quinta-feira, 22 de maio de 2025

Soberba humildade

 

Soberba humildade

 

Era no tempo do rei; na corte, entre damas e cavalheiros, vivia uma pessoa a quem lhe destinaram o poder de falar sem medo; a ninguém, todavia, ocorreu que à pessoa autorizada a falar sem medo ocorresse de ter medo de não ter nada para falar ou, pior, falar besteira.

Houve esse dia, constrangedor, de olhar sem ter palavras pra dizer o que fervilhava na alma, com as formigas da aflição devorando esse cadáver, a sua sombra, pois ela, neste instante revelador, tão somente fazia sombra de si.

O rei, a rainha, o príncipe, os cortesãos, os alcoviteiros, as amantes, os amantes, os palpiteiros, eles todos pegaram temer essa pessoa que podia tagarelar, temeram-na porque deu de não refutar à vontade nem mesmo os elogios que iam sendo ditos, espalhados e confirmados pelo silêncio, com esse viés perturbador.

Como era previsível, a pessoa que tinha o poder de falar sem papas na língua começou a ler longe dos outros, pegou gosto de passar horas lendo onde as gentes sequer a imaginavam estar.

Por óbvio, logo que houve a confirmação de que não era boato, que realmente a pessoa que poderia falar o que bem quisesse encontrava-se neste estágio de isolamento, foram à biblioteca, ela não estava, no telhado, também não, no jardim, nem um fio de cabelo foi encontrado, no caramanchão a quatro passos do riachinho, necas.

Para abreviar o suspense, o príncipe intuiu que a pessoa que podia falar o que quisesse bem que podia estar largadona na sua cama.

O rei, a rainha e o pajem que torcia para o príncipe nunquinha virar rei bateram à porta de onde se julgava estivesse quem que se revelava ser a pessoa mais bem preparada do reino para esconder-se de bocas e olhares da referida matilha. Quem podia falar como bem achasse ser o seu dever de falar, contudo, não estava no seu quarto.

Sem detença, o rei, a rainha e o pajem do príncipe foram ao jardim pedir esclarecimentos ao rapaz que nunquinha haveria de sentar-se no trono do pai.

Fora do labirinto, deram com o herdeiro e um rapazote, cujos braços doíam pelo tanto de pratos que houvera arremessado ao alto.

O filho estava chumbadinho, pois, a cada vez que um tiro resultava certeiro, ele celebrava com bicadinhas na birita.

― Príncipe, a pessoa que tem o direito e o dever de dizer a verdade não estava no seu quarto, sendo falsa a afirmação de vossa graça.

Bastante alegrinho pra não ter medo do pai, da mãe e da patota que tanto o estimava quando sóbrio, plácido e faceiro, o principezinho riu-se do equívoco, porque a pessoa que possuía o direito de ler onde bem quisesse estava no seu quarto, dele, do flagelo dos pratos.

Bateram na porta do príncipe, mas bateram em vão.

O rei ordenou que abrissem a porta.

Aberta a porta, viu-se que a pessoa que devia falar a verdade, nada mais que a verdade usava luvas de tricô.

Resgatada do silêncio, disse:

“Será possível que a gente nem pode ler?”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de maio de 2025.


terça-feira, 20 de maio de 2025

Asas de açúcar

 

Asas de açúcar

 

Conversam sobre viagens ― fulano diz que prefere alugar carro pra fazer como bem entende o roteiro planejado; para conhecê-lo o mais que possa, beltrano viaja pelo Brasil; já sicrano saiu-se com essa:

― Uma vez fui a Salvador, mas eu não tive nenhum medo de andar de alemão.

Por ser pessoa retraída, sequer cogitou a retratação.

Se soubesse a que o levaria aquela fleuma, provavelmente teria ido à lanchonete descalço, teria parado para pensar, pensaria nos efeitos, teria recolocado o tênis, teria tirado as meias encharcadas, teria ficado na lanchonete, teria evitado zanzar na chuva, na calçada, teria evitado pisar nas poças, evitaria chapinhar as poças da calçada.

Se soubesse que o tomariam por abobado, certamente teria ficado em casa, o contentaria ver tevê, em ler as últimas postagens, em curtir as fotografias daquela gente que viraliza sorrisos.

Ao se sentir ansioso, deriva por escassa sensatez.

Se contasse que a chuva faz tossir, já que chovendo o frio aumenta, teria vestido uma blusa, teria vindo de botas, teria saído a fim de achar umas galochas, teria entrado nas lojas, até que achasse aquelas botas de pescador, um macacão que suba aos sovacos.

