A pessoa parada na esquina; desfaça-se a
ilusão, uma vez que não está parada, embora esteja imóvel, seu olhar não é de
peixe morto, é de gente que luta para manter-se lúcida, lucidamente observadora
do movimento de automóveis, ciclistas e cães.
Assim a vida vai, assim a vida vem,
assim a vida vê a pessoa.
Paralisada por estar estupefata pela
compreensão de que o vaivém da vida não está particularmente influenciado por
enxergá-la, a pessoa na esquina espera que venham aborrecê-la, conta que não a
ignorem, espera que ofereçam meia dúzia de balas por dois reais, conta que não venham
pedir trocado quando for espirrar.
Tivesse espirrado, viriam vender balas,
correriam pedir informação, qualquer informação, até onde fica a farmácia mais
próxima, onde fica a loja de brinquedos pedagógicos, para que lado fica a praça
da matriz, a lotérica, a revendedora do milhão, do baú, da bet dos bilionários.
Houvesse espirrado, seria pessoa a não
fazer charminho, querendo viralizar o quão milionária será, porquanto espere,
espere, espere que o vaivém da vida seja mais que automóveis, ciclistas e cães.
Assim a vida vem, assim a vida vai,
assim a pessoa que espere.
A pessoa esperando na esquina sonha que não
cochila nem dorme, ela quer renascer, sonha em reconstruir-se outra, quer-se
reconstruída rica, famosa, tornada uma celebridade por muitos reconhecida.
Atchim!
Espirra para que acorram, espirra para
que os cães ladrem, espirra para que ofereçam a salvação, repousem a bíblia
debaixo da palma da mão, espirra que espirra, certa que saberão julgá-la pelo
pensamento de tornar-se o boneco que dará voz ao sonho de ser transformada, que
lhe tragam bolo, roupinhas, cantem-lhe os parabéns pela pele made in Confúcio,
estupidamente realista.
À pessoa revestida não esteja dispensada
de ideia puxando outra, até que o engano fique invisível, que nem cicatriz bem
costurada.
De engano em engano, ainda que espirre
para provocar os cães, a pessoa acordada, em pé na esquina, tem memória, até
memórias que lhe são estranhas, mal cicatrizadas, pústulas latejantes.
Apesar do Eclesiastes, a pessoa sabe que
o instante de apostar e o instante de chorar hão de cobrar-lhe que aposte mais,
chore mais e que tudo mais vá pro beleléu.
Depois de tantas manhãs perdidas, numa
bela tarde de outono, isso depois da pandemia, decidiu-se a pessoa que largaria
a bebida.
Tomada a decisão, resiste, bebe dos
sonhos, sobrevive aos sonhos ruins, mantém a palavra, prefere sonhar na
esquina, segue bebendo a cervejinha que a vida sonha que ela não bebe.
O sujeito aparece, quer que experimente
uma fatia, diz que abacaxi não dá afta, insiste que morda, insiste que coma, mas
o sonho menos perturbador é ir-se embora.
Quando lhe der essa vontade de mijar,
não aposte contra si.
Inconsequente sonâmbulo, urine na canela
desse cão.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de maio de 2025.