sábado, 22 de setembro de 2018


um instantâneo do sublime


a menina olha a borboleta
e nem pensa, a beleza sabe voar.

a menina não inventa um nome
pra entender o que sente.

distraída pela mãe que sempre sabe o que dizer,
a menina nem viu aonde foi o encantamento.

(rodrigues da silveira, 2016)


quarta-feira, 19 de setembro de 2018


sono do menino


adormece,
os monstros do oceano vão pra debaixo da cama.
o vento dos sonhos espalha rochedos
entre as penumbras dos brinquedos.

falta-lhe fé, ó militante das falácias.

como criança no pijama do seu paraíso,
vê nítido o que vem.
vem o monstro mais bonzinho, embora o mais feio,
o único que se arrisca a caminhar na sua direção.

o menino abre os olhos,
descobre-se na cama, dá com o pasmo imenso do bicho.

o monstro todo tímido:
olá... tudo bem... tome uma flor.

sem saber o que fazer,
o olho pensa rápido pelo menino: come-a.
com o arroto, ele acorda.

(rodrigues da silveira, 2016)

terça-feira, 18 de setembro de 2018


o corpo devorado


não lembra a primeira palavra
do primeiro poema.

nem se lembra se pensada
ou logo escrita.

dói atirar-se ao corte antes do curativo.

a primeira palavra parece encantada,
latejando ainda,
querendo vir pelo grafite do lápis.

nem é bom querer lembrar-se,
só se está querendo ter febre, certo?

o primeiro poema que nunca será escrito,
sempre será lembrado.

e como dói.

(rodrigues da silveira, 2016)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018


eu topo


meio copo
meio tonto

meio certo
meio ponto

meio perto
meio longe

meio santo
meio monge

esse tanto?

(rodrigues da silveira, 2015)

domingo, 16 de setembro de 2018


o xis da questão


o poema não acaba
depois de lido

depois de lido
começa

(rodrigues da silveira, 2014)


sábado, 15 de setembro de 2018


alerta de consciência


ele fala em alma
como quem diz
cães ganindo à noite

ele fala em culpa
como quem traz
fósforos apagados

ele fala em redenção
como quem espera
a queda da maçã

ele fala em carne
como quem aprende
as equações do lamento

ele fala em esperança
como quem sabe o que diz

tatibitate é esperanto?

(rodrigues da silveira, 2014)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018


gozo, o palhaço reprimido


o poeta é um gozador
e goza tão seguidamente
que toma posse da fingida satisfação
gozando à mão de outra pessoa

o poeta é um gozador
e possuído nessa carne de segunda
finge tão bem o gozo que não tem
que muitos gozam também

o poeta é um gozador
e não deixa o riso engasgado na garganta
revelando-o com todos os dentes

o poeta é um gozador
e se pode rir sem tanto siso
por que gozar apenas com um sorriso?

(rodrigues da silveira, 2014)

quarta-feira, 12 de setembro de 2018


mão amiga


quando deus está pescando,
o diabo está de luto.

quando o diabo sobe a montanha,
deus brinca com as crianças.

quando deus fica parado,
o diabo fica vibrando.

quando o diabo reclama de tudo,
deus chama seus anjos.

quando deus visita o inferno,
o diabo lustra os chifres.

quando o diabo entende o recado,
deus inventa outro pecado.

(rodrigues da silveira, 2016)

terça-feira, 11 de setembro de 2018


lição primeira da vida


o que se revela, revela-se:
chegar à resposta sem perguntar?

com aquele ar místico de mistagogo,
fazer do rosto um pensador explícito,
coerente, indispensável.

cuidado! poema à frente.
sim, é preciso discernimentos
ao tratar com um poema,
as palavras à frente costumam fabricar-se
ajuntadas com lupa, besuntadas com carradas de propriedade,
calibradas na brisa das mais nobres sensibilidades.

