segunda-feira, 20 de agosto de 2018


a pescaria


a rede não fora lançada,
o pescador dormiu.
longe da malha do vento, havia estrelas no seu olhar.

a lua convidou o silêncio
para uma janta entre amigos, familiares,
convivas de apreço.

o anzol estava de prontidão,
deixava a lâmina prateada passar os serenos.

a carne escondida na luz do rosto.
havia águas na língua que amansava o vento,
fabricando-o brisa, mais apetecível.

ondulações pusilânimes eram um manto,
cobriam as perplexidades, desenganavam os cardumes.
os cílios ribeirinhos colhiam o orvalho,
reconciliados.

abaixo do queixo, havia o que estancar:
que fosse queixa, seria lamento;
que fosse desprezo, seria rancor.
  
havia fome.
ancorado, havia um barco.
por que não retornou?

isca da aurora, o corpo não navegou.

o maldito, que em mim não colabora, denuncia
com a vida, com o amor,
denuncia o fracasso de quem, em mim,
não elabora, renuncia
em nome do que afunda, na forma do que abunda,
renuncia ao explícito, ao bendito.

faço o possível pra entender o impossível,
mas não tenho imaginação
pra pensar o infinito.
bebo da água. como do peixe, engasgo com a espinha?

sou humano, e míope.

(rodrigues da silveira, 2017)



domingo, 19 de agosto de 2018


sessão do cinematógrafo


entendimentos? a tarde venta,
o azul concorda;
a camaradagem? a pipa desalinha
o tempo pros meninos.
fotograma dos parceiros ─ a camisa amarela,
de verde.

sem artimanhas, a criançada
não faz a roda cantar.

e lá da tela? que tela?
o aplauso não apita, não dá trela,
não faz sonoro o virtual
do tão irradiante, do muito contagiante.

a correria, o alvoroço, a balbúrdia?
sem faca, garfo ou perfurantes:
o pleno do lanche? esse é o plano ─
comer o quanto antes.

breve, o uivo jorra a urina:
o soco no rosto, o rosto na terra, a terra aberta a certezas.
o caos não respeita toldos e marquises.
  
como um poste, mijado;
como um cão, desgarrado;
pelas pulgas, convulsionado.

queria acordar?
um gato qualquer não lambe boca alguma;
tem sombras dentro do olho, inchado.

o menino não consegue despertar.
que sujeitinho põe os seus olhos num copo d’água?
ele ainda deita de tênis, querendo menos sonhos
do que o pão com hambúrguer, que nem na televisão.

pras manobras na parede?
falta-lhe vela, e parede.

volte a sonhar, menino, um dia você acorda.

(rodrigues da silveira, 2015)





sábado, 18 de agosto de 2018


tratamento de canal


o quanto antes,
e que seja rápido.
mesmo que me faça vil?
conheço as minhas covardias;
e que mexa nos meus esforços pouco fiéis?
traga-me à exaustão;
e que as mãos sejam práticas?
pelo primor da técnica.

a dor é agora,
e não me será transferível.

o doce, o salgado, o amargo?
ai de mim!
refém das águas cafés, chopes uísques.

a dor é agora,
e não hei de transportá-la a outrem.
é agora. é sem aviso.

um sopro me põe no vivo.
o gelado do nome pronunciado?
pela coroa, na cárie. dor que me infesta.

a dor instalada, infiltrada, provocada.
não há tempo pra manhã ou tarde. o que dói,
dói! e é agora. é neste instante.
não existe o depois do almoço, um logo agora...

estamos conversados?
canal resoluto, estamos entendidos?

na hora derradeira,
a dor sou eu exposto na cadeira.

anestesia... anestesia...
onde a senhora tarda, a dor em mim me esconde.

viver é fria!

(rodrigues da silveira, 2015)







sexta-feira, 17 de agosto de 2018


a corredeira


árvore de raízes movediças, os homens
sobem montanhas, descem seus andaimes,
entram pelas cavernas, querem o café passado na hora...
de caule arenítico, os homens
aumentam as nuvens, diminuem o vento,
circulam o ventre central, têm açúcar na manga...

da floração ao fruto?
os homens têm gosto, degustam-se por dentro,
são madeira fluída, engolem a própria baba.

minha vida paralisa em segredo?
o nicho da morte é o degredo.
o instinto me acanha com seiva de aranha?
teço-me labirinto. daí peço cuidado!
não alimente o poeta, esse bicho alopra;
é forte: morde mas não assopra.
quando aflora a sua semente,
não simplifica? não mumifica? unifica.

nada como fazer pouco do demente.

