Era no tempo do rei; na corte, entre
damas e cavalheiros, vivia uma pessoa a quem lhe destinaram o poder de falar
sem medo; a ninguém, todavia, ocorreu que à pessoa autorizada a falar sem medo
ocorresse de ter medo de não ter nada para falar ou, pior, falar besteira.
Houve esse dia, constrangedor, de olhar sem
ter palavras pra dizer o que fervilhava na alma, com as formigas da aflição devorando
esse cadáver, a sua sombra, pois ela, neste instante revelador, tão somente
fazia sombra de si.
O rei, a rainha, o príncipe, os
cortesãos, os alcoviteiros, as amantes, os amantes, os palpiteiros, eles todos
pegaram temer essa pessoa que podia tagarelar, temeram-na porque deu de não
refutar à vontade nem mesmo os elogios que iam sendo ditos, espalhados e
confirmados pelo silêncio, com esse viés perturbador.
Como era previsível, a pessoa que tinha
o poder de falar sem papas na língua começou a ler longe dos outros, pegou
gosto de passar horas lendo onde as gentes sequer a imaginavam estar.
Por óbvio, logo que houve a confirmação
de que não era boato, que realmente a pessoa que poderia falar o que bem
quisesse encontrava-se neste estágio de isolamento, foram à biblioteca, ela não
estava, no telhado, também não, no jardim, nem um fio de cabelo foi encontrado,
no caramanchão a quatro passos do riachinho, necas.
Para abreviar o suspense, o príncipe
intuiu que a pessoa que podia falar o que quisesse bem que podia estar largadona
na sua cama.
O rei, a rainha e o pajem que torcia para
o príncipe nunquinha virar rei bateram à porta de onde se julgava estivesse quem
que se revelava ser a pessoa mais bem preparada do reino para esconder-se de
bocas e olhares da referida matilha. Quem podia falar como bem achasse ser o seu
dever de falar, contudo, não estava no seu quarto.
Sem detença, o rei, a rainha e o pajem
do príncipe foram ao jardim pedir esclarecimentos ao rapaz que nunquinha
haveria de sentar-se no trono do pai.
Fora do labirinto, deram com o herdeiro
e um rapazote, cujos braços doíam pelo tanto de pratos que houvera arremessado ao
alto.
O filho estava chumbadinho, pois, a cada
vez que um tiro resultava certeiro, ele celebrava com bicadinhas na birita.
― Príncipe, a pessoa que tem o direito e
o dever de dizer a verdade não estava no seu quarto, sendo falsa a afirmação de
vossa graça.
Bastante alegrinho pra não ter medo do
pai, da mãe e da patota que tanto o estimava quando sóbrio, plácido e faceiro, o
principezinho riu-se do equívoco, porque a pessoa que possuía o direito de ler
onde bem quisesse estava no seu quarto, dele, do flagelo dos pratos.
Bateram na porta do príncipe, mas bateram
em vão.
O rei ordenou que abrissem a porta.
Aberta a porta, viu-se que a pessoa que
devia falar a verdade, nada mais que a verdade usava luvas de tricô.
Resgatada do silêncio, disse:
“Será possível que a gente nem pode
ler?”
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de maio de 2025.