Se ligasse pro frio, não ficaria de meias molhadas, tiraria as meias, não ficaria zanzando em frente da lanchonete, indo à esquina, não iria de novo à esquina, até calçaria os tênis, mas eles sumiram, não estão mais onde estavam, que estavam debaixo da mesa.

Mas não quer sair para comprar outro par.

Se soubesse que é pouco usual roubar de volta o que lhe pertence, não teria comido aquela porção de fritas, teria tomado quatro latinhas a menos de guaraná, teria grana para resgatar o tênis, teria falado pro ladrão que compraria de volta o par que surrupiara.

Se fosse menos fracote, apanharia menos, teria a coragem que lhe falta, impressionaria quem tenha afanado o tênis, teria impressionado quem sabe ser truculento, saberia ser valentão, teria vencido sem nem mostrar muque, cara de mau, o sorrisinho do diabo.

Mas chovia, fazia frio, as meias estavam frias, molhadas, precisava comprar outras meias ou outro tênis, não a sombrinha do Pateta.

Se ficasse bravo quando o chamam de idiota, pensaria em sair atrás do chapeuzinho com hélice no cocuruto, teria ido atrás do chapeuzinho da hélice que roda quando venta, provavelmente teria parado de fazer bola de chiclete nem ficaria estourando tais bolas.

Se pensasse que o melhor pra si era ter ficado vendo tevê, teria ido descalço à lanchonete, exibiria as unhas, todo mundo teria sabido que precisava cortar as unhas, principalmente mostraria a nova tatuagem que tem no pé, porque o tempo é tripartite, a tatuagem tem gaivota pro passado, pro presente e para o passado que virá.

Mas as meias ensopadas diminuem o atrito, tanto o diminuem que, patinando até cair, ele voa baixo na lanchonete.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de maio de 2025.

domingo, 18 de maio de 2025

Aftas ardem

 

Aftas ardem

 

A pessoa parada na esquina; desfaça-se a ilusão, uma vez que não está parada, embora esteja imóvel, seu olhar não é de peixe morto, é de gente que luta para manter-se lúcida, lucidamente observadora do movimento de automóveis, ciclistas e cães.

Assim a vida vai, assim a vida vem, assim a vida vê a pessoa.

Paralisada por estar estupefata pela compreensão de que o vaivém da vida não está particularmente influenciado por enxergá-la, a pessoa na esquina espera que venham aborrecê-la, conta que não a ignorem, espera que ofereçam meia dúzia de balas por dois reais, conta que não venham pedir trocado quando for espirrar.

Tivesse espirrado, viriam vender balas, correriam pedir informação, qualquer informação, até onde fica a farmácia mais próxima, onde fica a loja de brinquedos pedagógicos, para que lado fica a praça da matriz, a lotérica, a revendedora do milhão, do baú, da bet dos bilionários.

Houvesse espirrado, seria pessoa a não fazer charminho, querendo viralizar o quão milionária será, porquanto espere, espere, espere que o vaivém da vida seja mais que automóveis, ciclistas e cães.

Assim a vida vem, assim a vida vai, assim a pessoa que espere.

A pessoa esperando na esquina sonha que não cochila nem dorme, ela quer renascer, sonha em reconstruir-se outra, quer-se reconstruída rica, famosa, tornada uma celebridade por muitos reconhecida.

Atchim!

Espirra para que acorram, espirra para que os cães ladrem, espirra para que ofereçam a salvação, repousem a bíblia debaixo da palma da mão, espirra que espirra, certa que saberão julgá-la pelo pensamento de tornar-se o boneco que dará voz ao sonho de ser transformada, que lhe tragam bolo, roupinhas, cantem-lhe os parabéns pela pele made in Confúcio, estupidamente realista.

À pessoa revestida não esteja dispensada de ideia puxando outra, até que o engano fique invisível, que nem cicatriz bem costurada.

De engano em engano, ainda que espirre para provocar os cães, a pessoa acordada, em pé na esquina, tem memória, até memórias que lhe são estranhas, mal cicatrizadas, pústulas latejantes.

Apesar do Eclesiastes, a pessoa sabe que o instante de apostar e o instante de chorar hão de cobrar-lhe que aposte mais, chore mais e que tudo mais vá pro beleléu.

Depois de tantas manhãs perdidas, numa bela tarde de outono, isso depois da pandemia, decidiu-se a pessoa que largaria a bebida.

