A
voz fundamental
É de quem tem o que dizer; ou é de
quem acha que tem o que dizer e não para de repetir isso; ou é de quem pensa
que o que tem para dizer é importante, basta dizê-lo para ser ouvido.
É a do primeiro violino quando o oboé
já contou a sua parte, uma vez que uma ária, para contralto ou soprano, estaria
fora de lugar, pois se trata de uma sonata para piano. Beethoven, a lua de
novo?
É a da oradora da turma, eleita por
colegas, quando todas as famílias dos alunos estão à espera das suas palavras,
as mais recomendáveis para que a esperança ganhe fôlego com a nova geração.
Falando como quem tem tudo para não se calar.
É a da mãe no domingo, que ela sabe
que a macarronada só dá para a família, quando o cunhado vem juntar suas quatro
barrigas ocas com as oito bocas residentes. Daí o acolhimento, pois tudo tem
jeito quando damos um jeito.
É a do pastor, de Bíblia na mão,
pensando que já um dia foi de usar calças curtas e camisa com o nome da escola,
que ele foi de aprender que é dando que se reparte. Embora, por conta das
circunstâncias da vida, tenha-o esquecido entre um depósito e outro. E pensar
que teve a memória boa, até para ouvir-se.
É a do poeta que olha as formigas indo
e vindo, sem parar, no trabalho pesado antes do inverno, durante o inverno, no
meio da noite, em pleno meio-dia. É que a natureza anda apressada com as
providências que não podem ser deixadas de lado, mesmo com o presidente eleito,
mesmo com o preço do tomate, mesmo que chova na caatinga logo agora, às
vésperas da Black Friday.
É a da criança descalça, nariz
escorrendo, vindo pedir à saída da missa, a pedir pela sua alma, não a dela, a
sua, a de quem me lê e olha para o celular, preocupado com o trânsito do final
deste e de todos os domingos, faça sol ou chova. Além.
É do bem-te-vi que pousou no parapeito
da minha janela na manhã de ontem, quando eu ainda estava deslumbrado com o céu
estrelado da noite, percorrendo distâncias entre a lágrima e a saudade da minha
cama. Na imagem, em pé no parapeito, com os nervos retesados, com um certo
tremor nas coxas, pelo esgotamento da decisão postergada.
Aedes, ouvir-me responder com os reparos dos
louvores não traz espinhos à palavra, nem neste domingo nem nas feiras de banal
extração. Quero abonar o sentido da busca do basilar no mudo ou está perdida a
oportunidade do silêncio?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 11 de novembro de
2018.












