esquecer o jogo noturno, pois nem quero pensar que vão usar o VAR, esse recurso que tanto estrago fez nos campos da Rússia. Em pleno século 21, o ser humano depender das lentes da tecnologia para abrir os olhos para o que vê?
Tudo certo, tudo em ordem. Como o cronista já sabe do hexa celeste, melhor mudar o assunto.
Afinal, estou encafifado... Por que não bolam algum treco eletrônico de ponta que faça chegar ao Tribunal de Justiça de São Paulo a decisão (de 2014) do Superior Tribunal de Justiça quanto às responsabilidades do que fazia em 1971 o coronel Ustra.
Como diz o sábio, momentos há para falar e para calar.
Bendito VAR!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de outubro de 2018.



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