Livro de poemas
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
terça-feira, 9 de outubro de 2018
Asa da imbecilidade
Asa
da imbecilidade
Já
é o dia seguinte ao dia posterior às eleições, terça-feira, nove de outubro. Segue
estabelecida a corrente de dias muito expressivos para nós, humanos, pessoas. E,
para alegria dos chatos, sem que o escriba tivesse ciência da particularidade
do fluxo do tempo. Há tanta coisa humana que não tenho a menor ideia do que
seja.
Com
os dias passando rápidos e definitivos, e como não sei nadar nem pratico
mergulho, decidi parar de ficar boiando, ou me afogaria.
Quiçá
por insanidade, tal qual curimbatá na piracema, rompi com a inércia de ir na
correnteza e concentrei as forças para ir rio acima. Afinal, não aceitava o Brasil
de tantas desigualdades e nunca fiz de conta que a realidade nada tinha que ver
comigo. Não aceitava, e não aceito.
Tenho
gastrite nervosa, por isso não vou ingerir lagartixas, cobras, moscas, tocos,
pedras. Ainda mais de olhos fechados.
Sem
mordidas na língua, e com acontecimentos em série a me abalroar, não surfo na
rede. Foco-me nos fatos, naqueles que não me parecem gratuitos ou aleatórios.
Entro
na corrente dos últimos dias.
O
primeiro dia da Era Judaica? Calhou de ocorrer num sete de outubro, em 3761 a.C.
Antes de Cristo...
No
dia oito de outubro de 1998, José Saramago tornou-se o primeiro escritor da
língua portuguesa a ir pegar em Estocolmo o seu Nobel, o de literatura, é
claro.
Aos
falantes do português, o que importa é que posso dizer o que penso nesta Língua
Portuguesa que não é mais nenhum patinho feio no reino das letras.
Finalmente,
chego ao presente nove de outubro.
Com
a mente atenta, para não me afogar no mar de amores que muitos têm demonstrado ter
por políticos. E haja ódio para dar vazão a tanto amor por fulano, por beltrano.
E os sicranos?
Todavia,
no Portal da Crônica Brasileira, li Coincidências, do Paulo Mendes Campos. Eis
que fiquei vibrando com as aspas do primeiro parágrafo, "vento da asa da imbecilidade".
Ignorante
que sou mas curioso, voltei a navegar na internet e localizei o fragmento destacado.
Charles Baudelaire, o autor dessas palavras, começa o texto com um otimismo
proativo, ao afirmar que “quanto mais se quer, melhor se quer”.
Então,
de olhos bem abertos, encerro esta primeira crônica, registrando que o imbecil
em mim, vivamente espantado com o mundo, pensa as mágoas cotidianas sem fingir
que não sofro com a ventania muito humana dos instantes.
Rodrigues
da Silveira
Praia
Grande, 09 de outubro de 2018.
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
sábado, 6 de outubro de 2018
o presente do futuro
vividas as
tantas perplexidades,
o monstro não tem culpa da mensagem que
carrega.
agora, podemos
nos comunicar?
(rodrigues da silveira, 2018)
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
miss do universo
realidade, ainda
que tardia?
a minha
realidade poderia ser um copo d’água cheio,
quase a
transbordar,
impossível
tomá-lo nas mãos sem dispensar um dedinho.
cheio dessa água
que me fui resgatar
do poço, o meu
fosso, a minha fossa.
pródiga em
emaranhamentos,
ramas que vão
pelo subsolo, sobem pela cozinha,
a bailar aéreas
e pela laje.
água
arvorando-se como os meus dias na infância.
cinquenta anos
depois, ainda infectada,
insalubre,
danosa, água da minha lavra, água.
cinquenta anos
depois, a infância ainda não chega,
fica-me pelo
caminho, pedra que canta e dança,
fica-me a entrar
pelas palavras, pelos pensamentos.
quer que eu a
escale, palavra líquida expelida de mim;
dando-me essa
ideia, posso escalá-la,
dançar com ela,
subir ou descer quando queira, posso.
a infância pelo
caminho dando-me a ideia:
os azulejos da
casa dos meus avós dizem-me o fumo
do fogo de
lenha; temperam-me a saudade
a leitoa, o ovo
frito e o mingau de aveia.
estranho, alguém
que perdeu o
chapéu sem nunca ter um na cabeça,
e a cabeça
perfeita prum coco, ou palheta.
alguém, estranho
que tosse o
amargo do charuto tomado ao pai.
um estrangeiro,
esse alguém
à mercê do que
não lembro, a infância à porta do quarto.
no fundo da
fossa, do fosso, do poço, na água da poça:
espio o tão real
do lá de fora. se me acenassem... esperem!
matarei em mim a
criança que me querem morta.
