terça-feira, 19 de junho de 2018


a anedota do barqueiro


o barqueiro
não diz que conhece o rio,
acariciando no espelho a água das suas memórias.

o barqueiro
mal reconhecido no reflexo das suas apoplexias:
é gente, apenas.

o barqueiro
anda nutrindo certo trauma pelas jornadas do seu calendário.

o barqueiro
fica iluminado como um mapa pros remos da lua,
fica perdido no oceano das gotículas de sal, seu nada a vela.

o barqueiro
sente no rumo dos pigarros a culatra dos seus despropósitos.

o barqueiro
observa o vaqueiro na estradinha
e lança sua pequenina gota de amor, outro abismo que garoa.

(2016)

segunda-feira, 18 de junho de 2018


o sofrimento


o menino, fruto passo de um amor,
sem o mistério de seus mantras, não diz por sua árvore,
sentindo suas bolhas de sempre ser o filho.
o menino aprende a contar,
e consegue separar o que seja ímpar, sozinho.

o menino, com seus cães abatidos,
queria em pé o boi de sua ninhada,
no pasto dos instantes, comendo a relva dos segundos.

o menino, suas perguntas cheirando a gordura,
rasga a garganta do queijo, veste a túnica do leite,
e sem coleira, caminha suas saudades.

o menino, lápide sem lápis,
usa a língua como luva, não a pelica de um punhal,
e conhece a menina pela espuma.
o menino, pelo bronze de suas asas,
repete os sinos da memória, conversa sua música,
até ficar surdo à meada boreal da aurora.

(2016)


domingo, 17 de junho de 2018


a aranha


tarde demais!
é manhã

as patas
traduzem-se
em silêncio

o ardil
a tramar-se
natureza

não se ouve
nem se pode ouvir

o segredo
a luzir
nega a ação

o movimento
discreto
do sereno

(2016)

sábado, 16 de junho de 2018


de cara lavada

é a favor da razão
que a lama das alamedas seja levada pro mar,
que nas sacolas do mercado sigam as latas de sardinha,
que as notas fiscais marquem a bocarra do leão,
que nos números do caís entre a vitória das estatísticas,
que o considerado esgoto seja tão próspero em minérios.

é como favor ao coração
que o inimigo traz suas abelhas adulteradas,
que as colmeias instaladas recebem tantos bônus,
que o mel ganha o sabor intenso das melhores laranjeiras,
que adocicamos tal conquista com o nosso mais sincero perdão.

(2016)

sexta-feira, 15 de junho de 2018


vontade

quem espera sentado não tem esperança.

(2016)


quinta-feira, 14 de junho de 2018


o corrediço

árvore de raízes movediças, os homens sobem montanhas,
descem andaimes, entram pelas cavernas,
querem o café passado na hora...

de caule arenítico, os homens petrificam as nuvens,
esculpem o vento, circulam a neura fulcral,
colocam mais açúcar na melancia...

da floração ao fruto, os homens têm gosto apurado,
degustam-se a contento e, uns aos outros, comem-se,
são cupim de madeira de lei...

(2016)


quarta-feira, 13 de junho de 2018


que remédio?


o exagero do cansaço é nem ter forças pra preguiça.

(2016)

terça-feira, 12 de junho de 2018


o touro em pedaços


cartesiano, o poeta pensa o objeto,
sem a convicção de considerá-lo pronto, ainda
que haja palavras organizadas em versos, ainda
que haja estrofes encadeando imagens, ainda
que haja outros elementos linguísticos, semânticos e sintáticos
a torná-lo, malgrado a opinião do poeta, um poema.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em um touro, o seu touro,
este touro feito de palavras.

hiperbólico, o poeta pensa o touro
como se cada pata fosse uma tora;
pensa os cascos do seu animal como pianos,
de um marfim maciço, incisivo, marcante,
um teclado sonante contra o barro do mundo;
põe nos cornos uma lua de sangue, de fase única,
uma carranca, a revelar a violência atávica,
ancestral às palavras que o fabricam; todo angústia.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em uma tara, as suas taras,
esta tara posta em palavras, touro mal-amanhado.

