lição primeira da vida
o que se revela, revela-se:
chegar à resposta sem perguntar?
com aquele ar místico de mistagogo,
fazer do rosto um pensador explícito,
coerente, indispensável.
cuidado! poema à frente.
sim, é preciso discernimentos
ao tratar com um poema,
as palavras à frente costumam fabricar-se
ajuntadas com lupa, besuntadas com carradas de
propriedade,
calibradas na brisa das mais nobres sensibilidades.
cuidado, primeiro. com o poema,
quando está dito, não está sendo dito.
olhe-me de cima, leia-me de cima,
o rosto aqui representado
está aqui representado.
deus do céu! é pegadinha.
quando o poema anuncia o rosto,
sequer há o que vir.
há-de se ver comigo, mostre-se!
cuidado, um segundo cuidado.
sou esperto, tenho experiência, sei desler.
leio nas entrelinhas, desconstruo o poema,
desmembro
as artimanhas do poeta.
poema algum me prende nos versos, viu?
ler o poema separando-o em versos...
livrado o leitor dos espaços pantagruélicos,
minotáuricos,
ectoplasmáticos que pulsam entre as letras,
e se expulsam a leitura pra dentro de
uma mesma letra, umazinha?
cuidado, cuidado, cuidado.
o poema esconde o que revela,
o poeta revela o que esconde.
o revelado do poeta está recôndito no poema.
talvez devêssemos, nós dois,
avisarmos de antemão, é que nestas linhas:
o cão do poema mija no chão.
(rodrigues da silveira, 2018)