cuidado, primeiro. com o poema,
quando está dito, não está sendo dito.
olhe-me de cima, leia-me de cima,
o rosto aqui representado
está aqui representado.
deus do céu! é pegadinha.
quando o poema anuncia o rosto,
sequer há o que vir.
há-de se ver comigo, mostre-se!
  
cuidado, um segundo cuidado.
sou esperto, tenho experiência, sei desler.
leio nas entrelinhas, desconstruo o poema, desmembro
as artimanhas do poeta.
poema algum me prende nos versos, viu?
ler o poema separando-o em versos...
livrado o leitor dos espaços pantagruélicos,
minotáuricos,
ectoplasmáticos que pulsam entre as letras,
e se expulsam a leitura pra dentro de
uma mesma letra, umazinha?

cuidado, cuidado, cuidado.
o poema esconde o que revela,
o poeta revela o que esconde.
o revelado do poeta está recôndito no poema.

talvez devêssemos, nós dois,
avisarmos de antemão, é que nestas linhas:
o cão do poema mija no chão.

(rodrigues da silveira, 2018)


segunda-feira, 10 de setembro de 2018


fundamentos morais para a sobrevivência


sem surpresa, o tédio me assombra,
funda essa febre que não passa.

sei bem obedecer às regras:

depois de acordar, espreguiçar-me,
para que a noite não se apegue tanto ao meu dia;

depois das espreguiçadas, levantar-me,
para que o dia trate de apoderar-se dos ossos;

depois de levantar, tomar café;
depois do café, escovar os dentes;

depois, deveras acordado, vou pro esperado
─ ganhar a vida na lida mais renhida.

agora, não vou negar nem nada,
sei muito bem que tenho lugar no mundo.

faltam-me apenas, e tão somente,
um emprego, o que comer, e a tal cama.
cachorro eu já tenho.
  
o resto?
tudo em ordem, num progresso só.

em febre baixa, este meu corpo nem
pede remédios; o corpo cede
à paz o descanso, a tal recompensa
do sono, um sono bom, sem sobressaltos,
sem os pesadelos, sem certos sonhos,
a quimera sem monstruosidades,
deformações, informações, sazões.

à margem do atalho, prisioneiro da liberdade?
o feito do desfeito, por desfeita:
amanhã, outra vez, amanhã.

o amanhã não começa noutra manhã.

(rodrigues da silveira, 2018)






domingo, 9 de setembro de 2018


o louco da vez


despido dessa gramática do meio-dia,
duma lógica vernacular, lapidar, exemplar.
o que deu nesse homem?

um emérito comedor de rabanetes,
levados consigo num vasinho pintado a dedo.

o que houve?

dizem que o vento da lua cheia
bateu nos tímpanos, cantou
a nidificar, multiplicar ideias nadificantes.

dizem, ai pobre-diabo, como dizem.

no cão posto como sombra de si,
rodopiante, circunvirante, buscador,
tendo a cauda já evoluída, só um ossinho.

iluminado de pinga;
então o bom homem rola no chão,
dissipado pra luares, borboletas, louros,
pros olhares quatrocentões.
  
ei! nada de chamar o nosso homem
de cínico, cão das ruas.

embora passe a fingir-se de torto,
capaz de mãozadas nas vitrines recatadas,
até a querer-se um incendiário gago,
da pedra na pedra, bem poderia o tosco, até...

o homem bom, espelho dos naturais desenterrado,
é arbusto seco, é lama seca, rio evaporado.

aquando
o lugar do instante dá um instante ao lugar,
é em razão das palavras enraizadas
na névoa cristalina além da íris, do opaco do leite;
adonde
ele acorda e desanda a andar em voz alta,
célere a dormitar o silêncio no cérebro.

será pela graça de haver-se dessa laia, um chalaça.

(rodrigues da silveira, 2015)


sábado, 8 de setembro de 2018


poema desgraçado


não tem graça pensar a chave
se não houver fechadura.

não tem graça pensar o fio
se não houver meada.

não tem graça pensar o alho
se não houver bugalho.

não tem graça pensar o olho
se não houver o cisco.

não tem graça pensar a música
se não houver o silêncio.

não tem graça pensar a palavra
se não houver sentido.

não tem graça pensar a ideia
se não houver pensamento.