Tomada a decisão, resiste, bebe dos sonhos, sobrevive aos sonhos ruins, mantém a palavra, prefere sonhar na esquina, segue bebendo a cervejinha que a vida sonha que ela não bebe.

O sujeito aparece, quer que experimente uma fatia, diz que abacaxi não dá afta, insiste que morda, insiste que coma, mas o sonho menos perturbador é ir-se embora.

Quando lhe der essa vontade de mijar, não aposte contra si.

Inconsequente sonâmbulo, urine na canela desse cão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de maio de 2025.


quinta-feira, 15 de maio de 2025

O vingador desmascarado

 

O vingador desmascarado

 

Tanto faz, você entenda certo ou escute como queira. É indiferente, Onofre, porque o melhor seria você ter ficado quieto. Mas, fazer o quê, essa coceirinha na língua é mesmo forte, faz você querer falar, querer explicações, exigir que a verdade seja dita.

Cruamente, você errou ao intransigir, fez as pessoas recordarem a criança que foi, pelas quantas maluquices que foi capaz de fazer, como se as tantas coisas bizarras fossem obra de gente folgazã.

Onofre, pessoas comuns não pegam fita métrica pra medir rua, isso você fez e a isso deu justificativa, pois a sua mãe disse que bater perna não era vadiação, era trabalhar na prefeitura, então, você foi pondo fita métrica na calçada, pra medi-la metro a metro.

Se tivesse graça na sua brincadeirinha, você começaria a medição pela rua da sua casa, mas você tinha de começar pela principal rua da cidade, pois, havendo mais gente, passando mais carros e a sua mãe sabendo da sua traquinagem quando, à noite, voltasse da escola onde trabalhava, então, ficava garantida a peraltice da tarde toda.

Isso se a gaiatice não começasse logo cedo, Onofre. Tenho certeza que muita gente não deve ter esquecido as vezes em que você, pê da vida com sua mãe, que era realmente uma baita de uma mão de vaca, você pegava o chapeuzinho de palha de dançar quadrilha, sentava-se à porta da casa do vizinho e, como se não fizesse nada de vergonhoso para os seus e para si, você pedia esmola.

Caso a memória ande avariada pelos alambiques que já entornou, permita-me ajudá-lo, Onofre, que você não juntava as moedinhas para que a sua família pusesse bisteca na mesa, era para comprar tubaína, bala e aqueles glamorosos cigarrinhos de chocolate.

Não finja que não quer passar a perna, pois essa cara de sonso não engana, você entende, sim, a que ponto eu quero chegar.

Das tantas humilhações, jamais o perdoarei daquela vez do vinho, porque não bebi sozinho a garrafa, mas, panaca como sempre, eu não consegui fugir a tempo e tive que levar cascudos no cocuruto, tive que apanhar de cinta e tive que ficar ajoelhado por dez ave-marias e trinta pais-nossos, com você passando de magrela pela porta da igreja.

Mas você sabe ser o sujeito bacana que tem a palavra certa quando ninguém sequer me pergunta se não sou o sortudo cujo destino é estar no lugar errado e no momento errado, como se tivesse nascido e sido criado para continuar no lugar errado, no momento errado.

Sim, Onofre, você não está errado em achar que sou uma pessoa de segunda classe. Sou esse camarada que, viajando em pé, sonha em viajar na janela. Sou esse sujeitinho que, ainda que me faltem cinco reais pra inteirar a passagem, espera pegar o ônibus lotado.

Para seu próprio bem, Onofre, não insista, volte para casa, não tem graça você ficar pensando que pode pagar o maço de cigarro com esse punhado de balas que te dei de troco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de maio de 2025.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Choro sentido

 

Choro sentido

 

Eu tento, quero ser agradável o mais que eu posso. Sobre ser uma pessoa legal, que agrega, que não desperta o pior nos outros, isso para mim é algo que posso fazer, que consigo fazer, sem que me ache uma pessoa falsa, trapaceira, que procura camuflar-se de bonzinho, simpático, que é ardilosa a ponto de gerar desconfiança nos demais.

Eu acredito que sei mesmo como ser um sujeito bacana.

Ao longo da vida, venho aprendendo a ser um cara afável; acho que tenho sabido me virar com os perrengues, com as decepções, sem que tudo fique pior, porque, sendo bom e fraterno, tudo pode seguir sendo como é, do jeito que o mundo se apresenta a mim.

Quando é melhor não falar nada, não falo.