(rodrigues da silveira, 2016)

quinta-feira, 16 de agosto de 2018


retinas de pérola


não é preciso coragem pra negar o que vejo.
o que vejo?

abro a página do jornal, clico no caminho,
leio: as águas do mar estão cansadas,
marcadas por quilhas, hélices, óleo queimado.
as águas preferem a arrebentação
ao desespero de juntar plásticos de toda natureza.

(é natural andar cheia de civilização)

não é medo negar a coragem. e o que mais?
a pérola negra esconde o meu rosto.
o espelho afugenta os mortos.
a areia comprometida, intoxicada,
fermenta a doença, fomenta a morte.

pra dizer o que não sei? invento, construo, fabrico
─ o instante não é o bastante.

adeus castelo de areia, adeus, adeus, adeus, e adeus.

(rodrigues da silveira, 2017)

quarta-feira, 15 de agosto de 2018


monotauro


canibal no labirinto, antropofago-me.

(rodrigues da silveira, 2018)

terça-feira, 14 de agosto de 2018


compaixão


diante do grande mistério.
o universo inteiro? a máquina do mundo? a mente insone?

se busco respostas, dou comigo todo ateu.
me faltam as palavras mais minerais.

(rodrigues da silveira, 2018)

domingo, 12 de agosto de 2018


sinal dos tempos


o solitário celular
soluçou soluçou
soluçou

garrafa descarregada numa ilha deserta

(rodrigues da silveira, 2018)

sábado, 11 de agosto de 2018


gol de ouro


pro bom perdedor, uma vitória basta.

(rodrigues da silveira, 2017)

sexta-feira, 10 de agosto de 2018


galo das trevas


pra avenida? agora.
pro que for? é hora.

o fogo? nas lixeiras.
o lixo? esgotado.

o gás? lacrimogêneo.
os olhos? vulneráveis.

a bala? na borracha.
a cabeça? vulnerável.

a boca? vulnerável.
a algema? na marra.

os feridos? as feridas.

o panorama?
pindorama.

ave!

(rodrigues da silveira, 2017)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018


os velhos tempos


as regras do mercado comem bolachas pelos corredores;
contra o valor dos ônibus, a verba solta;
grita, no pré-pago, crente que está certo;
com asinhas de curió, o pardal prega o mico.
fazemos, sem nós, o bico dos cordeirinhos.

sobre as fotos, os dias que chegam acumulados,
riscados no pó das trilhas, chão de trilhos,
pelo pão dos milhos, são o nó do carril,
abono ao inditoso, carrinho de faltas,
o comprado à vergonha, pleno de carências, e negado sem dó.

anda carente, é?
meu caro, anda querendo andador?

o granito do arco-íris está no sopro que o emite.

o vento da noite anterior solta murmúrios, nomes de dor.
tão íntimos, os mendigos,
esculpidos no ventre do olho próximo; beijam-se,
são ferida exposta, entranhada cicatriz, sempre aberta.
ela fala a sua face:
só a miséria faz-se incurável?
  
exilado em mim, tento entender-me comigo,
abuso da fé de quem me odeia, menos recluso.
o bode pisa, faz gorar a garganta?
degelar cartões de crédito?
o pó faz desaprendido o corpo?
faça força pro esquecer.
no laurinda? no scalamandré? na rua da bica? no matadouro?
descido da serra, sua praia sem areia.
qual a árvore de raízes líricas dá nas ramas o seco?
no turvo da vista, erra além do curvão?
confesse, lavre em lágrima o seu cloro mais fendido.

e por mais pressa que haja, há em mim outros haveres,
de gente que se destranca, sem demanda,
desocupada pro alvoroço todo frio, do arroz com feijão,
guardiães do chuchu. marmota do meio-dia, do cavo em mim,
o sal do urgente come tudo, até o insosso;
o que me apura menos puro dispara o filtro do escasso?

impostor e cavernoso, pinto-me a jura dessa culpa,
o que nem sinto.

(rodrigues da silveira, 2014)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018


o progresso da ordem


com as pedras, o muro;
no muro, câmeras;
pelas câmeras, o trânsito.

afeto ao intransitivo?
mais, amar.