patético, o poeta pensa o touro
como uma mensagem explícita, um soco na cara, mas
ainda que faça incrustrada no verso a canção de sua morte, mas
ainda que faça o marfim ser despedaçado pela fúria, mas
ainda que faça os cornos serem retirados à faca,
o touro de sua lavra seguirá à espreita.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em um leitor, o seu leitor,
este leitor atento às palavras.

abestado, o poeta pensa a besta
com a desconfiança de considerá-la incurralável,
embora entenda que sempre haverá um embora,
um embora a dar aos cascos o cântico do monstruoso,
um embora a roncar de suas ventas o estupor do varrasco,
ainda que haja na baba do aziago o sangue mais besta.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em uma fogueira, o seu fogo,
esta chama ardendo-o entre as palavras.

(2016)

domingo, 10 de junho de 2018


objeto cabalístico


concentrado
como consumidor, suas faturas pagas
como eleitor, em dia com as eleições
como cliente, pelos direitos em vigor
como paciente, na fila da espera

atormentado
como ator, desfigurado
como pintor, de mãos atadas
como cantor, destrambelhado

condenado
tem no drama a sua comédia mais solitária

remediado
é o comedido no comediante
é o calo quando cala

calado
como não tem um número apropriado, faz cena
não dá pela fala outro recado

(2014)

quinta-feira, 7 de junho de 2018


dádiva


o feto foi dado como vivo entre os escombros.
comovidos pela notícia vinda do andar de cima,
os operários declinam da marreta, aceleram com o pasmo,
muito atraídos, e prorrompidos pelo silêncio,
embasbacam-se.

ali não é lugar pro insólito.
é preciso retomar as malhas do ferro.
no exercício do contínuo, a construção precisa andar,
fabricar-se por mãos metódicas, edificar-se pelo racional;
atenção ao traçado é compromisso.

o projeto tem prerrogativas.
é essencial sugar pras plantas a seiva dos envolvidos,
ou nada se mantém à parte do forasteiro.

sem dúvida, gente dessa espécie estranha a presença,
é fundamental controlar seus fluxos mentais,
impedir os influxos do pensamento;
ninguém deseja acabar-se presa
dos labirintos do cérebro.
ao concreto do aço,
atenção.

urge extirpar das estruturas o malquisto,
é basilar recolhê-lo ao olhar distraído dos obreiros.
pra que esteja inoculado pelo trabalho
o esforço de cada gesto, o empenho de cada braçada,
ordena-se a aplicação da vacina.
cumpra-se, de bom grado.

esporos não empacam, espalham-se;
raízes não propagandeiam, aprofundam-se;
folhas não encorajam, exibem-se.

pra recuperação sem desperdícios daqueles restos,
é capital vedar gargalos, calejar os ouvidos, vencer inconveniências;
pro desbaste sanitário, coordenado, categórico,
é capital as instruções serem seguidas, ao pé da letra,
abraçadas rigorosamente.

rigorosamente,
fixe-se a mirada na obediência à lógica;
bata-se pelo regulado, contratado, firmado.
estejam todos voltados pra erradicação do entulho.
cabe à voz da realidade ditar tais afazeres,
comandar a administração pro andamento do ordenado.

acaso a sombra do trançado persista,
acaso tome corpo a lembrança daquela vida,
acaso o eco do verde resista à força do silêncio,
seja constituída a redoma com os dígitos da científica,
demonstre-se o inútil com os interstícios do virtual,
aplique-se o contingenciamento do indômito pelo modelo.

mão de obra carente de ser lembrada de prazos,
de que as distrações inoportunas comem o tempo,
de que até a fome pra ser atendida tem hora programada?
no armário numerado, pra outro celular desligado, abra-se espaço.

longe daquela engenharia capitalizada,
longe daquele deserto de esqueletos recuperados,
pelas veredas longínquas daquela sobrevivência,
à luz da beleza, eclode a vida em clorofila.

pingente do xaxim, ignorado pelas medidas dos outonos,
ao lado da porta, da casa, do metro, o frondoso;
pela espiral de suas lâminas, de acordo com os vizinhos,
a samambaia é vista como bela bela bela.