Com as muitas situações pelas quais passei, desde pequeno, tenho aprendido a lidar com as pessoas. Sem as magoar, sem as adular pelo pior que elas tenham a oferecer, procuro ser diplomático, educado, sou o melhor que posso ser, agindo de acordo com as circunstâncias.

Fui criado num lar de gente austera mas bem-humorada, é isso que me faz optar pela sobriedade dos justos. Mesmo que transpareça que sou implacável, inflexível, inconvenientemente intransigente, opto pela verdade de ser quem sou, porque eu sei quem deva ser.

Poderia ser um exibido, um chato sabichão, mas prefiro observar e intervir quando a minha isenção é de fato necessária, para que a coisa desande, a situação se complique, quando acabarei sendo visto como pessoa omissa, cúmplice, um comparsa.

O tempo todo, a vida ensina que o melhor a ser feito é ser o menos patético, o menos escalafobético, o menos destrambelhado que posso ser, e queira ser. Portanto, eu quero e eu posso ser essa pessoa gentil que, ao notar que serei inconveniente, recue e repense.

Sim, é preferível ser amável, ser uma alma adorável.

Quando era garoto, me arrumaram um cachorro.

É provável que os meus pais tenham ouvido a opinião da babá, que, brincando com o bicho e correndo, pulando, rolando no chão e fingindo de morto, isso seria bom pra mim.

O que a babá e meus pais não previram é que me apegaria ao cão. Afeiçoado a ele, passei a tomá-lo um membro da família. E gente igual a mim não poderia andar pelado, mostrando suas vergonhas, foi então que passei a vesti-lo.

O meu irmãozinho tinha que ser apresentável, tinha que deixar claro o quanto era importante, tinha que mostrar que era parte da família.

À custa de muito choro e cabeçada na parede, consegui demonstrar aos meus pais que era natural que meu irmãozinho exibisse ao mundo a sua nobreza, a sua realeza, a sua verdadeira beleza.

Então, eu tinha orgulho de passear com ele. Eu percebia que o meu irmãozinho deixava todo mundo com inveja dele e de mim, porque era eu quem o conduzia.

E o mal venceu! Houve o dia em que foi atropelado.

Tento não chorar, mas ficou impossível vê-lo novamente esplêndido como Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de maio de 2025.

domingo, 11 de maio de 2025

Rapidinhas

 

Rapidinhas

 

Uma coisa estranha acontece. Há adolescentes na biblioteca; estão em silêncio; todos usam fones de ouvido; cada um deles tem a cabeça arcada na direção da tela do telefone. Embora pareça improvável, tem esse aluno esquisito, que está quieto e concentrado como os demais, mas, sentado numa cadeira, apoiando os cotovelos na bancada, sem sequer mascar um chicletinho, ele está lendo. Isso é bem esquisito, ter esse aluno que ficará lendo até que o sinal toque e a classe se revolte que a aula tenha terminado, mas, pessoal, toda aula boa tem sempre que ser interrompida.

 

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― Tem dez segundos, irmão?

― Obrigado por ter-me escolhido, mas não vou comprar nenhuma revista gratuita, mesmo que você insista que ela é gratuita.

― Paspalho!

 

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Naquela época, durante o papado de Paulo VI, a vida tinha perigos. Para chegar na escola, era preciso andar quinze minutos, era preciso subir um lado do morro e descer o outro, era preciso ir adiante mesmo que os cães latissem, se aproximassem e arreganhassem os dentes. E o maior combate era ignorar o homem do carrinho ao lado do portão, pois ele oferecia pipoca, algodão doce e figurinhas da copa, de todas elas, até daquelas copas, ó tentação!, que o Brasil perdera.

 

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Quando a gente reza para que nada aconteça, nada acontece.

 

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― Onde é que fica o Peru?

― Fica looonge, professooora, beeem looonge!

― Não, meus anjos. Ele fica na nossa amada América Latina.

― Não, ‘fessora. Lá em casa, o peru fica na geladeira.

 

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Para júbilo mundial, a fumaça branca do Vaticano anuncia que está eleita a pessoa a ficar obrigatoriamente ausente do próximo conclave.

 

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Naquela época, durante o papado de Paulo VI, a minha casa tinha mistérios. Eu bebia um copo de leite, comia bolachas, ficava vendo TV e, num átimo, era hora de beber o copo de leite quente, comer bolachas e, com chuva ou sem chuva, pôr o uniforme da escola.