(rodrigues da silveira, 2018)
quarta-feira, 3 de outubro de 2018
suspiro do inverno numa tarde de verão
quando
escapa do vidro,
o
sonho caminha entre as prateleiras,
sem
deixar a impressão oleosa
nas
caixas de sabão em pó.
irrompida
fresta no meio do corredor,
na
meridional do passo, o buraco é um poço.
com
a plumagem dentro do prazo,
olha,
grasna e goza, salta sem esforço e goza.
voltando
pro circo, os palhaços,
entre
latinhas de cerveja e garrafas de rum,
despercebidos
do bafo, deixam aberta a passagem.
posso
beber água na bica?
seu
barato ainda é contar moedas?
o
sonho fuma a ousadia, mais outra
da
criança? diz a tradição da traição, do fundo
para
diante, troca os fonemas, sua voz metálica do enigma
querendo
dizer, esperando ouvir, um sim
do
mesmo, seja sincero e sonoro, seja mesmo um sim.
a
camiseta são os troncos caídos, as cinzas
da
floresta dos xamãs orientados; ao antagônico,
fosse
um lar. aos pretendentes do trono, o abatido do uníssono.
sementes
da areia alimentam najas,
há
braços hipnotizados por cigarros vulturinos.
desdenhada
a lua, amante dos sonhos, frutifica o avesso.
coma-se,
flor do inverno; oculte-se, breu do véu.
à
porta, quem chega atravessado,
direto
pro setor, toma do gosto a graxa,
samba
os sapatos, batuca a caixa, teme um invisível
que
canta o que vê. os pés lambidos.
o
engraxate cego de atrações, faísca, enxerga rastros.
no
meridiano das plumas, o pássaro do bizarro?
e
dói um bocado tecer a noite. nenhum mendigo está só,
a
disfarçar-se, assobio a arrepiar-se lume.
é
adrenalina, é dopamina, é ninguém no tragado.
cadê
a serotonina do desespero?
o
coração da razão é o espelho do eco.
(rodrigues
da silveira, 2017)
terça-feira, 2 de outubro de 2018
o conto da cabeça
o fantasma mais
alto
falava mais
baixo. tossia, e tossia,
mal disfarçando
o nojo.
as crianças é
que faziam da repartição um parquinho.
o fantasma mais
trapalhão
pensava mais
sério. gramava, gramava,
mal visualizando
o vaso.
sem que se desse
por direito, a petúnia crescera torta.
o fantasma menos
fantasma
mais ficava
fantasiando. queimava,
queimava, mal
dimensionando o fogo.
o carbono
torrado passa a impressão de um diamante.
dessa gente toda,
o fantasma só fantasma,
sem queimar a
pestana, fumava,
e fumava a
chuva, nódoa que avançava:
adeus à morta,
adeus ao corpo, adeus amante.
(rodrigues da silveira, 2018)
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
domingo, 30 de setembro de 2018
nina a ninar
a
menina nina o menino nino
dorme
dorme
vem
o boi comer a grama
vai
o boi passar o rio
dorme
dorme
dorme
que o sono vem
boi
cansado também dorme
boi
cansado nem para em pé
dorme
dorme
vem
o mano chamar o boi
vai
o mano dobrar o arado
cansado
dorme em pé
morre
no mesmo lugar
dorme
dorme
ê
teimoso que não dorme
ê
manhoso que não arria
dorme
dorme
vem
abraçar o menino
vem
embalar o menino
ê
mano do sono ê mão do sonho
nina
a menina o menino nino
(rodrigues
da silveira, 2017)
sábado, 29 de setembro de 2018
lasso
e devasso
da
última flor
arrancaram
um
palhaço bêbado
um
morto de palha
um
monte de tralha
um
paiol
juntaram?
os restos com as saúvas
à noite?
brincadeira de roda
a flor da fogueira
as cinzas desterradas
a língua viva
esses paspalhos
adubam as ossadas
com urina de serpente
querendo a nossa maçã? víbora!