(2014)

quarta-feira, 6 de junho de 2018


o próprio do nome


alucinado, dividido ao meio por garrafas,
de plástico e de vidro, azuis e vermelhas, dividido. e perdido.
saído ao juízo de si, acentuado prejuízo, põe mais a perder-se,
e faz questão de dar de ombros pro ônibus do turno,
dá as costas àqueles carnês ao lado da fruteira, que é só bananas.
pelo que está perdido, sujo de suas precariedades,
nem a água daquelas garrafas há de cauterizar o machucado da mão,
há de calcinar o olhar, pro desencontrado, desajustado,
pro que venha a ser um convite, aceito por malgrado:
sem o siso de si, retirado da escala dos dias úteis,
que seja o carnaval doido, em agosto.

por isso, ó luar, não pede a outorga pra juiz do siso,
pra enfiar-se na roupa do juízo a conferir no grito
o fundo da sentença, sem a especulação dos carimbos,
prefere o refrão a compelir à dança, desconjuntada
e grupal, própria a lunáticos, de esqueletos no transe
por uma gorda golada,
como se aceitável aos transeuntes a passagem do bloco.

pensa, pensa, pensa,
quando as palmas forem batidas, os pés tomarão o ritmo;
põe na cabeça o mérito do acessório.

 assombração enrolada pelas prosas da memória,
da garrafa azul a água vem gelada,
não serve pra pensar que dará um jeito nas coisas,
a vida desconhecida posta num estojo de violino,
com suas mazurcas, polcas e maxixes, num piscar de olhos,
uns olhos vermelhos, de quem não dorme direito.

da garrafa vermelha, basta um dedo da pura e vem ao sangue
o natural, odorado, incolor e repelente do tédio,
pois espessa e passável pelos caninos é a claridade da rua,
ali, onde cães esquizofrênicos ficam latindo pros latões revirados
por ladrões civis, os empacados entre o pão embolorado
e o resto do leite na caixinha, de furo padrão.

na cama, ele rola como quem goza, na grama;
e sabe da neblina antes das sete e da neblina depois das dezoito;
é homem fermentado nas águas daquela licença;
é aquele que finge saber “o que há de pior no outro”;
e com entusiasmo cristalizado, ele tenta cantar,
e como deseja cantar a quem ignora unidos a lua e o luar;
ó manhã perdida, põe-se a cantar pela moça tarimbada do serviço.

(2014)

terça-feira, 5 de junho de 2018


trevas sem trovão


as vísceras do fogo
                        estilhaçam a vasilha de argila;

os sésamos podados
                    transparecem o aroma da sua luz;

os chãos do alarido
                    naufragam o deserto da madrugada;

os grãos do luar
                   tomam o corpo do pomar;

as túnicas do mundo
                      murcham suas pétalas de laranjeira;

são o riso da maré na cheia,
                                    as raízes da morte.

(2016)

segunda-feira, 4 de junho de 2018


pensamento

a noite são crianças sem a máscara do sono.

(2016)



a selva do medo

onde as alamedas não têm nome, escassos são os homens;
e a brevidade da morte dura uma vida inteira, e não passa.

(2017)



receita

um toque de nada cai bem no vazio.

(2017)

domingo, 3 de junho de 2018


inexorável


na vertical da voz,
o rio.

a rodopiar dejetos,
o rio.

no meio do rio,
a morte.

dito o rio, dita a água,
do sonho à braçada.

dentro do rio,
nada.

o risco negro,
a noite.

o caminho da noite pelo esqueleto da voz,
a lama.

(2016)

sexta-feira, 1 de junho de 2018


confiança


as velas do peito,
por que minto quando quero nascer de novo?

não me desculpa o vômito.

se o peixe era um badejo,
espumante e ácida, numa só, veio à golfada.
tenho pra mim a esperança.

os dentes pra morder e os olhos pra entender,
tenho pra mim a confiança.

nos buracos da flauta,
a inércia dos mundos ganha, em sacrifício,
a dor do reconhecimento.

não me pedem a vista nem me impedem os sorrisos.
tenho pra mim a cicatriz do improviso.

se já nem mais me entendo comigo,
estarei disposto ao pensamento de joelhos?

(2014)