a pescaria
a rede não fora lançada,
o pescador dormiu.
longe da malha do vento, havia estrelas no seu
olhar.
a lua convidou o silêncio
para uma janta entre amigos, familiares,
convivas de apreço.
o anzol estava de prontidão,
deixava a lâmina prateada passar os serenos.
a carne escondida na luz do rosto.
havia águas na língua que amansava o vento,
fabricando-o brisa, mais apetecível.
ondulações pusilânimes eram um manto,
cobriam as perplexidades, desenganavam os cardumes.
os cílios ribeirinhos colhiam o orvalho,
reconciliados.
abaixo do queixo, havia o que estancar:
que fosse queixa, seria lamento;
que fosse desprezo, seria rancor.
havia fome.
ancorado, havia um barco.
por que não retornou?
isca da aurora, o corpo não navegou.
o maldito, que em mim não colabora, denuncia
com a vida, com o amor,
denuncia o fracasso de quem, em mim,
não elabora, renuncia
em nome do que afunda, na forma do que abunda,
renuncia ao explícito, ao bendito.
faço o possível pra entender o impossível,
mas não tenho imaginação
pra pensar o infinito.
bebo da água. como do peixe, engasgo com a espinha?
sou humano, e míope.
(rodrigues da silveira, 2017)