 

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Há aves no telhado. Pela foto, o buscador identifica, são gaivotas. “Melhor seria que batesse asa”, diz o poema. “Talvez o erro fosse meu também”, prossegue o poema. “Afinal não há lá muita razão em querer silenciar qualquer canção”, diz o poema de Robert Frost, cuja tradução, de Gabriel Campos Medeiros, pode ser encontrada na internet.

 

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Naquela época, durante o papado de Paulo VI, o Peru ficava longe, tão longe, que nunca soube que existia. Nunca houvera escutado que peruanos eram os bravos que civilizaram Machu Picchu. Nunca fiquei sabendo que era para ter cuidado com esses índios, pois nem sempre o National Kid estava disponível pra proteger dos malvados, daqueles seres abissais que a tevê dizia que viviam nos subterrâneos, uma vez que eles, esses Incas Venusianos, eles é que eram os perigosíssimos guardiães da Imperatriz Aura, eram os reais, verdadeiros e espantosos inimigos da minha meninice.

 

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Por falar em pombas, meu coração cordato não me quer afoito, uma vez que, posso admitir, essa alma me sabe ser colérica.

Não quero precipitar-me, atirar-me no abismo que o meu ser interior abre quando sinto a iniquidade de quem quer avivar esse fogo obscuro que se alastrará indomável assim que me precipite.

Sabendo que as aves quase encostadas na chaminé do telhado da Capela Sistina são gaivotas, mesmo que circule nas redes esse poema que prega o escândalo, fico sem motivo para esculhambar esse poema radicalmente afrontoso a quem tem a fé católica.

Certo da minha paz, não viralizarei a blasfêmia, não compartilharei os versos que comparam o Espírito Santo a uma pomba, que O dizem ser “uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo”, porque Ele “coça-se com o bico e empoleira-se nas cadeiras e suja-as”, o cabotino do poema diz que “tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica”.

Seguro da minha paz, tenho fé no que sossega e faz-me perguntar: haverá quem tenha ouvido falar em Alberto Caeiro?

 

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― Mãe, são pombas no telhado?

― Filhotinho da mamãe, que pombinhas mais diferentes...

― Mãe, posso dar uma estilingada nelas?

― Elas têm esse gosto do calorzinho da chaminé...

― Mãe, eu pego as mamonas?

― Pombas normais não vivem em telhado...

― Quede ele, mãe? Me devolve o estilingue, mãe.

― E as nossas pombas, filhote, moram em árvore, fazem ninho nas árvores da praça, mas essas daí, concorda que elas ficam engraçadas, assim, tão recatadas na televisão?

 

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Naquela época, durante o papado de Leão XIV, o otimismo me faz contar com a previdência que, ainda que demore até amanhã, o justo cobrará a restituição do que se há subtraído, pois, convocados e, sob juramento, ouvidos, hão de vir os entes consignados como Mãe Dináh, Walter Mercado e Jorgina Maria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2025.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Chuleta bem temperada

 

Chuleta bem temperada

 

Com a luminosidade do meio-dia atrapalhando que eu visse TV, era pra puxar a cortina, mas o que mais prejudicava encarar-me era pensar na festa que eu dei ontem, fechei o vidro.

Normalmente, considero imperativo e inegociável tirar o domingo só para passear com os cachorros, escutar música, sentar na varanda se vem gente falar de alegrias alcançadas e alegrias por alcançar.

Considerado, domingo é dia pra humanidade ficar cindida entre as pessoas que, sem deixar descarregado o celular, se alegram do estado da arte e gente que, ainda que nem se perceba alegre, reclama de ter os braços exauridos pelo tanto a que se entrega.

Gente da minha laia, considerado, não esquenta que o céu desabe na cabeça, pois havendo um galo, gelo nele.

Só alegrinho confesso gostar de assistir quem se lamenta; às vezes me esforço para não rir, às vezes vem o riso descontrair.

Considerado, me julgue como bem você me compreenda, pois isso a mim não me convencerá a mudar de opinião, que é divertido assistir à humanidade que luta para salvar-se, curar-se, remediar-se.

São fascinantes os garranchos que balconistas não têm dificuldade alguma em materializar em ansiolítico, sonífero ou antidepressivo?

Uma festa tem momentos que a minha mente precisa e não precisa experimentar, mas uma festança me faz extrapolar.

Antes da festa, horas antes do início da festa, veio uma amiga que nem previa que viesse, pois mal me lembrava que a conhecia.

E ela chegou preparada: trouxe vinho e uma boca disposta a beber comigo o quanto eu quisesse.