(rodrigues da silveira, 2017)

terça-feira, 7 de agosto de 2018


a metade que faltava


está aberta
a gaiola do poema.

a lua, ressabiada,
que nem um curió,
não vem bicar o espelho,
água empalhada.

assim como a pérola
revela da ostra
o substantivo do abstrato,
o canto, adjetivo do concreto,
gorjeia, tolinho, gorjeia tanto,
tomando-se por um sabiá:
quando é com a gente,
o ato de foder é tão gostoso, né?

será preciso desfazer para fazer de novo?
reticências, ó renitente, reticências.

(rodrigues da silveira, 2018)

segunda-feira, 6 de agosto de 2018


a esfinge degolada


a criança engatilha a esperança, quer arriscar-se.
despreparada para o prêmio, mira com os olhos.

de posse de algum olhar, o rapaz espreme-se.
a efervescência tem nome, olha-o espelho do fixo.

tenta não ver, o homem quer eficiência, pode fazê-lo.
as cifras em dia e os reflexos em ordem, tem a tal mirada.

impróprio como profeta, escarra velhas lembranças.
nega dizer o que o bica. mau-olhado, canta por inteiro?

(rodrigues da silveira, 2015)


domingo, 5 de agosto de 2018


dando bandeira


as sirenes do turista soam mais alto antes do assalto.

(rodrigues da silveira, 2015)

sábado, 4 de agosto de 2018


brasil


monte paschoal
(pico da neblina)
pão de açúcar

(rodrigues da silveira, 2014)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018


engenho de dentro


visionário,
o elefante faz-se de cegos.

(rodrigues da silveira, 2018)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018


das regras do chalaça


em defesa dos bustos e dos comprimidos,
fica estabelecido:
desafia a própria graça quem, nas calças, faz poesia.

(rodrigues da silveira, 2017)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018


a alegria do ligeiro


a mão entra no bolso,
outra a detém. detida, atenta
à chama da atenção. inflamada,
algema a proclamada virilidade,
do honesto no probo, por digníssimo.

despeitada candura, dentes ao prumo,
certidão da ânsia, diplomas de outra perfeição,
o corrigido. a visagem mais cara, os parapeitos
ao que for cruzeiro, nuvens de impulso,
os aplicativos do além. se tem medo? atira.
mal dado o primeiro no grito, seca as vísceras;
na cadeia da corrente, faísca a palha.

subido nos juros sinceros, a terra faz o inferno,
a mão de pluma paga à bolsa
da mão, em pagamento ao berro, faz ouro,
e dos mais juramentados, o utópico das esquinas.

são essas mãos? zás! cortem o papo! ops...
de ouvidos colados em jurisprudências alheias?

encerro escarro julgo avalio, batismo.

por revolvido no asco, vamos, dê lá o caso, jogue
pelo céu de intimidades, alcova de trapaças, vá
e levada, deixe-se levar, dispensada no tenso,
seu pensar ajustado. que mão? apodada.

ai! que me escapa...

fico à vontade no ônibus,
seis da tarde? sete da manhã? à vontade.
vou cavando com o corpo o enviesado da passagem,
até o fundo, descarrego de celular.

ouço nos comentários o interesse,
múltiplo, todo abordagens.

imoral com os salafrários, pingados no mês a mês?
tomo pé pela concordância nos repúdios
à propina, ao jabaculê dos canários pixulentos.
tenho ovos pra vocês!

contra os vendeiros, ouçamos a volta.
os molambos dos craqueiros? ouçamos a volta.
os imprestáveis do prefeito? ouçamos a volta.

o político, a polícia? ninguém vê
o analista da tevê.
ninguém a falar o que se quer ouvir.
o uníssono da discórdia? a língua
é amor. a verdade que nos une?
pra governo do mundo? dá tudo pra si.
o suposto que nos une. a todos? no todo.

não fico à vontade,
brasileiro, um morador do brasil,
o que a terra dá.
quer comer, quer louvar, sequer deseja.
tira pela vergonha,
o oposto da honra, está na cara
o ganzá, o alheio da algazarra,
a valsa de um bolero, no rosto o rosto,
na mão a mão, dueto de parceria,
a prudência do leve, o coração que mama.

corre, caipora, corre!
e vão botar fogo no busão logo agora?

(rodrigues da silveira, 2015)