(rodrigues da silveira, 2016)
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
em
carne vive
meu
verso é um vespeiro,
onde
me hospedo, aventureiro.
dele
não saio impune, não recuso as ferroadas.
dou
minha palavra, já que ninguém me defende de mim.
ataco-me
como cão ferido, possuído pelo mel dos raivosos.
dança
em mim o braseiro dos ferrões;
aperfeiçoado
pelo ouro dos sentidos, danço.
se
o verso começa de repente?
é
pra nada dizer além do gasto, ter a sua pantomima.
esse
poema diz tão pouco,
certo
de ter no controle a doçura da sua procedência.
querendo
em fogo brando o entendimento.
ai
ferrão, jamais seja desperdiçado.
pesa-me
o enxame, impondo-me outro poema?
na
vez das rosas, pedras.
(rodrigues
da silveira, 2016)
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
ideia pronta
cortar pela raiz,
faz o radical.
pensar sem parar,
faz o pensador.
sonhar acordado,
feito babaca.
(rodrigues da silveira, 2014)
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
poema útil
cale-se,
poema,
se
não tem nada pra dizer, cale-se.
pra
que ficar fazendo marolinhas
quando
o mar está infestado de tubarões?
quando
o céu não esconde estrelas mortas,
a
ignorância está nos olhos de quem pensa que o vê.
por
que insiste em querer tudo em ordem,
querendo
a quimera destrinchada.
com
a palavra certa no lugar certo, por quê?
se
nunca se arriscará saltar entre os trapézios,
pra
que colocar a rede?
poema,
perca o juízo, perca-se.
ao
menos uma vez, erre a mão e grite pela vida, a sua vida,
vamos,
poema, seja exemplar pelo exagero,
seja
pérola barroca, única na imperfeição.
vamos,
poema, não se deixe naufragar em plena praia.
(rodrigues
da silveira, 2017)
terça-feira, 25 de setembro de 2018
o príncipe dos mundos
amarremos
o cão andarilho
com
as palavras que permitam controlar os ganidos de dor,
para
que o lixo da noite seja recolhido.
e
a madrugada acorda sem poetas caídos da cama.
amamentemos
o cão maltrapilho
com
o leite entrevado de nossas mamas enrugadas,
para
que o caminhão possa passar.
e
a madrugada desponta sem poetas caídos na lama.
adornemos
o cão moradilho
com
as placas de letras gritantes de vende-se
para
que não queimemos de pronto aqueles barracos de vento.
e
a madrugada traz os poetas saídos da lama.
amemos
o cão fanfarrilho
que
nos salta sobre a carne das maçãs,
nós
que nos distraímos assuntando essa fome dos reinos.
e
a madrugada estraga os poetas traídos na cama.
pelamordedeus,
é preciso mostrar o pau?
(rodrigues
da silveira, 2016)
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
canto da carochinha
dentro
do barco
tem
um mapa
dentro
do mapa
tem
um oceano
dentro
do oceano
tem
uma concha
dentro
da concha
tem um palácio
dentro do
palácio
tem uma lâmpada
dentro da
lâmpada
o silêncio
abissal
(rodrigues da silveira, 2017)
domingo, 23 de setembro de 2018
coleira
perdida
não tendo por
focinheira o nome
não tendo por
sarna as esmolas
não tendo por
vacina as dentadas
não tendo por
dono o sono
cão sem pulgas tem
pulsado de ódio
ser poema não
distrai, concentra
(rodrigues da silveira, 2015)
sábado, 22 de setembro de 2018
um instantâneo do sublime
a
menina olha a borboleta
e
nem pensa, a beleza sabe voar.
a
menina não inventa um nome
pra
entender o que sente.
distraída
pela mãe que sempre sabe o que dizer,
a
menina nem viu aonde foi o encantamento.
(rodrigues
da silveira, 2016)
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
sono do menino
adormece,
os
monstros do oceano vão pra debaixo da cama.
o
vento dos sonhos espalha rochedos
entre
as penumbras dos brinquedos.
falta-lhe
fé, ó militante das falácias.
como
criança no pijama do seu paraíso,
vê
nítido o que vem.
vem
o monstro mais bonzinho, embora o mais feio,
o
único que se arrisca a caminhar na sua direção.
o
menino abre os olhos,
descobre-se
na cama, dá com o pasmo imenso do bicho.
o
monstro todo tímido:
olá... tudo bem... tome uma
flor.
sem
saber o que fazer,
o
olho pensa rápido pelo menino: come-a.
com
o arroto, ele acorda.
(rodrigues
da silveira, 2016)
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