Já que chegou cedo, ela viu que eu ainda nem tinha arrumado nada. Ela entendeu que sua visita deu-se em momento oportuno, porque me ajudaria a manter tudo desarrumado.

Não deixamos o tapete da sala nas condições anteriores à segunda taça de vinho. Não fechamos a cortina da sala como seria apropriado que o fizéssemos. Não paramos de não fazer nada que uma visita não tinha que fazer, porque eu não previra, afinal, aquela visita.

Rapidinho eu entendi o propósito do conhecimento que passaria a ter quando o domingo deixasse de ser domingo.

Era domingo. Era o melhor dia da semana pra se deixar ser ajudado por uma pessoa disposta a beber vinho, pôr fogo na churrasqueira, pôr a carne na grelha, virar a carne para não ser queimada, cantar, dançar, rir de piada engraçada e rir de quem não sabe ser engraçado.

Domingo foi mesmo ontem, e isso não tenho como negar; é melhor que eu reconheça que a festa acabou, até porque o copo transbordar com a torneirinha do filtro ainda aberta é evidência de que água é boa para fazer a gente concordar que ontem foi bom, foi divertido, foi aquilo que eu nem contava.

Rapidinho, portanto, digo que hoje é segunda, digo que o sol brilha porque hoje o papo pode ser outro, até porque a visita segue disposta a prosseguir visitante, na sua mais que bem-vinda visitação.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de maio de 2025.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Um boa-pinta

 

Um boa-pinta

 

Sabe aquele momento, você percebe que tem gente olhando. Tem esse sujeito que não tira o olho, provocando pressão. Você não duvida, a pessoa tem a cristalina percepção de aumentar seu incômodo. Tanto você se compreende sob vigilância que sorrir é a sua defesa. Não que seja sua melhor defesa, é a arma automática a lhe defender mais uma vez, até o momento passar logo.

Tudo passa, pois, já dizia o bebum, a vida é feita de momentos, com um sobrepondo-se a outro, até a morte libertar você do fluxo.

Veja bem, a libertação será sua, pois eu, já me antecipo, continuarei aqui. Entenda esta lógica: enquanto houver quem me leia, continuarei disponível a quem leia. Pelas leituras que levam a leituras, por leituras afora, permanecerei, pois é lendo que me fazem ficar feito texto.

É bobagem, eu sei, mas arrisque, saiba.

Ao final do que tenho a dizer, preocupe-se com você. Por causa de uma leitura, isso leve você a recompensar-se; comigo, projeto ser esse cara que repensa, sendo preconceituoso.

Pois veja só, acompanhe pelo que lhe ofereço, que logo há pouco eu descia a rua e passei pelo funcionário da zona azul. Cumprimentei-o e o que me saiu foi um “bom trabalho pra vocês”.

Você percebeu, se o funcionário era um e eu disse “pra vocês”, esse rapaz trabalhando deixou de ser um indivíduo porque o plural sinaliza que o enquadro como representante da firma que opera a cobrança de vagas de estacionamento das vias públicas.

Você não se engana, eu vi o rapaz da zona azul como ‘um’ agente operacional de uma ‘corporação’, ou seja, você entende que eu sinto o rapaz como corporação, uma vez que ele fica enquadrado no lema: um por todos e todos por um.

Talvez você pense de mim, que cara mais idiota.

Este idiota pensa, esse rapaz é este indivíduo que veste a camisa, trabalha com afinco, faz o que faz para que o supervisor veja o quanto se dedica, pois, efetivamente, é preciso servir à empresa como se sua vida estivesse condicionada à permanência do seu nome na folha de pagamento por mais um mês; sim, ainda que o mês demore a passar, ele rala pra que seu nome continue na folha de pagamento pelo tempo que o seu supervisor permita, comunicando à gerência que é o tipo de colaborador que não esmorece, e segue sendo capaz de relevar quem lhe diz “bom trabalho pra vocês”.

E você me acha mais que idiota, releva-me como estúpido.

Como minha estupidez é de gente que tem o olhar vidrado, eu não enrolo, pois eu não sei fingir que não vejo monstros em vez de pessoas comuns. Vejo monstros a atenderem aqui e ali, o tempo todo eu interajo com eles. São monstros que costumam sorrir, sabem ser informais, me tratam com o respeito que julgam ser bom para mim.

E você considera, que maluco à solta.

Este maluco funciona, acho que na sedução desejar um beijo é ser um sujeito legal, é beijar o reflexo como faz uma pessoa comum, uma que sorria e dê tchauzinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de maio de 2025.