(rodrigues da silveira, 2015)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018


as labaredas da alma


como ninguém entende o que diz o rato,
trazem a ratoeira com o seu melhor queijo,
armam com cuidado, bastante esperançosos.

como ninguém atende o que bate à porta,
fazem uma fogueira com o seu melhor graveto,
amam com recato, assaz temerosos.

como ninguém apreende o que falta no rosto,
rezam em uníssono com a sua melhor intenção,
falam com vigor, muito entusiasmados.

como ninguém compreende o que brilha lá fora,
rogam pela morte com a sua melhor ilusão,
calam com rigor, ensimesmados bastantes.

a formiga ignora o açúcar do poema, ignora
também a celulose, a brancura, a superfície, e segue
no seu papel de formiga,
e na sua natureza, a que pouco sabe de si,
isso basta. e isso, minha gente, isso não basta.

(rodrigues da silveira, 2017)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018


frêmito


passou por você
e foi adiante
sentiu o fantasma
enregelando-lhe a língua

travou o amargor
em sua língua de pedra
provando da alegria
o horror da plenitude

arrepia até suas retinas
concentrando o asco nas papilas
sem nada vir

o que passou
passou e foi adiante
sentiu a poesia
sentiu-se fantasma

como lúcifer, daríamos
as asas para voar?

(rodrigues da silveira, 2016)

sexta-feira, 31 de agosto de 2018


pianíssimo


o batalhão de folhas proferindo a formação:
em branco venceremos!

a voz do poeta preferindo sua multidão de espectros sem camisa.
as folhas acusam o poema de mendigar amores.

a chama do poeta na cumbuca do vizinho.
são versinhos a sua recusa.

o poeta não veio à luz pelo que escreveu.
as folhas não perderam o controle.

o poema que não pede para ser escrito,
mas é.

a calmaria segue firme, segue em frente.

(rodrigues da silveira, 2015)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018


o prático da mensagem


é-me tudo o meu nada,
que sou humano. falo da vida,
esta face tem por máscara o meu rosto.

é-me nada o meu tudo,
que sou humano. falo da morte,
o trágico tem por oceano o meu corpo.

barco nas correntezas do azar:
naufrago quando canto; quando calo, emerjo.
faço comédia quando troco um pelo outro,
humano que sou.

(rodrigues da silveira, 2018)


quarta-feira, 29 de agosto de 2018


a descoberto


esquecido numa gaveta, o bilhete.
perdido na sua luz, não encerra
a sua mensagem numa vergonha
de ser lido, nessa outra vez.

não se sabe se portador
de algum crime, algum pecado?
de juras de amor nefasto,
ou belo, algo incestuoso?

tornado inédito pelo encontro inesperado,
aquele lume obscurece o olho que não o decifra.

suas entrelinhas a fazer água.

caravela de papel,
não se faz navegante,
conhecida dos mares,
não vela umas audácias,
é luz de outras eras;
na espiral das esferas,
é mensagem obscura,
alheia ao imo do céu.
  
sem saber dos aspirantes aventurosos
nem das dores que sangram daquele corpo,
a memória traça desconhecido o mapa.
sua mera curiosidade afoga os navegantes ardorosos,
perpetradores de um amor além das palavras;
seu irritante desembaraço diante daquele troço
mutila os amantes aplicados,
despudoradamente carnais pros limites de umas linhas.

na sua lenda sem legenda,
desembarcadas no meio desse quarto mortiço,
eis as águas incomunicáveis.

forasteiro do mar, o seco nas articulações cordiais,
o bronco anil de umas não prorrompidas pneumonias
─ o neto a boiar sobre os avós.

o homem que merece não recebe pelo que percebe,
seus haveres. o oceano do amor não dorme sonos caligráficos.
o outono? ao canhestro tuberculosamente incurável:
andar no torto não faz xucro alguém ridículo.

(rodrigues da silveira, 2016)