Boca
de urna
VAI ACABAR, VAI ACABAR / ESSA MANIA DE
ROUBAR.
1992 – MASP. Tal palavra de ordem
entra, escolhe um lugar para ficar e continua aí. Muito além dos meus ouvidos.
Não me lembrava. Mas algo mais pinta
da memória.
Somos
uma nação ou uma cloaca?
Com a pergunta, Otto Lara Resende
encerrava crônica do dia 26 de agosto de 1992 publicada na Folha de São Paulo, cuja
manchete deixava explícito que o povo brasileiro queria o impeachment do
Collor.
Minha cara, por certo, era de quem
tinha ido à manifestação trabalhar. Andava precisado de um frila, até do
Notícias Populares. E tinha vindo a pé da estação Paraíso.
Tempos difíceis aqueles.
2018 – Largo da Batata. Os pedestres
me encaram.
Juan Arias, no El País/Brasil, informa
que 23 milhões dos eleitores não têm o ensino fundamental e 30 milhões correram
do ensino médio. E, segundo o jornalista, quem mal consegue ler um livro por
ano juntou-se a “milionários que pagam menos impostos que os pobres”. Daí que
muitos deles estão entre os 46,03% ou 49.276.990 que, no primeiro turno, votaram
no Bolsonaro.
Em 1992, num “Comunicado à Nação”, os
ministros de Collor assumiram o compromisso de que a crise política encontraria
“o seu desfecho natural na órbita da Constituição e das instituições
democráticas”.
Em 2018, Jair Bolsonaro e seus futuros
ministros querem nova constituição elaborada por “notáveis” e ameaçam com
autogolpe caso reine a anarquia. Mas, o que é anarquia?
Em 1992, os jovens, de 16 a 25 anos, que
foram às ruas, eles, hoje, estão na faixa de 42 a 51 anos. E têm histórias para não esquecer. A
indignação com o Mensalão de 2005, o desastre do governo Dilma, as
manifestações de 2013...
Não esquecem. E não foram ouvidos.
Agora os filhos daqueles estudantes
que pediam decência e vergonha na cara, os muitos que escorraçaram os partidos
das ruas nas jornadas de cinco anos atrás, são eles que gritam nas urnas o nome
daquele que diz entender o sentimento de quem nunca foi ouvido.
1992
– MASP: “1, 2, 3, 4, 5 mil / o bolso do meu pai não é o Banco do Brasil”.
2018 – INTERNET. Com carta branca para
a polícia, o Jair adverte que é hora de acabar com os ativismos no Brasil.
Contudo, essa gritaria não torna surda
a minha fome pela democracia. E tenho insaciável esta boca. Para alimentá-la
regularmente, não tolero nem aceito que me impeçam de votar e de escolher em
quem votar.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, 11 de outubro de 2018.




