Pensamento
lógico
O voto é secreto. Então?
No próximo domingo, dia 28 de outubro
de 2018, teremos o segundo turno das eleições e o nome do novo presidente da
República sairá das urnas. Para o bem e para o mal, haverá de sair das urnas um
escolhido.
Escolhido, e não o vencedor. Não
haverá um vencedor nem sequer um derrotado. Porque eu elejo esta minha presunção:
a de negar algum crédito racional com o voto.
O voto é secreto, lembra-se?
Minha maneira de pensar pouco importa,
porque votarei. O voto não é a expressão do que penso, desejo, e do que pareço
entender como escolha. A urna trará manifesto o escolhido que irá julgar o que
penso. Discreta, por natureza, a urna berrará nos ouvidos do escolhido que ele
pode tomar para si a decisão de dizer o que quero. Meu desejo é o resultado do
que escolho, não do que posso desejar. Desejo, esse inconsciente.
O voto é secreto, tão sensível ao
inconsciente.
Nem preciso de coragem para admitir a
covardia de não ter a visão precisa de mim. O que é preciso? A balela da vez. O
quanto me enojo. Por minha inutilidade quanto aos dados computados, às miudezas de classe, idade, região,
escolaridade, da crença no Redentor.
Depois? O voto é secreto.
Não teclo na urna a hipótese que me
tira das ruas ou me faz seu morador. A facilidade complica. Meu corpo não vota
contra ou a favor de um teto todo meu, e só por minha escolha. A rua escapa ao
voto. Uma cifra teclada não é passaporte nem dá voz a quem normativamente
escolhido. Urna consultada, urna somada. Silenciado, o voto.
Afinal, o voto é secreto. Não faço
ideia do que o escolhido pensa de mim. Pouco importa. O escolhido precisa do
voto, elo a subtrair ─ soma é abate. O poder de escolha escapa do voto. O voto acelera
a mão que balança a rede. A rede, mortalha de mil milhares de almas em busca de
um rosto, o do escolhido.
O voto é secreto?
Liberdade. Fraternidade. Igualdade.
Minha é a náusea. Sem trazer à baila a Tríade Freudiana. Por que não tenho a
opção da escolha? O instante de hesitação. O momento de raciocínio. Obrigatório
é o voto. Ou não será voto. Quanto a mim, não me cabe nenhuma convicção em
contrário.
E quando a dúvida deixa de sê-lo, passo
a agir na cláusula pétrea da minha verdade. Que me falhem as palavras. Não me
faltem. Optando por mim, não opto pelos demais.
Ademais, reduzido ao sincero, secreto o
meu voto.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 25 de outubro de
2018.











